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Pirâmide invertida: debate saudável para o bom jornalismo

31.October. 2016
por Claudia Atas

A pirâmide invertida está ou não superada? É ou não incompatível para jornais impressos e, especialmente, para jornais virtuais? As duas perguntas resumem os termos da polêmica que descobri, na internet, quando redigia o post anterior (Escrever para a web é diferente de escrever para jornais?).

O esquema de redação simbolizado na inversão da pirâmide (explicação no final deste artigo) é assunto para muitas páginas. Mas os argumentos decisivos podem ser sintetizados nestes quatro:

1- A pirâmide seria uma fórmula arcaica de organização e hierarquização da matéria jornalística, tanto para a internet quanto para o noticiário impresso. Cynara Menezes, jornalista bem articulada, escreveu em seu site que “pirâmide invertida não é sinônimo de texto enxuto. É sinônimo de texto pobre“. Seus argumentos:

Acredito num texto que capture a atenção do leitor do primeiro ao último parágrafo, sem hierarquia. Tão bem escrito que seja impossível abandoná-lo uma vez que se comece a leitura, como acontece com os melhores livros. Pouco importando se a “notícia” vai estar no início, no meio ou no fim. Sem desperdício de informação “mais” ou “menos” importante, algo subjetivo sobre o qual quem deve decidir não somos nós, jornalistas, mas o leitor. (…) é hora de rever tudo. E matar o lide. (http://www.socialistamorena.com.br/questoes-jornalisticas-a-morte-do-lide/)

2- Leads orientados pela pirâmide seriam ruins porque não cumpririam seu verdadeiro papel: seduzir o leitor. O jornalista Christian Cruz pode ser enquadrado nessa corrente. Durante a 19ª Semana de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero (2011), ele afirmou:

“A função do lide não é necessariamente mostrar todas as informações primordiais logo de cara, mas seduzir o leitor”. A frase foi transcrita por outro jornalista, José Gabriel Navarro (http://brasil.estadao.com.br/blogs/em-foca/piramide-invertida-so-que-ao-contrario/). Na época, Navarro era trainee do Estadão e Cruz, repórter do Caderno Aliás, do mesmo jornal.

3- Os que discordam dessa visão encontram no professor Rosental Calmon Alves um representante bem qualificado. Ele participou do lançamento do primeiro jornal brasileiro na internet (Jornal do Brasil, 1995), foi correspondente do JB em Washington e assumiu, em 1997, o posto de professor titular da cadeira de Jornalismo Online na Faculdade de Jornalismo da Universidade do Texas, em Austin (http://observatoriodaimprensa.com.br/e-noticias/uma-linguagem-em-construcao/)

“Sou um defensor da pirâmide invertida, do texto que vai direto ao ponto, que diz logo do que se trata. Mas é lógico que esta não é a única maneira de se escrever no jornalismo online, ou em qualquer outra modalidade de jornalismo.”

Curiosamente, ele aponta os hábitos ou necessidades dos internautas para recomendar a pirâmide invertida:

“Ir direto ao ponto, numa redação de estilo conciso, só ajuda a comunicação num meio nervoso e interativo como a web, especialmente ao se tratar de hard news, das notícias de última hora que são o forte do jornalismo online na fase atual”.

4- O espanhol Ramón Salaverría se opõe a Calmon. Professor de jornalismo na Universidade de Navarra, onde dirige o Center for Internet Studies and Digital Life, ele não condena, mas restringe o uso da pirâmide invertida.

“É útil para notícias de atualidade sem desenvolvimento hipertextual”, mas não serviria para o jornalismo virtual. “O meio cibernético é, por definição, uma publicação hipertextual. Quer dizer, uma publicação que fragmenta o seu conteúdo em nós; frequentemente centenas e inclusive milhares de nós. Esta fragmentação pode ser realizada seguramente numa ordem decrescente de interesse (ou seja, como uma pirâmide invertida), mas também de forma episódica (cronológica), de forma sequencial.” http://observatoriodaimprensa.com.br/e-noticias/partido-da-redacao-ciberjornalistica/

Ele critica a associação entre pirâmide invertida e a necessidade de se contar num parágrafo tudo o que está acontecendo.

“Totalmente de acordo. Mas o que esta afirmação tem a ver com a pirâmide invertida? Esta afirmação tem a ver com as qualidades de concisão e densidade informativa, aspectos que se referem ao estilo jornalístico, mas não à estrutura da narrativa”. (http://observatoriodaimprensa.com.br/e-noticias/a-tecnologia-nao-e-inimiga/)

A meu ver, algumas premissas precisariam ser mais bem apuradas. Por exemplo, a pirâmide invertida vai além de uma técnica “para lead”. Ela influencia o todo: uma vez que a reportagem começa com um resumo do fato a ser narrado, o jornalista está livre para desenvolver o texto pelo ângulo que lhe pareça mais relevante, mais interessante, mais adequado.

piramide-jogador-com-leadPenso que Cynara Menezes foi radical quando proclamou a necessidade de se matar o lead. Jornais publicam diariamente vários gêneros de matéria, não só em artigos, colunas, crônicas e cadernos de cultura – também nas páginas de esportes.

Cinco dias atrás, o Estadão publicou uma reportagem que mereceu um lead meio literário. “Numa viela, os primeiros chutes de um ídolo” (pg. A20, 26/10/2016) foi uma de várias que cobriram quase três páginas sobre a morte do jogador Carlos Alberto Torres (foto acima).

Exemplo da Folha de S.Paulo, em matéria publicada no último dia 28, mostra que a pirâmide não é a responsável por falta de imaginação ou textos pobres. Veja o lead na foto abaixo:

piramide-aniversario-de-lulaNo mesmo exemplo, outro ponto relevante: nem todas as informações preconizadas pela pirâmide aparecem nesse lead. Mas… quem disse que o lead sempre acaba no primeiro parágrafo?

Para mim, essa falsa métrica caiu por terra quando a “webwriting” levou jornais, como a Folha, a criar ninhadas de parágrafos pelo desdobramento do primeiro, mesmo à custa da lógica.

Seja como for, a cobertura do aniversário de Lula ainda rende outra observação: o contexto é desenvolvido na matéria (e até poderia ser reduzido), na sequência de um lead criativo. E, melhor ainda, com ele, a repórter Catia Seabra seduziu o leitor.

Quanto aos dois professores, dão uma grande contribuição ao debate: Calmon, porque enxerga nas exigências da pirâmide as exigências dos leitores virtuais, que “não leem – escaneiam a página”, segundo a célebre pesquisa de Jacob Nielsen, de 1997; Salaverría, pela explícita defesa da pirâmide pelas virtudes que exige do jornalista e por entender que o esquema também é aplicável em jornais virtuais, já que a fragmentação das publicações hipertextuais pode ser construída tanto na ordem decrescente de interesse (pirâmide invertida) quanto cronologicamente, de forma sequencial.

Acredito que este post cumpre o que promete: uma oportunidade para se discutir jornalismo, o que é sempre saudável para novos e veteranos jornalistas. 

(*) A pirâmide invertida é uma técnica jornalística cujo intuito é garantir a consistência de um lead (ou lide ou abertura de notícia ou reportagem). Todos os elementos que compõem o fato a ser narrado devem estar no início da matéria, conferindo ao leitor a decisão de ir adiante ou desistir do texto. Para obter um resultado coeso, o redator deve responder às seguintes perguntas: o quê? quando? quem? onde e como?, que é a tradução do original inglês what, when, who, where e how. A inversão da pirâmide, com a base na posição superior e a ponta, na inferior, significa que a parte mais sólida da notícia ocupará posição privilegiada: a que se lê primeiro. O esquema leva o redator a deixar para o fecho informações dispensáveis, ou seja, informações menos relevantes ou detalhes que poderão ser cortados, por exemplo, se faltar espaço, sem prejudicar a compreensão da notícia.

  1. Gislaine Simone Silva Marins permalink
    November 1, 2016

    Ótimo aritigo! Debate muito interessante e sempre atual! Obrigada.

    • Claudia Atas permalink
      November 1, 2016

      Gratificante saber do seu interesse pelo artigo. Obrigada!

  2. SOLANGE CRISTINA MAIDA BAZZON permalink
    May 21, 2017

    Claudia, tenho sado seu material para ilustrar as teorias com meus alunos de Comunicação Social. Muito pertinente e enriquecedor. abraço

    • Claudia Atas permalink
      May 23, 2017

      Que bom! Estou feliz com essa repercussão. Espero que seus alunos estejam achando útil. Obrigada.

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