Skip to content

Artigos temáticos, uma nova perspectiva para leitores de Clareza & Coerência

17.September. 2019
por Claudia Atas

Para quem enfrenta provas de redação ou a necessidade profissional de escrever bem, leitura e prática são fundamentais. Não de vez em quando – regularmente.

Em nove anos de atividades (outubro de 2010 até hoje), Clareza & Coerência publicou muitas análises, testes e exercícios sobre gramática, estilística e ética. Agora, traz um novo tipo de contribuição: artigos sobre questões sociais. A ideia é provocar reflexão para os meus leitores, e, ainda, instrumentalizar o grupo que enfrenta provas de redação.

Expor fatos, debater problemas, assumir um ponto de vista são habilidades  requeridas, tipicamente, por exames como Enem, vestibulares para o ensino superior e, muitas vezes, processos para selecionar candidatos a empregos ou projetos. Portanto, para obter uma boa nota, é preciso conhecer e/ou atualizar opiniões, dados e informações sobre os temas sociais mais discutidos pela sociedade.

As estatísticas mostram que a metade dos candidatos apresenta baixo desempenho nessa prova: segundo o Inep – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, mais de um milhão dos 4 milhões de redações do Enem 2018 chegou a 400 pontos (o máximo são 1000 pontos). A média das notas caiu de 558 pontos (2017) para  523,4  pontos – apenas 55 candidatos alcançaram a nota mil.(*)

Devemos lembrar que esses 4 milhões de provas corrigidas não incluem as redações realizadas no Enem PPL, realizado para pessoas privadas de liberdade (presos encarcerados em sistemas prisionais e menores infratores apreendidos, principalmente, além de candidatos que não puderam realizar as provas).

Essa menção aos encarcerados e a leitura de coluna recente do sociólogo Demétrio Magnoli, na Folha de S.Paulo (A cela de Luiz Inácio —e a dos Silva, 10 de agosto passado) motivaram-me a optar pelo tema Sistema Prisional Brasileiro no primeiro artigo da série. Ele será publicado nos próximos dias.

__________________________________________________________

(*)  Seria injusto não avaliar essa queda em função do tema escolhido pelo Enem em 2018 – Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet. Sabemos que parcela significativa de estudantes brasileiros não tem acesso regular à internet. É provável, portanto, que o desempenho candidatos sem familiaridade com a web apresentado uma dissertação classificada entre regular e ruim, influenciando o crescimento das notas baixas.

 

Próclise, mesóclise, ênclise: o certo cada vez mais rejeitado. 

31.July. 2019
por Claudia Atas
https://www.acheconcursos.com.br/artigo/colocacao-pronominal-proclise-mesoclise-e-enclise

https://www.acheconcursos.com.br/artigo/colocacao-pronominal-proclise-mesoclise-e-enclise

Quem passou pelo ensino fundamental já sabe que usar corretamente os pronomes oblíquos átonos dá trabalho. Pior, cria um dilema: seguir ou ignorar a gramática?

O correto fica meio posudo, pernóstico: “Quem a chamou?” (próclise); “Chamei-a” (ênclise); “Chamá-la-ei” (mesóclise). O incorreto flui, é mais articulável, mais simples de falar e escrever: “Quem chamou ela?”, “Chamei ela”, “Chamarei ela”.

Neste artigo, passo ao largo da mesóclise: raras são as pessoas corajosas ou conservadoras o suficiente para enfrentar o espanto (e o riso) de quem ouve “chamá-lo-ei”. Restringirei a análise à próclise e à ênclise.

Voltando à questão do dilema, temos, de um lado, as formas coloquiais – “convidar eles”, “elogiar elas”: são mais simples, articuláveis, usadas e aceitas até pelos que dominam a gramática. Mas, constituem erro.

Em contrapartida, as expressões corretas são pomposas e remetem ao tempo de uma sociedade marcantemente dividida entre a elite rica e culta e a população pobre, iletrada porque sem acesso a escolas públicas.

Nesse ambiente, o discurso da elite se afirmava como superior, especialmente porque gramaticalmente correto. Hoje, dominar próclises, mesóclises e ênclises é habilidade relativa. “Quem os convidou?”, “eu as elogiei”, “fá-lo-ei mais tarde” soam mais como literatura de séculos atrás e matéria para vestibulares e concurso.

Existe um meio termo, um jeito de evitar esse dilema? Difícil, mas existe: trocar a construção da frase. Por exemplo, li em algum lugar:

Ensinem seus filhos a amar as pessoas; não ensinem eles a machucar as pessoas…

Na Folha de S.Paulo, vi recentemente a opção que jamais me agradou como tentativa de solução:

“Não é nada grave (…) O avaliamos há duas semanas e ele apresenta um quadro de crescente melhora”.

Duvido que o entrevistado tenha dito “O avaliamos”. Acredito que, mesmo que a entrevista tenha ocorrido por e-mail – portanto, em linguagem escrita – a probabilidade é que o médico tenha falado “Avaliamos ele (em vez de há duas semanas…”

Como evitar a pompa e o erro crasso

Como mencionei acima, a única solução para não espantar quem ouve/lê um erro desses, sem assumir a forma gramaticalmente correta, é mudar a construção. Assim, diante de um “não ensine ele a machucar as pessoas” podemos

– Adotar formas corretas para a linguagem escrita: “ensinem seus filhos a amar as pessoas; não os ensinem a machucá-las”;

– Usar formas incorretas na informalidade, na linguagem oral: “devemos ensinar nossos filhos a amar as pessoas e não a machucar elas (aqui, na forma escrita, o erro é gritante; mas falando, é aceitável);

– Ou se socorrer com a redundância (pecado venial): “Devemos ensinar nossos filhos a amar as pessoas e não a machucar as pessoas”. Bem razoável, não?

Quanto à forma “O avaliamos” (próclise) constitui um jeito disfarçado de errar com elegância. A regra determina, neste caso, a necessidade de ênclise, porque se trata de início de frase. Então, o correto seria “Avaliamo-lo”. Esse é o tipo de forma que não dá coragem de usar, nem escrevendo, nem falando. Então, melhor seria dizer mudar a construção:

“Avaliamos Bolsonaro”, “Avaliamos o presidente eleito”, “Avaliamos o paciente” e, até (quem diria?) “Avaliamos ele…”.

“Avaliamos ele”, como sabemos, é forma incorreta. Mas também sabemos que esse tipo de expressão é muito comum, a ponto de população, compositores (letristas) de canções, poetas e publicitários reforçarem seu uso, reciprocamente. Ou seja, o erro se torna cada vez menos errado, porém, cada vez mais aceito na linguagem oral informal.

Assim como a maioria, eu desobedeço a regra e uso “avaliar ela”, “chamar ele”. Mas só em situações realmente informais. Sei que as regras gramaticais são cobradas em lições de casa, provas para vários níveis de escola e de concursos, públicos e privados.

Portanto, fique esperto: siga as determinações da gramática sempre que você tiver de provar conhecimento.

O trabalho calado e invisível dos pais dos burros.

6.June. 2019
por Claudia Atas
Reproduzido da Folha de S.Paulo de 02 de junho de 2019

Reproduzido do site da Livraria Cultura.

Domingo passado (02 de junho), os dicionaristas foram lembrados por um brasileiro influente – o colunista Hélio Schwartzman, da Folha de S.Paulo. Em poucas linhas, ele  dimensionou o trabalho profícuo, árduo e discreto desses especialistas, que apelidou de “os pais dos burros” – perífrase derivada de outra, “o pai dos burros”, que significa “o dicionário”.

Sempre me incomodou a expressão pai dos burros. A analogia imediata – burro que reproduz novos burros – me parece uma incoerência inexplicável. Também como expressão de humor pelo contraste, não vejo graça.

Ao tentar compreender esse dito consagrado, acabei por criar uma hipótese: a de que pai, entre outros significados, denota a figura paterna que sabe, explica, protege. Mesmo assim, essa construção eu passo.

Schwartzman, nada preocupado com essa expressão, levou-a ao título do seu artigo – por sinal, motivado pela leitura do livro Word by Word: The Secret Life of Dictionaries, de Kory Stamper. E nos oferece bons momentos de informação e reflexão:

A maioria das pessoas recorre ao “pai dos burros” (tal apelido já diz muito) em busca de uma espécie de chancela legal (semântica, ortográfica, ética etc.) para o termo que pretende utilizar. A tarefa do lexicógrafo, porém, é a de registrar e definir os usos mais correntes de uma palavra, incluindo aqueles que ainda não estão inteiramente consolidados e são, portanto, vistos como “errados”, ou, ainda pior, aqueles que são considerados imorais.

Para o público leigo, o processo de produzir um dicionário – colecionar averbações, fixar pronúncia(s), elaborar definições, consultar e descrever a etimologia dos termos – parece monótono e burocrático.

Pode até ser, mas sua íntima ligação com as mudanças sociais gera uma dinâmica linguística de consequências às vezes inesperadas. Schwartzman anotou um exemplo:

Stamper, que é lexicógrafa profissional e durante vários anos atuou como editora-associada da Merriam-Webster, uma das principais casas de publicação de dicionários dos EUA, conta a história da corrente de protestos de religiosos que ela e seus colegas tiveram de enfrentar quando, numa das reedições, modificaram um dos sentidos da palavra “casamento” para comportar a união entre pessoas do mesmo sexo.

Word by Word, segundo o colunista, possui muitos motivos para ser lido:

Além de entreter, nos educa, contribuindo, ainda que apenas marginalmente, para que nos tornemos consulentes de dicionários um pouco mais conscientes.

Clareza, vigilância para sempre.

17.May. 2019
por Claudia Atas

clarezaRedigir com clareza é uma qualidade que se conquista – mas não para sempre. Cada texto a ser escrito deve ser vigiado – sempre.

Aprendemos na escola que a boa redação exige domínio da “pontuação, concordância, coerência, coesão”, e outros “requisitos necessários à objetividade retratada pela mensagem”, explica a professora Vânia Maria do Nascimento Duarte. Também, fomos orientados a reler o texto para apanhar erros e aperfeiçoar ideias.

Revisão é importante, sem dúvida, ainda mais quando se usam recursos que potencializam a percepção das falhas cometidas. Costumo usar dois:

1- colocar-se na posição de leitor, recurso que nos leva mais facilmente a um fundamento da boa comunicação: escrever na perspectiva do público-alvo;

2-ler o texto em voz alta  , neste caso, uma decorrência dos bons resultados que obtive ao gravar vídeos para um curso de oratória.

Com eles, podemos identificar pequenas e grandes falhas, como raciocínio confuso; desvio do foco proposto; informações incompletas ou desnecessárias; excesso de orações subjetivas.

Em resumo: a autovigilância trabalha pela clareza do texto.

Por dentro do placebo

Há duas semanas, a mídia anunciava a entrada em vigor do novo Código de Ética Médica. Os jornalistas selecionaram itens potencialmente interessantes para o público leigo, como a recomendação de nova conduta no uso de placebos. Esclarecê-los foi complicado.

A média dos leitores entende, genericamente, que placebos são substâncias inócuas e estão ligados a pesquisas de drogas. Seria preciso, agora, explicar brevemente a diferença entre placebo de mascaramento e placebo isolado – termos usados em determinada modificação introduzida pelo Código.

Veja estas cinco tentativas de esclarecimento:

1) Estadão, 24/abril, página A14:

A nova versão (do Código) permite que voluntários sejam submetidos a terapias conhecidas como “placebos de mascaramento”. Esse recurso é usado para testar novas drogas e para que pesquisadores não saibam qual grupo está sendo submetido ao uso do produto a ser testado e qual está usando medicamentos já conhecidos da ciência. O código atual (…) não permite o uso desses placebos. “Isso acaba se transformando em um empecilho para os estudos. O que continua proibido é o uso de placebos isolados, a combinação de substâncias que sabidamente não têm efeito terapêutico” (afirmação do entrevistado).

2) Agência Brasil (Empresa Brasileira de Comunicação), 30/4/2019:

… o novo código permite os chamados placebos [substância sem propriedades farmacológicas] de mascaramento, mantendo a vedação ao uso de placebo isolado – quando não é usada nenhuma medicação eficaz.

3) Folha de S.Paulo, 23 e 24 de abril de 2019

O documento também mantém o veto ao uso de placebos de forma isolada, mas abre espaço para uso combinado com outros medicamentos — como em teste de novas drogas em grupos de controle, em que um grupo recebe o novo medicamento e o outro placebo junto com medicamentos atuais.

4) Folha de S.Paulo, 06/5/2019, pag. A2 (editorial):

…manteve-se a proibição do uso de placebo isolado quando existem tratamentos efetivos disponíveis.

5) Revista Época, 28/4/2019:

No âmbito das pesquisas, os chamados placebos de mascaramento estão liberados, ao contrário dos placebos isolados, quando não se usa medicação eficaz.

A meu ver, faltou clareza. A começar pela dúvida: placebo “de mascaramento” é o mesmo que “placebo”? Sem essa distinção, possivelmente muitos leitores podem ter considerado o placebo de mascaramento como um tipo “novo”.

A mídia (pelo menos os veículos que consultei) pecou pela ausência do já rotineiro quadro explicativo. Nem informações complementares foram admitidas no corpo das matérias. E bastaria uma rápida pesquisa em fontes reconhecidamente confiáveis disponíveis na internet.

Numa busca rápida, encontrei no alto da primeira página aberta pelo Google esta definição do Instituto Nacional do Câncer:

Placebo é a formulação sem efeito farmacológico, administrada ao participante do ensaio clínico com a finalidade de mascaramento ou de ser comparador. (…) Uma substância que não contém ingredientes ativos, feito para ter gosto e aparência idêntica da droga real a ser estudada.

Complementarmente, seria útil este trecho do Brasil Escola:

Quando usamos os placebos em experiências, esperamos que o grupo que o utiliza não apresente nenhuma melhora clínica. Já o grupo que está utilizando o medicamento real deve apresentar uma melhora substancial, representando, assim, a eficácia terapêutica de um novo fármaco.

E, por fim, o que seria, exatamente, placebo isolado? Pelo que descobri com  papai Google, é o “placebo puro”.

Resta saber o que seria placebo puro.

E você, o que me diz?

Precisão fora do contexto: o sentido figurado.

2.April. 2019
por Claudia Atas

fusaoNo post anterior, defendi que se um vocábulo for exato, preciso, adequado ao contexto pode e deve ser repetido quantas vezes forem necessárias. Ao final, prometi analisar dois aspectos relacionados ao assunto: meios para encontrar a palavra mais adequada ao seu contexto e, ao contrário, como usar palavras a princípio incompatíveis com o seu contexto, criando valor para a sua redação.

Como achar a palavra “certa”

Leituras ajudam a enriquecer o vocabulário, que, por sua vez, ajuda a encontrar vocábulos e construções, digamos, “eficientes” – aqueles que, usados de modo figurado ou literal, sintetizaram frases e parágrafos, dispensando longas explicações. Portanto, conferem mais clareza ao texto e melhor compreensão da mensagem, do argumento, do fato narrado.

Por exemplo,

A demissão de Bebianno pode ser narrada em dois registros alternativos. Na linguagem do recreio do pré-primário: um chamou o outro de mentiroso, feio e bobo. No idioma compartilhado entre milicianos e facções do crime: um qualificou o outro como traíra, X-9.

As milícias brasileiras não surgiram no quadro de uma guerra civil, mas no contexto do controle das favelas do Rio de Janeiro pelo crime organizado

A crise política brasileira inscreve-se, como singularidade, na crise mais ampla das democracias ocidentais….

Observe a concisão proporcionada pelo uso de registros, quadro, contexto e inscreve-se – termos frequentemente usados por articulistas, como o jornalista e sociólogo Demétrio Magnoli.

São expressões úteis para vários tipos de redação porque, entre outras vantagens, ajudam a sintetizar ideias, sentimentos, intenções e fatos concretos que, normalmente, exigiriam mais descrições e/ou explicações. Esse tipo de concisão não dificulta a comunicação, ao contrário, facilita sua compreensão.

Pesque e se sirva

Jargões e terminologias (termos específicos, peculiares a cada área de conhecimento, atividade, comunidade, etc.), quando “alocados” para uso figurado produzem efeitos surpreendentes. Podem enriquecer o texto e o estilo, criar impacto, facilitar a compreensão e outras qualidades.

Como nestas frases, produzidas, com uma exceção, pelos jornalistas da área política:

A indústria fonográfica catapultou o cantor sertanejo, por isso está tão famoso. (dicionário Michaeli online)

Se o presidente depende de constante aprovação, manchas na imagem também podem drenar sua força. (Bruno Boghossian, jornalista)

Essa história de que a candidatura do Bolsonaro irá desidratar não faz o menor sentido. (site O Cafezinho)

A fala vaga e sem detalhes desanimou investidores porque prenuncia desidratação, reduzindo o efeito fiscal da reforma.

(…) o filho do presidente fritou um ministro em praça pública. Carolina Bahia, jornalista.

PSDB é um partido que está esfarelando. Comentarista Marcelo Madureira.

Fique sempre atento às palavras-síntese e às transposições de termos usados por bons redatores em sentido figurado. Você pode pescar palavras potencialmente úteis para o seu tipo de comunicação.

Precisão: você já parou para examinar isso?

25.March. 2019
por Claudia Atas

post-marco-2019Redatores dificilmente checam a precisão das palavras que usam ou sua adequação ao contexto. No entanto, essas duas qualidades potencializam outras quatro: clareza, consistência, concisão e elegância do texto.

No último dia 10, reportagem da Folha de S.Paulo deu um exemplo de imprecisão. O repórter demonstrou, com boa informação e bom texto, como é fácil obter documento de posse de arma antes mesmo de lei com esse objetivo ser aprovada.

Ele só falhou no tratamento que deu à “laudo”. Veja:

Basicamente, você apresenta uma série de documentos e realiza dois laudos: o psicológico e o de tiro.

(Eu estava) apto a fazer o laudo de tiro.

Não é verdade: você não irá realizar dois laudos, nem estará apto a fazer o laudo de tiro. Quem faz* laudos são autoridades. A prerrogativa, no caso em questão, é dos psicólogos credenciados e dos professores do clube de tiro. Eles redigem, elaboram, assinam laudos (verbos mais adequados e menos surrados que fazer).

Portanto, o jornalista deveria escrever algo como

Basicamente, você apresenta uma série de documentos e se submete a dois tipos de teste: avaliação psicológica e capacidade técnica para atirar.

Neste outro exemplo, o repórter escreve:

Na canção, (a cantora) Perdomo (…) fala sobre sua viagem por quatro países até chegar ao Peru. A nostálgica canção, gravada e divulgada pelo YouTube, teve mais de 2 milhões de visualizações (…) O Estado de S.Paulo, 17 de janeiro de 2019

Canção é algo que se ouve, mas não se vê, assim como uma canção é ouvida e, não, “visualizada”. Portanto, o substantivo visualização, aqui, extrapola seu significado  – além de ver, significa o que se ouve e o que se lê na internet.

Você pode aprovar o uso genérico de visualizar, mas não deve perder de vista que a frase pode ser melhor construída com uma troca como esta:

 A canção recebeu – ou obteve – mais de 2 milhões de acessos.

A substituição considerou que “2 milhões de visualizações” não correspondem necessariamente a “2 milhões de ouvintes”, conferiu precisão e manteve  o contexto e a terminologia da internet.

Falso dilema

Se não encontrar a palavra “certa” para o contexto – ou seja, para a ideia, a proposta, a argumentação, o fato que deseja explicar, defender – pesquise.

Busque ajuda nos dicionários, com professores e pessoas com boa formação escolar. Se ainda assim não a encontrar a palavra “certa”, construa uma frase explicativa. O problema persistirá se for necessário usar o termo preciso várias vezes durante o texto.

Neste caso, você enfrentará um (falso) dilema: repetir a palavra “certa”quantas vezes forem necessárias (não abrir mão da precisão) ou aceitar sinônimos, cedendo à imprecisão. Recomendo a repetição, apesar do preconceito generalizado contra essa solução.

Redundância é uma coisa; repetição por necessidade, outra. Essa distinção é pouco discutida dentro e fora das escolas. Cultiva-se a ideia de que repetir vocábulos é negligência ou pobreza de vocabulário. Pode ser, mas há uma terceira causa para a repetição: a precisão.

Sinônimos são meras aproximações uns em relação aos outros. Por isso, em muitos casos, é desaconselhável usar alternativas e correr o risco de confundir o raciocínio e gerar novas interpretações.

Portanto, é válido repetir palavras que dão a medida exata do que se quer descrever. E não se preocupe com o que o leitor “vai pensar”. O leitor é mais atento e sensível do que se pensa, e aceita a repetição quando percebe que a palavra inicial – o conceito – torna a repetição imprescindível.

Na próxima semana, vou estender a análise para dois aspectos relacionados ao assunto: como escolher a palavra “certa” e como usar vocábulos incompatíveis, a princípio, com a sua redação.

*leia sobre o uso abusivo do verbo fazer, neste blog: assédio, teste e resposta ao teste.

Cuidados e recursos que melhoram o texto

25.February. 2019
por Claudia Atas

post-fevereiro-2019Redações podem ser bem escritas ortográfica e gramaticalmente e, mesmo assim, resultar em uma leitura sem qualidades cobiçadas, como fluência (ritmo e boa sonoridade, inclusive na leitura mental, que todos fazemos naturalmente). Em outras palavras, leitura fácil de ler e de compreender.

O que atravanca a redação? Observe, nas frases abaixo (comparações entre originais de noticiários de jornais e as minhas versões), que existem recursos fáceis de aplicar, seja quando você redige seja quando você relê o que escreveu.

1-  Manchete de jornal: Bebianno reconhece que deve ser exonerado 

Este exemplo é um alerta para ambiguidades que confundem o leitor. Dever é um verbo muito usado, em seus dois sentidos: obrigação e probabilidade. No caso dessa manchete, os dois significados são admissíveis.

– o ex-secretário-geral da presidência, Gustavo Bebianno, admite a possibilidade de o presidente Jair Bolsonaro exonerá-lo (o que não vinha admitindo)

– Bebianno admite que o presidente tem o dever de exonerá-lo já que acredita que conversa por aplicativo não é igual a conversa por telefone, e, portanto, ambos não “conversaram” – ou seja, ele, Bebianno, mentiu.

Ao bater o olho na manchete, a impressão vem primeiro; depois é que o leitor interpretá-la. Assim, você pode discordar da segunda interpretação, acima, mas ela é verossímil. Poderia traduzir o seguinte raciocínio: políticos produzem arranjos em que uma das partes cede na queda de braço em troca de futuros favores.

2- Noticiário sobre o reajuste do IPTU EM 2019:

A frase pode ser mais clara e direta.

Original:

Há duas ocasiões em que existe previsão legal para cobrar mais de 10% de reajuste: quando reformas aumentam a área útil do imóvel ou quando há valorização de mercado e deixa de valer a faixa de desconto proporcional, aplicado a plantas com valor de R$ 180 mil a R$ 320 mil.

Minha sugestão:

A legislação prevê duas situações para reajuste maior que 10%: a valorização por meio de reformas que aumentam a área útil do imóvel e a valorização pelo mercado, devido a outros fatores. Assim, o valor do imóvel pode sair da faixa de desconto proporcional – plantas com valor entre R$ 180 mil e R$ 320 mil.

3 – Noticiário sobre aposentadorias com tempo especial

Este exemplo mostra excesso de preposição e como a leitura poderia ser mais clara, rápida e precisa.

Frase original:

O número de trabalhadores com direito à contagem de tempo especial por insalubridade recuou 6,03% desde o início da crise econômica, ao passar de 706,3 mil, em 2014, para 663,7 mil, em 2017, de acordo com dados da Secretaria de Previdência do Ministério da Economia.

As sete preposições “de” já indicam uma sequência de texto alongado e não trabalhado de modo a facilitar a leitura. Esta questão é importante para textos que usam termos específicos, datas e porcentagens.

Minha sugestão:

O número de trabalhadores com direito à contagem de tempo especial por insalubridade recuou 6,03%, desde o início da crise econômica : passou de 706,3 mil, em 2014, para 663,7 mil, em 2017, segundo a Secretaria de Previdência do Ministério da Economia.

4- Carta de visitante em site dedicado ao terceiro setor

O exemplo vale para mostrar o que parece impossível: esquecer a informação, ou o objetivo principal ou, ainda, ser genérico e invalidar o próprio texto!

Frase original:

Sou Assistente Social aqui do Rio, alguém sabe me dizer se tem alguma oportunidade para área de consultoria/assessoria ?

A generalização invalida a própria oportunidade solicitada, mesmo se feita em ambiente ultra favorável (o que não foi o caso).

5 – Noticiário sobre a polêmica em torno das sacolas biodegradáveis

Este exemplo adverte sobre o uso da ironia, estilo simpático, em geral, e inadequado, algumas vezes.

Frase original:

Apesar do sucesso no mercado, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e o Ministério do Meio Ambiente não têm grande simpatia pelas sacolinhas oxibiodegradáveis.

Não tem grande simpatia? Pelo contrário, lutavam contra. No corpo da notícia, o repórter revelava que, segundo o MMA, o plástico da sacola biodegradável se fragmenta em pedaços menores, ou seja, podem se depositar em rios e ser ingeridos por peixes e outros animais.

Minha recomendação:

Ironia é um jeito simpático de dizer o contrário do que se pensa. Veja:

– “nada mal ganhar um milhão de reais na loteria”, quando a intenção é expressar “como seria bom ganhar um milhão na loteria”.

– “ele não é nenhum Rui Barbosa”, quando se avalia a pessoa como medíocre ou pouco inteligente.

Mas, antes de inserir expressões irônicas, como essas, é bom lembrar que a ironia pode ser inadequada, mesmo quando se adota o estilo coloquial.

Relatórios (técnicos ou não) e textos persuasivos não combinam com a ironia. Esse modo intimista, engraçado e mordaz pode, no limite, reduzir a intensidade do foco em questão. Um contrassenso… Manter o leitor concentrado no foco é o que todo bom comunicador luta, linha por linha, para conquistar.

Mídia nossa de todo dia: a Brexit ou o Brexit?

21.January. 2019
por Claudia Atas

brexitEm tempos de ataque à mídia, previno o leitor de que vou “falar mal” do jornalismo. Não da instituição jornalística, mas de erros gramaticais que os Mjornalistas cometem.

Apontar incorreções e explicar a versão correta não é desmerecer os veículos citados, nem o papel da imprensa. Como poderia? Imprensa livre é conquista democrática, um bem para ser valorizado e protegido de ameaças autoritárias.

Criei a série Mídia nossa de todo dia porque vejo, nas incorreções a serem apontadas, “ganchos” para um trabalho didático: explicar por que se deu o erro e oferecer solução correta.

É uma proposta, um estímulo para se alcançar e manter uma redação correta, clara e coerente. Tanto jornalistas quanto leitores deste sita podem se beneficiar com este tipo de alerta.

Vamos começar pela consagração do erro: aquele que praticamente todos cometem e o certo parece errado. É o caso de “a Brexit” – português correto vencido pelo errado, “o Brexit”, situação que lembra um dos posts campeões de visualização, neste site: “São precisas: o certo que soa errado.” (2012).

Criado a partir de Britain (Bretanha) e Exit (saída), o acrônimo Brexit refere-se à separação que o Reino Unido* negocia com a União Europeia (UE), bloco econômico e político formado por 28 países europeus.

Na gramática inglesa, o artigo definido “the” é neutro, não precisa concordar em gênero e número com os substantivos que define (the woman/a mulher; the man/o homen; the homem/as mulheres e the men/os homens).

Em português, no entanto, os artigos precisam concordar em gênero e número. Portanto, falando ou escrevendo Brexit, deveríamos usar o artigo definido feminino singular “a” – “a” Brexit – porque a tradução de Exit (tanto do original, em latim, quanto do inglês) é saída, substantivo feminino.

Mas se “todos” falam “o Brexit”, você precisa da disposição e paciência para encarar o espanto da maioria. Que tal começar escrevendo o certo e gerar um debate nos seus grupos?

Você pode usar exemplos corretos para esquentar a  discussão  – fan page e login, que definimos, corretamente, como “a fan page” (porque o substantivo é a página); “o login”, que traduz “o acesso” ou “o registro” (para contas de e-mail, sites, etc.).

Pessoalmente, creio que o caso de Brexit não está definitivamente consagrado. Portanto, pode ser revertido.

No próximo post da série Midia nossa de cada dia trataremos de outros erros gramaticais que passam despercebidos.

Técnicas de memorização como ferramenta para enfrentar o vestibular

26.December. 2018
por Claudia Atas

memoriaProvas que exigem um “bom português” – como nos vestibulares e no mercado de trabalho – criam ansiedade e estresse aos candidatos. Como compreender o que está difícil entrar na sua cabeça? Como aproveitar ao máximo aquilo que você sabe, mas esquece, confunde?

Acredito que erros gramaticais (entre outros) podem ser reduzidos e resolvidos com a determinação de “tirar a limpo” aquilo que você não entendeu. Se você se irrita com determinados problemas e se recusa, psicologicamente, a enfrentá-los, será difícil superá-los. Sugiro que você se inspire em um dos seus heróis e desafie-se para decifrar o enigma. Não vejo outra saída.

Também não vou omitir que, mesmo superando o problema de entender, você precisará derrubar a barreira seguinte – memorizar o aprendizado. Mas esse não é um problema tão cabeludo. Existem técnicas.

Se erramos porque não nos lembramos do que aprendemos, precisamos atacar esse obstáculo. Geralmente, ao compreendermos um problema, achamos que ele pode cair na prova – até torcemos para ele estar lá. No entanto, somos apanhados numa armadilha dolorosa: o branco, o raciocínio que escapou, as palavras que fugiram.

Há um curso que faz muito sucesso na plataforma Coursera – Aprendendo a Aprender. Ao longo do curso, a criadora e apresentadora, Barbara Oakley, insiste na importância da recordação e como praticá-la.

Pincei estas instruções porque podem ajudá-lo:

  1. “tentar lembrar os principais pontos do texto que você leu, mas, desta vez, sem olhar na página”,
  2. (não olhar o texto) “é uma das melhores formas de construir a associação em blocos (de informação)”.
  3. “recordar o assunto em lugares diferentes daquele em que você originalmente aprendeu, para que ele fique mais profundamente enraizado e acessível, independentemente do lugar em que você está. Isso pode ser muito útil em testes.”

Achei especialmente importante o que ela denomina ilusões de competência no aprendizado:

  1. “Aprenda a reconhecer quando você está se enganando sobre quanto você está realmente aprendendo o assunto”
  2. “Teste-se com frequência. Use pequenos mini testes para ver se você, de fato, está aprendendo ou se está se enganando, achando que está aprendendo quando não está. Recordar é, na verdade, uma forma de mini teste”.
  3. “Tente evitar depender demais de marcações, que podem enganá-lo, fazendo-o pensar que o material está entrando em seu cérebro, quando não está.”
  4. “Erros são bons quando se está aprendendo. Eles lhe permitem identificar ilusões de competência.”

Se você quiser saber mais sobre o Coursera e Aprendendo a Aprender, este é o  link: https://pt.coursera.org/learn/aprender?action=enroll

Por que é tão difícil falar e escrever “um bom português”?

28.November. 2018
por Claudia Atas

Falar e escrever bem é tarefa difícil até para os melhores participantes de concursos como ENEM e Fuvest.

Gramática, em rigor, exige atualização e consultas permanentes dada a complexidade de algumas regras e, também, devido às contradições entre os próprios especialistas. É comum encontrar, para vários casos, gramáticos e dicionaristas que autorizam “o errado” e desautorizam “o certo”, tornando aceitável o inaceitável e vice-versa.

Cito dois exemplos: a expressão  em rigor, tida como correta, mas preterida por a rigor,  preferida por 9 entre 10 redatores brasileiros; e a polemizada conjugação do verbo adequar para as três primeiras pessoas do singular – “adéquo”, “adéquas”, “adéqua” – defendidas pelo linguista/dicionarista Antonio Houaiss e condenada pelos “tradicionalistas”.

Portanto, redatores em situação de formalidade plena, como ocorre em vestibulares e concursos públicos, atenção para essas discussões e, na dúvida, optem pela gramática tradicional.

A questão “bom português” envolve outros fatores, como as exigências de acordo com faixas etárias (criança/adulto) e o contexto cultural de quem escreve e sobre o que escreve (particularidades regionais, por exemplo).

Neste blog, o objetivo é ajudar os visitantes a melhorar sua comunicação escrita. Portanto, os textos precisam ser gramaticalmente impecáveis, porém, sem os “exageros” da norma culta.

De fato, com eventuais exceções, aqui você encontra textos gramaticalmente corretos e certo nível de sofisticação no vocabulário e na construção das frases.

Essas características, porém, não significam que a autora não erre de vez em quando. Como sei dessa probabilidade, raramente escrevo sem consultar dicionários e professores de português. Posso ter um bom nível, mas sofro quando não me ocorre o termo preciso para determinada circunstância, ou quando desconfio que as regras possam ter mudado.

Escrever bem é cansativo. Especialmente para quem não pretende ser educador. Preciosismos gramaticais, regras que caem, retornam e caem novamente; vocabulário e estilos ultrapassados; polêmicas em torno do certo e do errado; criações “por conta própria”, como campi, na gramática oficial, e câmpus, que o jornal O Estado de S.Paulo criou e usa para se referir ao conjunto de campos de uma universidade.

As dificuldades vão além do desconhecimento das regras gramaticais. Muitas delas exigem memória. Você já pesquisou a diferença entre em vez de e ao invés de – mas vive esquecendo. Aprendeu a crasear “devido à distância, costumo ir de avião”, mas lhe dizem que para tirar a crase quando se trata de ensino a distância.

Também já lhe ensinaram que o “núcleo do sujeito” determina a concordância verbal – como no caso de “foram usados 10 milhões de sacolas” ou “10 milhões de sacolas foram usados”; mas os jornais costumam desprezar o núcleo e usar o complemento do sujeito: “foram usadas 10 milhões de sacolas”, quando dez por cento dos alunos faltaram às aulas podem ser feitas a distância.

O assunto é complexo. Vai além das regras e parece ganhar relevância o que cai no gosto ou no desgosto da mídia e da população, como mostram esse e centenas de exemplos publicados diariamente nos jornais.

Não se pode resumir o problema a um ou dois culpados, como alguns simplificam – o aluno que não aprende, a língua que é complexa, o jornalista que subverte as regras e as regras que são obsoletas, ou inconstantes. O tema merece – voltarei a comentá-lo.