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Pedantismo gastronômico ignora regra de ouro do jornalismo

13.February. 2017
por Claudia Atas

pedantismoA mídia fez da gastronomia um espetáculo e um filão comercial. Até o mais desinteressado dos indivíduos será capturado pelo suculento e prazeroso mundo das receitas. Estamos todos cercados por shows competitivos, programas tematizados, cenários inusitados, comerciais, notícias quentes e pomposas reportagens.

Há quatro meses comida ocupava 30 das 60 páginas da revista sãopaulo, da Folha de S.Paulo (edição 311): 24 tratavam inteiramente de gastronomia, sendo uma delas publijornalismo (Academia da Carne, frigorífico Friboi). Um desequilíbrio espantoso.

O cerceamento, contudo, me incomoda menos que o pedantismo de parte da mídia especializada, indiferente à regra de ouro do jornalismo –escrever para ser entendido.

Muitos críticos e jornalistas do setor preferem substituir determinadas expressões em favor da compreensão da média do leitorado. Outros preferem mantê-las por julgá-las familiares ao “seu leitor”, ou, então, porque lhes conferem autoridade no assunto.

A reportagem “Espumante com gelo?” (Paladar, Estadão, 28 de dezembro 2016) denota esses dois comportamentos. Reconheço: é duro substituir “connaisseurs” e “chef de cave” – publicados no texto – por “conhecedores”, “chefe de adega” ou “mestre de adega”? No entanto, é viável e desejável explicar estrangeirices ao leitorado. Será que o leitor não preferiria encontrar, entre parênteses, logo após “terroir”, a definição “terreno propício à viticultura”, mesmo que pobre e incompleta?

Redator que privilegia o jargão em detrimento da compreensão do leitor comete dois pecados: omissão de informação e pedantismo. Este trecho da matéria sobre espumantes certamente incomodou a maioria dos leitores: “Quem provar este corte de Pinot Noir com Malvasia de Cândia e Moscato Canelli encontrará uma bebida (…) com (…) um perlage menos delicado (…)”. E, mais adiante, “um corte de Chardonnay e Trebianno feito pelo método Charmat”.

Jornalistas ou não, deveríamos verificar, a cada texto, se a comunicação ficou clara, objetiva, concisa e amigável. Estas quatro virtudes, acredite, guiaram a Agência Nacional de Vigilância Sanitária e a indústria farmacêutica rumo à nova redação para bulas de remédios.

Depois de introduzir nove perguntas – entre elas, “O que devo saber antes de utilizar este medicamento?” e “Para que este medicamento funciona?” – a bula agora se apoia em elementos didáticos, como explicações entre parênteses, menos especializadas ou até populares: “Hipersensibilidade (alergia); “Asma ou febre do feno (rinite alérgica sazonal)”; “Dor no peito (conhecida como angina)”; “Alguns medicamentos antifúngicos”, classificação seguida de quatro exemplos.

Folha de S.Paulo e Estadão também começam a temperar jargão com didatismo. Numa atitude fora do padrão, da Folha publicou (07/01/2017, A6) uma pequena matéria com fartas explicações para conceitos da internet:

“A intervenção ilegal ocorreu na conexão entre os aparelhos dos usuários (celulares, desktops etc.) e os servidores do UOL” (já apresentado como empresa do Grupo Folha).

Houve alteração do DNS (em português, Sistema de Nomes de Domínios), serviço responsável por “traduzir” o endereço do site (por exemplo, folha.com.br) para um endereço IP (Internet Protocol), código que os computadores identificam e usam para encontrar a página.

(…) Isso ocorreu porque os servidores guardam informações em cache (espécie de arquivo para tornar a navegação mais rápida) (…).

(…) apareceram nos “trending topics (assuntos em destaque) no Twitter no Brasil."Este sistema (mídia programática na cauda longa da internet), permite às marcas coletarem milhões de impressões, termo usado no setor que indica a quantidade de vezes que um anúncio é exibido e pode ser visto."

No Estadão, matéria sobre conflito moral na publicidade (02/01/2017, B8), incorpora o tom didático, sem quebra do estilo.

“Este sistema (mídia programática na cauda longa da internet), permite às marcas coletarem milhões de impressões, termo usado no setor que indica a quantidade de vezes que um anúncio é exibido e pode ser visto.”

Do jornalismo às bulas, está provado que o estilo não sai ferido quando se escreve na perspectiva de compreensão daquele que lê. Quanto ao consumo de espaço, a questão se resolve por meio de  concisão – basta cortar informações dispensáveis e/ou frases desnecessariamente longas. 

 

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