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Cuidados e recursos que melhoram o texto

25.February. 2019
por Claudia Atas

post-fevereiro-2019Redações podem ser bem escritas ortográfica e gramaticalmente e, mesmo assim, resultar em uma leitura sem qualidades cobiçadas, como fluência (ritmo e boa sonoridade, inclusive na leitura mental, que todos fazemos naturalmente). Em outras palavras, leitura fácil de ler e de compreender.

O que atravanca a redação? Observe, nas frases abaixo (comparações entre originais de noticiários de jornais e as minhas versões), que existem recursos fáceis de aplicar, seja quando você redige seja quando você relê o que escreveu.

1-  Manchete de jornal: Bebianno reconhece que deve ser exonerado 

Este exemplo é um alerta para ambiguidades que confundem o leitor. Dever é um verbo muito usado, em seus dois sentidos: obrigação e probabilidade. No caso dessa manchete, os dois significados são admissíveis.

– o ex-secretário-geral da presidência, Gustavo Bebianno, admite a possibilidade de o presidente Jair Bolsonaro exonerá-lo (o que não vinha admitindo)

– Bebianno admite que o presidente tem o dever de exonerá-lo já que acredita que conversa por aplicativo não é igual a conversa por telefone, e, portanto, ambos não “conversaram” – ou seja, ele, Bebianno, mentiu.

Ao bater o olho na manchete, a impressão vem primeiro; depois é que o leitor interpretá-la. Assim, você pode discordar da segunda interpretação, acima, mas ela é verossímil. Poderia traduzir o seguinte raciocínio: políticos produzem arranjos em que uma das partes cede na queda de braço em troca de futuros favores.

2- Noticiário sobre o reajuste do IPTU EM 2019:

A frase pode ser mais clara e direta.

Original:

Há duas ocasiões em que existe previsão legal para cobrar mais de 10% de reajuste: quando reformas aumentam a área útil do imóvel ou quando há valorização de mercado e deixa de valer a faixa de desconto proporcional, aplicado a plantas com valor de R$ 180 mil a R$ 320 mil.

Minha sugestão:

A legislação prevê duas situações para reajuste maior que 10%: a valorização por meio de reformas que aumentam a área útil do imóvel e a valorização pelo mercado, devido a outros fatores. Assim, o valor do imóvel pode sair da faixa de desconto proporcional – plantas com valor entre R$ 180 mil e R$ 320 mil.

3 – Noticiário sobre aposentadorias com tempo especial

Este exemplo mostra excesso de preposição e como a leitura poderia ser mais clara, rápida e precisa.

Frase original:

O número de trabalhadores com direito à contagem de tempo especial por insalubridade recuou 6,03% desde o início da crise econômica, ao passar de 706,3 mil, em 2014, para 663,7 mil, em 2017, de acordo com dados da Secretaria de Previdência do Ministério da Economia.

As sete preposições “de” já indicam uma sequência de texto alongado e não trabalhado de modo a facilitar a leitura. Esta questão é importante para textos que usam termos específicos, datas e porcentagens.

Minha sugestão:

O número de trabalhadores com direito à contagem de tempo especial por insalubridade recuou 6,03%, desde o início da crise econômica : passou de 706,3 mil, em 2014, para 663,7 mil, em 2017, segundo a Secretaria de Previdência do Ministério da Economia.

4- Carta de visitante em site dedicado ao terceiro setor

O exemplo vale para mostrar o que parece impossível: esquecer a informação, ou o objetivo principal ou, ainda, ser genérico e invalidar o próprio texto!

Frase original:

Sou Assistente Social aqui do Rio, alguém sabe me dizer se tem alguma oportunidade para área de consultoria/assessoria ?

A generalização invalida a própria oportunidade solicitada, mesmo se feita em ambiente ultra favorável (o que não foi o caso).

5 – Noticiário sobre a polêmica em torno das sacolas biodegradáveis

Este exemplo adverte sobre o uso da ironia, estilo simpático, em geral, e inadequado, algumas vezes.

Frase original:

Apesar do sucesso no mercado, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e o Ministério do Meio Ambiente não têm grande simpatia pelas sacolinhas oxibiodegradáveis.

Não tem grande simpatia? Pelo contrário, lutavam contra. No corpo da notícia, o repórter revelava que, segundo o MMA, o plástico da sacola biodegradável se fragmenta em pedaços menores, ou seja, podem se depositar em rios e ser ingeridos por peixes e outros animais.

Minha recomendação:

Ironia é um jeito simpático de dizer o contrário do que se pensa. Veja:

– “nada mal ganhar um milhão de reais na loteria”, quando a intenção é expressar “como seria bom ganhar um milhão na loteria”.

– “ele não é nenhum Rui Barbosa”, quando se avalia a pessoa como medíocre ou pouco inteligente.

Mas, antes de inserir expressões irônicas, como essas, é bom lembrar que a ironia pode ser inadequada, mesmo quando se adota o estilo coloquial.

Relatórios (técnicos ou não) e textos persuasivos não combinam com a ironia. Esse modo intimista, engraçado e mordaz pode, no limite, reduzir a intensidade do foco em questão. Um contrassenso… Manter o leitor concentrado no foco é o que todo bom comunicador luta, linha por linha, para conquistar.

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