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Um post especial: análise do teste

1.October. 2011

O teste de conhecimento, que publiquei dia 10/9 e respondi em 17/9,  mostra erros e más construções que confundem até os “bons de português”. Achei que valeria a pena produzir um post especial sobre aquelas questões. 

É o que você encontra hoje – uma entrevista com Gislaine Marins, profissional com conhecimentos, habilidades e inspirações que podem ser comprovados no blog http://palavrasdebulhadas.blogspot.com/ Aqui está:

CA: Por que é ruim a construção “Terceirizados vão fazer covas e encontram ossos em cemitério”? 

GM: A locução verbal “vão fazer” equivale ao futuro do presente farão”. Na linguagem coloquial, às vezes perdemos de vista essa acepção e interpretamos o “vão” como um elemento dissociado do verbo no infinitivo, percebido um complemento e não como parte de uma locução verbal. Dou um exemplo para que isso fique mais claro: “Vou para o trabalho a pé” – “Vou trabalhar a pé”. No primeiro caso, o verbo “ir” é claramente um presente (um transitivo circunstancial, característica pouco estudada e muito usada); já no segundo exemplo, utilizei o verbo “trabalhar” como equivalência de “para o trabalho”. Observem que esse exemplo não deixa ambiguidade, pois não posso dizer “Trabalharei a pé”, mas somente “irei a pé”. O título que estamos analisando dá essa margem que confunde o leitor: os “funcionários” fazem ou farão covas? É absurdo que eles primeiro encontrem os ossos e depois abram as covas. O leitor sabe disso. O autor, contudo, pode melhorar a construção evidenciando a ideia de consecução entre o fato de abrir covas e encontrar ossos: “Terceirizados encontram ossos ao abrir covas em cemitério” (“abrir”, não “abrirem”, já que o sujeito que encontra os ossos é o mesmo que abre as covas).

CA: “Abrir covas em cemitério” pode ser considerado pleonasmo?

GM: A questão é interessante: não há pleonasmo bom ou ruim em absoluto. Se usado com intenção estilística é uma figura de linguagem, se usado desnecessariamente é um vício. Isso dá margem para muita discussão, pois em certas circunstâncias o elemento a pesar na balança é subjetivo: autor, leitor e crítico podem ter opiniões divergentes sobre o efeito da expressão. No caso do título que estamos avaliando, eu optaria por uma maior concisão do título, pois o leitor pode supor que covas geralmente são abertas nos cemitérios. Se a descoberta tivesse ocorrido em uma igreja, por exemplo, local em que raramente as pessoas são enterradas, mas onde isso eventualmente acontece, então a designação de lugar poderia adquirir outra relevância.

CA: Na questão 3, qual é a regra para “trata-se de”?

GM: A regra básica é lembrar que cada verbo tem o seu sujeito, a menos que seja um verbo impessoal. Pode acontecer de dois ou mais verbos terem o mesmo sujeito, mas não o contrário. Em casos como o do teste, a minha sugestão é tomar muito cuidado com a partícula “se”. Em presença de verbos que requerem preposição (tratar, precisar, necessitar etc.) o “se” indica um sujeito indeterminado: “Não se trata de pesquisa eleitoral” (é preciso eliminar o sujeito ou escolher outro verbo para compor a frase). Quando os verbos exigem complemento direto (vender, alugar, mostrar etc.) o “se” indica uma construção passiva: “Divulgaram-se os resultados eleitorais”.

CA: A frase da questão 4 está mal construída. Como explicar por que e como seria uma boa construção?

GM: As referências a espaço, tempo, intensidade, modo etc. (advérbios, locuções adverbiais) podem ser colocadas no início, no meio ou no fim da frase. É preciso tomar cuidado com essa liberdade de escolha, evitando que isso dê margem a frases que confundem o leitor. Para não errar, o melhor é colocar todos os elementos na ordem direta: sujeito – verbo – complementos (os adjuntos nominais e verbais após o sujeito e o verbo respectivamente). Feito isso, para dar mais destaque a algum trecho da frase, é possível deslocar, inverter a posição dos termos, suprimir, são inúmeras as possibilidades. O problema do título “Aluguel em São Paulo sobe mais de duas vezes que a inflação em um ano” refere-se a esse tipo de escolha. Podemos começar por identificar o sujeito e o verbo: “Aluguel sobe”. Feito isso, acrescentamos a comparação: “Aluguel sobe mais que a inflação”. Queremos quantificar quanto sobe mais que a inflação? Então a solução é a seguinte: “Aluguel sobe duas vezes mais que a inflação”. Agora só falta indicar o período em que o aluguel subiu e onde isso aconteceu: “Aluguel sobe duas vezes mais que a inflação em um ano em São Paulo”; mas a repetição próxima da preposição “em” não fica bem, então desloco a indicação de lugar para uma posição de destaque no início da frase: “Em São Paulo, aluguel sobe duas vezes mais que a inflação em um ano”. Equação solucionada.

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