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Tempos de insegurança, intervenção e dúvida verbal

27.February. 2018
por Claudia Atas

assinatura-decreto-intervencao E não é que os tempos verbais estiveram envolvidos com a intervenção federal no estado do Rio de Janeiro ?

Uma amiga me perguntou se não haveria um erro nesta frase: “O decreto assinado prevê que as Forças Armadas assumirão o controle da segurança”.

Para ela, os tempos verbais estão em conflito. “Prever” é verbo da incerteza e “assumirão” o tempo verbal da certeza.

O correto seria “o decreto prevê que assumam” – incerteza seguida do tempo verbal usado para dúvidas, sentimentos, crenças e outras situações do tipo pode ser, pode não ser.

Observei que o contexto foi determinante na redação do decreto presidencial. Diferentemente das previsões meteorológicas, financeiras, econômicas e tantas mais, a “previsão” de agir por meio de uma intervenção militar no estado do Rio foi, sobretudo, uma “decisão” tomada rapidamente por um seleto e poderoso grupo institucional. “Prever”, neste caso, é certeza: o controle será das Forças Armadas.

Em geral, contextos levam ao entendimento da mensagem, mas não barram os equívocos. Se “prever” é ação típica da incerteza, datar a informação ou situá-la cronologicamente é bom recurso para eliminar dúvidas, promover a compreensão e celebrar a paz gramatical. Por exemplo:

“O decreto assinado prevê que, a partir de amanhã, as Forças Armadas assumirão o controle da segurança”.

“O decreto assinado prevê que, a partir de hoje, as Forças Armadas assumam o controle da segurança”.
“O decreto assinado prevê que as Forças Armadas assumam o controle da segurança.”

Dois conceitos

Tania Neves, graduada em Letras e especialista em Gestão de Comunicação e Marketing, entende que o verbo prever “diferencia-se de outros, como supor, ou desejar, que certamente pedem um complemento no subjuntivo. A diferença está, principalmente, na força do conceito contido no verbo prever (do latim: praevidere – ver em antecipação).”

Nesse sentido, prever pode ser entendido como suposição baseada em análise de fatos presentes ou passados; e, ainda, como suposição intuitiva, quando o sujeito intui que fatos consequentes ocorrerão (no futuro).

Por exemplo, a suposição contida nesta frase denota maior probabilidade de que o fato ocorra:

José prevê que os filhos assumirão o controle da empresa, pois eles sempre demonstraram interesse no negócio.

Nesta outra, o sentido de “supor” é mais intuitivo. Sem a força de previsão da frase anterior, o subjuntivo deve complementar o verbo:

José prevê que os filhos assumam o controle da empresa, pois ele deseja que continuem seu trabalho.

Quanto à frase tema deste post – O decreto assinado prevê que as Forças Armadas assumirão o controle da segurança – Tania a escreveria de outro modo:

No decreto assinado, o presidente determina que as Forças Armadas assumam o controle da segurança.

Idioma enriquecido

Gislaine Marins, doutora em Letras, afirma que a relação entre orações principais e subordinadas, assim como a relação entre verbos no indicativo e no subjuntivo, devem ser valorizadas.

O verbo “assumir” na frase em questão está inserido em uma oração subordinada. Em geral, as subordinadas preveem o uso do verbo no modo subjuntivo, relacionado ao verbo no indicativo, presente na oração principal.

Na minha opinião, a relação entre orações principais e subordinadas, assim como a relação entre verbos no indicativo e no subjuntivo, devem ser valorizadas. É uma simetria não apenas sintática, mas também conceitual. Aquilo que se prevê é ainda uma hipótese. O uso do futuro do indicativo é uma declaração sobre uma ação que irá ocorrer, independentemente da previsão ou não.

Entretanto, (…) muitos gramáticos, como o Professor Pasquale, admitem as duas formas como corretas. Trata-se de uma mudança de perspectiva.

O que acontece (na frase analisada) é exatamente isso: temos certeza de que a previsão irá se verificar. (…) Talvez as gramáticas tradicionais ainda não admitam o fenômeno, mas os gramáticos já assimilaram a mudança, que sempre começa pelos falantes, chega aos jornais e depois é descrita e transformada em regra gramatical.

(…) Com um pouco de flexibilidade, de criatividade e de olhar atento à história da língua, podemos perceber que a construção não é tão estranha como parece. Sim, as duas possibilidades são admissíveis. E isso é um bem para a língua, é um fator que enriquece o nosso idioma.

Gramática, confesso, tem um lado aborrecido – regras antigas, rígidas, que mal entendemos e mal praticamos. O outro lado, porém, é que embute uma construção histórica, cultural, como vimos na redação desta intervenção militar.

Tempos verbais, como se vê, não são meras questões gramaticais.

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