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A prática de ignorar o interlocutor e dissimular um não 

25.September. 2017
por Claudia Atas

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O brasileiro gosta de cultivar a ideia, comprada por estrangeiros, de que somos um povo afetivo, simpático, hospitaleiro e informal, comparados aos frios e racionais europeus e asiáticos. Extrovertidos e generosos, abrimos nossos corações e nossas portas aos estrangeiros, aos amigos, aos amigos dos amigos, etc.

As décadas passam e esse perfil sobrevive, sustentado fortemente por uma prática que estimula o “sim”, ou a dificuldade, às vezes a impossibilidade, de dizer “não”.

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O que me espanta, nesses autorretratos, é a falta de autocrítica. Podemos reconhecer nossos defeitos, mas não falamos deles. Seja na esfera pessoal, seja na esfera profissional, deixamos interlocutores sem respostas verdadeiras e, quando sobrevém o momento da verdade, inventamos desculpas, porque argumentos podem criar desarmonia.

Curiosamente, se todos já amargamos ausência de resposta e rejeição disfarçada de “talvez”, por que a experiência não levou a uma nova conduta, barrando a prática de ignorar o interlocutor?

No âmbito profissional, a cultura corporativa geralmente catequisa a verdade, mas tolera, na prática, atitudes que mascaram negativas com tom de concordância – o “sim”, para ser simpático; o “talvez”, para saltar fora; o silêncio, quando o assunto não interessa. Pensando bem, já tínhamos inventado a pós-verdade muito antes de ela ganhar visibilidade nos cadernos de cultura. Mas não nos demos conta…

Descortesia ou falta de estratégia?

Empresas jamais deveriam falar ou redigir na perspectiva do “já temos”, “já sabemos” e, principalmente, do “já sei o que ele vai falar”. Elas fecham as portas para talentos, para ideias originais ou originalmente aplicadas; para novas soluções e novas formas de solucionar.

Ignorar o interlocutor, sonegar as razões de um “não” é mais que descortesia – é falta de estratégia. Se a resposta precisa contrariar as expectativas do interlocutor, nada mais estratégico que expor os motivos.

No aspecto economia de tempo, o investimento para reunir e expressar as razões da negativa será compensado pela formação de um conjunto de respostas. Genéricas, a rigor, mas personalizadas, no final das contas – afinal, ao interlocutor importam as justificativas para o seu caso e, não, a originalidade da resposta.

Em outras palavras, reconheço que respostas padrão são necessárias diante de milhares de mensagens e da escassez de tempo. Mas podem ser relativamente personalizadas com informações pertinentes, ancoradas no contexto e na verdade.

Ignorar essa possibilidade é menosprezar a inteligência do interlocutor, omitir informações e faltar-lhe com o respeito.

  1. September 25, 2017

    Bom texto, contudo e’ verdade: Os brasileiros Sao afetivos, abertos e comunicativos. E dizer Sim faz parte da nossa cultura de ajudar sempre que possivel. Voce esqueceu de mencionar os Americanos na sua lista. Dizer nao para muitos e’ antipatico e egoista. Por isso continuos dizendo Sim.
    ..

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