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Uma história muito mal contada

3.May. 2016
por Claudia Atas
Mariz Valdo Cruz 27 abril

Folha online, 27 de abril de 2016.

Precisão e imparcialidade são as expectativas de quem lê o New York Times. A afirmação é de Margaret Sullivan, ombudsman que sai do NYT para assumir a mesma função no Washington Post. Está na coluna de Paula Cesarino Costa, a nova responsável pela “defesa” dos leitores da Folha de S.Paulo (1º/4/2016, página A6).

Matérias jornalísticas requerem muitas qualidades, mas as duas apontadas por Margaret resumem perfeitamente a essência do bom jornalismo.

Falar mal da Folha é direito, é normal. Mas deve-se reconhecer nela uma virtude: ao instituir uma ouvidoria (1989) foi e continua sendo “o único dos grandes jornais nacionais a pagar um profissional para criticá-lo”. (Apenas O Povo, de Fortaleza, criou acompanhou a decisão da Folha).

Na simpática coluna de estreia, Paula sinaliza as diretrizes do seu trabalho no atual “ambiente político polarizado pelo qual o país passa”: “É momento de o jornalismo assentar-se sobre valores clássicos e consistentes: transparência, precisão, objetividade e pluralismo”. E imparcialidade, como diria a colega Margaret.

Sem dúvida, Paula terá muito trabalho pela frente. O caso do criminalista Antonio Claudio Mariz de Oliveira, que se tornou, de um dia para o outro, ex-futuro Ministro da Justiça de um eventual governo Michel Temer, é um bom exemplo.

Mariz deu muitas entrevistas assim que seu nome foi elevado à condição de futuro titular da Justiça. Começaram as versões e as confusões. Ele foi convidado ou era apenas um nome cotado para o cargo? Apresentou-se como dono do cargo ou desmentiu o convite? Foi descartado por criticar a operação Lava Jato, é um coringa ou serviu para o balão de ensaio da velha raposa?

Informações conflitantes, de jornal para jornal, inclusive no mesmo jornal, são um desserviço ao leitor. Um dos problemas é o jornalista depender de assessores envolvidos com manobras sigilosas ou maliciosas, o que produz, geralmente, narrativas cheia de nuances, como esta:

Antônio Cláudio Mariz concedeu entrevista à Folha criticando a Lava Jato. Temer soube na noite do mesmo dia. “Vamos ver se é isso mesmo amanhã. Se for, se tornará inviável.” Foi. E Temer se viu obrigado a descartar publicamente o amigo. A incapacidade dos aliados de guardarem reserva sobre as conversas que vêm sendo travadas nos bastidores irritou profundamente o peemedebista, que passou a desautorizar publicamente informações atribuídas a ele. (Folha de S.Paulo, 1° de maio)

Elio Gaspari, no mesmo dia e na mesma Folha de S.Paulo, esclarece o quadro:

Mariz é um veterano e bem-sucedido advogado. Entre os seus clientes esteve o Michel Temer que convidou-o para o ministério da Justiça. Os dois se conhecem há décadas e o vice-presidente lê jornais. Sabia há meses que Mariz é um adversário público dos métodos da Operação Lava Jato (…). Na semana passada Mariz deu três entrevistas (…). Começaram a circular noticias de que Temer “não gostou” das entrevistas, classificadas como ruins, erráticas e inoportunas. O nome de Mariz foi “descartado” porque alimentaria versões segundo as quais o vice-presidente gostaria de esvaziar a Operação Lava Jato. Tudo ficção. (…) Se os dois nunca conversaram sobre a Lava Jato, são os únicos brasileiros que discutem política sem mencioná-la.

Muitas contradições seriam evitadas se jornalistas da área política redigissem com distanciamento, levando em conta mais a sua experiência que as palavras matreiras de assessores, e mais os fatos que as suas versões. Por exemplo, a oposição do criminalista aos métodos da Lava Jato sempre foi clara e ficou patente quando assinou (15 de janeiro) um manifesto fartamente divulgado, que compara a Operação a “uma espécie de inquisição (neoinquisição) em já se sabe qual será o resultado”.

Precisão e imparcialidade são mais que dois lemas para salas de aula e salões de conferências. É um desafio permanente para o jornalismo.

 

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