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Bloco de anotação, o estilo mal construído.

26.June. 2018
por Claudia Atas

O modo de escrever costuma revelar valores, sentimentos, humores, intenções do redator. Esses e outros sinais podem afetar o texto que se pretende impessoal e isento. Como controlar essas interferências? Vigiando o estilo da linguagem e a construção do texto, como expliquei no post anterior .

Estadão, 15/05/2018, pág. A14

Estadão, 15/05/2018, pág. A14

Salvo engano, não existe nomenclatura acadêmica para a questão, tratada no conjunto forma-conteúdo. Por essa razão, criei denominações para cinco estilos que me chamam a atenção.

Neste post, o segundo da série, trato do estilo “bloco de notas”, modelo em que as informações são agrupadas por categorias  e os grupos são dispostos em blocos.

A característica principal desse estilo é a estruturação a partir de verbetes. Eles organizam a ocupação do espaço e distribuem as informações com aparente racionalidade. O leitor obtém a visão geral da matéria, capta seu teor e escolhe a ordem de leitura.

Tais benefícios mostram-se irrisórios diante daqueles trazidos pela boa reportagem. Prega a técnica jornalística que se acomodem as informações em uma estrutura clara, inteligível, e se desenvolva o relato de modo a envolver o leitor, oferecer-lhe uma “história” circunstanciada e, igualmente, fácil de ler.

Não é o que se vê na matéria do Estadão (foto acima), intitulada “Na lista dos 23 da seleção, aposta na versatilidade”.

Montada no estilo que apelidei de “preguiçoso”, a reportagem dispensa o redator da parte quase sempre mais árdua – e mais gratificante – do fazer jornalístico: a transição do que leu, viu e ouviu para o texto jornalístico.

O primeiro dos blocos começa assim:

Critérios

Essa versatilidade, essa ideia, o modelo de jogo, uma forma de atuar.

Para quem não participou da coletiva de imprensa e, portanto, deixou de ver e ouvir a profusão de sinais e gestos, entonações e modulações de voz, essas palavras soam como divagação e remetem à figura da anotação.

Curiosamente, o “lead do bloco” está claramente redigido no lead tradicional que abre a matéria:

Uma seleção brasileira que tenha como principal característica a versatilidade de seus jogadores. É assim que Tite quer a equipe que vai tentar o hexa na Rússia. Foi isso que ele levou em consideração ao elaborar a lista dos 23…

Nos demais blocos, clareza e obscuridade se alternam, em detrimento do leitor.

O conteúdo sob o verbete Geromel, mostra outros aspectos do estilo preguiçoso: transcrição ipsis litteris da comunicação oral para a escrita com perda sentido:

Regularidade de desempenho, alguns aspectos que são individuais de percepção. Coisas como dia a dia de trabalho, treinamento, relações, olhar no olho, momento da mobilização, do jogo. O Grêmio vem mantendo padrão de regularidade em alto nível há dois anos. Começou com Felipão, afirmação com Roger e colhendo frutos com Renato. E o Geromel mantendo consistência em alto nível.

Bloco híbrido

A montagem tem sua face positiva: informações reunidas em grupos relativamente simétricos, parágrafos interdependentes separados artificialmente, é verdade, mas por inofensivo símbolo gráfico; leitura linear, sequenciada, lógica. Em resumo, uma matéria “clean” e fácil de ler, boa para a mídia impressa e digital.

As colunas escritas e administradas pela jornalista Monica Bergamo obtêm ótimos resultados nesse modelo que alia o consagrado com a inovação. Mesmo as matérias à base de “pílulas” ou “drops” cumprem a proposta do formato: notas curtas e independentes. O leitor sabe o que vai encontrar.

Como ficamos?

A diferença entre blocos bons e maus não é determinada pelo formato, e, sim, pela sintaxe. Monica e, no caso, Bruna Narcizo, constroem a narração com frases contextualizadas, claras, objetivas. Já o “bloco de anotações” do Estadão (no exemplo apresentado) dispensa esses cuidados em boa parte do texto, criando anotações vagas, obscuras.

Portanto, o fator determinante da boa qualidade dos blocos, na comparação aqui estabelecida, é a sintaxe, o modo de construir as frases e facilitar a vida do leitor.

Em outras palavras, clareza e da objetividade nunca saem de moda.

 

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