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Comunicação e jornalismo não verbal – riqueza inexplorada

27.January. 2015
por Claudia Atas

Linguagem corporal é um recurso que o jornalismo pouco explora, no texto e na imagem. O ser humano gera milhares de sinais – 250 mil só em expressões fisionômicas (1) – mas a comunicação profissional não aprendeu a lidar com eles.

Estudiosos do assunto acreditam reconhecer, pela linguagem corporal, contradições entre o que uma pessoa fala e o que pensa. Jornalistas, felizmente, não se arriscam nesse exercício, embora possam chegar a resultados semelhantes com sensibilidade e técnica próprias do ofício – dando crédito à percepção e apurando melhor os fatos.

A relação entre jornalismo e linguagem corporal é mais intensa do que se imagina. Notícias publicadas recentemente mostram essa associação em diferentes e curiosas abordagens. Veja estes exemplos de linguagem corporal como objeto e como componente da informação:

Gesto como objeto de informação

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  • Arcebispo de Manila explica ao Papa o significado, nas  Filipinas, da mão erguida com três dedos (polegar,  indicador e mínimo) apontados para cima.
  • Gesto do humorista francês Dieudonné M’Bala M’Bala em cena de 2012 (segundo a Folha de S.Paulo). A imagem foi a única ilustração da reportagem que o jornal publicou, no último dia 17, a propósito da detenção do humorista, atualmente processado por apologia ao terrorismo.
  • O jogador grego Giogos Katidis comemora seu gol, em 2013, com uma saudação nazista que você pode comparar ao gesto executado pelo seu autor, Adolf Hitler.

A respeito de Dieudonné, é preciso observa que

1- A imagem não está diretamente associada à reportagem: não mostra o humorista sendo detido ou após a detenção. Serve para reafirmar sua reputação de polemista, simpatizante da direita radical e antissemita.

2- Mão no coração permite ler “Eu amo Coulibaly”, no contexto da repercussão do atentado ao semanário Charlie Hebdo, no início do mês e, também, “Eu me sinto Coulibaly”, no contexto da reportagem da Folha. A frase, postada pelo humorista em sua página no Facebook – provocação, trocadilho ou solidariedade? – referia-se a Amedy Coulibaly, o homem que matou, e foi morto, durante um ataque a um mercado judeu, dois dias depois do atentado dos irmãos Kouachi ao semanário Charlie Hebdo.

3- O gesto, diz a Folha, foi interpretado por alguns críticos como saudação nazista. A informação completa e esclarecedora pode ser lida em El País: “Sua provocação-estrela é (…) um gesto de sua invenção, que ele define como dar uma banana para o sistema, mas que seus detratores veem como uma homenagem à saudação nazista. Com ele, Dieudonné despertou na França demônios que nunca estiveram totalmente adormecidos.” <http://brasil.elpais.com/brasil/2014/01/03/internacional/1388781046_885860.html>

Quanto à foto de Katidis, escolhi por se tratar do único site em que vi essa “meia saudação” criada por um corte que mutila não só o braço como o ponto central da notícia e da imagem. <http://oglobo.globo.com/esportes/jogador-grego-banido-da-selecao-apos-gesto-nazista-7864495>

Gesto como elemento da informação 

Gestos Obama com título

O presidente norte-americano Barack Obama aponta o dedo para a plateia – gesto que especialistas não recomendam porque interpretam como expressão de autoridade e indicação de submissão (aos que são apontados). (²)

Note que esse gesto e essa relação também se encontram no mundo corporativo, entre apresentadores (palestrantes, conferencistas, etc.)  e sua audiência.

O aspecto importante desse exemplo, porém, é a falta de reciprocidade entre os elementos verbal e não verbal: título e imagem estão em desacordo. E, ainda: as frases de Obama,na matéria, não condizem com a sisudez, a tensão e a sugestão de advertência transmitidas pela foto. (http://blogs.estadao.com.br/link/obama-se-diz-contra-criptografia-em-smartphones/).

Como se vê, linguagem corporal não deve continuar a ser vista como elemento acessório da comunicação escrita, em função meramente decorativa, ilustrativa – dispensável, portanto. Nesta fase de comunicação extrema – imediata, multidestino e multiforma – internautas se apropriam dos meios (canais, palavras, imagens) e se fazem redatores, tornando-se objeto de debates acalorados sobre seu papel na criação e na disseminação da informação. Cabe refletir, portanto, sobre o papel e o uso da linguagem não verbal pelos comunicadores profissionais.

Dentro de alguns dias, publicarei uma segunda avaliação – agora, no foco deste artigo – da imagem que postei neste blog (2012) e que intitulei “A Mater Dolorosa dos Jogos Olímpicos”.

(1) Anthropologist Ray Birdwhistell pioneered the original study of non-verbal communication (…). He estimated (…) we can make and recognise around 250,000 facial expressions. <http://e-edu.nbu.bg/pluginfile.php/331752/mod_resource/ content/0/Allan_and_Barbara_Pease_-_Body_Language_The_Definitive_Book.pdf>

(²) Dedo em riste possui outros significados. Um dos que mais encontramos: norte-americanos que adentram um recinto para uma apresentação ou discurso, sorriem, efusivamente, apontando o indicador para várias pessoas, uma a uma. Telespectadores não veem, mas sabem que eles estão identificando, reconhecendo pessoas, destacando-as da multidão, como que dizendo “você veio!”, “obrigado pelo apoio”, etc. Um gesto que os brasileiros já começam a imitar.

  1. Gislaine Marins permalink
    January 30, 2015

    Como sempre, ótima e pertinente nas observações!

    • Claudia Atas permalink
      January 31, 2015

      Vindo de uma especialista como você,o cumprimento é um incentivo extraordinário para este blog.

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