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Escute a sua redação: uma prática que beneficia a linguagem-para-ser-lida

30.July. 2016

Escute a sua redaçãoMeu maior ganho no curso Introduction to Public Speaking (EAD/Coursera) foi lidar com a profunda influência da comunicação-para-ser-lida sobre a comunicação-para-ser-ouvida (escutada). E vice-versa. Com resultados opostos: no primeiro caso, a influência pesa, atrapalha; no segundo, ajuda a sentir o peso e, daí, a melhorar o texto.

Ministrado pelo doutor Matt McGarrity, da Universidade de Washington, o programa mergulha fundo no tema. Ainda assim, considero aquele ganho o mais proveitoso para quem se ocupa da comunicação, como eu.

Redigindo speeches para minhas videolições, descobri que a linguagem-para-ser-lida se intromedia na linguagem-para-ser-ouvida. O processo ocorria com tamanha naturalidade que só notei a intromissão ao escutar as palavras que escrevera.

O predomínio da escrita-para-ser-lida é compreensível, sendo, como é, a matriz linguística do nosso aprendizado, desde o primeiro ano da alfabetização. Surpreendente é descobrir que aquilo que se escreve para ser ouvido pode melhorar a qualidade do que se escreve para ser lido. Essa curiosa inversão ocorre, basicamente, em função da clareza e da objetividade alcançadas na versão pós- leitura.

A técnica de ler e escutar o que se escreve tende a elevar, em vários aspectos, o nível das redações escritas-para-serem-lidas. Aplica-se a quase todos os tipos de texto – relatórios, e-mails, projetos, roteiros de vídeo e muitos outros do tipo escritos-para-serem-lidos. Também é útil para autores de livros e reportagens, particularmente na criação de diálogos, em que calibra a coloquialidade evitando que resultem falsos.

Existem muitas orientações voltadas à qualidade da redação, entre modelos teóricos, práticos, dicas e recomendações. Quanto à técnica de escutar as palavras que você escreveu, funciona como meio: você sente que o conjunto das frases soa mal; percebe um certo peso, ou a perda do foco; observa uma tendência para cansar, confundir.

Então, usa o arsenal de recomendações que já aprendeu em sua vida: na abertura, deixa claro do que vai tratar, organiza as ideias por parágrafos, evita frases longas, encadeamentos sem fim; busca usar o vocabulário preciso para o contexto, para o estilo, etc. etc.

É neste sentido que aconselho a técnica de se escutar o que se escreveu. No parágrafo abaixo, a mensagem é gramaticalmente correta, relativamente concisa e clara. Experimente ler em voz alta:

Quando pergunto às pessoas o que é escrever bem, as respostas variam, mas todas denotam a crença de que escrever bem é um dom, uma habilidade natural. Aqui nasce a descrença em você, aqui nasce o auto preconceito – ou seja, um preconceito contra si mesmo, capaz de levá-lo a um bloqueio mental. Bloqueado, você se impede de aceitar a possibilidade de escrever bem e, portanto, de aprender a escrever bem.

Provavelmente, depois de ouvir esse texto, você concordará que os conceitos principais poderiam ser “desagrupados” com merecidas explicações. A meu ver, o texto seria melhor com estas modificações:

Quando pergunto às pessoas o que é escrever bem, ouço várias respostas. Mas todas revelam algo em comum: a crença de que escrever bem depende de um dom, de um talento natural. Dessa crença nasce a descrença em si próprio: “Não nasci com o dom de escrever bem, portanto, nunca serei um bom redator”.

A diferença entre ler e ouvir uma mensagem é que ouvintes não dispõem de elementos facilitadores que consagramos aos leitores, como voltar a determinadas páginas quantas vezes quiser; anotar; sublinhar trechos; e, no caso do autor, trabalhar com parágrafos, índices remissivos, negrito, asterisco, etc., visando reforçar, ressaltar, acrescentar informações.

Creio que essa perspectiva funciona como exercício valioso a quem deseja escrever cada vez melhor.

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