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Precisão: você já parou para examinar isso?

25.March. 2019
por Claudia Atas

post-marco-2019Redatores dificilmente checam a precisão das palavras que usam ou sua adequação ao contexto. No entanto, essas duas qualidades potencializam outras quatro: clareza, consistência, concisão e elegância do texto.

No último dia 10, reportagem da Folha de S.Paulo deu um exemplo de imprecisão. O repórter demonstrou, com boa informação e bom texto, como é fácil obter documento de posse de arma antes mesmo de lei com esse objetivo ser aprovada.

Ele só falhou no tratamento que deu à “laudo”. Veja:

Basicamente, você apresenta uma série de documentos e realiza dois laudos: o psicológico e o de tiro.

(Eu estava) apto a fazer o laudo de tiro.

Não é verdade: você não irá realizar dois laudos, nem estará apto a fazer o laudo de tiro. Quem faz* laudos são autoridades. A prerrogativa, no caso em questão, é dos psicólogos credenciados e dos professores do clube de tiro. Eles redigem, elaboram, assinam laudos (verbos mais adequados e menos surrados que fazer).

Portanto, o jornalista deveria escrever algo como

Basicamente, você apresenta uma série de documentos e se submete a dois tipos de teste: avaliação psicológica e capacidade técnica para atirar.

Neste outro exemplo, o repórter escreve:

Na canção, (a cantora) Perdomo (…) fala sobre sua viagem por quatro países até chegar ao Peru. A nostálgica canção, gravada e divulgada pelo YouTube, teve mais de 2 milhões de visualizações (…) O Estado de S.Paulo, 17 de janeiro de 2019

Canção é algo que se ouve, mas não se vê, assim como uma canção é ouvida e, não, “visualizada”. Portanto, o substantivo visualização, aqui, extrapola seu significado  – além de ver, significa o que se ouve e o que se lê na internet.

Você pode aprovar o uso genérico de visualizar, mas não deve perder de vista que a frase pode ser melhor construída com uma troca como esta:

 A canção recebeu – ou obteve – mais de 2 milhões de acessos.

A substituição considerou que “2 milhões de visualizações” não correspondem necessariamente a “2 milhões de ouvintes”, conferiu precisão e manteve  o contexto e a terminologia da internet.

Falso dilema

Se não encontrar a palavra “certa” para o contexto – ou seja, para a ideia, a proposta, a argumentação, o fato que deseja explicar, defender – pesquise.

Busque ajuda nos dicionários, com professores e pessoas com boa formação escolar. Se ainda assim não a encontrar a palavra “certa”, construa uma frase explicativa. O problema persistirá se for necessário usar o termo preciso várias vezes durante o texto.

Neste caso, você enfrentará um (falso) dilema: repetir a palavra “certa”quantas vezes forem necessárias (não abrir mão da precisão) ou aceitar sinônimos, cedendo à imprecisão. Recomendo a repetição, apesar do preconceito generalizado contra essa solução.

Redundância é uma coisa; repetição por necessidade, outra. Essa distinção é pouco discutida dentro e fora das escolas. Cultiva-se a ideia de que repetir vocábulos é negligência ou pobreza de vocabulário. Pode ser, mas há uma terceira causa para a repetição: a precisão.

Sinônimos são meras aproximações uns em relação aos outros. Por isso, em muitos casos, é desaconselhável usar alternativas e correr o risco de confundir o raciocínio e gerar novas interpretações.

Portanto, é válido repetir palavras que dão a medida exata do que se quer descrever. E não se preocupe com o que o leitor “vai pensar”. O leitor é mais atento e sensível do que se pensa, e aceita a repetição quando percebe que a palavra inicial – o conceito – torna a repetição imprescindível.

Na próxima semana, vou estender a análise para dois aspectos relacionados ao assunto: como escolher a palavra “certa” e como usar vocábulos incompatíveis, a princípio, com a sua redação.

*leia sobre o uso abusivo do verbo fazer, neste blog: assédio, teste e resposta ao teste.

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