Skip to content

Pot-pourri para provocar, rir e chorar.  

10.November. 2014
por Claudia Atas

Leitura de jornal é uma dupla experiência de comunicação: consumo de notícias e seu subproduto– as incertezas. Diariamente, a negligência linguística gera dúvidas, ambiguidades, mal entendidos, impropriedades, contradições.

Esse subproduto jornalístico tanto pode afetar negativamente o leitor quanto provocar descontração e riso. Como estas construções mal sucedidas, mas potencialmente humorísticas:

Castigo bíblico: limpar vidro estilhaçado

 A Limpar vidro estilhaçadolegenda da foto (O Estado de S.Paulo (30/7/2014, A 12), afirma que o homem “limpa vidro estilhaçado”. Versão do mito de Sísifo, dada a impossibilidade de cumprir a tarefa? Observando melhor a foto, vê-se que não se trata de limpar o vidro, mas limpar a esquadria, varrendo os estilhaços de vidro para fora de onde se alojaram.        
     

Rir ou chorar?

Frase de uma notícia (FSP, 1º novembro, pg A13): Pizzolato deu entrada para tirar uma carteira de identidade em nome de seu irmão, Celso, morto desde abril de 1978. A norma culta – flexível, típica do jornalismo, razão pela qual não deve ser confundida com a norma padrão (rígida gramaticalmente) – não permite “engolir” palavras como nessa construção. Deu entrada no processo”; Solicitou ou requereu a emissão de uma carteira são  exemplos de solução. Nem difíceis de redigir, nem pernósticas. Quanto a estar “morto desde abril”, a meu ver é expressão engraçada e… imprópria.

 

Erra o “Erramos”, erra o leitor  e bons jornalistas, também.

Cursos nas privadas…

Há construções que precisam e devem ser mudadas, sem alteração do sentido. Neste caso, provavelmente o entrevistado agradeceria:

Cursos na Privada3

Em vez de “75% dos cursos estão nas privadas”, “75% dos cursos estão nas particulares”. Eliminam-se o duplo sentido e o mau gosto da primeira construção, sem que a segunda altere o significado do original. Portanto, mantendo-se fiel ao entrevistado.

 

As inaceitáveis aspas de Eliane Cantanhêde

7.October. 2014
por Claudia Atas

Merece puxão de orelha quem coloca na boca do interlocutor palavras que ele não disse. E mais outro, se “traduzir” ao leitor – entre aspas! – a frase original. No jornalismo, é falta grave.

Espantoso encontrá-la em artigo de Eliane Cantanhêde, colunista da Folha de S.Paulo. Diante da sentença proferida pela presidente Dilma Rousseff – “Não é função da imprensa fazer investigação” (19/9/2014), Eliane perdeu as estribeiras:

Folha de S.Paulo, 21/9/2014, A2

Folha de S.Paulo, 21/9/2014, A2

“No fundo, ela queria dizer” – e vieram as impublicáveis aspas para o que a jornalista julgou ser a tradução do verdadeiro pensamento da presidente:

“A função da imprensa é publicar as versões oficiais, as declarações que eu quero e tudo o que contribui com a minha campanha e o que atrapalha a dos meus adversários’.

“Não chegou a tanto, mas…”

Liberalidade inaceitável. Os parágrafos seguintes talvez expliquem por que a colunista não atentou para o uso indevido das aspas. Julgue você mesmo:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/elianecantanhede/2014/09/1519433-gatos-e-ratos.shtml

Em tempo: tenho economizado elogios, involuntariamente, deixando de registrar bons exemplos jornalísticos. Hoje, não será o caso. Para quem tem dificuldades como amarrar as informações em longos textos, recomendo a leitura da reportagem de Naiana Oscar, A prova de fogo para a energia solar no Brasil (O Estado de S.Paulo, 29/9/2014, B1 e B4).

Naiana constrói o texto sobre uma boa estrutura. O estilo é do tipo despretensioso, o que não significa falta de rigor, equilíbrio e precisão. Conjuga linguagem convencional (no bom sentido) com alguns achados interessantes, sem malabarismos ou modismos. A linguagem coloquial aparece vez por outra, com função: reforçar o entendimento do foco da reportagem ou “recapturar” a atenção do leitor –cuidado importante em reportagens amplas. Vale a pena ler: http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,a-prova-de-fogo-para-a-energia-solar-no-brasil-imp-,1567771

O verbo mais popular do jornalismo brasileiro

16.September. 2014
por Claudia Atas

Fazer é um dos verbos mais usados no jornalismo brasileiro. Como bom curinga, é a opção preferencial de nove entre dez redatores de quaisquer textos, de quaisquer setores. Ultimamente, seu emprego vem se expandindo para assumir funções além de sua alçada. A Folha de S.Paulo deu um bom exemplo no último dia 14 (A20):

Escócia PNG com fala

Não se faz uma decisão  – toma-se uma decisão.

Aconselho a se libertar dessa muleta adotando um mecanismo de alarme bastante eficiente: transforme fazer em palavra-tabu. Assim, toda vez que um fazer rondar seu texto, a hesitação deterá seus dedos e você se perguntará – posso eliminar esse fazer, tem sentido este fazer? Por exemplo, este título da Folha, de 25/6/2014:

Grupos prometem fazer protesto contra prisão de manifestantes em SP   http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/06/1476057-grupos-prometem-fazer-protesto-contra-prisao-de-manifestantes-em-sp.shtml

Evidentemente, protestar é mais conciso e forte que  fazer um protesto! 

Você não poderá eliminar o famoso curinga quando seu complemento for um qualificativo: fazer um protesto grosseiro… Mas é possível mudar a construção: protestaram grosseiramente, ou de modo grosseiro. Sempre será melhor.

A moda e os maus efeitos dos parágrafos artificiais

11.August. 2014
por Claudia Atas

Leitores só se lembram de parágrafos quando, em vez de ajudar, eles atrapalham. E assim deve ser: o ônus da clareza e compreensão é de quem escreve. Encadear logicamente as partes de um texto exige atenção mesmo quando a ideia está clara e pronta na cabeça. Daí a importância desse grande aliado: o parágrafo inteligente.

A drástica mudança na produção de jornais desenhou novos layouts. Agora, as páginas têm efeitos especiais todos os dias, em qualquer caderno, sobre qualquer assunto. Essa nova estética tem seu preço: transformou noticiários em desafios diários e multiplicou mal entendidos.

O parágrafo é uma das vítimas dessa mudança. Na cultura jornalística atual, texto “fácil de ler” exige, entre outras imposições, parágrafo de seis linhas, em média, com tolerâncias para cima e para baixo entre 12 linhas e duas, três, que correspondem a apenas uma, na lauda.

A contabilidade das linhas é ilusória. Na maior parte das vezes, pelo que observo, leva a separações artificiais que prejudicam a clareza e interrompem a fluidez. Falta e sobra de espaço também respondem pelo corte ou pelo acréscimo de parágrafos – solução boa para a produção, ruim para o leitor.

A quantidade de leads desmembrados, sequências incompatíveis e separações desnecessárias é observável a qualquer tempo, em qualquer publicação. Jornais importantes, como Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo em suas edições impressas, vêm sacrificando a lógica e atrapalhando a compreensão. Veja estes exemplos:

Folha de S.Paulo, 10 de agosto de 2014

Folha de S.Paulo, 10 de agosto de 2014

(esquerda):

A estudante Clara, 18, fez Intergraus e hoje cursa Arquitetura na USP.

Para ela, “o humor que oprime alguém para ser engraçado não merece a risada de quem assiste à aula”.

(centro):

Encurtar a distância entre a cúpula da empresa, que toma as decisões, e a operação, para ganhar agilidade.

Esse é o lema das empresas de diversos setores que têm tornado sua estrutura de cargos mais horizontal.

Em ambos os casos, as frases foram desagregadas pelo parágrafo. Ganharam destaques desnecessários, perdendo a força do conjunto. Em vez de um lead vigoroso, tópicos na linha publicitária.

Cabe lembrar que, do ponto de vista “contábil”, as aberturas do primeiro e do segundo exemplo teriam apenas sete e oito linhas, respectivamente, como leads integrados.

O exemplo 3 vem do Estadão  (08 de agosto de 2014), escrito por jornalista que maneja admiravelmente a sintaxe e domina rico vocabulário. Ainda vou perguntar a Dora Kramer o porquê deste desmembramento:

O Estado de S.Paulo, 09 de agosto de 2014

 Ainda no Estadão (09 de junho de 2014, Opinião), um artificialismo estrutural que confunde o leitor:

(…) As outras medidas tomadas para eliminar o déficit desses profissionais também não ajudam muito a resolver o problema.

Nem a possibilidade de fazer residência médica em outros locais além das grandes cidades. Nem a alteração do currículo (…)

O 5º exemplo  (à direita, na reprodução de textos da Folha, mais acima) é do tipo “frase solta”. Pela lógica, estaria justaposta à frase anterior, confirmando seu enunciado:

Assim como fez com as faixas exclusivas de ônibus, no primeiro ano de mandato, o prefeito Fernando Haddad (PT) agora investe na criação de uma nova marca com a rápida expansão das ciclovias.

Nesta semana, ele participou de três eventos públicos ligados a bicicletas.

Com a nova bandeira, Haddad tenta reverter (…)

É possível que, em todos os cinco casos, os redatores tivessem imaginado criar impacto com parágrafos artificiais. Talvez houvesse sobra de espaço e eles espicharam a matéria. Seja como for, a frequência dos parágrafos artificiais denuncia um novo modismo.

Recomendo enfaticamente ignorar esses recursos, reservando-os para uma situação que valha a pena – um lead bastante criativo ou uma informação que gere impacto por si, a ponto de constituírem exceções à regra.

Nenhum dos exemplos citados (reportagens rápidas, editorial, colunista) tinha essa condição.

Interferência ideológica sobre o fato jornalístico: Estadão volta ao prumo.

28.July. 2014
por Claudia Atas
O Estado de S.Paulo, 18 e 25 de junho de 2014

O Estado de S.Paulo, 18 e 25 de junho de 2014

A ascensão jornalística de Guilherme Boulos, o líder dos Sem-Teto de quem mal se conheciam nome e ideias, é evidente – menos pela constância do seu nome em publicações tradicionais, a meu ver, do que pela respeitabilidade adquirida enquanto personagem de matérias.

Critiquei, há alguns meses, o tratamento que lhe dera o Estadão (O leitor pergunta… 11/fevereiro/2014): com dois recursos típicos – ausência de fotos e aspas – o jornal minimizou o líder capaz de arrastar multidões e provocar estragos no marketing político do governo estadual. E o fez na reportagem em que era o foco!

Diante dessa interferência ideológica sobre o fato jornalístico, tão comum na imprensa em todo o mundo, não se pode ignorar a mudança de posicionamento do Estadão, cinco meses depois, como se vê nas reproduções de 18 e 25 de junho passado.

Sejam quais forem os motivos dessa correção, ganham o leitor, Boulos, o Estadão e o jornalismo.

 

A virtude da repetição

28.June. 2014
por Claudia Atas

Redatores sofrem com matérias; e há matérias que sofrem com o redator. Diante de um texto bom e praticamente concluído, o profissional empaca: precisa de um sinônimo, que não o acode. Como superar o problema quando esgotado o estoque de sinônimos ou os tais não comparecem na hora decisivaRepete-se o termo! Melhor repetir e manter a precisão que usar palavras  menos ou nada apropriadas ao contexto.

O Estado de S.Paulo, 25 de junho de 2014, pg. A16

O Estado de S.Paulo, 25 de junho de 2014, pg. A16

Aprendi esta lição com o diretor da revista Construção Hoje, que estimulou a equipe a reavaliar este e outros mitos. Livrei-me do dilema e passei a comprovar o acerto da repetição em textos de alta qualidade estilística. A questão me voltou à lembrança ao ler uma matéria do Estadão com palavras e expressões impróprias para o contexto, em dois sentidos: imprecisão e conotação pejorativa. Imprecisão: associo ao “problema” da repetição “mecanismo” como sinônimo de ciclovia e “montar” como sinônimo de construir (ESP 25/6/14 A16). É provável que o redator temeu repetir palavras.

 “O mecanismo integrará os 400 km de ciclovias que a atual gestão promete construir…” (melhor seria a quilometragem do futuro mecanismo, que, para o autor, significa futura ciclovia)
… o mecanismo seguirá da Estação Julio Prestes até o Terminal Amaral Gurgel…” (box)
“… da ciclovia que começou a ser montada…”

Confesso jamais ter lido “mecanismo” – palavra que explica muitos processos físicos e mentais – como sinônimo de via, rodovia e ciclovia. Quanto a “montagem de ciclovia”, é verdade que se planeja construir a obra em nível acima da pista dos automóveis; mas daí a montar uma rua, uma rodovia, uma estrada vai uma grande diferença.

A matéria também foi infeliz, a meu ver, pela negligência que levou à ideia de menosprezo, indiferença:

 “… uma das propostas (…) é alargar o canteiro central da avenida – hoje só ocupado por floreiras, e por bases das luminárias e dos relógios de rua (…)”

Só, no contexto da conscientização ecológica que se vive, é uma expressão que denota desprezo. A matéria reproduz, sem aspas, palavras de Jilmar Tatto, secretário municipal dos Transportes, ou seja, parece que houve um descuido na versão da resposta falada para a linguagem escrita.

“Teria de tirar aquele canteiro de flores, pelo menos um pedaço …” (Jilmar Tatto)

A reportagem não menciona nem questiona o sacrifício do verde, cuja solução pode estar contemplada em outra proposta sob análise. A concorrência do espaço entre pessoas, carros e bicicletas aparece em outra frase infeliz mal sucedida:

“Seria um conflito com os pedestres que sobram no meio da avenida…”

O consultor em transportes referia-se ao fato de que a proposta levará à perda de espaço para os pedestres, mas o efeito resultou pejorativo, algo a que nós, profissionais de comunicação, precisamos estar sempre muito atentos.

Sinônimos são conceitos que se aproximam, jamais serão idênticos. Em vez de arriscar a precisão, melhor optar por uma repetição. Por sinal, os pronomes ele, ela, seu, sua, etc. podem não ser elegantes, muitas vezes. Melhor sacrificar o estilo que a precisão, o entendimento. Quanto ao descuido que resulta em depreciação, creio que decorre de uma pretensão: converter uma conversa em texto considerando tratar-se de mera transposição. É preciso um pouco de arte, também.

Recomendo duas leituras para os mais interessados no tema  sinônimos:  “Seis não é meia dúzia“, publicado pela competentíssima Gislaine Marins no excelente Palavras Debulhadas <http://palavrasdebulhadas.blogspot.com.br/2012/01/seis-nao-e-meia-duzia.html>

Aqui, já comentei o assunto no post “Licença para repetir palavras” (6 de julho de 2011).

Títulos – arte e pecados

30.May. 2014
por Claudia Atas

Quando o que se diz não é o que o leitor ou a maioria entende, das três uma foi a responsável– negligência, pressa ou estreiteza das colunas do layout. Estas são as causas mais frequentes de más soluções, gramaticais ou comunicacionais. Mas, se criam problemas, títulos ambíguos também geram boas oportunidades de reflexão, como estas que compartilho a seguir.

Realidade e ficção: “Choque evita fuga de detentos no PR” 

Ambiguidade Estadão pg 15

O Estado de S.Paulo, 19/5/2014, A15

Blog pg 15 Título dá impressão de que os detentos levaram choques elétricos. O leitor corre para o lead, onde descobre que foi o Batalhão de Choque que deteve os presidiários e. portanto, choques elétricos foram obra da sua imaginação. Não é verdade, foram obra de quem criou a manchete. 

Contexto e intenção: Local de festa da Copa recebe críticas”     

O Estado de S.Paulo, 19/5/2014, A16
O Estado de S.Paulo, 19/5/2014, A16

Em plena fase de manifestações anti-Copa, o título sugere espaço ocupado por manifestantes contrários aos gastos assumidos pelo governo para a realização da Copa do Mundo (Fifa). Também remete à ideia de local como o objeto da crítica: o estádio e/ou entorno e/ou mobilidade. O lead e a foto, porém, informam o leitor que grafiteiros escreveram suas críticas no solo, ou seja, usaram o próprio estádio para criticar.

Suzana Singer, até recentemente a ombudsman da Folha de S.Paulo, já tratou das dificuldades que envolvem títulos (como sabemos, dificuldades para quem redige e para quem lê).

Em “A Arte de Fazer Títulos” (06/02/2011), ela inclui construções difíceis de entender. Seu exemplo é uma frase do gênero “informação cifrada”. Mesmo assim, incluo nessa classificação os títulos comentados acima.

Vale a pena ler o artigo de Suzana. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ombudsma/om0602201101.htm

Como Redigir E-Mails Eficazes

9.May. 2014
por Claudia Atas
Em versão online, o curso estimula o usuário com cenas em vídeo e muitos exercícios interativos.

Em versão online, o curso estimula o usuário com cenas em vídeo e muitos exercícios interativos.

Boa parte dos problemas que travam a redação, prejudicam a empresa em nome da qual o funcionário escreve e muitas outras dificuldades de comunicação pode ser eliminada com o curso Como Redigir E-mails Eficazes. 

O produto foi desenvolvido por Claudia Atas Comunicação em parceria com duas empresas consagradas no mercado de e-learning: Instituto IDALE, há 20 anos no setor, e MicroPower, a maior em e-learning no Brasil. 

Destinado a pessoas com escolaridade a partir do nível médio, Como Redigir E-mails Eficazes inclui técnicas jornalísticas para demonstrar os princípios da boa comunicação e as soluções dos problemas apontados nos exercícios.

Aspectos diferenciais do curso:

1- Ênfase na importância do raciocínio, do contexto e da coerência nas mensagens eletrônicas, notadamente quando dirigidas a consumidores e clientes (SAC e Pós-Venda). 
 
2- Análise de alguns tabus da redação, como a ideia de que concisão garante a objetividade do texto, e seu inverso, o texto longo, é sinônimo de falta de objetividade.

Mais informações: clapmark@terra.com.br ou tel. 11 3819-7812.

 

Três construções “boas de errar”

20.April. 2014

Qual é a construção correta:

“A expectativa era que todos viessem” ou “a expectativa era de que…”?  
“Quase todos que prometeram, vieram” ou “quase todos os que prometeram…”?
“No Brasil, se consome, em alimentos, pelo menos 14 venenos proibidos no mundo”? Ou seria se consomem? 

Você já procurou resposta para uma dúvida gramatical e não conseguiu porque… não sabia o nome do problema? Caso das frases acima, aposto, ótimas para criar esse tipo de insegurança.  

Por sorte, uma professora doutora (Gislaine Marins) que ama o que faz, a ponto de compartilhar seu conhecimento,  (http://palavrasdebulhadas.blogspot.com.br/), nos socorre aqui:

1. Com preposição ou sem preposição? 

Certificou-se que as portas estavam fechadas / certificou-se de que…;
 O fisco suspeita que agiram de má fé / suspeita de que agiram…;
A expectativa era que o PIB crescesse 5% / A expectativa era de que o PIB…;
Foi informada que havia vagas / foi informada de que havia vagas; 
Insistiu que o e-mail fora enviado/ insistiu em que o e-mail…; 
A possibilidade que você seja sorteado é pequena / a possibilidade de que você seja sorteado…;
Cresce a convicção que se deve aprovar a pena de morte /cresce a convicção de que…

2. E neste caso?

Comunicamos a todos que desejam participar do debate que permaneçam /  Comunicamos a todos os que desejam participar…

3. Qual a concordância verbal adequada (veja o negrito):

Tem gente que atravessa a rua para escorregar na casca de banana que está na outra calçada. A doutora Dilma atravessou o Atlântico para escorregar em Lisboa pelo simples culto à blindagem de suas agendas. Transformou um simples jantar em reunião da VAS-Palmares. Acreditar que a ex-ministra-chefe de Comunicação Helena Chagas tivesse algo a ver com essa obsessão exige que se desconheça as duas… 
(Elio Gaspari, Folha de S.Paulo, 02/02/2014)

Que você, que eu desconheça? Ou que se desconheçam…

Respostas de Gislaine:

1: Em todas as alternativas acima, a resposta correta é sempre a segunda, ou seja, com preposição. Não há uma explicação gramatical “lógica” para a necessidade da preposição – a questão é histórica. A única consideração que podemos fazer é de tipo sociolinguístico: no uso da preposição constatamos uma sutil separação entre os poucos falantes que privilegiam a riqueza historicamente sedimentada na língua e a maioria dos falantes que, mesmo errando, aposta em uma construção mais simples e direta. Neste caso, a única certeza são as listas fornecidas pelas gramáticas e pelos dicionários de verbos.

Um uso inovador é sempre visto em princípio como erro gramatical, pois uma mudança na língua leva muito tempo para ser consolidada. Nesse sentido, basta lembrar a velha polêmica da contração da preposição “para” que nos anos setenta costumava ser escrita “pra” e que hoje recebe uma interpretação bem clara: “para” é a preposição usada na forma escrita; “pra” é uso informal e oral. Em relação à supressão das preposições, o princípio é análogo: prudência nunca é demais, se não quisermos que o nosso texto salte aos olhos por questões que distraem o leitor dos aspectos que consideramos essenciais.

2: Ambas as construções estão corretas. Podemos escrever “todos que”, “todos os que…” ou mesmo “todos aqueles que desejam…”.

Os brasileiros tendem a especificar expressões nominais. Deixar de lado as especificações ocorre ou por ser uso regional, como o português falado em certas zonas do Nordeste, que dispensa o artigo antes dos nomes próprios; ou para indicar um distanciamento que pode ser percebido como formalidade. O título de reportagem “Governador repassa verbas para a Secretaria da Cultura” revela menos proximidade do que esta hipotética manchete: “O Presidente fez um apelo durante a Assembleia da ONU”.

Pessoalmente, gosto da expressão “todos que” – ela não produz eco (todos os – repetição de “os”) e é mais sintética, sem perder em termos de conteúdo. Mas, se você deseja evidenciar que se trata de “todos” (todos mesmo!), então a ênfase que a expressão “Todos os que desejam” dá aos termos “todos” e “que” é de valor indispensável. Em resumo, o contexto e que determinará uma ou outra escolha.

3: O correto é dizer “ (…) Acreditar que a ex-ministra-chefe de Comunicação Helena Chagas tivesse algo a ver com essa obsessão exige que se desconheçam as duas…“.

Na linguagem falada tendemos a colocar os verbos no singular, mesmo quando se trata de uma passiva sintética – exemplo: “Vende-se casas”, quando o correto é “Vendem-se casas” (“casas são vendidas [por alguém]”), com o agente da passiva no plural; no caso analisado, “que se desconheçam as duas”, ou sejam, “que as duas sejam desconhecidas [por alguém, que pode ser o leitor]”). Como o Elio Gaspari é um grande jornalista, creio que o  erro de concordância verbal só pode ter sido um lapso.

Vale a pena observar que se trata de uma frase complexa. Além da passiva sintética (se), temos o uso do infinitivo pessoal (acreditar), que poderia ser especificado para benefício da clareza: “Acreditar [você, o brasileiro] que a ex-ministra-chefe de Comunicação Helena Chagas tivesse algo a ver com essa obsessão exige…”.

 

 

Eutanásia ou ortotanásia?

16.March. 2014
por Claudia Atas

O brasileiro é contra ou a favor da eutanásia? Sim, você está certo: antes de opinar, todos deveríamos entender o conceito e desfazer equívocos.

Le Soir (jornal belga): Rei Felipe assina lei sobre eutanásia para menores.

Comento o assunto a propósito da eutanásia sem restrição de idade, aprovada pela Bélgica há pouco mais de um mês. Agora – o rei Felipe sancionou a lei no último dia 3 – o direito à eutanásia, permitida desde 2002 a maiores de 18 anos, se estende a crianças e adolescentes.

A maior parte das pessoas entende eutanásia como o ato de desligar aparelhos de doente terminal ou recusa de tratamento longo e doloroso. Na verdade, estes casos seriam mais apropriadamente chamados de ortotanásia – morte natural, na hora certa. Aí está o ponto que nos interessa.

A Medicina tem recursos cada vez mais eficazes para prolongar a vida – conquista que já curou ou deu qualidade de vida a tantos doentes que não mais se questiona sua utilização.

No entanto, essa capacidade adquiriu, ao longo do tempo, um poder autoritário sobre pacientes e familiares, seja porque vai ao limite do que médicos e pacientes são capazes de dar e suportar, seja pelo tabu da morte “provocada” por se privar o doente de recursos disponíveis.

A polêmica, que vem e vai ao sabor das notícias, como a nova lei em vigor na Bélgica,  alimenta-se da interpretação que se dão aos conceitos de eutanásia e ortotanásia.

Para mim, foi esclarecedora a entrevista que realizei com o especialista em bioética, Leocir Pessini (Leo Pessini, em seus livros), para a revista Medicina Social *:

Padre camiliano e vice-reitor do Centro Universitário São Camilo (…), Pessini conta que há 25 anos luta para esclarecer esses conceitos. “Há quem pense que eutanásia seja desligar os aparelhos que mantêm a vida de uma pessoa com morte cerebral.” Na verdade, esse é um caso típico de ortotanásia, no qual se reconhece a impossibilidade terapêutica de recuperação, como quadros de Alzheimer, demência, Parkinson, ou Aids e câncer em sua fase final. Para o sacerdote e professor, não há dilema quando se esgotam as possibilidades terapêuticas: “Nada se pode fazer na linha de investimento terapêutico de intervenção visando cura, mas há tudo o que fazer na linha do cuidado e do conforto”. 

Em resumo,

 “Entre abreviar a vida, que é a eutanásia, e prolongá-la, a distanásia, situa-se a ideia da morte certa, no tempo certo, no lugar certo. Este é o conceito de ortotanásia, palavra de origem grega cujo prefixo, orto, significa correto”.

As ideias não conflitam; apenas, devem ser compreendidas na perspectiva de morte natural.

A matéria “Morte com dignidade” foi publicada na edição nº. 197 (abril-junho/2007) da revista Medicina Social, da Abramge – Associação Brasileira de Medicina de Grupo. Para consultas, estes são os dados de acesso: Tel.: (11) 3289-7511; Fax: (11) 3266-3975 / 3289-7175; e-mail: abramge@abramge.com.br