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A influência da língua web – ou o que replicar tem a ver com reproduzir?

28.June. 2016
por Claudia Atas

Dia desses, a Folha de S.Paulo publicou um lead que dá o que pensar.

Folha de S.Paulo, 12 de junho de 2016, pg. A5

Folha de S.Paulo, 12 de junho de 2016, pg. A5

(…) a presidente afastada Dilma Rousseff viajou ao NE para replicar o discurso de que o governo do presidente interino de Michel Temer é “ilegítimo” e “quer impor retrocessos à população (…)”.

No primeiro momento, deduzi que algum fato novo provocara a presidente afastada – um insulto, uma crítica, uma ação desfavorável à sua gestão. Mais rápido que os olhos, o pensamento construiu a sequência: uma tréplica se desdobraria da atual réplica.

Mas, na sequência, a informação desmontou minha tese. Dilma, simplesmente, repetiria o que vem dizendo desde que o Senado afastou-a do cargo por 180 dias: que o governo do interino é ilegal e irá impor retrocessos à população.

Embora se trate de um erro – a ideia de replicar, na notícia, não era responder nem contestar, mas repetir afirmações – estou mais interessada na origem do erro, para a qual tenho uma hipótese: a enorme influência do Inglês nas nossas vidas, especialmente no ambiente da internet.

Neste sentido, teria havido uma falsa associação, por sonoridade (1) e aproximação de ideias (2) entre os verbos

1- replicar e “reply” – sendo que reply (responder, reagir, contestar) não comporta a ideia de repetir, intenção provável da repórter;

2- replicar (responder e copiar) e “replay”, este sim, reproduzir, repetir (som, imagem, história, jogo, etc.), correspondendo à intenção da redatora.

Acredito que em ambas as possibilidades a jornalista tinha um verbo Inglês na cabeça.

Sem dúvida, a força da língua inglesa tem o poder de confundir redatores. Só não cai nessa cilada quem domina o Português.

  1. June 28, 2016

    parabéns pela elucidação – extremamente inteligente e oportuna

    • Claudia Atas permalink
      June 29, 2016

      Obrigada! Minha cabeça ficou “replicando” o enigma até entender o nó da questão…

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