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O que se aprende com textos corretos e elegantes

9.February. 2011
por Claudia Atas

O advogado do ex-presidente da Libéria Charles Taylor deixou nesta terça-feira a sala de audiência do Tribunal Especial para Serra Leoa (TESL), recusando-se a assistir ao início da leitura da acusação. “Não acreditamos que seja apropriado participar” da leitura da acusação, declarou Courtenay Griffiths, advogado de Taylor, aos juízes do TESL, cuja sede fica em Leidschendam, perto de Haia. O advogado criticou a decisão dos juízes de não aceitar a apresentação do documento que resume os argumentos da defesa, vinte dias depois da data limite fixada pelo tribunal. “Nosso dever é sair” afirmou o advogado. A presidente Teresa Doherty ordenou em vão que Griffiths se sentasse para ouvir a acusação. “O processo vai seguir, já houve muitos atrasos”, afirmou. (…)

Esta notícia (site Terra, 8/2/11) merece elogios do ponto de vista redacional. Você percebe que o texto dele é bom, mas vale a pena analisar alguns pontos:

  • “Deixar a sala de audiência do Tribunal”
    As pessoas tendem a economizar palavras pensando em ganhar tempo ou espaço. Nem sempre é uma boa ideia. Por exemplo, se o redator omitisse “sala” e escrevesse “deixar o Tribunal”, teríamos uma falsa concisão acrescida de imprecisão. Ao explicar que o advogado “deixou a sala de audiência do Tribunal”, permitiu aos leitores “visualizar” a cena e um grave comportamento – quebra do protocolo, razão de ser da notícia.
  • “… cuja sede…”
    É raro encontrar “cujo”, “cuja” nos textos jornalísticos. O termo pode parecer antigo ou feio, mas substituí-lo por formas que levem ao mesmo sentido é perda de tempo, de precisão e concisão.
  • “A presidente ordenou em vão que …”
    Outra raridade entre jornalistas que, “em vão” produz vários ganhos: ajuda a ir direto ao ponto, confere objetividade e precisão.

Observações: refinando o estilo

  • “Não acreditamos que seja apropriado”. Você pode trocar “Não acreditamos que seja” por “Não acreditamos ser apropriado…” – uma forma mais refinada que permite eliminar “que”, elemento dos mais usados em nossa língua.
  • “O advogado criticou a decisão dos juízes de não aceitar a apresentação do documento que resume os argumentos da defesa, vinte dias depois da data limite fixada pelo tribunal”. Este trecho ganha:
    1. concisão, eliminando-se “apresentação”, sem prejuízo da lógica: afinal, o Tribunal não aceitou receber o documento.
    2. leveza, trocando-se “depois de vinte dias da data…”, por “após vinte dias da data”, ou “vinte dias após a data-limite”: desaparecem três e até quatro dos cinco “des”: depois, de, dias, da, data (na gramática, isso se chama aliteração).

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