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Três construções “boas de errar”

20.April. 2014

Qual é a construção correta:

“A expectativa era que todos viessem” ou “a expectativa era de que…”?  
“Quase todos que prometeram, vieram” ou “quase todos os que prometeram…”?
“No Brasil, se consome, em alimentos, pelo menos 14 venenos proibidos no mundo”? Ou seria se consomem? 

Você já procurou resposta para uma dúvida gramatical e não conseguiu porque… não sabia o nome do problema? Caso das frases acima, aposto, ótimas para criar esse tipo de insegurança.  

Por sorte, uma professora doutora (Gislaine Marins) que ama o que faz, a ponto de compartilhar seu conhecimento,  (http://palavrasdebulhadas.blogspot.com.br/), nos socorre aqui:

1. Com preposição ou sem preposição? 

Certificou-se que as portas estavam fechadas / certificou-se de que…;
 O fisco suspeita que agiram de má fé / suspeita de que agiram…;
A expectativa era que o PIB crescesse 5% / A expectativa era de que o PIB…;
Foi informada que havia vagas / foi informada de que havia vagas; 
Insistiu que o e-mail fora enviado/ insistiu em que o e-mail…; 
A possibilidade que você seja sorteado é pequena / a possibilidade de que você seja sorteado…;
Cresce a convicção que se deve aprovar a pena de morte /cresce a convicção de que…

2. E neste caso?

Comunicamos a todos que desejam participar do debate que permaneçam /  Comunicamos a todos os que desejam participar…

3. Qual a concordância verbal adequada (veja o negrito):

Tem gente que atravessa a rua para escorregar na casca de banana que está na outra calçada. A doutora Dilma atravessou o Atlântico para escorregar em Lisboa pelo simples culto à blindagem de suas agendas. Transformou um simples jantar em reunião da VAS-Palmares. Acreditar que a ex-ministra-chefe de Comunicação Helena Chagas tivesse algo a ver com essa obsessão exige que se desconheça as duas… 
(Elio Gaspari, Folha de S.Paulo, 02/02/2014)

Que você, que eu desconheça? Ou que se desconheçam…

Respostas de Gislaine:

1: Em todas as alternativas acima, a resposta correta é sempre a segunda, ou seja, com preposição. Não há uma explicação gramatical “lógica” para a necessidade da preposição – a questão é histórica. A única consideração que podemos fazer é de tipo sociolinguístico: no uso da preposição constatamos uma sutil separação entre os poucos falantes que privilegiam a riqueza historicamente sedimentada na língua e a maioria dos falantes que, mesmo errando, aposta em uma construção mais simples e direta. Neste caso, a única certeza são as listas fornecidas pelas gramáticas e pelos dicionários de verbos.

Um uso inovador é sempre visto em princípio como erro gramatical, pois uma mudança na língua leva muito tempo para ser consolidada. Nesse sentido, basta lembrar a velha polêmica da contração da preposição “para” que nos anos setenta costumava ser escrita “pra” e que hoje recebe uma interpretação bem clara: “para” é a preposição usada na forma escrita; “pra” é uso informal e oral. Em relação à supressão das preposições, o princípio é análogo: prudência nunca é demais, se não quisermos que o nosso texto salte aos olhos por questões que distraem o leitor dos aspectos que consideramos essenciais.

2: Ambas as construções estão corretas. Podemos escrever “todos que”, “todos os que…” ou mesmo “todos aqueles que desejam…”.

Os brasileiros tendem a especificar expressões nominais. Deixar de lado as especificações ocorre ou por ser uso regional, como o português falado em certas zonas do Nordeste, que dispensa o artigo antes dos nomes próprios; ou para indicar um distanciamento que pode ser percebido como formalidade. O título de reportagem “Governador repassa verbas para a Secretaria da Cultura” revela menos proximidade do que esta hipotética manchete: “O Presidente fez um apelo durante a Assembleia da ONU”.

Pessoalmente, gosto da expressão “todos que” – ela não produz eco (todos os – repetição de “os”) e é mais sintética, sem perder em termos de conteúdo. Mas, se você deseja evidenciar que se trata de “todos” (todos mesmo!), então a ênfase que a expressão “Todos os que desejam” dá aos termos “todos” e “que” é de valor indispensável. Em resumo, o contexto e que determinará uma ou outra escolha.

3: O correto é dizer “ (…) Acreditar que a ex-ministra-chefe de Comunicação Helena Chagas tivesse algo a ver com essa obsessão exige que se desconheçam as duas…“.

Na linguagem falada tendemos a colocar os verbos no singular, mesmo quando se trata de uma passiva sintética – exemplo: “Vende-se casas”, quando o correto é “Vendem-se casas” (“casas são vendidas [por alguém]”), com o agente da passiva no plural; no caso analisado, “que se desconheçam as duas”, ou sejam, “que as duas sejam desconhecidas [por alguém, que pode ser o leitor]”). Como o Elio Gaspari é um grande jornalista, creio que o  erro de concordância verbal só pode ter sido um lapso.

Vale a pena observar que se trata de uma frase complexa. Além da passiva sintética (se), temos o uso do infinitivo pessoal (acreditar), que poderia ser especificado para benefício da clareza: “Acreditar [você, o brasileiro] que a ex-ministra-chefe de Comunicação Helena Chagas tivesse algo a ver com essa obsessão exige…”.

 

 

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