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Aumente a qualidade narrativa com o exercício da observação

30.May. 2016
por Claudia Atas

Tomate invertidoEntre os desafios impostos pelo jornalismo digital, “repórteres terão maior responsabilidade na busca de estratégias para que suas narrativas sejam lidas ou assistidas”. Quanto aos editores, “devem se preocupar com a qualidade jornalística e narrativa, empenhando-se em encontrar as melhores maneiras de contar histórias em múltiplos meios”. Com essas e outras providências, o jornal New York Times prepara-se para enfrentar a revolução digital.

A informação saiu publicada ontem, na coluna Ombudsman da Folha de S.Paulo e comprova, mais uma vez, o valor da qualidade narrativa no jornalismo, um valor clássico a que empresas jornalísticas recorrem para enfrentar a concorrência da leitura fácil e duvidosa e se distinguir em meio à avalanche noticiosa disponível na internet.

Uma das melhores lições que aprendi sobre criatividade ocorreu fora da faculdade de jornalismo e, quem diria, dentro de uma redação responsável por uma “revista técnica”.

Em meados dos anos 1980, o editor de Construção Hoje encantava a equipe com informações teóricas e práticas que nos ajudavam a produzir estruturas, leads, títulos e outros requisitos das matérias de alta qualidade. Sua comunicação era sempre objetiva, motivadora e inventiva.

Com o tempo, descobrimos como Alipio do Amaral desenvolvia e aplicava ideias originais, inovadoras, estimulantes: elaborando informações, sensações e valores a priori estranhos à linguagem profissional.

Foi um sucesso a palestra dele para o setor comercial da empresa, especialmente ao expor uma analogia entre tomates cultivados de cabeça para baixo (que vira em Denver, no Colorado – EUA) e práticas inovadoras, heterodoxas que a maioria das pessoas reluta em aceitar. Ele falava para um público que teria de usar uma nova metodologia de trabalho. Os tomates de Denver viraram uma referência na empresa.

Lembrei-me do episódio quando li o artigo Teori (Indiana Jones) Zavascki, de Elio Gaspari, há algumas semanas, na Folha (basta digitar o título no Google para escolher onde ler). Gaspari desenvolve uma excelente analogia entre “a figura publicamente sorumbática do ministro Teori Zavascki” e o personagem Indiana Jones. Ou melhor, compara bastidores do filme e do Supremo Tribunal Federal:

“Quem quiser usufruir 14 segundos de alegria poderá captar a essência do que aconteceu no Supremo Tribunal e na política brasileira (suspensão do mandato do deputado Eduardo Cunha, na manhã do último dia 5). Basta ir à rede para ver (ou rever) a cena do confronto de Indiana Jornes com o beduíno de roupas pretas”.

A analogia costura o texto, do princípio ao fim. O recurso é bem lembrado, bem aplicado, bem estruturado.

O mais importante, aqui, não é deliciar-se com a leitura. É acreditar que exposições de tomates, cinema e muitas outras atividades, reais ou fictícias, quase sempre oferecem motivos para reflexão e geram ideias. É lembrar, na hora oportuna, que podem enriquecer ou aclarar a mensagem.

Não acredite que a observação como fonte de narrações criativas seja uma dica “prêt-à-porter”, que produza um ganho imediato. Ao contrário, é um recurso que exige memória, imaginação e, ainda, disposição para pensar, experimentar e lapidar a ideia. Como Alipio, ao se deparar com tomates cultivados de cima para baixo, e Gaspari, ao dar trela às sensações de ver em Zavascki um herói cinematográfico.

  1. June 4, 2016

    Olá Claudia, Lendo seu post e refletindo sobre sua argumentação, compartilho minha experiência por meio da linguagem visual. Desde criança convivo com as artes gráficas. Cresci dentro de uma tipografia brincando de achar letras iguais dentro das caixinhas, e delas bem mais tarde apreendi o significado da caixa alta e caixa baixa, que não só pelo tamanho das letras maiúsculas e minusculas. Desde cedo aprendi a ver o mundo através da folha de papel em branco, a ser preenchida com códigos, signos e significados, e o tanto que eles podem influenciar tanto para o bem quanto para o mal. Depois de muito tempo me senti habilitado para navegar por estas praias digitais e nelas manifestar pontos de vista, desejos e apreensões neste tempo vil. A ideia do post foi mostrar o Estado de coisas que estamos vivendo. “…De repente já não sinto segurança em vestir minha camisa de clube, e muito menos aquela vermelha do tempo da União Soviética com o ícone CCPP, puta merda!!! que legado mequetrefe nos proporcionam estes nossos políticos meia boca, para não perder a elegância, mesmo em tempos de cólera. Muitos colegas, amigos escreveram pedindo a versão integral do filme. A princípio pensei: tá de brincadeira!. Vai lá na internet e baixa o filme. Mas enfim…um dos comentário, por sinal elogioso e muito elegante, me convenceu de publicá-lo (aqui – na página) a versão integral do filme Malpertuis, como forma de explicitar minha indignação com este estado de coisas que nos submetem estes políticos mequetrefes. Expostas as vísceras de todos eles em cima da mesa de jantar de uma burguesia plutocrata. Desde o incio deste blog, não pensávamos em atingir trezentos visitantes, e nem foi e nem é esse o objetivo. Mas sim de se relacionar na rede com outras pessoas, novos conteúdos, e a partir delas o debate, reflexão enfim….seguir uma trilha na rede para além do facebook. Projetar ideias, publicar conteúdos e motivar pessoas a navegarem no blog, ao invés de ficarem se alimentando da tábua rasa que circula no facebook. Essa é a iddeia original do blog

    Existirmos. A que será que se destina.

    https://iddeiaculturaepesquisa.com/2016/04/01/malpertius/

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