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Conduta parlamentar – como Weber ajuda a analisar os representantes do povo.

15.November. 2019
por Claudia Atas
"Desculpem as caneladas. Não nasci para ser presidente, nasci para ser militar". Presidente Jair Bolsonaro Fonte: www.aloalobahia.com

“Desculpem as caneladas. Não nasci para ser presidente, nasci para ser militar.”: declaração do chefe de Estado brasileiro Jair Bolsonaro, em abril passado. Foto: www.aloalobahia.com

(série Redação)

Neste 15 de novembro, ressurge a questão – o que é República?. Desta vez, levantada por ninguém menos que Jair Bolsonaro, que confessa, abertamente, não ter nascido para ser presidente da República, condição que mais de 50 milhões de eleitores lhe creditaram.

Os brasileiros não suspeitavam que imporiam tal sacrifício àquele que não pôde ser major e acabou presidente. Nem ao seu ministro da Educação – logo um ministro da Educação! – que definiu a Proclamação da República como um golpe republicano, uma infâmia contra o imperador  Dom Pedro II.

Estivesse Weintraub no campo de Santana, naquele 15 de novembro de 1889, certamente protestaria aos berros contra o nascimento da nossa República, um pouco torta, é verdade; economicamente indecente, com frequência; politicamente mal-amada pelos que mais lhe devem fortuna e Poder, mas, ainda assim, uma República, o sistema cujo protagonista central é o povo.

República e Democracia são irmãs siamesas no certo e no errado, diferenciadas por conceitos ambíguos. República confunde-se “às vezes com democracia, às vezes com liberalismo, às vezes tomado simplesmente no seu sentido etimológico de ‘bem comum’. Hoje (…) refere-se, regra geral, a um sistema de governo cujo poder emana do povo, ao invés de outra origem, como a hereditariedade ou o direito divino. Ou seja, é a designação do regime que se opõe à monarquia”, como registra o wikipedia.org, repetidor de visões políticas projetadas por Cícero, em Roma, e, depois dele, por muitos outros filósofos.

Neste artigo, porém, o foco é outro – aproveitar a efeméride para introduzir (provavelmente), ao leitorado deste site (estudantes do ensino médio), dois princípios que influenciaram a política do século XX no mundo ocidental: as éticas da Convicção e da Responsabilidade . Na atualidade, um meio desapaixonado de julgar a atuação dos nossos políticos.

Vocação política

Em uma conferência realizada na Universidade de Munique (janeiro de 1919), o sociólogo Max Weber apresentou conceitos que ainda hoje se mantêm como referência nas áreas da Sociologia, Ciências Políticas e Direito. No ano seguinte, o conteúdo dessa palestra foi publicado sob o título A Política como Vocação.

Os pontos de maior destaque da obra constituem a concepção de Estado, a formulação da Ética da Convicção e da Ética da Responsabilidade – a meu ver, um meio desapaixonado de analisar a atividade dos governantes – e a distinção entre o político profissional e o político por vocação.

O político profissional aparece no processo de formação do Estado Moderno, mostra  Weber, distinguindo-se do político por vocação: o profissional vive da política porque dela depende para sua sobrevivência, enquanto o vocacionado, sendo financeiramente independente, vive para a política.

A dependência financeira do político que vive da política tenderia a prejudicar sua capacidade do tratar racionalmente (com isenção, imparcialidade) as questões relativas ao seu trabalho no plano político. No caso do político que possui rendimentos próprios, a tendência seria buscar prestígio, honra, poder e, não, recompensas financeiras por meio da profissão política.

Evidentemente, tal explicação não deve ser tomada ao pé da letra. O próprio Weber antecipa que esses dois tipos de atuação não se excluem. São encontrados no mesmo político, predominando um ou outro, conforme o problema, o dilema, as circunstâncias.

Para o político vocacionado (tipo ideal), Weber atribuiu três qualidades:

– A paixão, entendida como dedicação a uma causa (ideais, utopias) de forma responsável;

– O senso de responsabilidade como guia de ação;

– E o senso de proporções, qual seja, a capacidade de deixar fluir as coisas, de se distanciar dos problemas para  analisá-los com gravidade e sobriedade.

Essa brevíssima visão de político vocacionado e seus atributos introduzem os princípios que Weber estabeleceu para a conduta do político: a Ética da Convicção, que reúne as normas e valores que devem orientar o comportamento do político na esfera privada, e a Ética da Responsabilidade, conjunto de normas e valores que devem orientar o comportamento do político na esfera pública.

Em outras palavras, na esfera privada o governante age independentemente dos resultados a serem alcançados; na esfera pública, o objetivo é o bem-estar geral – embora as ações do político possam parecer erradas na perspectiva da moral individual.

A república de Bolsonaro

Difícil não associar as considerações de Weber ao quadro político atual, quando se embaralham com frequência comportamentos pessoais e oficiais; a figura do homem e a do chefe de Estado; a esfera privada com a pública. Quem melhor que a família Bolsonaro – presidente da República e três filhos com mandatos políticos – para ilustrar essas transgressões?

frases-de-j-bolsonaroOnde achar exemplo mais espantoso que a frequência e a sem-cerimônia com que esses quatro políticos agem na esfera pública? Conduta mais imprópria que o tratamento doméstico e raso para questões que afetam 210 milhões de brasileiros?

A insensata alternância de Jair com o Presidente Bolsonaro, refletida na linguagem e na postura, especialmente sua adesão (como homem e chefe de Estado) ao crime de tortura é uma dolorosa oposição ao que Weber estabeleceu como conduta ética, digna e voltada do político em prol do bem-comum.

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