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Teste-relâmpago I

22.June. 2015
por Claudia Atas

As estatísticas de Clareza & Coerência mostram que análise de matéria jornalística e revisão gramatical são os tipos de postagens mais clicados. Meses após a publicação do Pot-pourri para provocar, rir e chorar , é hora de voltar a tratar de construções problemáticas – novas e antigas, fáceis e difíceis.

Esta safra de questões foi colhida em manual de cafeteira, notícia do Estadão, site de inovação e criatividade e rede social Linkedin. Espero que seja útil a você.

 

1- O que você acha deste lead?

Imigrar

O texto afirma que “Filho de pai e mãe brasileiros e nascido em Porto Alegre, o deputado imigrou para a França”…

Deveria informar que o deputado emigrou do Brasil para a França.

Que troca, heim? Para acabar com a confusão entre emigrar e imigrar, memorize:

Imigrar para / Emigrar de. Ou emigrar / sair; imigrar /entrar.

Uma boa explicação, que inclui “migrar”, pode ser encontrada a partir deste link:

www.brasilescola.com/gramatica/emigrar-ou-imigrar.htm

 

2- A ousadia do restaurante Venga!

Um restaurante se ousou bastante em uma campanha para diminuir o uso de celulares durante os jantares em seu bar. 

A notícia é boa, mas nosso foco é outro: você ousaria assinalar certo para “o restaurante ousou-se”?Busquei essa construção em alguns dicionários, mas só a encontrei no Michaelis, que explica o significado como “Afrontar, insultar: Ousar-se com alguém.”

Note que a regência, segundo o Michaelis, exige “com”. É duvidoso classificar como erro de regência verbal a frase em destaque. Ela emprega “ousar-se” em tom positivo, elogioso, ao contrário da afronta e do insulto comentado.

Na dúvida, melhor empregar o velho e competente ousar, que dá de dez sobre a recorrente alternativa “fazer uma ação”, como neste exemplo:

Para diminuir o uso de celulares durante os jantares em seu bar, o Venga! fez uma ação …

www.hypeness.com.br – site que divulga “conteúdos mais inovadores em áreas como arte, design, negócios, cultura, entretenimento e tecnologia para os criativos pensarem cada vez mais fora da caixa”.

 

3- Qual é o problema das frases abaixo?

Não concordância verbal

Esta é para recordar: o advérbio “não” atrai os pronomes pessoais oblíquos. Portanto, o correto seria “Não a coloque”, “Não a limpe”, “Não a use” e “Não as segure”.

Observe a correção na perspectiva da musicalidade. A entonação, no original, produz o efeito de “soquinho”, um quase “trava língua”; no modo gramaticalmente certo, encadeiam-se com naturalidade e permitem enfatizar a ideia de “não faça assim”.

 

4- Teste-relâmpago: o nome do problema

A busca de solução na internet é fácil, desde que se saiba o nome do problema. A frase abaixo é um bom exemplo dessa dificuldade:

… a comunicação funciona como um elo entre empresa e funcionários, minimizando adversidades (…) Deixar claros quais são os objetivos de cada um é o trunfo do comunicador.

Creio que houve excesso de zelo. Para não cometer este erro tão comum:

“Vamos deixar claro, por escrito, todas as questões discutidas nesta reunião” (o certo é “Vamos deixar claras, por escrito, todas as questões…”, ou seja, “Vamos deixar as questões claras”)

o autor cometeu outro, em dose dupla: deixar claros quais são os objetivos. Por quê? Se você gosta de testes, não leia agora a linha abaixo:

A resposta concisa é: não existe concordância com “claro” (clara, claras, claro, claros) quando o que vem em seguida é um que, ou seja, uma nova oração. A resposta completa você pode buscar na internet. Entre outras opções, está no UOL Educação:

http://educacao.uol.com.br/dicas-portugues/deixar-claro-adjetivo-em-funcao-de-predicativo-do-objeto.jhtm

Observação: a internet contém milhares de fontes para regras gramaticais, mas encontrar o que se precisa depende de palavras-chave, nomes para o problema. Suponho que o autor da frase buscou e não encontrou a regra para essa construção. Então, socorreu-se da norma para construções do gênero, mas sem “que” ou “quais”. Resultado: duplo engano.

Esforços e trapaças na busca da verdade

17.April. 2015
por Claudia Atas

Em Jornalismo Comparado, veículos são cotejados em várias perspectivas com vários objetivos.  Tarefa complexa quando se procura identificar o respectivo viés ideológico. Contudo, uma boa e simples lição jornalística sobre ideologização pode ser extraída de quatro páginas publicadas, no último dia 13, pelos dois dos principais jornais brasileiros – Folha de S.Paulo e Estado de S.Paulo.

 

O Estado de S.Paulo, 13 de abril de 2015. Primeira Página e Página A4

O Estado de S.Paulo, 13 de abril de 2015. Primeira Página e Página A4

A comparação dos recursos empregados por um e outro na edição do fato mais quente do dia – as manifestações populares da véspera, contra o governo e outras insatisfações – leva a duas visões contraditórias acerca do princípio maior do jornalismo – a busca da verdade: Estadão, coerente com sua postura política, fomenta sua campanha anti Dilma e anti PT em área não editorial; Folha, coerente com os autodeclarados pluralismo e apartidarismo, exercita o equilíbrio com apoio do Datafolha.

Leitora em busca da verdadeira magnitude dos protestos populares, considerei ter sido melhor informada pela Folha e manipulada pelo Estadão, cujos artifícios elevaram a magnitude política e jornalística do fato. A eloquência narrativa do Estado foi composta por:

1- Tamanho de fonte e (portanto) entrelinhamento acima do padrão e maiores que os da Primeira Página.

2-Títulos, subtítulos e “olhos” (decks) ocultam queda na participação relativamente à manifestação anterior, conforme Datafolha e Polícia Militar. Em sua forma genérica, “Milhares” encobre a redução de manifestantes.

3- A esvaziamento do ato também não pode ser aferido nas imagens, já que fotos fechadas criam a ilusão de uma Avenida Paulista lotada.

4- Construções capciosas integram a construção da verdade: “Pela 2ª. vez” (manchete) e “voltam às ruas” (miolo) transmitem uma advertência, um sinal de risco e agravamento: prestem atenção, o povo volta às ruas pela segunda vez.

5- Personificação do alvo da revolta: Dilma, em ambos os títulos.

O mérito da Folha foi tratar o episódio sem subterfúgios:o número de participantes caiu (Datafolha e PM) e junto, obviamente, a força nas ruas.

Folha de S.Paulo, 13 de abril de 2015, Primeira Página e A4.

Folha de S.Paulo, 13 de abril de 2015, Primeira Página e A4.

 

A interpretação é correta, mas circunstancial – perdas nas ruas não significam, necessariamente, perda de pressão. Provavelmente, mudarão os meios de pressionar.

A Folha também acertou ao explicar, mais uma vez, a metodologia do Datafolha para calcular o número de pessoas presentes em uma manifestação. A chamada na página A7 remete o leitor a matéria publicada na internet e atende não só à linha editorial do diário como ao desejo de transparência do leitor e da sociedade.

 

 

New York Times brasileiro ignora bengala nos títulos

19.March. 2015
por Claudia Atas

NYT dentista web

Sim, é possível: um caderno jornalístico com suculentas seis páginas, 19 títulos de uma a quatro colunas e… nenhuma ocorrência dos verbos ter e fazer!

Sim, The New York Times International Weekly (*), encartado aos sábados na Folha de S.Paulo, prova que ter e fazer viciaram a imprensa brasileira, provocando dependência.

Veja estes títulos relacionados a seis matérias publicadas no NYT International Weekly:

  1. Ressentimento faz neonazistas e radicais islâmicos se unirem
  2. Tratamento do câncer tem nova frente de pesquisa
  3. Molde caseiro faz dentistas perderem clientes
  4. Compras na Ásia têm dicas de especialistas
  5. Museu de Londres faz homenagem a Sherlock Holmes
  6. Festival no Irã terá jazz americano

… e os originais do caderno impresso:

  1. Ressentimento une neonazistas e radicais islâmicos
  2. Pesquisa inovou luta contra o câncer
  3. Aparelhos dispensam visitas ao dentista
  4. Especialistas dão dicas de compras na Ásia
  5. Exposição celebra Sherlock Holmes
  6. Festival no Irã acolhe jazz americano

Provam que as bengalas dos textos brasileiros – ter e fazer – podem ser dispensadas, certo?

Na Folha de S.Paulo há mais de dois anos, Luisa Pessoa responde pela edição brasileira do caderno. Seis tradutores vertem os textos do inglês para o português; ela cria os títulos e fecha as páginas.

Tomando por base a edição impressa de 14 de março, é notável a qualidade dos títulos: informativos, fortes, objetivos. Ignorar ter e fazer já constitui uma virtude; ignorá-los em 19 títulos e obedecer ao projeto editorial (inclusive à largura da coluna) é uma proeza.

As edições impressa e online são ligeiramente diferentes e o caderno, acessível só para assinantes da Folha. Assim, reproduzo os 13 títulos restantes para os mais interessados no assunto:

  1. Afegãs confrontam tirania familiar
  2. Bali promove matança de cães de rua
  3. Ampliação do Suez ameaça Mediterrâneo
  4. “Papai” Jinping encanta os chineses
  5. Aparelhos dispensam visitas ao dentista
  6. Cupins garantem saúde do solo
  7. A Europa não cederá à dúvida (inferior aos demais pela ambiguidade)
  8. Ex-radicais combatem aliciadores na Europa
  9. Abrigos protegem afegãs de parentes
  10. e 11. (não usam verbo): A era das identidades múltiplas e As duas faces de Berlim
  11. Cidade etíope encantou poeta francês (desculpável a repetição do verbo encantar: aparece na 2ª página e na 5ª)
  12. Francês adapta best-seller da China às telas (o gentílico “francês” aparece em dois títulos, em páginas diferentes, porém)
  13. Montagem reanima balé adormecido

(*) Compilação de artigos especiais publicados originalmente no jornal norte-americano. Circula em 28 países. No Brasil, a FSP é o único jornal a veiculá-lo.

Linguagem não verbal aplicada ao jornalismo – II

18.February. 2015
por Claudia Atas

Vencidos e vencedores costumam render boas fotos em eventos esportivos. Natural, portanto, que o Estadão aguardasse uma seleção de qualidade sobre a desclassificação da judoca Rafaela Silva, nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. Mas, o virtuosismo do fotógrafo Srdjan Suki (agência EFE) e a sensibilidade do editor da capa de 31 de julho produziram mais – a informação necessária e um exemplo da poderosa linguagem corporal aplicada ao jornalismo.

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A força dramática e a beleza estética da imagem à esquerda me impressionaram. Dias depois (06 de agosto), eu a reproduzi no artigo “A Mater Dolorosa dos Jogos Olímpicos”. E comentei: “Profissionais de comunicação conhecem o potencial jornalístico dessas imagens e com elas criam  layouts densos e belíssimos.” Na perspectiva da linguagem não verbal, a edição capa/ miolo merece reparo.

A notícia é tratada de forma distinta – desalento versus fúria. O repórter superou essa dicotomia reunindo as facetas de Rafaela já no lead. O título, porém, praticamente criou duas Rafaelas a partir do corte radical entre dor (primeira página) e revolta (miolo). Ou seja, desuniu o que o texto tão bem uniu. Compare: http://esportes.estadao.com.br/noticias/geral,rafaela-erra-e-se-irrita-com-as-criticas-imp-,908401

 

Estadão cria página infeliz com título

O Estado de S.Paulo, 20 de julho de 2012, pg. A14

 

 

 

 

Esse mesmo corte aparece na semana imediatamente anterior (27/7/2012), quando mostrei o choque entre comunicação verbal e não verbal, um desastre jornalístico: http://www.estadao.com.br/noticias/geral,para-anp-chevron-poderia-ter-evitado-vazamento-imp-,902790

 

O Estado de S.Paulo, 06/01/2015, A4

O Estado de S.Paulo, 06/01/2015, A4

Meu terceiro exemplo é a ilustração que O Estado de S.Paulo escolheu para a reportagem sobre a crise entre a presidente Dilma Rousseff e o PMDB. Ali estão três dos ministros empossados cinco dias antes – Kátia Abreu, para a pasta da Agricultura; Antonio Carlos Rodrigues e Gilberto Kassab, respectivamente, titulares dos Transportes e das Cidades.

Certamente, o cenário montado para a cerimônia da ministra relaciona-se ao objeto da sua pasta. Pode ser chamado de criativo, mas não de apropriado. Pior, para Kátia, é o corte da foto: ela não merecia ter a expressão fisionômica comparada à do animal atrás de si. A foto é duplamente infeliz para a ministra – comparada às imagens dos colegas, aprofunda a diferença de tratamento.

Na perspectiva da linguagem não verbal, a página suscita ao menos três interpretações – ironia, má fé e mau gosto. Seja resultado de uma intenção ou mera negligência, o resultado constitui mais um sinal de que a comunicação sem palavras requer atenção redobrada e, a meu ver, o uso mais ativo da intuição.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comunicação e jornalismo não verbal – riqueza inexplorada

27.January. 2015
por Claudia Atas

Linguagem corporal é um recurso que o jornalismo pouco explora, no texto e na imagem. O ser humano gera milhares de sinais – 250 mil só em expressões fisionômicas (1) – mas a comunicação profissional não aprendeu a lidar com eles.

Estudiosos do assunto acreditam reconhecer, pela linguagem corporal, contradições entre o que uma pessoa fala e o que pensa. Jornalistas, felizmente, não se arriscam nesse exercício, embora possam chegar a resultados semelhantes com sensibilidade e técnica próprias do ofício – dando crédito à percepção e apurando melhor os fatos.

A relação entre jornalismo e linguagem corporal é mais intensa do que se imagina. Notícias publicadas recentemente mostram essa associação em diferentes e curiosas abordagens. Veja estes exemplos de linguagem corporal como objeto e como componente da informação:

Gesto como objeto de informação

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  • Arcebispo de Manila explica ao Papa o significado, nas  Filipinas, da mão erguida com três dedos (polegar,  indicador e mínimo) apontados para cima.
  • Gesto do humorista francês Dieudonné M’Bala M’Bala em cena de 2012 (segundo a Folha de S.Paulo). A imagem foi a única ilustração da reportagem que o jornal publicou, no último dia 17, a propósito da detenção do humorista, atualmente processado por apologia ao terrorismo.
  • O jogador grego Giogos Katidis comemora seu gol, em 2013, com uma saudação nazista que você pode comparar ao gesto executado pelo seu autor, Adolf Hitler.

A respeito de Dieudonné, é preciso observa que

1- A imagem não está diretamente associada à reportagem: não mostra o humorista sendo detido ou após a detenção. Serve para reafirmar sua reputação de polemista, simpatizante da direita radical e antissemita.

2- Mão no coração permite ler “Eu amo Coulibaly”, no contexto da repercussão do atentado ao semanário Charlie Hebdo, no início do mês e, também, “Eu me sinto Coulibaly”, no contexto da reportagem da Folha. A frase, postada pelo humorista em sua página no Facebook – provocação, trocadilho ou solidariedade? – referia-se a Amedy Coulibaly, o homem que matou, e foi morto, durante um ataque a um mercado judeu, dois dias depois do atentado dos irmãos Kouachi ao semanário Charlie Hebdo.

3- O gesto, diz a Folha, foi interpretado por alguns críticos como saudação nazista. A informação completa e esclarecedora pode ser lida em El País: “Sua provocação-estrela é (…) um gesto de sua invenção, que ele define como dar uma banana para o sistema, mas que seus detratores veem como uma homenagem à saudação nazista. Com ele, Dieudonné despertou na França demônios que nunca estiveram totalmente adormecidos.” <http://brasil.elpais.com/brasil/2014/01/03/internacional/1388781046_885860.html>

Quanto à foto de Katidis, escolhi por se tratar do único site em que vi essa “meia saudação” criada por um corte que mutila não só o braço como o ponto central da notícia e da imagem. <http://oglobo.globo.com/esportes/jogador-grego-banido-da-selecao-apos-gesto-nazista-7864495>

Gesto como elemento da informação 

Gestos Obama com título

O presidente norte-americano Barack Obama aponta o dedo para a plateia – gesto que especialistas não recomendam porque interpretam como expressão de autoridade e indicação de submissão (aos que são apontados). (²)

Note que esse gesto e essa relação também se encontram no mundo corporativo, entre apresentadores (palestrantes, conferencistas, etc.)  e sua audiência.

O aspecto importante desse exemplo, porém, é a falta de reciprocidade entre os elementos verbal e não verbal: título e imagem estão em desacordo. E, ainda: as frases de Obama,na matéria, não condizem com a sisudez, a tensão e a sugestão de advertência transmitidas pela foto. (http://blogs.estadao.com.br/link/obama-se-diz-contra-criptografia-em-smartphones/).

Como se vê, linguagem corporal não deve continuar a ser vista como elemento acessório da comunicação escrita, em função meramente decorativa, ilustrativa – dispensável, portanto. Nesta fase de comunicação extrema – imediata, multidestino e multiforma – internautas se apropriam dos meios (canais, palavras, imagens) e se fazem redatores, tornando-se objeto de debates acalorados sobre seu papel na criação e na disseminação da informação. Cabe refletir, portanto, sobre o papel e o uso da linguagem não verbal pelos comunicadores profissionais.

Dentro de alguns dias, publicarei uma segunda avaliação – agora, no foco deste artigo – da imagem que postei neste blog (2012) e que intitulei “A Mater Dolorosa dos Jogos Olímpicos”.

(1) Anthropologist Ray Birdwhistell pioneered the original study of non-verbal communication (…). He estimated (…) we can make and recognise around 250,000 facial expressions. <http://e-edu.nbu.bg/pluginfile.php/331752/mod_resource/ content/0/Allan_and_Barbara_Pease_-_Body_Language_The_Definitive_Book.pdf>

(²) Dedo em riste possui outros significados. Um dos que mais encontramos: norte-americanos que adentram um recinto para uma apresentação ou discurso, sorriem, efusivamente, apontando o indicador para várias pessoas, uma a uma. Telespectadores não veem, mas sabem que eles estão identificando, reconhecendo pessoas, destacando-as da multidão, como que dizendo “você veio!”, “obrigado pelo apoio”, etc. Um gesto que os brasileiros já começam a imitar.

Corruptores e corrompidos: cara ou coroa?

11.December. 2014
por Claudia Atas

Quem é o corruptor? Quem é o corrompido? Depende de quem iniciou o processo da corrupção – e aí está o problema. No emaranhado de interesses que unem agentes públicos e privados, atribuir a iniciativa é jogar cara ou coroa.

Exemplo marcante dessa dificuldade são concorrências e licitações, ambiente em que florescem e se enraízam as propinas. Empresários assediam representantes do poder público com dinheiro, presentes e vantagens; e os agentes públicos, tendo em vista essas recompensas, manipulam os termos do procedimento de modo a definir os vencedores antecipadamente. Essa relação histórica acabou por mesclar iniciativas e, portanto, confundir as figuras de subornadores e subornados.

Na imprensa, a questão apareceu no âmbito da respeitável Operação Lava Jato (a propósito, esse título sugere ou erro gramatical ou esconde uma razão que poderia justificar a assimetria entre higienizar aviões e investigar suspeitas de crimes de lavagem de dinheiro, propinas e tráfico de influência).

No último dia 20, divulgava-se uma definição informal para corrompido nos principais noticiários impressos e online. “Os depoimentos mostraram que eles (os empreiteiros) não têm como fugir disso”, declarava Mário de Oliveira Filho, defensor do lobista Fernando Antônio Falcão Soares, suspeito de integrar o esquema de propinas em contratos da Petrobrás.

E completou: “O empresário, se porventura faz alguma composição ilícita com político para pagar alguma coisa, se ele não fizer isso não tem obra. Pode pegar qualquer empreiteirinha e prefeitura do interior do país. Se não fizer acerto, não coloca um paralelepípedo no chão”.

De fato, estão aí, para nos fazer concordar com o argumento, fiscais que aterrorizam comerciantes, extorquindo-lhes dinheiro, sob pena de lavrarem as devidas multas; e o execrável Hussein Aref, que adquiriu 106 imóveis enquanto diretor do órgão responsável pela liberação de obras, na prefeitura de São Paulo.

Pouco antes dessa declaração, matéria do jornalista Mario Cesar Carvalho, explicava o conceito de corruptor já no lead: “Por corruptores entenda-se (sic) os presidentes e diretores de grandes empreiteiras, como Odebrecht, Camargo Corrêa e Mendes Junior”. (“Objetivo dos investigadores é prender os corruptores para estancar o suborno”, Folha de S.Paulo, 15/11/2014, pg. A4). Essa definição, mesmo que aplicada ao caso Petrobrás, incorre no mesmo equívoco da anterior: restrita, parcial, enviesada.

O tema e os episódios aqui tratados me levam a três observações:

1- A teia de favores, extorsões, lavagem de dinheiro, fraudes e outros crimes impede discernir o corruptor do corrompido. O entrosamento entre essas figuras é tal que eles acabaram por se mesclar.

2- A imprensa deveria ser mais cuidadosa com definições que claramente pecam pela falta de rigor e isenção.

3- Ética e transparência soam, no Brasil, como ficção, fantasia, valores inalcançáveis.

E como seria diferente diante da cultura da leniência? Mentirinhas, jeitinhos e práticas “inofensivas” para evitar ou reduzir multas, impostos, prejuízos, perda de tempo, etc., construíram a ética da complacência: “criancices”, “todo mundo faz”, “no Brasil é assim”, “o governo leva quase tudo”, “está na nossa formação, desde os portugueses com sua política predatória”…

Estas pequenas e grandes vantagens têm um preço – o famoso Custo Brasil e a consolidação de uma reputação que envergonha.

Pot-pourri para provocar, rir e chorar.  

10.November. 2014
por Claudia Atas

Leitura de jornal é uma dupla experiência de comunicação: consumo de notícias e seu subproduto– as incertezas. Diariamente, a negligência linguística gera dúvidas, ambiguidades, mal entendidos, impropriedades, contradições.

Esse subproduto jornalístico tanto pode afetar negativamente o leitor quanto provocar descontração e riso. Como estas construções mal sucedidas, mas potencialmente humorísticas:

Castigo bíblico: limpar vidro estilhaçado

Limpar vicro estilhaçado A legenda da foto (O Estado de S.Paulo (30/7/2014, A 12), afirma que o homem “limpa vidro estilhaçado”. Versão do mito de Sísifo, dada a impossibilidade de cumprir a tarefa? Observando melhor a foto, vê-se que não se trata de limpar o vidro, mas limpar a esquadria, varrendo os estilhaços de vidro para fora de onde se alojaram.        
     

Rir ou chorar?

Frase de uma notícia (FSP, 1º novembro, pg A13): Pizzolato deu entrada para tirar uma carteira de identidade em nome de seu irmão, Celso, morto desde abril de 1978. A norma culta – flexível, típica do jornalismo, razão pela qual não deve ser confundida com a norma padrão (rígida gramaticalmente) – não permite “engolir” palavras como nessa construção. Deu entrada no processo”; Solicitou ou requereu a emissão de uma carteira são  exemplos de solução. Nem difíceis de redigir, nem pernósticas. Quanto a estar “morto desde abril”, a meu ver é expressão engraçada e… imprópria.

 

Erra o “Erramos”, erra o leitor  e bons jornalistas, também.

Cursos nas privadas…

Há construções que precisam e devem ser mudadas, sem alteração do sentido. Neste caso, provavelmente o entrevistado agradeceria:

Cursos na Privada3

Em vez de “75% dos cursos estão nas privadas”, “75% dos cursos estão nas particulares”. Eliminam-se o duplo sentido e o mau gosto da primeira construção, sem que a segunda altere o significado do original. Portanto, mantendo-se fiel ao entrevistado.

 

As inaceitáveis aspas de Eliane Cantanhêde

7.October. 2014
por Claudia Atas

Merece puxão de orelha quem coloca na boca do interlocutor palavras que ele não disse. E mais outro, se “traduzir” ao leitor – entre aspas! – a frase original. No jornalismo, é falta grave.

Espantoso encontrá-la em artigo de Eliane Cantanhêde, colunista da Folha de S.Paulo. Diante da sentença proferida pela presidente Dilma Rousseff – “Não é função da imprensa fazer investigação” (19/9/2014), Eliane perdeu as estribeiras:

Folha de S.Paulo, 21/9/2014, A2

Folha de S.Paulo, 21/9/2014, A2

“No fundo, ela queria dizer” – e vieram as impublicáveis aspas para o que a jornalista julgou ser a tradução do verdadeiro pensamento da presidente:

“A função da imprensa é publicar as versões oficiais, as declarações que eu quero e tudo o que contribui com a minha campanha e o que atrapalha a dos meus adversários’.

“Não chegou a tanto, mas…”

Liberalidade inaceitável. Os parágrafos seguintes talvez expliquem por que a colunista não atentou para o uso indevido das aspas. Julgue você mesmo:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/elianecantanhede/2014/09/1519433-gatos-e-ratos.shtml

Em tempo: tenho economizado elogios, involuntariamente, deixando de registrar bons exemplos jornalísticos. Hoje, não será o caso. Para quem tem dificuldades como amarrar as informações em longos textos, recomendo a leitura da reportagem de Naiana Oscar, A prova de fogo para a energia solar no Brasil (O Estado de S.Paulo, 29/9/2014, B1 e B4).

Naiana constrói o texto sobre uma boa estrutura. O estilo é do tipo despretensioso, o que não significa falta de rigor, equilíbrio e precisão. Conjuga linguagem convencional (no bom sentido) com alguns achados interessantes, sem malabarismos ou modismos. A linguagem coloquial aparece vez por outra, com função: reforçar o entendimento do foco da reportagem ou “recapturar” a atenção do leitor –cuidado importante em reportagens amplas. Vale a pena ler: http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,a-prova-de-fogo-para-a-energia-solar-no-brasil-imp-,1567771

O verbo mais popular do jornalismo brasileiro

16.September. 2014
por Claudia Atas

Fazer é um dos verbos mais usados no jornalismo brasileiro. Como bom curinga, é a opção preferencial de nove entre dez redatores de quaisquer textos, de quaisquer setores. Ultimamente, seu emprego vem se expandindo para assumir funções além de sua alçada. A Folha de S.Paulo deu um bom exemplo no último dia 14 (A20):

Escócia PNG com fala

Não se faz uma decisão  – toma-se uma decisão.

Aconselho a se libertar dessa muleta adotando um mecanismo de alarme bastante eficiente: transforme fazer em palavra-tabu. Assim, toda vez que um fazer rondar seu texto, a hesitação deterá seus dedos e você se perguntará – posso eliminar esse fazer, tem sentido este fazer? Por exemplo, este título da Folha, de 25/6/2014:

Grupos prometem fazer protesto contra prisão de manifestantes em SP   http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/06/1476057-grupos-prometem-fazer-protesto-contra-prisao-de-manifestantes-em-sp.shtml

Evidentemente, protestar é mais conciso e forte que  fazer um protesto! 

Você não poderá eliminar o famoso curinga quando seu complemento for um qualificativo: fazer um protesto grosseiro… Mas é possível mudar a construção: protestaram grosseiramente, ou de modo grosseiro. Sempre será melhor.

A moda e os maus efeitos dos parágrafos artificiais

11.August. 2014
por Claudia Atas

Leitores só se lembram de parágrafos quando, em vez de ajudar, eles atrapalham. E assim deve ser: o ônus da clareza e compreensão é de quem escreve. Encadear logicamente as partes de um texto exige atenção mesmo quando a ideia está clara e pronta na cabeça. Daí a importância desse grande aliado: o parágrafo inteligente.

A drástica mudança na produção de jornais desenhou novos layouts. Agora, as páginas têm efeitos especiais todos os dias, em qualquer caderno, sobre qualquer assunto. Essa nova estética tem seu preço: transformou noticiários em desafios diários e multiplicou mal entendidos.

O parágrafo é uma das vítimas dessa mudança. Na cultura jornalística atual, texto “fácil de ler” exige, entre outras imposições, parágrafo de seis linhas, em média, com tolerâncias para cima e para baixo entre 12 linhas e duas, três, que correspondem a apenas uma, na lauda.

A contabilidade das linhas é ilusória. Na maior parte das vezes, pelo que observo, leva a separações artificiais que prejudicam a clareza e interrompem a fluidez. Falta e sobra de espaço também respondem pelo corte ou pelo acréscimo de parágrafos – solução boa para a produção, ruim para o leitor.

A quantidade de leads desmembrados, sequências incompatíveis e separações desnecessárias é observável a qualquer tempo, em qualquer publicação. Jornais importantes, como Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo em suas edições impressas, vêm sacrificando a lógica e atrapalhando a compreensão. Veja estes exemplos:

Folha de S.Paulo, 10 de agosto de 2014

Folha de S.Paulo, 10 de agosto de 2014

(esquerda):

A estudante Clara, 18, fez Intergraus e hoje cursa Arquitetura na USP.

Para ela, “o humor que oprime alguém para ser engraçado não merece a risada de quem assiste à aula”.

(centro):

Encurtar a distância entre a cúpula da empresa, que toma as decisões, e a operação, para ganhar agilidade.

Esse é o lema das empresas de diversos setores que têm tornado sua estrutura de cargos mais horizontal.

Em ambos os casos, as frases foram desagregadas pelo parágrafo. Ganharam destaques desnecessários, perdendo a força do conjunto. Em vez de um lead vigoroso, tópicos na linha publicitária.

Cabe lembrar que, do ponto de vista “contábil”, as aberturas do primeiro e do segundo exemplo teriam apenas sete e oito linhas, respectivamente, como leads integrados.

O exemplo 3 vem do Estadão  (08 de agosto de 2014), escrito por jornalista que maneja admiravelmente a sintaxe e domina rico vocabulário. Ainda vou perguntar a Dora Kramer o porquê deste desmembramento:

O Estado de S.Paulo, 09 de agosto de 2014

 Ainda no Estadão (09 de junho de 2014, Opinião), um artificialismo estrutural que confunde o leitor:

(…) As outras medidas tomadas para eliminar o déficit desses profissionais também não ajudam muito a resolver o problema.

Nem a possibilidade de fazer residência médica em outros locais além das grandes cidades. Nem a alteração do currículo (…)

O 5º exemplo  (à direita, na reprodução de textos da Folha, mais acima) é do tipo “frase solta”. Pela lógica, estaria justaposta à frase anterior, confirmando seu enunciado:

Assim como fez com as faixas exclusivas de ônibus, no primeiro ano de mandato, o prefeito Fernando Haddad (PT) agora investe na criação de uma nova marca com a rápida expansão das ciclovias.

Nesta semana, ele participou de três eventos públicos ligados a bicicletas.

Com a nova bandeira, Haddad tenta reverter (…)

É possível que, em todos os cinco casos, os redatores tivessem imaginado criar impacto com parágrafos artificiais. Talvez houvesse sobra de espaço e eles espicharam a matéria. Seja como for, a frequência dos parágrafos artificiais denuncia um novo modismo.

Recomendo enfaticamente ignorar esses recursos, reservando-os para uma situação que valha a pena – um lead bastante criativo ou uma informação que gere impacto por si, a ponto de constituírem exceções à regra.

Nenhum dos exemplos citados (reportagens rápidas, editorial, colunista) tinha essa condição.