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Oportunidade x oportunismo: a reportagem de Ernesto Paglia

5.December. 2015
por Claudia Atas

Mariana - Foto LágrimaHoje faz trinta dias que aproximadamente 30 milhões de metros cúbicos de lama, vazados de uma represa da mineradora Samarco, sepultaram um vilarejo, asfixiaram o Rio Doce e deixaram nove cidades ficaram sem água.

A mídia prestou um bom serviço, embora prejudicado, na primeira semana, por informações desencontradas, típicas de coberturas iniciais de acidentes.

Entre tantas reportagens, uma me chamou a atenção por representar interessante dilema ético. Foi o caso da matéria de Ernesto Paglia, exibida no Jornal Nacional em 17 de novembro passado, doze dias após o rompimento da barragem (http://globoplay.globo.com/v/4615844/)

Na época, assombro e consternação eram gerais. Duvidava-se da viabilidade tanto de revitalização da Bacia do Rio Doce quanto da recuperação econômica do seu entorno.

Mariana foto Salgado LinkedinNesse clima de comoção nacional, foi ao ar a consoladora reportagem de Paglia e seu surpreendente messias – Sebastião Salgado, fotógrafo internacionalmente consagrado e, como o público então ficou sabendo, também um ativista ambiental.

O que os telespectadores continuaram ignorando foi a parceria entre Salgado e a vilã da história – a Vale. Acionista majoritária da Samarco, a antiga Vale do Rio Doce, hoje Vale, patrocina várias atividades de Salgado. Essa omissão poderia classificar a reportagem de Paglia como inadequada, oportunista, inidônea?

Na perspectiva do que se transmitiu ao público, a matéria foi claramente informativa e oportuna. A audiência tomou conhecimento de que (1) o fotógrafo consagrado também é um ativista ambiental; (2) criou o Instituto Terra (patrocinado pela Vale) e está recuperando uma grande área afetada pela degradação ambiental; (3) propõe uma solução factível; (4) a proposta foi testada, com bons resultados, na própria Bacia do Rio Doce.

Mariana foto peixeDesse ponto de vista, um trabalho jornalístico na linha edificante, com um final feliz: esperança e entusiasmo na conclusão da reportagem.

Para quem sabe que a Vale financia os trabalhos de Salgado, tanto os fotográficos quanto os do Instituto Terra, soa cínica a solução de Salgado para a destruição que seu próprio patrocinador provocou.

Para Kiko Nogueira, um de seus críticos, “seja qual for a quantia que a Vale paga para patrocinar Sebastião Salgado, é pouco diante do serviço de relações públicas que ele presta.”

Diretor-adjunto do Diário Centro do Mundo, Nogueira informa que a Vale patrocina Salgado “desde, pelo menos, 2008. Banca o Projeto Gênesis, um ambicioso registro de uma volta ao globo por 32 regiões extremas. ‘É sobre um planeta intocado’, diz ele (Salgado). Para a Vale, no site oficial, é ‘uma ilustração artística do compromisso com o desenvolvimento integrado nas comunidades em que atua (…). O projeto mostra que a coexistência harmônica entre o homem e a natureza é primordial para o equilíbrio’”.  (http://www. diariodocentrodomundo.com.br/sebastiao-salgado-a-vale-e-o-jornal-nacional-por-kiko-nogueira

Não menos ácido é o artigo “Quando deixei de admirar Sebastião Salgado!”, publicado nos sites do fotojornalista Rodrigo Baleia e do jornal GGN. Baleia acusa Salgado de “assumir a mitigação dos impactos socioambientais ocasionados pelo rompimento da barragem da mineradora Vale/Samarco.” E confessa:

“Eu, como muitos, também era um admirador do trabalho e do posicionamento de Sebastião, mas isso foi mudando (…). Toda e qualquer admiração que tinha por ele foi por água abaixo, ao vê-lo elevando o nome da mineradora em seus discursos em prol das causas socioambientais. (…) Em minhas andanças, tomei conhecimento de um lado obscuro da mineradora Vale que iam (sic) desde ações do Ministério Publico Federal contra o envolvimento da mineradora com trabalho escravo até destruição da Floresta Amazônica. (…) se hoje eu tivesse um livro de Sebastião Salgado, estaria levando o mesmo para livraria de onde comprei e pediria meu dinheiro de volta”.  http://jornalggn.com.br/noticia/quando-deixei-de-admirar-sebastiao-salgado-por-rodrigo-baleia

Obviamente, as críticas são sérias, oportunas, fundamentais. Considero injusto, porém, desqualificar a reportagem e o repórter, como fazem Nogueira e Baleia em seus sites.

No primeiro caso, porque conferiram inegável valor à reportagem o foco e as circunstâncias. Ou seja, a proposta capaz de salvar o Rio Doce e recuperar a economia da região foi divulgada no contexto de um imenso vazio de saídas para o desastre.

Além do mais, todos os noticiários que vi, ouvi e li estavam impregnados das marcas Vale e Samarco e de abundantes responsabilizações pelo desastre de Mariana. Pode-se lamentar a omissão da parceria entre Salgado e a Vale. Mas não se deve ignorar as qualidades da reportagem de Paglia.

No aspecto estilo, o repórter permitiu-se alguns apelos emotivos, é verdade. A meu ver, Paglia reproduziu as diretrizes do padrão globo – por sinal, adotado por várias  emissoras.

De qualquer forma, texto e imagem construíram uma eficiente narrativa cronológica. Em pouco mais de seis minutos, telespectadores transitaram da natureza intocada à degradação e desta à revitalização do rio e das matas nativas; de personagens indígenas (alusão ao cenário original e à profunda ligação dos primeiros habitantes à natureza) a produtores rurais (a “catequese” em prol da reconstituição das nascentes do rio, 80% delas ameaçadas de poluição ou extinção).

Reportagens são constituídas de informações sobre fatos e suas decorrências. Cabem críticas. Mas, a meu ver, as que li foram insuficientes para condenar Paglia e sua matéria.

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