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Título preconceituoso contamina reportagem da Folha

22.August. 2015
por Claudia Atas

Professores podem não despertar saudades, mas deixam marcas. Antônio Flávio Pierucci, respeitado estudioso de sociologia da religião, marcou minha memória com sua irreverência – a refinada ironia com que apimentava seus textos acadêmicos e jornalísticos.

Folha de S.Paulo, 15 de agosto de 2015, pg. B8

Revista da Folha, Folha de S.Paulo, 15 de agosto de 2015, pg. B8

Lembrei-me de Pierucci na semana passada, catorze anos depois de frequentar suas aulas sobre Religiões Populares, na graduação de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo. A marca deixada pelo professor ressurgiu ao ler o seguinte título, na Folha de S.Paulo:

“Shopping” de religiões, espaço no RS reúne templos e pirâmides de energia

Com ou sem aspas, nesse contexto shopping refere-se a práticas comerciais, que, por sua vez, remetem a objetivos ilegítimos – muitas vezes escusos – em se tratando de relacionamentos baseados na fé. Surpreendentemente, a matéria não sustenta a oração do tituleiro.

Em meio a explicações e construções esdrúxulas para outsiders – castelo, pirâmide, templos aborígenes e a “catedral de umbanda” –, o repórter não apimenta o texto. Sem ironia ou deboche velado, relata a visão de uma mulher e a missão que se atribuiu: criar um “espaço universalista”. Quarenta e dois anos depois, o conjunto místico agrupa 27 templos relacionados a diferentes crenças religiosas. Tanto o ingresso quanto o atendimento espiritual são gratuitos, informa o jornalista. Possíveis ilações ficam fora da reportagem.

A isenção do repórter e a fina ironia do pesquisador de religiões são duas boas lições de comunicação escrita.

No caso do pesquisador de religiões populares, o estilo se fundamentava no conhecimento e no comprometimento. Em 2007, falou, ao mesmo jornal, que havia uma tendência à imitação entre as religiões; e explicou:

“É como ocorre no comércio alimentício. Tem o McDonald’s e o Bob’s (…) Isso ocorre porque é muito fácil mudar de religião hoje em dia, sob o marketing intenso na TV e, principalmente, na web”. (…) No fundo, todas (as religiões) alegam que Deus é um só. Mas, na verdade, o que existe é uma guerra entre deuses.”

No caso da Folha, a leviandade do título contaminou a leitura do texto. Além de induzir à leitura na perspectiva comercial, obscureceu a isenção e o respeito com que o repórter cumpriu sua pauta.

 

 

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