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Recrutadores de talentos, neologismos e anúncios de vagas

15.January. 2020
por Claudia Atas

neologismo-abreQuase sempre é um mistério identificar autores de neologismos e entender por que alguns vingam – como descolado, descolada – enquanto outros bombam e desaparecem.

Gosto dessas invencionices porque, além de sacudir e enriquecer o idioma, elas sintetizam admiravelmente fatos, sentimentos e intenções.

A maioria das gírias e expressões da moda, contudo, sucumbe seja por perderem o sentido quando desligadas do contexto que lhes deu significado; seja pelo uso abusivo que as leva ao lugar comum. É nessa fase que o redator deve se cuidar.

Primeiro, porque clichês empobrecem o texto. Segundo (e por consequência), pela ingenuidade de se pretender criativo empregando neologismos a caminho da banalização – caso de (se) “reinventar”; (se) “empoderar”; “inspirar” (a equipe); uma “pegada” (e mil adjetivos atrás); pensar, sair fora da caixa; uma casa, agência e até uma tostada “para chamar de sua”…

O marketing do trabalho

Recursos Humanos está entre as áreas sintonizadas com a nova linguagem dos negócios. Anúncios de vagas e descrições de competências agora são bastante informais – tanto as de tom “soft” quanto as de tom “hard”.

São textos tecnicamente bons, embora muitos recrutadores de talentos abusem da retórica, alguns beirem a hipocrisia e outros se aproximem do realismo fantástico.

Esta descrição das competências desejadas para um candidato ideal une vários estilos:

lugar-comum-exageros-motivacionais

Sensíveis ao novo padrão de currículos e perfis, profissionais em busca de emprego, ou zelosos de suas posições, respondem à altura: “Não sou movida a posição nem a poder. Eu sou movida a fazer. Eu gosto de fazer, de entregar (…).

Outros estilos fazem sucesso entre os recrutadores, embora já caminhem para o desgaste:

O desafiador:

Se você é focado em superar seus próprios limites, venha fazer parte do nosso time.

O realista-fantástico:

Se você é daqueles que adoram trabalhar com compromisso e dedicação e promovem alegria e diversão (venha integrar a nossa equipe)

O hiperbólico soft:

“Em apenas seis anos, (nos tornamos) o maior banco digital do ocidente. E o segredo? A obsessão pela experiência do cliente (…) e um atendimento excepcional.”

O hiperbólico hard:

Pensar como dono é ter uma responsabilidade maior pelas suas entregas, é ter um comprometimento acima da média, entendendo que, ao entregar excelência máxima, o crescimento é garantido”.

Neologismos são manifestações curiosas, inteligentes, criativas e humoradas. São qualidades suficientes para tentar a todos nós, redatores, especialmente. Afinal, essa é a graça, essa é a dinâmica da língua.

Mas, vale um conselho para qualquer tipo de redator: quando for importante expressar a sua competência na comunicação escrita, resista ao que já vem pronto; se esforce para criar um modo original, de dizer o que pensa (ou que seu cliente quer que se pense); busque palavras que se transmitam exatamente o que você (ou seu cliente) deseja comunicar.

Se você estiver num mau dia e sucumbir a um neologismo da moda, que, ao menos, seja uma expressão a meia distância da banalização.

  1. Samira Viana permalink
    January 22, 2020

    A variedade linguística, organização de ideias e a preocupação com a forma em um texto e realmente enriquecedor. Inovar com determinadas girias ( com cuidado), e uma boa forma de chamar atenção, principalmente para jovens. E incentivar a forma original escrita E opinião pessoal e importante e continuo.
    Obrigada pelo texto.

    • Claudia Atas permalink
      February 11, 2020

      Obrigada pelo interesse e pela participação com este comentário.

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