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O verbo mais popular do jornalismo brasileiro

16.September. 2014
por Claudia Atas

Escócia PNG com falaFazer é um dos verbos mais usados no jornalismo brasileiro. Como bom curinga, é a opção preferencial de nove entre dez redatores de quaisquer textos, de quaisquer setores. Ultimamente, seu emprego vem se expandindo para assumir funções além de sua alçada.

A Folha de S.Paulo deu um bom mau exemplo no último dia 14 (A20). Veja o título do meio da ilustração reproduzida ao lado: não se faz uma decisão  – toma-se uma decisão.

Aconselho a se libertar dessa muleta adotando um mecanismo de alarme bastante eficiente: transforme fazer em palavra-tabu. Assim, toda vez que um fazer rondar seu texto, a hesitação deterá seus dedos e você se perguntará – posso eliminar esse fazer, tem sentido este fazer? Por exemplo, este título da Folha, de 25/6/2014:

Grupos prometem fazer protesto contra prisão de manifestantes em SP   http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/06/1476057-grupos-prometem-fazer-protesto-contra-prisao-de-manifestantes-em-sp.shtml

Evidentemente, protestar é mais conciso e forte que  fazer um protesto! 

Você não poderá eliminar o famoso curinga quando seu complemento for um qualificativo: fazer um protesto grosseiro… Mas é possível mudar a construção: protestaram grosseiramente, ou de modo grosseiro. Sempre será melhor.

  1. September 17, 2014

    Prezada Cláudia Ata

    Sua observação é útil e oportuna. Da mesma forma, qual a justificativa para a “inundação” de “por conta” que afoga textos e frases de redatores, repórteres, apresentadores e comentaristas de rádio e televisão, entre outros, de uns tempos para cá?

    Parece que “por causa”, “devido a “, “em razão de “, “em consequência de”, “diante de” e outras locuções prepositivas foram definitivamente enterradas.

    A princípio, pensei que minha irritação, quando ouço um “por conta” injustificado, fosse reflexo da intolerância de ranzinzas e, talvez, eu estivesse me tornando em um deles. Depois, comecei a notar que não se trata de uma queixa minha somente. Muitos outros colegas se incomodam com o modismo.

    Você se lembra, claro, do “gerundismo”, praga cuja “infestação” diminuiu, felizmente. Ao que se nota, porém, a expressão cedeu espaço para o “por contismo”, devastador.

    Saiba de meu alívio ao ver este artigo, pois, sem dúvida, toca num ponto que vale a pena questionar: faltam inspiração e talento à nova geração de profissionais ou estamos diante de um problema sério de desconhecimento do nosso idioma?

    FG

    • Claudia Atas permalink
      October 6, 2014

      Olá, Flavio.
      O “por conta” já me deixou bastante irritada – agora, nem tanto porque, na minha percepção, seu uso vem caindo. Se você digitar “cacoetes linguísticos”, no botão de busca deste site, encontrará um post sobre o abuso dessa e de outras locuções (15/6/2012).
      O “gerundismo” – também aqui minha percepção é um pouco diferente da sua – parece que se instalou. Ouço muitos operadores de telemarketing e outros profissionais “gerundiando” livres e soltos.
      Às duas possibilidades que você menciona para explicar a razão de tanta negligência na comunicação escrita acrescento uma terceira: penso que, atualmente, gramática e estilo preocupam uma elite que aprecia ou precisa escrever com apuro; a maioria das pessoas vê na redação um mero instrumento para troca de informação. Que incoerência: tantos discursos e conselhos, dentro e fora do Linkedin, para se buscar a diferenciação no mercado e poucos se lembram de que uma das armas é a faculdade de escrever bem!
      Muito obrigada pela opinião! Continue comentando, especialmente quando discordar.

      • October 6, 2014

        Olá, Claudia Ata.

        Agradeço a deferência da resposta. Suas razões parecem-me corretas ou, pelo menos, adequadas ao tempo atual. Sendo assim “naum vo + diskuti a kestão”. KKKKKK
        Seu site é ótimo.

        Grande abraço.

        • Claudia Atas permalink
          October 7, 2014

          Estamos juntos em algum grupo do LinkedIn?

  2. Maria de Lourdes Botelho permalink
    September 22, 2014

    Oi, Cláudia, neste caso está me parecendo uma certa tradução literal, pois em inglês é mais comum dizer-se MAKE A DECISION em vez de TAKE A DECISION. Existe inclusive a expressão DECISION-´MAKING que quer dizer tomada de decisão.
    Bj
    Lourdes

    • Claudia Atas permalink
      September 22, 2014

      Bem observado. A influência dos norte-americanos sobre os brasileiros continua firme e forte. Abraços.

  3. Afonso José de Sousa permalink
    October 23, 2014

    Concordo com você Claudia, eu já havia observado sobre o uso do verbo fazer, não é de hoje que eu tenho evitado o seu emprego substituindo por outra palavra e/ou colocação. Abs.
    Afonso José – Jornalista

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