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Cinco sugestões para o redator opinativo

28.July. 2018
por Claudia Atas
 Folha de S.Paulo, 19/5/2018

Folha de S.Paulo, 19/5/2018 – Cotidiano

Texto opinativo precisa de opinião. Redundância? Sim, mas ela cabe na frase ao lado. Por exemplo, você lê um texto sobre um tema e a opinião não aparece. Ela pode estar lá meio oculta, indireta, embutida num “estilo enviesado” – tema deste terceiro post da série Estilos.

Coluna recente de Tati Bernardi na Folha de S.Paulo é um bom exemplo dessa situação. A partir do título “Meghan Markle pode ser feminista e princesa ao mesmo tempo?” (19/5/2018), acreditamos que a autora analisará a questão proposta no título, dizendo-se a favor ou contra. Ela opina, mas não como esperamos.

O texto se desenvolve por rodeios, com mais perguntas, em tom confessional, provocativo, meio bem meio mal humorado. No final, a autora joga a bola para os leitores, sem assumir sua opinião – explicitamente, porque a opinião – ela está enviesada.

Se você não é escritor…

… tenha em mente que escritores, roteiristas, cronistas e colunistas em geral são livres para escolher temas, formas, estilos. Não os redatores da comunicação empresarial, assim como estudantes de olho nas provas do Enem, Sisu, Fuvest e assemelhadas.

Em outras palavras, o exemplo em questão é ruim para quem, nesses contextos, precisa analisar, opinar e convencer pessoas – público que frequenta este blog.

Portanto, neste artigo, sirvo-me do texto sobre o “duvidoso” feminismo de Meghan Markle para apontar cinco aspectos que estudantes e profissionais de ambientes  corporativos devem evitar.

A intenção neste, como nos posts anteriores da série (protagonismo  e  construções indesejáveis), é ajudar quem precisa redigir manifestando seus pontos de vista.

Polêmica

Começo com o contexto. Afinal, não se pode exigir que o leitorado esteja a par da polêmica instalada com opiniões favoráveis e contrárias à afirmação de que Meghan Markle pode ser classificada ou não de feminista.

A ex-atriz abandonou a carreira ao se casar com o príncipe Harry, da família real britânica. Anunciado o namoro, a mídia saiu à caça de informações oficiais e de bastidores, de relatos biográficos e inconfidências. E com elas produziu notícias que, a bem da verdade, sempre atraíram os plebeus.

Mesmo multiplicadas com o anúncio do noivado e do casamento real, as informações disponíveis eram insuficientes para qualificar Meghan de feminista, ou não. A dúvida gerou a polêmica global.

A propósito, vale lembrar o conceito: ser feminista não é prerrogativa de mulheres – há homens feministas – simpatizantes do movimento ou militantes da causa.

Cinco situações de risco

As recomendações a seguir podem evitar problemas graves da redação opinativa. Se observadas, aumentarão suas chances de redigir um texto opinativo claro, coerente e útil para os seus propósitos.

1– Conscientizar-se de que seu objetivo é opinar – não se deixe levar pelo comentário ou pela apresentação descritiva do assunto. Explicite seu ponto de vista em algum momento – começo, meio e/ou fim do texto. Alguns autores preferem o fecho do artigo, propondo, assim, que o leitor acompanhe seu raciocínio passo-a-passo.

Para quem se posiciona no início e/ou no meio do texto, repetir o posicionamento no fecho é oportunidade de reforçar o ponto de vista.

2- Argumentar a favor e contra a questão abordada lhe permitirá tanto defender seu ponto de vista quanto demonstrar as fraquezas do ponto de vista contrário. Além disso, ao não omitir o que pensam seus oponentes, você se livrará da imputação de omisso e parcial.

Argumentos precisam ser consistentes, capazes de sustentar o raciocínio e dar credibilidade à causa e ao autor. (veja item 4)

Nesses quesitos, Tati Bernardi passa ao largo, como veremos mais adiante.

3- Optar pelo estilo “pensar alto”, “pensar com o leitor” pode ser interessante, mas  depende da finalidade do texto e do tipo de público. As crônicas de Tati lhe permitem essa liberdade:

Fiquei me perguntando se uma mulher que larga a carreira (e uma infinidade de interesses e gostos particulares) para se casar pode ser considerada feminista. Ainda mais se o marido é um príncipe. Ainda mais se a bênção é da rainha Elizabeth 2º. Ainda mais se a casa é um castelo.

Observam-se aí, embora enviesados, os argumentos contrários à ideia de que Meghan é uma feminista. Redatores em geral não podem seguir o exemplo da autora – ela não desenvolve as sugestões contrárias ao feminismo. Antes, dá uma guinada inaceitável para textos não literários:

“Amigas mais entendidas logo me recriminaram: “feminista faz o que quer!”.

4- Coerência é indispensável em qualquer tipo de texto – opinativo, informativo, descritivo, persuasivo, etc.

A coerência sustenta a informação/argumentação e o estilo da linguagem. Na coluna “Meghan Markle…” a autora se apoia nas amigas. Mas o nonsense do argumento – feminista faz o que quer – no seu caso, destruiria o texto e a sua credibilidade.

Pois muito bem, eu quero ser 100% sustentada por um aristocrata gato que me peça para abandonar a profissão e me dê uma lista de coisas que eu não posso fazer, falar ou pensar.

A frases na linha do “eu quero” se sucedem até a nova guinada:

“A pergunta aqui é outra: Meghan Markle pode ser feminista e princesa ao mesmo tempo?”

Tudo indica que a autora entrará no tema e explicitará sua opinião. Ela entra, mas não argumenta, apenas joga frases esquemáticas: a duquesa “não lutou por melhores salários para mulheres”, não se manifestou “sobre os desmandos dos machos brancos opressores”.

5- Contexto e imparcialidade possível

Meghan não tem um histórico de luta feminista – ou esse histórico era desconhecido? Ou o foco da imprensa e fãs de Suits (Netflix) dirigiam-se a outras facetas da atriz?

Por princípio (e por zelo), jornalistas e comunicadores buscam complementar um perfil capenga, uma pseudo biografia. Portanto, não hesite em pesquisar informação em fontes seguras.

Nesse quesito, a coluna de Tati deixa os leitores sem “o outro lado” de Meghan. Veja a diferença do perfil quando se consultam sites confiáveis:

Segundo o Diário do Centro do Mundo, a duquesa de Sussex “declara-se feminista”.

Em um conceito simples e didático, o feminismo existe para que as mulheres façam o que tenham vontade de fazer (e não para que suas ações sejam julgadas e problematizadas por outras mulheres). (…)

Algumas mulheres escolhem seguir suas carreiras, outras escolhem o casamento e a maternidade, outras escolhem viajar o mundo, outras escolhem tudo isso junto, outras escolhem casar-se com príncipes e lutar por causas humanitárias, e outras escolhem simplesmente existir (de preferência em um mundo que não as violente).

O mínimo que se pode esperar de um discurso feminista é que se deixe uma mulher viver suas escolhas em paz. Se essa mulher puder e quiser representar a causa, ponto pra ela – e pra nós.

Meu conselho: nunca deixe de pesquisar informações para complementar e explicar posturas e afirmações sobre personagens e fatos.

Evidentemente, o assunto não se esgota nos cinco aspectos abordados, nem se limita ao texto opinativo. Considerar estes alertas e recomendações, contudo, é um meio seguro de atender aos objetivos da sua tarefa e aumentar a qualidade da redação.

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