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Contexto e A Hora da Vitrola

25.October. 2017
por Claudia Atas

Andava procurando um bom exemplo de “contexto”, capaz de evidenciar sua importância em praticamente todo tipo de comunicação. Então, num domingo, lá pelo meio dia, dirigindo o carro e ouvindo a rádio Eldorado, ele surgiu com André Góis, apresentador do programa A Hora da Vitrola.

Góis no estúdio da Eldorado (15/9/2017)

Góis no estúdio da Eldorado (15/9/2017)

Para os que ainda não ouviram o programa (também às quintas-feiras, às 23h), e gostam (ou ainda não sabem que gostam) das músicas dos anos 50 e 60, recomendo: a oportunidade é imperdível.

Góis, que descobri há alguns meses, me encanta com seu conhecimento, bom gosto e um belo trabalho de contextualização.

Especialista apaixonado, ele resgata preciosidades musicais e aumenta a dimensão da informação sonora ao colocá-la em seu contexto.

Em A Hora da Vitrola, a música é embalada por histórias de sucessos e fracassos. O ouvinte passa a compreender a importância de uma voz, de uma letra, de uma melodia, de um arranjo. Começa a admirar o que parecia sem sentido. Descobre por que a canção se tornou “clássica”.

O conjunto de fatos e fatores determina o significado da comunicação e, no entanto, é mal comunicado, com poucas exceções.

Conhecimento e sensibilidade

A mensagem copiada abaixo é outro exemplo que ajuda a entender, por comparação, como o cuidado com o contexto ajuda a escrever melhor – objetivo declarado deste site.

Trata-se de um e-mail por meio do qual uma associação informava o falecimento de um membro da diretoria. Omito os nomes da entidade e da falecida:

Assunto: Nota de falecimento  
Prezados, bom dia! 
É com profundo pesar que comunicamos o falecimento de nossa
associada e amiga (...), ocorrido nesta madrugada. 
(...)
Ainda não temos dados sobre o local do enterro, já que ela 
ainda se encontra no IML, até o final do dia, encaminharemos
o endereço. 
Que Deus acompanhe seus próximos passos.
Atenciosamente,
Diretoria (...)

Neste caso, o redator associou dois elementos que, a rigor, o contexto torna incompatíveis: Nota de Falecimento e profundo pesar não se coadunam com o alegre “bom dia!”

Mesmo que a pessoa falecida não pertença ao círculo de amizades do leitor, é fato que a palavra “morte” provoca algum impacto ao remeter o leitor à ideia de que também é mortal.

Um recurso, para evitar deslizes em situações como essa, é trocar a saudação bom dia por “prezados associados”, “prezados amigos”, “prezados colegas”.

Há um segundo problema:

(…) “já que ela ainda se encontra no IML, até o final do dia, encaminharemos o endereço.”

Também esta é uma forma ruim. Faltam conhecimento e sensibilidade: não é “ela” que se encontra no Instituto Médico Legal, mas seu corpo.

Pontuação incorreta sempre causa embaraço. Aqui, a tendência do leitor é emendar as orações e entender que “ela se encontra no IML até o final do dia”.

A frase ficaria melhor sem a menção ao IML e com mais cuidado na pontuação:

Até o final do dia, encaminharemos o endereço do local onde o corpo será sepultado.

Outros exemplos

Vale a pena, para quem quer saber mais sobre contexto, em linguagem não acadêmica, ler ou reler os artigos listados a seguir. Clique no link e, na página do artigo, procure por “contexto” ou “contextualizar”.

9.25.17A prática de ignorar o interlocutor e dissimular um não 

08.30.17Supremacista, eufemismo em discussão. [a palavra no contexto]

07.31.17Palavras “difíceis”: vamos enfrentar mais um tabu?

26.22.17Em defesa do texto longo… e conciso.

05.23.17“O Patriarca da Odebrecht”: certo ou errado?

410.31.16Pirâmide invertida: debate saudável para o bom jornalismo

07.30.16Escute a sua redação: uma prática que beneficia a linguagem-para-ser-lida

012.5.15Oportunidade x oportunismo: a reportagem de Ernesto Paglia

08.22.15Título preconceituoso contamina reportagem da Folha

21.27.15 Comunicação e jornalismo não verbal – riqueza inexplorada

 

 

 

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