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Estilo e seu reflexo sobre a qualidade da redação

28.May. 2018
por Claudia Atas

Você não está a salvo: o modo de escrever revela muito do autor, mesmo na elaboração de textos não literários. Intenções, sentimentos, humores e valores rondam a redação e podem interferir positiva ou negativamente no resultado.

Em outras palavras, é ilusão anderson-aires-estilospensar que basta se concentrar na redação para se proteger de interferências, internas e externas. Vigiar o estilo da linguagem e monitorar a construção do texto são recursos mais efetivos. Afinal, o jornalista não escreve para si, escreve para o leitor.

Selecionei quatro exemplos para analisar essa questão, aqui tratada como estilo associado à forma.

À falta de denominações gramaticais específicas, criei as minhas:

Estilo ou Redator 1- narcisista; 2- preguiçoso; 3- enviesado; e 4- publijornalístico.

Começo pela primeira e deixo as demais para as próximas publicações.

Narcisista, ou a competição entre fato e narrador.

O narrador protagonista coloca o redator/apresentador no primeiro plano, em detrimento do fato, do produto, do serviço, da causa que motivou a divulgação. Ele se projeta, mas não por suas experiências, realizações e valores pessoais, como nos “testemunhos”, ou seja, depoimentos com os quais se busca dar credibilidade ao que se divulga ou promove.

Ao contrário, o narcisista se torna figura principal porque usa excessivamente o pronome “eu”, a conjugação na 1ª pessoa do singular, os possessivos meu/minha/meus/minhas.

Nesse modo narrativo, há pouca empatia: o público geralmente toma o narrador como personagem vaidoso, arrogante, pretensioso.

Adorei a foto comigo no palco

Em uma rede social, um executivo que ocupa elevada posição em uma multinacional, noticiou a demonstração de um produto. Essa demonstração se deu em evento tido como o mais respeitado do setor (marketing e comunicação digital), no Brasil. Em cerca de oito linhas, dizia:

(…) eu fiz no palco um pequeno experimento ao vivo onde conversei com um pão de forma. (Uma revista publicou) um pequeno artigo sobre isso e o que falei resumidamente sobre Inteligência Artificia (…). Adorei a foto comigo no palco (crédito da foto) e o display gigante por trás, com a imagem do pão de forma no meu iphone.

Em novo post, cede o primeiro plano para público e produto (destaque em azul), para, logo depois, reassumir o protagonismo:

(O vídeo mostra) o momento que faço uma demonstração (…). Dei o exemplo de um supermercado. (…). Imagine vc entrando no mercado c/ um smartphone e apontando o aparelho p/ um produto na prateleira. Ele reconhece qual é o produto e você pode conversar c/ele em linguagem natural, como se estivesse numa conversa c/ uma pessoa. Fiz essa demo no palco, ao vivo, no meuiPhone, onde conversei c/ um pão de forma… perguntando sobre data de validade, se tem glutem (sic) sobre sua composição e até uma receita bacana p/ fazer com ele. (…) Adorei!

Mesmo que você seja excelente profissional, famoso e bem-sucedido, resista: coloque o fato no primeiro plano. Há outros meios de ser simpático e convincente.

Por oportuna, copio a advertência de um jovem jornalista aos futuros (e veteranos) profissionais:

“Muitas vezes ficamos apegamos aos nossos textos, achando que é a coisa mais maravilhosa do mundo. Só que não é. Aliás, o jornalista/repórter nunca pode ser mais importante do que a matéria que ele está escrevendo: o texto não é do repórter, é do leitor”, afirma.

Anderson Aires (trecho da matéria de Ana Carolina Barski, da Ink, agência experimental da Faculdade de Comunicação do Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter), publicada em 26 de maio de 2017

  1. June 3, 2018

    Oi, interessante a proposta do artigo, mas discordo. Gostei da definição de narrador narcisista quando ela ainda estava na parte teórica, mas o exemplo fez a coisa toda broxar – e soou estar na defensiva.

    Na minha opinião, não há problema algum em colocar-se na narração quando o narrador é também personagem ativa daquilo que está contando. Concordo com que o texto seja de fato do receptor, mas isso não anula o papel do contador da história, especialmente quando ele faz parte dela.

    Não seria narcisismo porque não se trata da paixão pelo ego. Existe uma diferença entre isso e compartilhar as sensações de uma experiência pessoal. “Adorei isso” ou “gostei quando (…)”, dentre outros, fazem parte da construção dessa personagem que, por ora, é também o narrador.

    Você pode ter se confundido ao ter entendido que o tal executivo estivesse “noticiando a demonstração de um produto”. Na condição de jornalista, entendo que se tratava mais de um compartilhamento pessoal do que sistematicamente uma notícia. Em outras palavras, o executivo está contando algo que ele vivenciou (em caráter pessoal) e não necessariamente fazendo a publicidade do assunto em si (embora ela tambem aconteça consequentemente).

    Por fim (e novamente minha opinião), acredito que este artigo (ou a pessoa autora) esteja na defensiva. Isto porque, embora o texto não use para si tanto os pronomes pessoais em primeira pessoa como no exemplo, ele encara esse tipo de escrita como algo errado a ser evitado, “resistido”.

    Aparentemente, o artigo usa uma linguagem mais impessoal em prol da defesa da ideia da técnica, mas o primeiro parágrafo o desnuda inteiramente, a começar pela primeira frase do lead, “Você não está a salvo”. De foma indireta, o perigo da escrita está projetado na segunda pessoa (você, que é também o “eu, o leitor”) e na terceira pessoa (ele, o executivo narcisista do exemplo).

    Quando você encerra o exemplo orientando que devemos resistir ao tal estilo e não sermos como o aquele narrador, automaticamente você está alegando de forma subjetiva já ter tomado a vacina contra o tal erro, mas, a meu ver, há mais narcisismo no seu posicionamento em defensiva, disfarçado de técnica, do que propriamente no orgulho pessoal assumido pelo executivo.

    Fui atraído para cá na expectativa de ler sobre a posibilidade de um narrador narcisista quando este não é personagem daquilo que narra. Vale lembrar que, literariamente, as narrações em primeira pessoa são consideradas como parte da história, ainda que de forma pós-factual ou testemunhal, mas, ainda assim, parte da história que ainda acontece até o fim da narração.

  2. June 5, 2018

    Bom artigo. É isso mesmo. A estrela é o texto. Quanto mais brilhante conseguir ser, mais leitores a notarão. Isso era verdade para o Machado de Assis e segue sendo para os escribas de hoje. Espero suas próximas publicações. Abraço, Fernanda.

    • Claudia Atas permalink
      June 8, 2018

      Obrigada, Fernanda. Comentário enriquecedor. Abraço!

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