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O trabalho calado e invisível dos pais dos burros.

6.June. 2019
por Claudia Atas
Reproduzido da Folha de S.Paulo de 02 de junho de 2019

Reproduzido do site da Livraria Cultura.

Domingo passado (02 de junho), os dicionaristas foram lembrados por um brasileiro influente – o colunista Hélio Schwartzman, da Folha de S.Paulo. Em poucas linhas, ele  dimensionou o trabalho profícuo, árduo e discreto desses especialistas, que apelidou de “os pais dos burros” – perífrase derivada de outra, “o pai dos burros”, que significa “o dicionário”.

Sempre me incomodou a expressão pai dos burros. A analogia imediata – burro que reproduz novos burros – me parece uma incoerência inexplicável. Também como expressão de humor pelo contraste, não vejo graça.

Ao tentar compreender esse dito consagrado, acabei por criar uma hipótese: a de que pai, entre outros significados, denota a figura paterna que sabe, explica, protege. Mesmo assim, essa construção eu passo.

Schwartzman, nada preocupado com essa expressão, levou-a ao título do seu artigo – por sinal, motivado pela leitura do livro Word by Word: The Secret Life of Dictionaries, de Kory Stamper. E nos oferece bons momentos de informação e reflexão:

A maioria das pessoas recorre ao “pai dos burros” (tal apelido já diz muito) em busca de uma espécie de chancela legal (semântica, ortográfica, ética etc.) para o termo que pretende utilizar. A tarefa do lexicógrafo, porém, é a de registrar e definir os usos mais correntes de uma palavra, incluindo aqueles que ainda não estão inteiramente consolidados e são, portanto, vistos como “errados”, ou, ainda pior, aqueles que são considerados imorais.

Para o público leigo, o processo de produzir um dicionário – colecionar averbações, fixar pronúncia(s), elaborar definições, consultar e descrever a etimologia dos termos – parece monótono e burocrático.

Pode até ser, mas sua íntima ligação com as mudanças sociais gera uma dinâmica linguística de consequências às vezes inesperadas. Schwartzman anotou um exemplo:

Stamper, que é lexicógrafa profissional e durante vários anos atuou como editora-associada da Merriam-Webster, uma das principais casas de publicação de dicionários dos EUA, conta a história da corrente de protestos de religiosos que ela e seus colegas tiveram de enfrentar quando, numa das reedições, modificaram um dos sentidos da palavra “casamento” para comportar a união entre pessoas do mesmo sexo.

Word by Word, segundo o colunista, possui muitos motivos para ser lido:

Além de entreter, nos educa, contribuindo, ainda que apenas marginalmente, para que nos tornemos consulentes de dicionários um pouco mais conscientes.

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