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De Francisco a Clarice, a surpreendente história do Hino Nacional Brasileiro

16.July. 2020
por Claudia Atas

Há situações em que o marketing brilha, catalisando emoções e motivando atitudes relevantes. É o caso das ações para mitigar as dores e os estragos causados pela Covid-19. Obviamente, agências e clientes também ganham com a solidariedade, especialmente na criação ou reforço positivo para suas respectivas imagens. Porém, é inegável que sua atuação é inspiradora.

Marin Alsop rege a Osesp na estreia mundial de Terra Brasilis, ladeada por Francisco e Clarice.

Marin Alsop rege a Osesp na estreia mundial de Terra Brasilis, ladeada por Francisco e Clarice.

Inicialmente tímida, a reação de instituições públicas e privadas logo se expandiu em termos de ideia e espaço. Hoje, os empresários brasileiros parecem prontos para incorporar a cultura da doação e colaboração como dever cívico.

Esse preâmbulo foi necessário. Afinal, por que razão publico este artigo sobre a história do hino nacional brasileiro em pleno recesso escolar provocado pela Covid-19?

O “gancho”, usando o jargão jornalístico, são os links (YouTube) que o banco Itaú vem encaminhando a seus correntistas, no âmbito da campanha “fique em casa”. Com eles, o público pode usufruir a primorosa seleção de concertos executados pela Orquestra Sinfônica do Estado de SãoPaulo  < https://www.youtube.com/user/videososesp.

Foi assim que descobri Terra Brasilis – Fantasia sobre o Hino Nacional Brasileirorazão de ser deste artigo. O alto nível musical que Clarice Assad alcançou nessa obra de 2012 assinala, a meu ver, uma magnífica evolução relativamente à variação anterior (1869), do norte-americano Louis Moreau Gottschalk – Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro, que você pode conhecer com Nelson Freire e Franz Ventura .

Sem desmerecer Terra Brasilis, ao contrário, penso que a compositora saiu de um elevado patamar artístico – a música de Francisco Manoel da Silva – e, na perspectiva deste post, concluiu  a trajetória musical do nosso hino.

Coleção de surpresas

Amada pelos brasileiros há quase nove décadas (*), a marcha de Francisco, esperou 78 anos para se unir ao poema parnasiano de Joaquim Osório Duque-Estrada (1909) e se tornar o hino que cantamos e ouvimos  hoje, em solenidades e espetáculos como jogos de futebol. A rigor,  essa história termina em 1922, quando a obra foi oficializada como nosso quarto símbolo nacional (**) .

As surpresas não param por aí. Três delas me parecem incríveis:

1- A música de Francisco acomodou duas outras letras além da oficial;

2- Serviu a três momentos antagônicos da vida política brasileira: abdicação de D. Pedro I, em abril de 1831 (Hino Sete de Abril); a coroação de D. Pedro II, em 1841 (Hino da Coroação(***)  e Proclamação da República, em 1889 (Hino Nacional Brasileiro);

3- O hino nacional do Brasil, por direito, seria o belíssimo Hino da Proclamação da República, desbancado por uma manobra do Marechal Deodoro da Fonseca, como conto a seguir.

Como tudo isso foi possível?

Talvez pela enorme aceitação da obra, dentro e fora da corte, sucesso que pode ser medido por um fato insólito.

Imediatamente após o golpe republicano, o governo provisório chefiado por Deodoro promoveu um concurso para escolher um hino que marcasse a mudança do regime político brasileiro – da monarquia (Império do Brasil) para a república (Estados Unidos do Brasil).

Medeiros e Albuquerque (letra) e Leopoldo Miguez (música) venceram o certame, mas não figurariam na história como autores do Hino Nacional Brasileiro. Deodoro (já presidente) afirmou gostar do hino vencedor, mas sentenciou: “Ainda prefiro o velho”. Ou seja, a marcha de Francisco.

Para contornar a situação, ele assinou um decreto em 20 de janeiro de 1890, pelo qual a obra vitoriosa consagrou-se como Hino da Proclamação da República (com seu famoso estribilho Liberdade, liberdade / Abre as asas sobre nós / Das lutas na tempestade /Dá que ouçamos sua voz).

E assim, a República dos Estados Unidos do Brasil ficou sem hino, por vinte anos, até que Duque-Estrada vencesse (1909)o segundo concurso promovido para a criação do nosso hino.

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(*) A data da composição instrumental pode ter ocorrido “em qualquer momento entre a Independência, em 1822, e a abdicação, em 1831”. <https://www12.senado.leg.br/noticias/especiais/arquivo-s/antes-da-versao-atual-letra-do-hino-nacional-bajulava-pedro-i>. Para o professor Nelmar Nepomuceno, a obra foi composta em 1822, “para a ocasião da Independência do Brasil.” https://www.youtube.com/watch?v=hwdtYG00vT0

(**) O Hino Nacional Brasileiro constitui o quarto símbolo da nossa República. Os outros três são bandeira, selo e armas nacionais.

(***)  O Hino da Coroação poderia ser chamado de um quebra-ganho porque aproveitou a música do Hino Sete de Abril e adaptou a sua letra (autor desconhecido).

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