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Clareza, vigilância para sempre.

17.May. 2019
por Claudia Atas

clarezaRedigir com clareza é uma qualidade que se conquista – mas não para sempre. Cada texto a ser escrito deve ser vigiado – sempre.

Aprendemos na escola que a boa redação exige domínio da “pontuação, concordância, coerência, coesão”, e outros “requisitos necessários à objetividade retratada pela mensagem”, explica a professora Vânia Maria do Nascimento Duarte. Também, fomos orientados a reler o texto para apanhar erros e aperfeiçoar ideias.

Revisão é importante, sem dúvida, ainda mais quando se usam recursos que potencializam a percepção das falhas cometidas. Costumo usar dois:

1- colocar-se na posição de leitor, recurso que nos leva mais facilmente a um fundamento da boa comunicação: escrever na perspectiva do público-alvo;

2-ler o texto em voz alta  , neste caso, uma decorrência dos bons resultados que obtive ao gravar vídeos para um curso de oratória.

Com eles, podemos identificar pequenas e grandes falhas, como raciocínio confuso; desvio do foco proposto; informações incompletas ou desnecessárias; excesso de orações subjetivas.

Em resumo: a autovigilância trabalha pela clareza do texto.

Por dentro do placebo

Há duas semanas, a mídia anunciava a entrada em vigor do novo Código de Ética Médica. Os jornalistas selecionaram itens potencialmente interessantes para o público leigo, como a recomendação de nova conduta no uso de placebos. Esclarecê-los foi complicado.

A média dos leitores entende, genericamente, que placebos são substâncias inócuas e estão ligados a pesquisas de drogas. Seria preciso, agora, explicar brevemente a diferença entre placebo de mascaramento e placebo isolado – termos usados em determinada modificação introduzida pelo Código.

Veja estas cinco tentativas de esclarecimento:

1) Estadão, 24/abril, página A14:

A nova versão (do Código) permite que voluntários sejam submetidos a terapias conhecidas como “placebos de mascaramento”. Esse recurso é usado para testar novas drogas e para que pesquisadores não saibam qual grupo está sendo submetido ao uso do produto a ser testado e qual está usando medicamentos já conhecidos da ciência. O código atual (…) não permite o uso desses placebos. “Isso acaba se transformando em um empecilho para os estudos. O que continua proibido é o uso de placebos isolados, a combinação de substâncias que sabidamente não têm efeito terapêutico” (afirmação do entrevistado).

2) Agência Brasil (Empresa Brasileira de Comunicação), 30/4/2019:

… o novo código permite os chamados placebos [substância sem propriedades farmacológicas] de mascaramento, mantendo a vedação ao uso de placebo isolado – quando não é usada nenhuma medicação eficaz.

3) Folha de S.Paulo, 23 e 24 de abril de 2019

O documento também mantém o veto ao uso de placebos de forma isolada, mas abre espaço para uso combinado com outros medicamentos — como em teste de novas drogas em grupos de controle, em que um grupo recebe o novo medicamento e o outro placebo junto com medicamentos atuais.

4) Folha de S.Paulo, 06/5/2019, pag. A2 (editorial):

…manteve-se a proibição do uso de placebo isolado quando existem tratamentos efetivos disponíveis.

5) Revista Época, 28/4/2019:

No âmbito das pesquisas, os chamados placebos de mascaramento estão liberados, ao contrário dos placebos isolados, quando não se usa medicação eficaz.

A meu ver, faltou clareza. A começar pela dúvida: placebo “de mascaramento” é o mesmo que “placebo”? Sem essa distinção, possivelmente muitos leitores podem ter considerado o placebo de mascaramento como um tipo “novo”.

A mídia (pelo menos os veículos que consultei) pecou pela ausência do já rotineiro quadro explicativo. Nem informações complementares foram admitidas no corpo das matérias. E bastaria uma rápida pesquisa em fontes reconhecidamente confiáveis disponíveis na internet.

Numa busca rápida, encontrei no alto da primeira página aberta pelo Google esta definição do Instituto Nacional do Câncer:

Placebo é a formulação sem efeito farmacológico, administrada ao participante do ensaio clínico com a finalidade de mascaramento ou de ser comparador. (…) Uma substância que não contém ingredientes ativos, feito para ter gosto e aparência idêntica da droga real a ser estudada.

Complementarmente, seria útil este trecho do Brasil Escola:

Quando usamos os placebos em experiências, esperamos que o grupo que o utiliza não apresente nenhuma melhora clínica. Já o grupo que está utilizando o medicamento real deve apresentar uma melhora substancial, representando, assim, a eficácia terapêutica de um novo fármaco.

E, por fim, o que seria, exatamente, placebo isolado? Pelo que descobri com  papai Google, é o “placebo puro”.

Resta saber o que seria placebo puro.

E você, o que me diz?

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