Skip to content

Próclise, mesóclise, ênclise: o certo cada vez mais rejeitado. 

31.July. 2019
por Claudia Atas
https://www.acheconcursos.com.br/artigo/colocacao-pronominal-proclise-mesoclise-e-enclise

https://www.acheconcursos.com.br/artigo/colocacao-pronominal-proclise-mesoclise-e-enclise

Quem passou pelo ensino fundamental já sabe que usar corretamente os pronomes oblíquos átonos dá trabalho. Pior, cria um dilema: seguir ou ignorar a gramática?

O correto fica meio posudo, pernóstico: “Quem a chamou?” (próclise); “Chamei-a” (ênclise); “Chamá-la-ei” (mesóclise). O incorreto flui, é mais articulável, mais simples de falar e escrever: “Quem chamou ela?”, “Chamei ela”, “Chamarei ela”.

Neste artigo, passo ao largo da mesóclise: raras são as pessoas corajosas ou conservadoras o suficiente para enfrentar o espanto (e o riso) de quem ouve “chamá-lo-ei”. Restringirei a análise à próclise e à ênclise.

Voltando à questão do dilema, temos, de um lado, as formas coloquiais – “convidar eles”, “elogiar elas”: são mais simples, articuláveis, usadas e aceitas até pelos que dominam a gramática. Mas, constituem erro.

Em contrapartida, as expressões corretas são pomposas e remetem ao tempo de uma sociedade marcantemente dividida entre a elite rica e culta e a população pobre, iletrada porque sem acesso a escolas públicas.

Nesse ambiente, o discurso da elite se afirmava como superior, especialmente porque gramaticalmente correto. Hoje, dominar próclises, mesóclises e ênclises é habilidade relativa. “Quem os convidou?”, “eu as elogiei”, “fá-lo-ei mais tarde” soam mais como literatura de séculos atrás e matéria para vestibulares e concurso.

Existe um meio termo, um jeito de evitar esse dilema? Difícil, mas existe: trocar a construção da frase. Por exemplo, li em algum lugar:

Ensinem seus filhos a amar as pessoas; não ensinem eles a machucar as pessoas…

Na Folha de S.Paulo, vi recentemente a opção que jamais me agradou como tentativa de solução:

“Não é nada grave (…) O avaliamos há duas semanas e ele apresenta um quadro de crescente melhora”.

Duvido que o entrevistado tenha dito “O avaliamos”. Acredito que, mesmo que a entrevista tenha ocorrido por e-mail – portanto, em linguagem escrita – a probabilidade é que o médico tenha falado “Avaliamos ele (em vez de há duas semanas…”

Como evitar a pompa e o erro crasso

Como mencionei acima, a única solução para não espantar quem ouve/lê um erro desses, sem assumir a forma gramaticalmente correta, é mudar a construção. Assim, diante de um “não ensine ele a machucar as pessoas” podemos

– Adotar formas corretas para a linguagem escrita: “ensinem seus filhos a amar as pessoas; não os ensinem a machucá-las”;

– Usar formas incorretas na informalidade, na linguagem oral: “devemos ensinar nossos filhos a amar as pessoas e não a machucar elas (aqui, na forma escrita, o erro é gritante; mas falando, é aceitável);

– Ou se socorrer com a redundância (pecado venial): “Devemos ensinar nossos filhos a amar as pessoas e não a machucar as pessoas”. Bem razoável, não?

Quanto à forma “O avaliamos” (próclise) constitui um jeito disfarçado de errar com elegância. A regra determina, neste caso, a necessidade de ênclise, porque se trata de início de frase. Então, o correto seria “Avaliamo-lo”. Esse é o tipo de forma que não dá coragem de usar, nem escrevendo, nem falando. Então, melhor seria dizer mudar a construção:

“Avaliamos Bolsonaro”, “Avaliamos o presidente eleito”, “Avaliamos o paciente” e, até (quem diria?) “Avaliamos ele…”.

“Avaliamos ele”, como sabemos, é forma incorreta. Mas também sabemos que esse tipo de expressão é muito comum, a ponto de população, compositores (letristas) de canções, poetas e publicitários reforçarem seu uso, reciprocamente. Ou seja, o erro se torna cada vez menos errado, porém, cada vez mais aceito na linguagem oral informal.

Assim como a maioria, eu desobedeço a regra e uso “avaliar ela”, “chamar ele”. Mas só em situações realmente informais. Sei que as regras gramaticais são cobradas em lições de casa, provas para vários níveis de escola e de concursos, públicos e privados.

Portanto, fique esperto: siga as determinações da gramática sempre que você tiver de provar conhecimento.

Deixe uma resposta

Observação: Você pode usar HTML básico nos seus comentários. O seu email não será publicado.

Assine este comentário via RSS