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Entrevista, a arte de perguntar e ouvir

29.October. 2018
por Claudia Atas
William Bonner e Renata Vasconcellos entrevistam o presidenciável Ciro Gomes no estúdio do Jardim Botânico - 27/8/2018

William Bonner e Renata Vasconcellos entrevistam o presidenciável Ciro Gomes no estúdio do Jardim Botânico – 27/8/2018

O desastrado comportamento de William Bonner e Renata Vasconcellos nas  entrevistas do Jornal Nacional com cinco dos candidatos à Presidência da República converteu-se em ponto de inflexão.

Transmitida ao vivo (agosto-setembro passados) e ancorada em um esquema racionalmente articulado – temas que marcam cada uma das candidaturas; questionamento de pontos polêmicos; e viabilidade de pontos dos respectivos programas de governo – a série tinha tudo para ser uma inflexão positiva.

Não foi. A meu ver, a pauta “minutada” conteve a entrevista como uma camisa-de-força. Aflita, por vezes agressiva, a dupla abortou opiniões e argumentos dos convidados. Insistiu na correção do que considerou desvio do foco. Aferrou-se ao tempo reservado a cada resposta – embora não informado aos convidados, nem ao público.

No primeiro encontro, Ciro Gomes conseguiu falar menos de 16 minutos dos 27 concedidos a cada candidato*. Marina Silva, a quarta entrevistada, falou pouco mais de 17 minutos e sofreu 26 cortes.

Protagonismo exacerbado, obsessão pelos minutos para cada tema, o tom imperativo e o irritante intervencionismo travaram as cinco entrevistas. Nada foi mudado até o último programa. Os editores-apresentadores-entrevistadores insistiram no erro.

Tempo de ouvir x tempo de perguntar

Interrupções podem ser necessárias, interromper é questão de habilidade. Bonner e Vasconcellos pareciam aptos para usar um gesto firme, mas diplomático; enérgico, mas cortês. O que vimos esteve mais próximo de um cala-a-boca.

Nada mais paradoxal que armar um espetáculo cívico e subtrair dos candidatos tempo e liberdade para explicarem seus programas de governo e se defenderem de acusações de ilicitudes, contradições e outros eventuais pecados levados à arena do Jardim Botânico.

Razão e emoção formam um bom tempero. Desta vez, o resultado desandou diante da pobreza nos ganhos de informação e a perda de excelente oportunidade para avançar a qualidade desse tipo de entrevista.

A série do JN enriqueceu meu treinamento – Entrevista, a Arte de Perguntar e Ouvir – exatamente por contrariar princípios e técnicas que recomendo nesse conteúdo. Neste sentido, a dupla de entrevistadores poderia ilustrar o que não fazer. Por exemplo,

1) não basta ser jornalista bem formado e experimentado.

2) pauta é guia, não um torniquete para conter entrevistados e entrevistadores.

3) discussões são previsíveis; imprevisíveis são os rumos que podem tomar.

4) excessos devem ser coibidos quando ocorrem – nunca por antecipação, cingindo o entrevistado em camisa de força (que, por sinal, já existia: a natural pressão do tempo em televisão).

5) “programa de entrevista” dentro de jornal televisivo é inserção inadequada (no caso do JN, a pressão do tempo, normalmente forte, aumentou).

6) equilíbrio é fundamental – nem protagonismo nem sujeição entre entrevistador e entrevistado. Aqui, vale registrar que o protagonismo dos entrevistadores da série pode ter refletido a preocupação de não serem “abatidos” pelo peso político do entrevistado.

Oferecer ao público informações úteis e confiáveis é o ápice de um processo relativamente longo, que envolve várias partes e muitas obrigações: compromisso com a verdade, respeito ao interlocutor e ao público, capacidade de ouvir e compreender o entrevistado e, no caso de trabalho gravado, discernimento e lisura para selecionar o material a ser divulgado.

Essas considerações me levaram a qualificar de desastrosos o formato do programa e o comportamento de Bonner e Vasconcellos na série com os presidenciáveis.

* Ciro Gomes, Jair Bolsonaro, Geraldo Alckmin e Marina Silva
(até 25 de agosto, Luiz Inácio Lula da Silva, líder nas intenções de voto,   estava (como está) impedido de dar entrevistas).

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