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“O Patriarca da Odebrecht”: certo ou errado?

23.May. 2017
por Claudia Atas
Estadão, 08/3/2017

Estadão, 08/3/2017

A antonomásia, quem diria, entrou para o noticiário da Lava Jato! Com “o patriarca da Odebrecht”, jornalistas encontraram uma alternativa de identificação para um dos principais personagens da operação: Emilio Odebrecht. Bom para quem escreve e para quem lê.

Repetir um nome no mesmo parágrafo e até na mesma sentença, por dias seguidos, é uma dor de cabeça estilística. Com essa figura de linguagem, os redatores amenizaram as repetições bem ao gosto do jornalismo – com um toque de ironia.

Minha atenção, contudo, não se prende ao estilo de linguagem. Ainda não assimilei a denominação “patriarca” ao filho do fundador. Norberto, pai de Emilio, fundou uma construtora em 1944, e com ela deu origem ao Grupo Odebrecht, que presidiu até 1991. Morreu em 2014. Para mim, ele é o patriarca.

É certo que o título comporta outros significados. Na Antiguidade, designava o chefe de família dos povos antigos (“Abraão, o patriarca do Velho Testamento”). Atualmente, é designa o chefe eclesiástico de algumas igrejas (“O patriarca de Atenas”), de algumas ordens religiosas e dioceses (“O patriarca do Rio de Janeiro”).

O dicionário Michaelis registra que, por extensão, o título é conferido a pessoa idosa, respeitada e com muitos descendentes. E ao chefe de família respeitado pelos seus membros por sua conduta irrepreensível ou por desfrutar de poder econômico-financeiro. Nesta terceira condição de chefe de família, seria correto chamar Emilio de patriarca – da família Odebrecht.

Pela imediata adesão da mídia, tendo a acreditar que houve aí uma boa sacada, uma construção que “pegou”, uma licença jornalística num quadro de informalidade, no clima da espetacular Lava Jato.

Uma especialista que admiro entende que

A palavra “patriarca”, como temos visto nos jornais, é usada de forma metafórica. O uso figurado comporta uma certa subjetividade, já que tecnicamente falando não é possível falar de patriarca no contexto de uma empresa. A partir disso, acho possível admitir um uso ainda mais distante do sentido original, não mais entendido como o primeiro de uma linhagem ou como seu fundador, mas como a pessoa mais marcante ou importante de um grupo.

Nesse sentido, o conhecimento atual sobre o caso Odebrecht nos leva a considerar o Sr. Emilio como patriarca da “dinastia” industrial, mas, para sabermos se essa designação corresponde à verdade, receio que tenhamos que aguardar ainda por um bom tempo, até que uma leitura profunda, no futuro, feita por historiadores nos arquivos, possa revelar quem foi o verdadeiro patriarca nessa história.

Gislaine Marins, tradutora e professora, com ampla experiência no desenvolvimento de programas para a aprendizagem da língua portuguesa em diferentes níveis e em campos específicos.

O melhor dessa dúvida é a reflexão e o debate que provoca. É constatar a  vivacidade e a dinâmica da língua. É descobrir sua capacidade de gerar e enterrar palavras, expressões e significados.

Atualização: a propósito dessas considerações, recomendo a leitura do  excelente artigo que Gislaine publicou em seu blog. Clique aqui.

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