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Palavras “difíceis”: vamos enfrentar mais um tabu?

31.July. 2017

Palavras difíceis – não use.palavras

Como assim?

Se você quer melhorar sua redação, não aceite regras ou conselhos impositivos sem uma boa explicação.

Reconheço o bom senso da regra que privilegia o que é mais útil para a maioria. Mas as exceções a essa regra merecem ser analisadas, o que não  ocorre nos cursos formais nem nos treinamentos de comunicação.

Repete-se à exaustão que bom é o texto composto de frases curtas e palavras simples, comuns, acessíveis ao público alvo. Nem sempre. Texto bom é texto claro, objetivo, preciso, independentemente do tamanho da construção utilizada (como dissemos no artigo de junho passado).

De qualquer modo, o princí­pio do “texto curto, vocabulário simples” prevaleceu, criando um tabu sobre as palavras incomuns. Poucos são os autores que incrementam seus textos com palavras diferentes. A maioria opta por termos familiares, mesmo que imprecisos para a ideia que desejam transmitir.

Para quem sofre o dilema da escolha, aconselho refletir sobre as seguintes considerações:

1- Precisão e pertinência

Não hesite em usar a palavra mais precisa para o que você deseja transmitir.

2- Mal-entendidos

Optar pelo vocabulário “mais simples” tanto pode gerar erros e mal-entendidos quanto indicar que o seu ní­vel de conhecimento é inferior ao que, de fato, você possui.

3- Pedantismo

Precisão e pertinência são duas qualidades fundamentais na comunicação escrita. Pedantismo é abuso de palavras excêntricas, diferentes.

4- Percepção do leitor

As pessoas percebem a diferença entre exibicionismo intelectual e vocabulário oportuno e adequado. E aceitam bem a inserção de palavras que desconhecem, principalmente quando consultam o dicionário e descobrem que o termo é perfeito para o contexto.

Veja a palavra “prebenda” na coluna de Hélio Schwartzman “Roteiro da empulhação” (Folha de S.Paulo, 29/07/2017, pg. A2). Das duas, uma: ou você entende o significado no contexto ou consulta um dicionário, durante ou depois da leitura. Seja como for, um belo reforço ao que estamos analisando aqui.

5- Valorização do leitor

Muitas vezes, leitores têm uma percepção que escapa aos especialistas da comunicação: sentem-se valorizados com algum grau de sofisticação. Palavras diferentes ou fora do seu padrão associam-se a esse conceito. Por exemplo, no relacionamento empresa-cliente é um recurso com potencial de dar ao consumidor a sensação de que a empresa confia na sua capacidade de compreender a mensagem.

6- Artificialismo

Em oposição, consumidores percebem quando a empresa usa uma linguagem artificialmente popular, ou familiar, em tom de amiga ou conselheira. Normalmente, é uma linguagem encaixada na linguagem típica das cartas comerciais.

E, por último, mas tão importante quanto as exceções anteriores,

7- Não subestime o leitor

Como redator, você encontrará resistência para usar vocábulos incomuns. Mesmo se necessária pela precisão ou pela ausência de um sinônimo adequado, você certamente ouvirá que a tal palavra difícil “não se aplica ao nosso público”.

Dou um exemplo: lisura.

A supervisora do SAC de uma grande empresa estava em dúvida com relação ao uso da palavra lisura na carta que endereçaria a determinados consumidores. Eles haviam reclamado de uma promoção de venda em andamento, por isso, era importante convencê-los da lisura da promoção.. mas sem a palavra lisura.

Apresentei os seguintes argumentos:

  1. Lisura, nesse caso, é a palavra mais adequada porque mais próxima de seriedade, honestidade, imparcialidade e comprometimento.
  2. Afirmar a lisura da empresa equivale a registrar os valores morais da empresa (seriedade, honestidade, imparcialidade e comprometimento) e, especificamente, das suas promoções de venda.
  3. Registrar esses valores também funciona como reforço positivo para a  imagem, a reputação e os negócios da empresa.
  4. Lisura é termo comumente usado na divulgação de concursos e promoções.
  5. Consumidores podem desconhecer o significado de lisura, mas, escrita em uma frase sobre os cuidados da empresa com a imparcialidade da promoção, ela faz sentido.
  6. Promoção realizada com lisura é expressão que remete à ideia de que a empresa, a marca e a promoção agem com honestidade, imparcialidade, isenção e de acordo com a lei.

Para minha satisfação, os argumentos foram aceitos e lisura ganhou seu espaço na carta do SAC.

Nem sempre convencemos. O importante, contudo, é questionar  regras de linguagem que não nos satisfazem inteiramente. E, quando necessário, argumentar.

A meu ver, essa é uma forma de quebrar tabus.

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