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Parêntese, o sinal banalizado

20.July. 2012
por Claudia Atas

O que há em comum entre uma receita de nhoque com bacalhau e o artigo de Dora Kramer (18/7/2012) é um sinal ortográfico.

Para que, afinal, servem o parêntese ou os parênteses? É comum usar esse sinal para dar uma “quebrada” em frases longas, mas, também, por razões que nada têm a ver com digressão ou informação secundária que o autor quer ou precisa inserir num determinado ponto do texto.

Uma vez, ouvi de um diretor de redação um conceito que passei a observar daí em diante: não colocar entre parênteses o que for essencial para a compreensão. Ou seja, vai para dentro dos parênteses o que não estiver diretamente relacionado com o raciocínio que o autor vem expondo. Por exemplo, dados bibliográficos e explicações para ajudar o leitor a entender o contexto.

Observe, na receita do Nhoque com Bacalhau (18/7/2012), quantas informações importantes se encontram entre parênteses e, no entanto, são essenciais até para pessoas familiarizadas com as panelas:

3 xícaras de nhoque congelado (já cozido); 400g de bacalhau congelado (dessalgado); Acrescentar o bacalhau e mexer com cuidado (quando colocado na frigideira, suas postas se desmancharão em lascas, algumas maiores outras menores). Tirar a panela do fogo e acrescentar o nhoque (para o preparo, seguir instruções da embalagem).

Informações de volume – “1 colher (sobremesa) de alho picado” – são colocadas entre parênteses devido ao problema de repetição. Mas, esse é um uso estético ou relacionado à economia de espaço, solução compreensível.

Caso contrário são os parênteses da jornalista Dora Kramer: “(…) é preciso muito mais diante do que governantes e (por que não dizer?) governados deixaram acontecer na cidade síntese do Brasil à vista de todos (…) Mas, uma construção de décadas feita na base da conjunção entre a leniência (não raro a cumplicidade) das autoridades e a complacência da sociedade (…)”

A meu ver, a articulista resolveu bem a colocação do sinal de interrogação, sem transformar toda a frase em uma pergunta, e adicionou comentário interessante, porém não parte integrante do raciocínio  desenvolvido.

Na comunicação corporativa, é fundamental trazer para o “primeiro plano” o que se deseja informar, conscientizar, fixar. Nesse sentido, banir o parêntese desnecessário é mais uma arma a favor dos comunicadores em sua batalha diária: tornar a mensagem fácil de ler e fácil de entender.

  1. Renata Andrade permalink
    September 19, 2014

    Claudia, conheci o seu site hoje cedo e, desde então, tenho lido os seus artigos. Eles são ótimos!

    Sempre tive dúvida com relação a esse “por que não dizer?” no meio de uma frase. Há um tempo, vi uma pessoa escrevendo de uma forma que me pareceu ok, mas que eu ainda não sei se é correta. Posso pôr somente o sinal de interrogação entre parênteses?

    Um abraço!

    • Claudia Atas permalink
      September 21, 2014

      O “por que não dizer fica bem quando o autor de crônicas e artigos tem liberdade estilística. É um recurso coloquial, com várias conotações: “cria” um diálogo com o leitor; sinaliza ironia; indica coragem, ousadia, transparência – neste último caso, é como se dissesse: “Tem gente que não diz, mas eu digo”. Mesmo assim, não deixa de ser maneirismo, enfeite e, portanto, supérfluo. Afinal, se o autor vai dizer, então o “por que não dizer?” é desnecessário. Quanto a colocar unicamente o sinal de interrogação entre parênteses, desaconselho: indicaria um dúvida pessoal, uma marca de revisão esquecida no texto e outras deduções do gênero. Jamais seria compreendida no contexto que discutimos acima. Obrigada pelo elogio e um abraço.

      • Renata Andrade permalink
        September 22, 2014

        Obrigada, Claudia!

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