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2016 na perspectiva do verbo fazer: os cinco piores abusos

27.December. 2016
por Claudia Atas

tesouraAs más construções e os erros gramaticais produzidos pela mídia e por internautas parecem não ter fim. Vamos ignorar o pessimismo e mostrar o lado bom dessa realidade: os maus exemplos  servem para mostrar onde está o erro ou a impropriedade se acompanhados de sugestões para versões corretas. É o que gosto de fazer, pois acredito que desta forma o erro deixa de ser uma dor de cabeça, um enigma, um tormento para estudantes e profissionais que dependem de uma boa redação.

Optei por cinco péssimas construções envolvendo o verbo FAZER – o verbo que domina a cabeça do brasileiro. Minha birra com O FAZER decorre do uso abusivo desse verbo, até por falta de orientação sobre alternativas melhores.

Neste artigo, você contará com soluções para cada um dos cinco exemplos do ranking que elaborei com o que considero os piores abusos cometidos com o verbo FAZER.

5º lugar : “Fazer protesto” (Estadão, 11/5/2016, capa)

Por que fazer protesto está entre os Top Five? Pela frequência do abuso. Este exemplo, um entre milhares, mostra que se deixa de lado a força do verbo principal, que deveria ser usado sem a bengala FAZER, pela força e pela concisão que confere à frase.

Em vez de

Taxistas fizeram protestos na frente da frente da Prefeitura e na Avenida 23 de Maio

Pense em usar

Taxistas protestaram na frente da Prefeitura e na Avenida 23 de Maio

Realizar paralisação (Estadão, 11/5/2016, A19), tanto quanto fazer paralisação, ignora o verbo PARALISAR, que dispensa verbo auxiliar e encurta a frase. Com ele, há mais duas vantagens: elimina-se a indesejável rima ão, ão e ganha-se clareza. Assim:

Funcionários da Universidade de São Paulo decidiram paralisar suas atividades amanhã.

4ºe 3º lugares

“fazer ação” e “fazer uma contraofensiva” (FSP 16/04/2016, pg.A9): título e lead se agarram ao verbo fazer, traduzindo mau estilo e alta dependência do verbo fazer.

O senador Aloisio Nunes viaja a Washington com a finalidade de fazer uma contraofensiva…

Fazer uma ação é, para mim, o uso mais detestável de fazer. Para os viciados nesse verbo, a maioria dos brasileiros, “fazer uma ação” parece insubstituível. Onde estaria o sinônimo? Na própria frase, na intenção com que se escreve. Descubra e memorize.

Neste caso, em vez de

Temer faz ação diplomática contra “golpe”,

Sugiro

Temer usa diplomacia contra golpe

porque também se ganham concisão e estilo.

E, no lugar de

O senador Aloisio Nunes (…) viaja a Washington para fazer uma contraofensiva de relações públicas com a finalidade de dizer a senadores e autoridades dos Estados Unidos que o impeachment contra Dilma Rousseff “não é golpe”.

Prefira

O senador Aloisio Nunes viaja a Washington para dizer a senadores e autoridades dos Estados Unidos que o impeachment contra Dilma Rousseff “não é golpe”. A contraofensiva do governo começou na quinta-feira (14), quando o vice-presidente Michel Temer ligou para Aloysio… e mostrou indignação…

As frases ficam mais claras que as do original.

2º lugar

Fazer uma fala (Folha de S.Paulo, 12/6/2016, pg. A5) quase foi para o primeiro lugar deste ranking – por sinal, aparece ao lado de replicar o discurso, o sinônimo inexistente de repetir discurso, como discuti, em junho passado (A influência da língua web…). Está na segunda colocação porque encontrei algo pior.

Em vez do tenebroso fazer uma fala, como se atreveu o redator,

A previsão é que Dilma faça uma fala na Assembleia Legislativa de João Pessoa…

opte por uma construção de melhor qualidade — simples e mais precisa:

A previsão é que Dilma fale na Assembleia Legislativa de João Pessoa…

A previsão é que Dilma discurse…

1º lugar

No mesmo mês de junho que publicava fazer uma fala, a Folha de S.Paulo desafiou a clareza da língua e o bom gosto da escrita, enfiando goela abaixo de seus leitores esta criação espantosa: fazer implicações (FSP 25/6, pg. A6).

Esse verdadeiro “neologismo de expressão” ganha o Top Five com louvor:

Em sua delação, Cerveró (…) faz implicações a integrantes do PMDB (…)

O simples uso do verbo implicar é uma boa opção para eliminar o fazer. Veja:

“Em sua delação, Cerveró (…) implica integrantes do PMDB (…)

Outras alternativas:

“Em sua delação, Cerveró (…) revela detalhes que implicam”,

(…) “menciona fatos que implicam”, etc. etc.

Melhor ainda seria modificar o início da frase. Veja como estas sugestões tornam a frase mais direta, precisa, concisa e apropriada:

As informações obtidas na delação de Cerveró, (…) implicam vários integrantes do PMDB…

A delação de Cerveró (…) comprometeu integrantes do PMDB…

Espero que os exemplos e considerações deste post ajudem os que precisam ou gostam de escrever bem a… escrever melhor em 2017! Certamente, ajudarão os que prestarão provas ao longo do próximo ano. Até lá!

Pirâmide invertida: debate saudável para o bom jornalismo

31.October. 2016
por Claudia Atas

A pirâmide invertida está ou não superada? É ou não incompatível para jornais impressos e, especialmente, para jornais virtuais? As duas perguntas resumem os termos da polêmica que descobri, na internet, quando redigia o post anterior (Escrever para a web é diferente de escrever para jornais?).

O esquema de redação simbolizado na inversão da pirâmide (explicação no final deste artigo) é assunto para muitas páginas. Mas os argumentos decisivos podem ser sintetizados nestes quatro:

1- A pirâmide seria uma fórmula arcaica de organização e hierarquização da matéria jornalística, tanto para a internet quanto para o noticiário impresso. Cynara Menezes, jornalista bem articulada, escreveu em seu site que “pirâmide invertida não é sinônimo de texto enxuto. É sinônimo de texto pobre“. Seus argumentos:

Acredito num texto que capture a atenção do leitor do primeiro ao último parágrafo, sem hierarquia. Tão bem escrito que seja impossível abandoná-lo uma vez que se comece a leitura, como acontece com os melhores livros. Pouco importando se a “notícia” vai estar no início, no meio ou no fim. Sem desperdício de informação “mais” ou “menos” importante, algo subjetivo sobre o qual quem deve decidir não somos nós, jornalistas, mas o leitor. (…) é hora de rever tudo. E matar o lide. (http://www.socialistamorena.com.br/questoes-jornalisticas-a-morte-do-lide/)

2- Leads orientados pela pirâmide seriam ruins porque não cumpririam seu verdadeiro papel: seduzir o leitor. O jornalista Christian Cruz pode ser enquadrado nessa corrente. Durante a 19ª Semana de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero (2011), ele afirmou:

“A função do lide não é necessariamente mostrar todas as informações primordiais logo de cara, mas seduzir o leitor”. A frase foi transcrita por outro jornalista, José Gabriel Navarro (http://brasil.estadao.com.br/blogs/em-foca/piramide-invertida-so-que-ao-contrario/). Na época, Navarro era trainee do Estadão e Cruz, repórter do Caderno Aliás, do mesmo jornal.

3- Os que discordam dessa visão encontram no professor Rosental Calmon Alves um representante bem qualificado. Ele participou do lançamento do primeiro jornal brasileiro na internet (Jornal do Brasil, 1995), foi correspondente do JB em Washington e assumiu, em 1997, o posto de professor titular da cadeira de Jornalismo Online na Faculdade de Jornalismo da Universidade do Texas, em Austin (http://observatoriodaimprensa.com.br/e-noticias/uma-linguagem-em-construcao/)

“Sou um defensor da pirâmide invertida, do texto que vai direto ao ponto, que diz logo do que se trata. Mas é lógico que esta não é a única maneira de se escrever no jornalismo online, ou em qualquer outra modalidade de jornalismo.”

Curiosamente, ele aponta os hábitos ou necessidades dos internautas para recomendar a pirâmide invertida:

“Ir direto ao ponto, numa redação de estilo conciso, só ajuda a comunicação num meio nervoso e interativo como a web, especialmente ao se tratar de hard news, das notícias de última hora que são o forte do jornalismo online na fase atual”.

4- O espanhol Ramón Salaverría se opõe a Calmon. Professor de jornalismo na Universidade de Navarra, onde dirige o Center for Internet Studies and Digital Life, ele não condena, mas restringe o uso da pirâmide invertida.

“É útil para notícias de atualidade sem desenvolvimento hipertextual”, mas não serviria para o jornalismo virtual. “O meio cibernético é, por definição, uma publicação hipertextual. Quer dizer, uma publicação que fragmenta o seu conteúdo em nós; frequentemente centenas e inclusive milhares de nós. Esta fragmentação pode ser realizada seguramente numa ordem decrescente de interesse (ou seja, como uma pirâmide invertida), mas também de forma episódica (cronológica), de forma sequencial.” http://observatoriodaimprensa.com.br/e-noticias/partido-da-redacao-ciberjornalistica/

Ele critica a associação entre pirâmide invertida e a necessidade de se contar num parágrafo tudo o que está acontecendo.

“Totalmente de acordo. Mas o que esta afirmação tem a ver com a pirâmide invertida? Esta afirmação tem a ver com as qualidades de concisão e densidade informativa, aspectos que se referem ao estilo jornalístico, mas não à estrutura da narrativa”. (http://observatoriodaimprensa.com.br/e-noticias/a-tecnologia-nao-e-inimiga/)

A meu ver, algumas premissas precisariam ser mais bem apuradas. Por exemplo, a pirâmide invertida vai além de uma técnica “para lead”. Ela influencia o todo: uma vez que a reportagem começa com um resumo do fato a ser narrado, o jornalista está livre para desenvolver o texto pelo ângulo que lhe pareça mais relevante, mais interessante, mais adequado.

piramide-jogador-com-leadPenso que Cynara Menezes foi radical quando proclamou a necessidade de se matar o lead. Jornais publicam diariamente vários gêneros de matéria, não só em artigos, colunas, crônicas e cadernos de cultura – também nas páginas de esportes.

Cinco dias atrás, o Estadão publicou uma reportagem que mereceu um lead meio literário. “Numa viela, os primeiros chutes de um ídolo” (pg. A20, 26/10/2016) foi uma de várias que cobriram quase três páginas sobre a morte do jogador Carlos Alberto Torres (foto acima).

Exemplo da Folha de S.Paulo, em matéria publicada no último dia 28, mostra que a pirâmide não é a responsável por falta de imaginação ou textos pobres. Veja o lead na foto abaixo:

piramide-aniversario-de-lulaNo mesmo exemplo, outro ponto relevante: nem todas as informações preconizadas pela pirâmide aparecem nesse lead. Mas… quem disse que o lead sempre acaba no primeiro parágrafo?

Para mim, essa falsa métrica caiu por terra quando a “webwriting” levou jornais, como a Folha, a criar ninhadas de parágrafos pelo desdobramento do primeiro, mesmo à custa da lógica.

Seja como for, a cobertura do aniversário de Lula ainda rende outra observação: o contexto é desenvolvido na matéria (e até poderia ser reduzido), na sequência de um lead criativo. E, melhor ainda, com ele, a repórter Catia Seabra seduziu o leitor.

Quanto aos dois professores, dão uma grande contribuição ao debate: Calmon, porque enxerga nas exigências da pirâmide as exigências dos leitores virtuais, que “não leem – escaneiam a página”, segundo a célebre pesquisa de Jacob Nielsen, de 1997; Salaverría, pela explícita defesa da pirâmide pelas virtudes que exige do jornalista e por entender que o esquema também é aplicável em jornais virtuais, já que a fragmentação das publicações hipertextuais pode ser construída tanto na ordem decrescente de interesse (pirâmide invertida) quanto cronologicamente, de forma sequencial.

Acredito que este post cumpre o que promete: uma oportunidade para se discutir jornalismo, o que é sempre saudável para novos e veteranos jornalistas. 

(*) A pirâmide invertida é uma técnica jornalística cujo intuito é garantir a consistência de um lead (ou lide ou abertura de notícia ou reportagem). Todos os elementos que compõem o fato a ser narrado devem estar no início da matéria, conferindo ao leitor a decisão de ir adiante ou desistir do texto. Para obter um resultado coeso, o redator deve responder às seguintes perguntas: o quê? quando? quem? onde e como?, que é a tradução do original inglês what, when, who, where e how. A inversão da pirâmide, com a base na posição superior e a ponta, na inferior, significa que a parte mais sólida da notícia ocupará posição privilegiada: a que se lê primeiro. O esquema leva o redator a deixar para o fecho informações dispensáveis, ou seja, informações menos relevantes ou detalhes que poderão ser cortados, por exemplo, se faltar espaço, sem prejudicar a compreensão da notícia.

Escrever para a web é diferente de escrever para jornais?

15.September. 2016

Jornais e WebO que é “bom conteúdo” na web? E fora da web? A meu ver, o meio não altera as exigências de qualidades do texto, apenas requer adaptações. Na web e fora da web, ele tem de ser interessante, relevante, confiável, claro, objetivo e gramaticalmente correto.

Interessada em saber o que especialistas definem como bom conteúdo para publicações virtuais, embarquei no curso Writing for the Web (EAD – Open2Study, Open Universities, Australia). O programa, transmitido em vídeo, foi desenvolvido pela jovem, experiente e competente Frankie Madden, uma user experience designer.

A resposta à minha curiosidade veio logo no começo do primeiro módulo, mas não antes de um alerta: “Antes de escrever para a web, precisamos saber como as pessoas leem na web”, disse Frankie. E demonstrou como as características da rede e o padrão de leitura dos usuários se impõem na definição da estrutura e do vocabulário do conteúdo.

A partir dessa contextualização, a especialista discorreu sobre as qualidades inerentes ao bom conteúdo:

1- estrutura em blocos, para não congestionar a página e facilitar o “escaneamento” da página pela maioria dos usuários;

2- Informações relevantes, úteis, apuradas e confiáveis;

3- Linguagem simples, com palavras, frases e parágrafos curtos; palavras de fácil compreensão;

4- Consistência de estilo relativamente às demais seções e páginas do site e a outros canais eventualmente criados pela empresa, para que “todos falem a mesma língua” (“tone of voice writing style”).

Aí estão as características do bom conteúdo… as mesmas do bom texto escrito ou falado fora da internet. Era o que eu queria comprovar. Mas Frankie ainda me reservava uma surpresa.

Ela recomendou a velha e boa pirâmide invertida (que comentarei em um próximo post em vista da atual polêmica sobre a sua serventia). E ensinou o seu propósito para uma audiência claramente composta de profissionais ou interessados em produzir conteúdo para sites. Seus exemplos foram convincentes.

Exibindo páginas de alguns sites corporativos, Frankie demonstrou que, colocadas no início do texto, as informações mais relevantes (a) entregam imediatamente o que o título promete; (b) garantem visibilidade para o que se deseja divulgar; e (c) poupam o tempo do visitante.

A pirâmide invertida, como se vê, permanece uma boa estratégia na produção de conteúdos virtuais, assim como foi e continua sendo para outros meios de publicação.

Eu não esperava tanto.

Escute a sua redação: uma prática que beneficia a linguagem-para-ser-lida

30.July. 2016

Escute a sua redaçãoMeu maior ganho no curso Introduction to Public Speaking (EAD/Coursera) foi lidar com a profunda influência da comunicação-para-ser-lida sobre a comunicação-para-ser-ouvida (escutada). E vice-versa. Com resultados opostos: no primeiro caso, a influência pesa, atrapalha; no segundo, ajuda a sentir o peso e, daí, a melhorar o texto.

Ministrado pelo doutor Matt McGarrity, da Universidade de Washington, o programa mergulha fundo no tema. Ainda assim, considero aquele ganho o mais proveitoso para quem se ocupa da comunicação, como eu.

Redigindo speeches para minhas videolições, descobri que a linguagem-para-ser-lida se intromedia na linguagem-para-ser-ouvida. O processo ocorria com tamanha naturalidade que só notei a intromissão ao escutar as palavras que escrevera.

O predomínio da escrita-para-ser-lida é compreensível, sendo, como é, a matriz linguística do nosso aprendizado, desde o primeiro ano da alfabetização. Surpreendente é descobrir que aquilo que se escreve para ser ouvido pode melhorar a qualidade do que se escreve para ser lido. Essa curiosa inversão ocorre, basicamente, em função da clareza e da objetividade alcançadas na versão pós- leitura.

A técnica de ler e escutar o que se escreve tende a elevar, em vários aspectos, o nível das redações escritas-para-serem-lidas. Aplica-se a quase todos os tipos de texto – relatórios, e-mails, projetos, roteiros de vídeo e muitos outros do tipo escritos-para-serem-lidos. Também é útil para autores de livros e reportagens, particularmente na criação de diálogos, em que calibra a coloquialidade evitando que resultem falsos.

Existem muitas orientações voltadas à qualidade da redação, entre modelos teóricos, práticos, dicas e recomendações. Quanto à técnica de escutar as palavras que você escreveu, funciona como meio: você sente que o conjunto das frases soa mal; percebe um certo peso, ou a perda do foco; observa uma tendência para cansar, confundir.

Então, usa o arsenal de recomendações que já aprendeu em sua vida: na abertura, deixa claro do que vai tratar, organiza as ideias por parágrafos, evita frases longas, encadeamentos sem fim; busca usar o vocabulário preciso para o contexto, para o estilo, etc. etc.

É neste sentido que aconselho a técnica de se escutar o que se escreveu. No parágrafo abaixo, a mensagem é gramaticalmente correta, relativamente concisa e clara. Experimente ler em voz alta:

Quando pergunto às pessoas o que é escrever bem, as respostas variam, mas todas denotam a crença de que escrever bem é um dom, uma habilidade natural. Aqui nasce a descrença em você, aqui nasce o auto preconceito – ou seja, um preconceito contra si mesmo, capaz de levá-lo a um bloqueio mental. Bloqueado, você se impede de aceitar a possibilidade de escrever bem e, portanto, de aprender a escrever bem.

Provavelmente, depois de ouvir esse texto, você concordará que os conceitos principais poderiam ser “desagrupados” com merecidas explicações. A meu ver, o texto seria melhor com estas modificações:

Quando pergunto às pessoas o que é escrever bem, ouço várias respostas. Mas todas revelam algo em comum: a crença de que escrever bem depende de um dom, de um talento natural. Dessa crença nasce a descrença em si próprio: “Não nasci com o dom de escrever bem, portanto, nunca serei um bom redator”.

A diferença entre ler e ouvir uma mensagem é que ouvintes não dispõem de elementos facilitadores que consagramos aos leitores, como voltar a determinadas páginas quantas vezes quiser; anotar; sublinhar trechos; e, no caso do autor, trabalhar com parágrafos, índices remissivos, negrito, asterisco, etc., visando reforçar, ressaltar, acrescentar informações.

Creio que essa perspectiva funciona como exercício valioso a quem deseja escrever cada vez melhor.

A influência da língua web – ou o que replicar tem a ver com reproduzir?

28.June. 2016
por Claudia Atas

Dia desses, a Folha de S.Paulo publicou um lead que dá o que pensar.

Folha de S.Paulo, 12 de junho de 2016, pg. A5

Folha de S.Paulo, 12 de junho de 2016, pg. A5

(…) a presidente afastada Dilma Rousseff viajou ao NE para replicar o discurso de que o governo do presidente interino de Michel Temer é “ilegítimo” e “quer impor retrocessos à população (…)”.

No primeiro momento, deduzi que algum fato novo provocara a presidente afastada – um insulto, uma crítica, uma ação desfavorável à sua gestão. Mais rápido que os olhos, o pensamento construiu a sequência: uma tréplica se desdobraria da atual réplica.

Mas, na sequência, a informação desmontou minha tese. Dilma, simplesmente, repetiria o que vem dizendo desde que o Senado afastou-a do cargo por 180 dias: que o governo do interino é ilegal e irá impor retrocessos à população.

Embora se trate de um erro – a ideia de replicar, na notícia, não era responder nem contestar, mas repetir afirmações – estou mais interessada na origem do erro, para a qual tenho uma hipótese: a enorme influência do Inglês nas nossas vidas, especialmente no ambiente da internet.

Neste sentido, teria havido uma falsa associação, por sonoridade (1) e aproximação de ideias (2) entre os verbos

1- replicar e “reply” – sendo que reply (responder, reagir, contestar) não comporta a ideia de repetir, intenção provável da repórter;

2- replicar (responder e copiar) e “replay”, este sim, reproduzir, repetir (som, imagem, história, jogo, etc.), correspondendo à intenção da redatora.

Acredito que em ambas as possibilidades a jornalista tinha um verbo Inglês na cabeça.

Sem dúvida, a força da língua inglesa tem o poder de confundir redatores. Só não cai nessa cilada quem domina o Português.

Aumente a qualidade narrativa com o exercício da observação

30.May. 2016
por Claudia Atas

Tomate invertidoEntre os desafios impostos pelo jornalismo digital, “repórteres terão maior responsabilidade na busca de estratégias para que suas narrativas sejam lidas ou assistidas”. Quanto aos editores, “devem se preocupar com a qualidade jornalística e narrativa, empenhando-se em encontrar as melhores maneiras de contar histórias em múltiplos meios”. Com essas e outras providências, o jornal New York Times prepara-se para enfrentar a revolução digital.

A informação saiu publicada ontem, na coluna Ombudsman da Folha de S.Paulo e comprova, mais uma vez, o valor da qualidade narrativa no jornalismo, um valor clássico a que empresas jornalísticas recorrem para enfrentar a concorrência da leitura fácil e duvidosa e se distinguir em meio à avalanche noticiosa disponível na internet.

Uma das melhores lições que aprendi sobre criatividade ocorreu fora da faculdade de jornalismo e, quem diria, dentro de uma redação responsável por uma “revista técnica”.

Em meados dos anos 1980, o editor de Construção Hoje encantava a equipe com informações teóricas e práticas que nos ajudavam a produzir estruturas, leads, títulos e outros requisitos das matérias de alta qualidade. Sua comunicação era sempre objetiva, motivadora e inventiva.

Com o tempo, descobrimos como Alipio do Amaral desenvolvia e aplicava ideias originais, inovadoras, estimulantes: elaborando informações, sensações e valores a priori estranhos à linguagem profissional.

Foi um sucesso a palestra dele para o setor comercial da empresa, especialmente ao expor uma analogia entre tomates cultivados de cabeça para baixo (que vira em Denver, no Colorado – EUA) e práticas inovadoras, heterodoxas que a maioria das pessoas reluta em aceitar. Ele falava para um público que teria de usar uma nova metodologia de trabalho. Os tomates de Denver viraram uma referência na empresa.

Lembrei-me do episódio quando li o artigo Teori (Indiana Jones) Zavascki, de Elio Gaspari, há algumas semanas, na Folha (basta digitar o título no Google para escolher onde ler). Gaspari desenvolve uma excelente analogia entre “a figura publicamente sorumbática do ministro Teori Zavascki” e o personagem Indiana Jones. Ou melhor, compara bastidores do filme e do Supremo Tribunal Federal:

“Quem quiser usufruir 14 segundos de alegria poderá captar a essência do que aconteceu no Supremo Tribunal e na política brasileira (suspensão do mandato do deputado Eduardo Cunha, na manhã do último dia 5). Basta ir à rede para ver (ou rever) a cena do confronto de Indiana Jornes com o beduíno de roupas pretas”.

A analogia costura o texto, do princípio ao fim. O recurso é bem lembrado, bem aplicado, bem estruturado.

O mais importante, aqui, não é deliciar-se com a leitura. É acreditar que exposições de tomates, cinema e muitas outras atividades, reais ou fictícias, quase sempre oferecem motivos para reflexão e geram ideias. É lembrar, na hora oportuna, que podem enriquecer ou aclarar a mensagem.

Não acredite que a observação como fonte de narrações criativas seja uma dica “prêt-à-porter”, que produza um ganho imediato. Ao contrário, é um recurso que exige memória, imaginação e, ainda, disposição para pensar, experimentar e lapidar a ideia. Como Alipio, ao se deparar com tomates cultivados de cima para baixo, e Gaspari, ao dar trela às sensações de ver em Zavascki um herói cinematográfico.

Uma história muito mal contada

3.May. 2016
por Claudia Atas
Mariz Valdo Cruz 27 abril

Folha online, 27 de abril de 2016.

Precisão e imparcialidade são as expectativas de quem lê o New York Times. A afirmação é de Margaret Sullivan, ombudsman que sai do NYT para assumir a mesma função no Washington Post. Está na coluna de Paula Cesarino Costa, a nova responsável pela “defesa” dos leitores da Folha de S.Paulo (1º/4/2016, página A6).

Matérias jornalísticas requerem muitas qualidades, mas as duas apontadas por Margaret resumem perfeitamente a essência do bom jornalismo.

Falar mal da Folha é direito, é normal. Mas deve-se reconhecer nela uma virtude: ao instituir uma ouvidoria (1989) foi e continua sendo “o único dos grandes jornais nacionais a pagar um profissional para criticá-lo”. (Apenas O Povo, de Fortaleza, criou acompanhou a decisão da Folha).

Na simpática coluna de estreia, Paula sinaliza as diretrizes do seu trabalho no atual “ambiente político polarizado pelo qual o país passa”: “É momento de o jornalismo assentar-se sobre valores clássicos e consistentes: transparência, precisão, objetividade e pluralismo”. E imparcialidade, como diria a colega Margaret.

Sem dúvida, Paula terá muito trabalho pela frente. O caso do criminalista Antonio Claudio Mariz de Oliveira, que se tornou, de um dia para o outro, ex-futuro Ministro da Justiça de um eventual governo Michel Temer, é um bom exemplo.

Mariz deu muitas entrevistas assim que seu nome foi elevado à condição de futuro titular da Justiça. Começaram as versões e as confusões. Ele foi convidado ou era apenas um nome cotado para o cargo? Apresentou-se como dono do cargo ou desmentiu o convite? Foi descartado por criticar a operação Lava Jato, é um coringa ou serviu para o balão de ensaio da velha raposa?

Informações conflitantes, de jornal para jornal, inclusive no mesmo jornal, são um desserviço ao leitor. Um dos problemas é o jornalista depender de assessores envolvidos com manobras sigilosas ou maliciosas, o que produz, geralmente, narrativas cheia de nuances, como esta:

Antônio Cláudio Mariz concedeu entrevista à Folha criticando a Lava Jato. Temer soube na noite do mesmo dia. “Vamos ver se é isso mesmo amanhã. Se for, se tornará inviável.” Foi. E Temer se viu obrigado a descartar publicamente o amigo. A incapacidade dos aliados de guardarem reserva sobre as conversas que vêm sendo travadas nos bastidores irritou profundamente o peemedebista, que passou a desautorizar publicamente informações atribuídas a ele. (Folha de S.Paulo, 1° de maio)

Elio Gaspari, no mesmo dia e na mesma Folha de S.Paulo, esclarece o quadro:

Mariz é um veterano e bem-sucedido advogado. Entre os seus clientes esteve o Michel Temer que convidou-o para o ministério da Justiça. Os dois se conhecem há décadas e o vice-presidente lê jornais. Sabia há meses que Mariz é um adversário público dos métodos da Operação Lava Jato (…). Na semana passada Mariz deu três entrevistas (…). Começaram a circular noticias de que Temer “não gostou” das entrevistas, classificadas como ruins, erráticas e inoportunas. O nome de Mariz foi “descartado” porque alimentaria versões segundo as quais o vice-presidente gostaria de esvaziar a Operação Lava Jato. Tudo ficção. (…) Se os dois nunca conversaram sobre a Lava Jato, são os únicos brasileiros que discutem política sem mencioná-la.

Muitas contradições seriam evitadas se jornalistas da área política redigissem com distanciamento, levando em conta mais a sua experiência que as palavras matreiras de assessores, e mais os fatos que as suas versões. Por exemplo, a oposição do criminalista aos métodos da Lava Jato sempre foi clara e ficou patente quando assinou (15 de janeiro) um manifesto fartamente divulgado, que compara a Operação a “uma espécie de inquisição (neoinquisição) em já se sabe qual será o resultado”.

Precisão e imparcialidade são mais que dois lemas para salas de aula e salões de conferências. É um desafio permanente para o jornalismo.

 

A incompreensível vontade de contar o final do filme.

30.March. 2016
por Claudia Atas

Mundo Cão contar final do filmeSe você é como eu – detesta saber o final de um filme que planeja ver – então pode avaliar meu choque ao ler, no meio de uma reportagem, que os personagens-título de Os Oito Odiados morriam no final do filme. Todos, sem exceção.

A produção de Quentin Tarantino já saiu de cartaz e este blog não trata de cinema; portanto, não estou repetindo o erro daqueles que se atribuem a prerrogativa de publicar aquilo que o leitor pagaria para não ler.

O que leva alguns críticos e jornalistas a antecipar desfechos de obras cinematográficas, teatrais, literárias e tudo o mais que foi preparado para surpreender o público?

Dias atrás, a Revista da Folha publicou uma matéria sobre o lançamento do filme Mundo Cão, de Marcos Jorge. Em determinado trecho, a jornalista conta que o diretor pedira, aos jornalistas, que “evitassem spoilers em seus relatos”.

Spoilers, como você sabe ou já adivinhou, corresponde à figura do desmancha-prazeres, aquele que revela um segredo, antecipa uma informação, desfaz o mistério que as pessoas gostariam de descobrir por si próprias.

O diretor explica: “O filme não é que nem ‘O Sexto Sentido’, cujo fim muda todo o significado, mas certamente é mais prazeroso vê-lo sem saber de nada”.

E a jornalista acede: “Em respeito ao pedido e à surpresa do leitor, paramos por aqui.”

O que nos leva a deduzir que, se o diretor não pedisse, os jornalistas iriam revelar o desfecho, alguns por acharem que contar final de filme é irrelevante na análise de uma obra artística; outros, por pura maldade.

Até ontem, minha crítica se resumia aos jornalistas abelhudos. Agora incluo o simpático Alex Santos, criador do site Como Termina o Filme <http://comoterminafilme.blogspot.com.br/> e <https://www.facebook.com/comoterminafilme/>

Não sei o alcance do site, mas discordo do seu objetivo por três motivos:

1- Porque se ganha muito com as visões novas trazidas pelas críticas de bons profissionais – não porque sejam “verdades”, mas pela riqueza de elementos que oxigenam as nossas ideias e nos ensinam, ou relembram, conceitos importantes.

2- Porque as visões dos críticos também nos ajudam a encontrar o que perdemos na sessão do filme (ocupamos boa parte do tempo lendo legendas; concentramo-nos na trama, no drama e nos emocionamos demais, ou, simplesmente, não tínhamos as ferramentas intelectuais para perceber certas dimensões da obra)

3- e, finalmente, porque a narração, escrita, de um filme, é a sua morte. Basta observar o relato que o site publicou sobre Os Oito Odiados: uma monótona narrativa de ações que se emendam friamente, sem estilo, sem suspense. Quem chegar ao final da leitura, provavelmente desistirá de ver o filme. Se quiser conferir, aqui está o desfecho do filme publicado pelo site,

Site Como Termina o Filme

 

 

 

 

TV Globo mergulha no didatismo para reter audiência

17.February. 2016
por Claudia Atas
Buraqueira, símbolo do coloquialismo que a Globo almeja, mistura-se com vocabulário preciso, sofisticado e até um traço da rígida gramática que nos esforçamos para aprender.

Linguagem culta dosada com linguagem popular: na fala do repórter sobrevive um traço da rígida gramática que nos esforçamos para aprender.

Didatismo explícito é a nova tática que o jornalismo da Globo vem adotando para reter seu público. Fuga de audiência não é um fenômeno exclusivo da Globo, nem das emissoras brasileiras. Em todo o mundo, TVs pagas e gratuitas perdem audiência para os serviços de informação e entretenimento, em vídeo, transmitidos pela internet.

A migração para a tecnologia streaming deverá crescer — consumidores estão cada vez menos dispostos a ajustar seus horários e preferências à grade de programação das emissoras… e gostando cada vez mais da autonomia proporcionada pelo streaming, como comprova o sucesso mundial da Netflix. Além disso, novas empresas estão prontas para entrar nesse mercado, como Apple e Verizon.

A Globo vem tomando suas providências há um bom tempo. Tecnologicamente, diversificou o alcance de seus produtos; e, mais recentemente, resolveu apostar no didatismo em seus produtos jornalísticos, por meio de metáforas, coloquialismo e descontração.

Estabelecer esse novo padrão linguístico visual e verbal requer tempo e ajustes. Na atual fase, chama minha atenção o entusiasmo metafórico. O Jornal Nacional consegue bons efeitos, sem dúvida, mas, também, seus esforços didáticos pecam pelo artificialismo.

Obviamente, não se pode exigir criatividade diária das pessoas, nem ótimas condições de produção, todo dia, a qualquer instante. Neste sentido, percebem-se com frequência soluções artificiais, ingênuas, infantis e mesmo caricatas.

Seria preferível, quando ausentes a inspiração, as condições físicas e técnicas, adotar a linha jornalística tradicional. Clareza da informação e matéria bem realizada dispensam recursos como a metáfora, como o jeitão familiar que aproxima o repórter do ator e a reportagem, da encenação. No balanço geral, o caminho é válido e os resultados, positivos.

Creio que o novo estilo jornalístico da Globo tem o dedo da sua consultora linguística, Valéria Paz de Almeida. Há menos de um ano (maio/2015), ela afirmou para o site Língua Portuguesa: “Descobri (trabalhando para a TV) que a fala era só o canal pelo qual (os jornalistas) davam informações. Não havia uma realização falada, propriamente. Era uma produção da escrita, a diferença é que era lida”.

Seu diagnóstico foi o seguinte: “(…) a orientação que os jornalistas de TV mais precisam é a de como adotar uma fala mais coloquial. Há mais de trinta anos a tradição no meio segue padrões da escrita e os profissionais nem percebem que seu registro tem uma distância muito grande da fala”. Valéria tem toda a razão.

No vídeo, que você pode ver clicando neste link <http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2016/01/usp-testa-rodovias-com-aco-que-so-precisa-de-manutencao-em-60-anos.htmlo repórter dosa norma culta com norma popular. Não deixa de ser curiosa, principalmente depois da observação de Valéria sobre a diferença entre texto escrito para ser falado x escrito para ser lido, a pronúncia irretocável do jornalista para a frase “Antes de a gente explicar, …”. Naturalmente, antes de a gente explicar é uma forma correta desconhecida da maioria das pessoas. Na perspectiva deste artigo, o repórter trai o esforço da fase anterior da Globo – quando a correção gramatical era estreitamente vigiada.

A brincadeira coloquial da Veja

Um título provocativo, mas da boca para fora.

Um título provocativo, mas da boca para fora.

Coloquialismo não é necessariamente linguagem gramaticalmente incorreta. A meu ver, não podem ser classificadas de erro reduções como pra, cê, peraí (formas reduzidas ou contraídas); a gente, no lugar de nós; tipo assim, ai, então (palavras para articular ideias), segundo Mayra Gabriella de Rezende Pavan, que exemplifica linguagem coloquial, sem a distinção que faço entre gramaticalmente correto e incorreto.

Quanto a “Deixa ele”, é erro crasso, na língua escrita; na língua falada, uma quebra de regra amplamente aceita. Qual de nós diria para a criançada, colegas de trabalho, amigos e familiares o corretíssimo “Deixe-o”?

Nessa perspectiva, registro o approach atrevido da revista Veja. Na capa de 11/11/2015, um erro grosseiro é a manchete: “Deixem ele crescer!” Concordo que “Deixem-no crescer” é jornalisticamente impublicável, mas, aqui, o atrevimento é da boca para fora: internamente, a Veja zela pelo cumprimento das normas gramaticais. Ou seja, a manchete não passou de onda, de brincadeira.

Quem sabe aludisse à frase que parece ter rodado o mundo quando o cantor country Willie Nelson disse, sobre a prisão do enfant terrible Justin Bieber: “Deixe ele crescer e então nós falaremos sobre isso” – por si, alusão à canção Mama don’t let your babies grow up to be cowboys.

Veja o que faz um título-brincadeira da Veja.

 

Oportunidade x oportunismo: a reportagem de Ernesto Paglia

5.December. 2015
por Claudia Atas

Mariana - Foto LágrimaHoje faz trinta dias que aproximadamente 30 milhões de metros cúbicos de lama, vazados de uma represa da mineradora Samarco, sepultaram um vilarejo, asfixiaram o Rio Doce e deixaram nove cidades ficaram sem água.

A mídia prestou um bom serviço, embora prejudicado, na primeira semana, por informações desencontradas, típicas de coberturas iniciais de acidentes.

Entre tantas reportagens, uma me chamou a atenção por representar interessante dilema ético. Foi o caso da matéria de Ernesto Paglia, exibida no Jornal Nacional em 17 de novembro passado, doze dias após o rompimento da barragem (http://globoplay.globo.com/v/4615844/)

Na época, assombro e consternação eram gerais. Duvidava-se da viabilidade tanto de revitalização da Bacia do Rio Doce quanto da recuperação econômica do seu entorno.

Mariana foto Salgado LinkedinNesse clima de comoção nacional, foi ao ar a consoladora reportagem de Paglia e seu surpreendente messias – Sebastião Salgado, fotógrafo internacionalmente consagrado e, como o público então ficou sabendo, também um ativista ambiental.

O que os telespectadores continuaram ignorando foi a parceria entre Salgado e a vilã da história – a Vale. Acionista majoritária da Samarco, a antiga Vale do Rio Doce, hoje Vale, patrocina várias atividades de Salgado. Essa omissão poderia classificar a reportagem de Paglia como inadequada, oportunista, inidônea?

Na perspectiva do que se transmitiu ao público, a matéria foi claramente informativa e oportuna. A audiência tomou conhecimento de que (1) o fotógrafo consagrado também é um ativista ambiental; (2) criou o Instituto Terra (patrocinado pela Vale) e está recuperando uma grande área afetada pela degradação ambiental; (3) propõe uma solução factível; (4) a proposta foi testada, com bons resultados, na própria Bacia do Rio Doce.

Mariana foto peixeDesse ponto de vista, um trabalho jornalístico na linha edificante, com um final feliz: esperança e entusiasmo na conclusão da reportagem.

Para quem sabe que a Vale financia os trabalhos de Salgado, tanto os fotográficos quanto os do Instituto Terra, soa cínica a solução de Salgado para a destruição que seu próprio patrocinador provocou.

Para Kiko Nogueira, um de seus críticos, “seja qual for a quantia que a Vale paga para patrocinar Sebastião Salgado, é pouco diante do serviço de relações públicas que ele presta.”

Diretor-adjunto do Diário Centro do Mundo, Nogueira informa que a Vale patrocina Salgado “desde, pelo menos, 2008. Banca o Projeto Gênesis, um ambicioso registro de uma volta ao globo por 32 regiões extremas. ‘É sobre um planeta intocado’, diz ele (Salgado). Para a Vale, no site oficial, é ‘uma ilustração artística do compromisso com o desenvolvimento integrado nas comunidades em que atua (…). O projeto mostra que a coexistência harmônica entre o homem e a natureza é primordial para o equilíbrio’”.  (http://www. diariodocentrodomundo.com.br/sebastiao-salgado-a-vale-e-o-jornal-nacional-por-kiko-nogueira

Não menos ácido é o artigo “Quando deixei de admirar Sebastião Salgado!”, publicado nos sites do fotojornalista Rodrigo Baleia e do jornal GGN. Baleia acusa Salgado de “assumir a mitigação dos impactos socioambientais ocasionados pelo rompimento da barragem da mineradora Vale/Samarco.” E confessa:

“Eu, como muitos, também era um admirador do trabalho e do posicionamento de Sebastião, mas isso foi mudando (…). Toda e qualquer admiração que tinha por ele foi por água abaixo, ao vê-lo elevando o nome da mineradora em seus discursos em prol das causas socioambientais. (…) Em minhas andanças, tomei conhecimento de um lado obscuro da mineradora Vale que iam (sic) desde ações do Ministério Publico Federal contra o envolvimento da mineradora com trabalho escravo até destruição da Floresta Amazônica. (…) se hoje eu tivesse um livro de Sebastião Salgado, estaria levando o mesmo para livraria de onde comprei e pediria meu dinheiro de volta”.  http://jornalggn.com.br/noticia/quando-deixei-de-admirar-sebastiao-salgado-por-rodrigo-baleia

Obviamente, as críticas são sérias, oportunas, fundamentais. Considero injusto, porém, desqualificar a reportagem e o repórter, como fazem Nogueira e Baleia em seus sites.

No primeiro caso, porque conferiram inegável valor à reportagem o foco e as circunstâncias. Ou seja, a proposta capaz de salvar o Rio Doce e recuperar a economia da região foi divulgada no contexto de um imenso vazio de saídas para o desastre.

Além do mais, todos os noticiários que vi, ouvi e li estavam impregnados das marcas Vale e Samarco e de abundantes responsabilizações pelo desastre de Mariana. Pode-se lamentar a omissão da parceria entre Salgado e a Vale. Mas não se deve ignorar as qualidades da reportagem de Paglia.

No aspecto estilo, o repórter permitiu-se alguns apelos emotivos, é verdade. A meu ver, Paglia reproduziu as diretrizes do padrão globo – por sinal, adotado por várias  emissoras.

De qualquer forma, texto e imagem construíram uma eficiente narrativa cronológica. Em pouco mais de seis minutos, telespectadores transitaram da natureza intocada à degradação e desta à revitalização do rio e das matas nativas; de personagens indígenas (alusão ao cenário original e à profunda ligação dos primeiros habitantes à natureza) a produtores rurais (a “catequese” em prol da reconstituição das nascentes do rio, 80% delas ameaçadas de poluição ou extinção).

Reportagens são constituídas de informações sobre fatos e suas decorrências. Cabem críticas. Mas, a meu ver, as que li foram insuficientes para condenar Paglia e sua matéria.