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Estrangeirismo e o tortuoso processo de aportuguesar palavras

20.September. 2018
por Claudia Atas
Adaptado do original in: http://blog.opovo.com.br

Adaptado do original in: http://blog.opovo.com.br

Aportuguesar, afrancesar, britanizar, japonizar… palavras. Países adotam palavras estrangeiras basicamente pelo gosto popular e por falta de tradução precisa, fácil, curta no idioma do país importador. Faz sentido. Mas a decisão de manter a grafia original ou adaptá-la – em nosso caso, aportuguesá-la – nem sempre é clara e coerente.

Inconsistência grave, a meu ver, ocorre com imbróglio. Tente falar como está escrito: vai soar imbrólio. Não seria natural, então, adotar imbrólio? Contudo, temos obrigação de escrever como os italianos (com exceção do acento agudo), e falar da maneira mais difícil: “imbroglio” – sorte dos italianos, que escrevem glio e falam lio!

Como explicar o aportuguesado filé mignon? Os franceses escrevem “filet mignon”, mas nós ficamos no meio a meio: criamos filé, como pronunciado aqui e na França, e mantivemos o original mignon – um gn que não se fala e não se escreve em português. Conclusão, a iguaria deve ser escrita metade em francês, metade em português. Por que não foi adotado o “filé minhom”? Teríamos assimilado num instante. Agora é tarde.

As grafias mousse (original) e musse (aportuguesada) convivem sem conflito nas publicações brasileiras, para designar um doce com a leveza da espuma (do mar, do espumante). Fica a dúvida: pode-se optar por uma ou outra grafia ou existe opção certa e opção errada, gramaticalmente falando?

O caso de “laser” e “container” é instigante: por que, sendo graficamente assemelhados, “laser” e “container” receberam tratamentos distintos? Embora laser seja a forma predominantemente usada no Brasil, a dupla grafia (laser e lêiser) está contemplada no Houaiss. No entanto, contêiner, aportuguesado, tornou-se forma única e, portanto, obrigatória.

Processo tortuoso

“O mundo não é tão azul”, consola Fernanda Pompeu, escritora e educadora online de redação e português (Acelera Texto). Sobre as incoerências do processo, dá algumas pistas:

“Quem decide pelo aportuguesamento das palavras estrangeiras são os dicionaristas”, diz Fernanda. O critério usado por Aurélio Buarque de Holanda e Antônio Houaiss era “a permanência do uso e a quantidade de registros em livros, jornais, etc.”, afirma.

Um exemplo: “A inglesa shampoo, foi aportuguesada, pelo Houaiss, para xampu. Mas “xampu” não pegou, as embalagens continuam com shampoo. Já hambúrguer (para o original hamburger) pegou total. Ou seja, quem acaba decidindo mesmo é a maioria dos usuários da língua”.

O aportuguesamento de palavras também se dá pela Academia Brasileira de Letras, com o VOLP – Vocabulário da Língua Portuguesa. “Toda vez que o VOLP é atualizado, mais ou menos de dez em dez anos, uma comissão analisa quais palavras estrangeiras serão aportuguesadas, isto é, adicionadas ao vernáculo”, conta Fernanda. “Critérios? Acho que estão na cabeça de cada um desses notáveis.”

Para ela, a questão sobre o que é gramaticalmente certo e errado também é relativa. “O que está no dicionário é considerado o certo. Porém o usuário pode optar pela palavra estrangeira (no seu original). Ou seja, ele não é obrigado a usar o aportuguesamento. O que ele não pode fazer é aportuguesar por conta própria”.

Duas recomendações

1- Sempre conferir, em registros mais formais, como redações em concursos e vestibulares, se a palavra entrou no vernáculo. “Se entrou, use-a. Se não entrou, mantenha o original. Como fazer? Recorra ao VOLP da ABL. Existe no online”.

2- Sempre observar o uso. “Com algumas expressões e palavras, a tradição manda mantê-las no original: à la carte, à doré, apartheid, impeachment, art nouveau, axé, bike, etc.

Também ficam no original todas as palavras e expressões latinas. Pois o latim não é estrangeirismo, é raiz da própria língua”.

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