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Linguagem não verbal aplicada ao jornalismo – II

18.February. 2015
por Claudia Atas

Vencidos e vencedores costumam render boas fotos em eventos esportivos. Natural, portanto, que o Estadão aguardasse uma seleção de qualidade sobre a desclassificação da judoca Rafaela Silva, nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. Mas, o virtuosismo do fotógrafo Srdjan Suki (agência EFE) e a sensibilidade do editor da capa de 31 de julho produziram mais – a informação necessária e um exemplo da poderosa linguagem corporal aplicada ao jornalismo.

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A força dramática e a beleza estética da imagem à esquerda me impressionaram. Dias depois (06 de agosto), eu a reproduzi no artigo “A Mater Dolorosa dos Jogos Olímpicos”. E comentei: “Profissionais de comunicação conhecem o potencial jornalístico dessas imagens e com elas criam  layouts densos e belíssimos.” Na perspectiva da linguagem não verbal, a edição capa/ miolo merece reparo.

A notícia é tratada de forma distinta – desalento versus fúria. O repórter superou essa dicotomia reunindo as facetas de Rafaela já no lead. O título, porém, praticamente criou duas Rafaelas a partir do corte radical entre dor (primeira página) e revolta (miolo). Ou seja, desuniu o que o texto tão bem uniu. Compare: http://esportes.estadao.com.br/noticias/geral,rafaela-erra-e-se-irrita-com-as-criticas-imp-,908401

 

Estadão cria página infeliz com título

O Estado de S.Paulo, 20 de julho de 2012, pg. A14

 

 

 

 

Esse mesmo corte aparece na semana imediatamente anterior (27/7/2012), quando mostrei o choque entre comunicação verbal e não verbal, um desastre jornalístico: http://www.estadao.com.br/noticias/geral,para-anp-chevron-poderia-ter-evitado-vazamento-imp-,902790

 

O Estado de S.Paulo, 06/01/2015, A4

O Estado de S.Paulo, 06/01/2015, A4

Meu terceiro exemplo é a ilustração que O Estado de S.Paulo escolheu para a reportagem sobre a crise entre a presidente Dilma Rousseff e o PMDB. Ali estão três dos ministros empossados cinco dias antes – Kátia Abreu, para a pasta da Agricultura; Antonio Carlos Rodrigues e Gilberto Kassab, respectivamente, titulares dos Transportes e das Cidades.

Certamente, o cenário montado para a cerimônia da ministra relaciona-se ao objeto da sua pasta. Pode ser chamado de criativo, mas não de apropriado. Pior, para Kátia, é o corte da foto: ela não merecia ter a expressão fisionômica comparada à do animal atrás de si. A foto é duplamente infeliz para a ministra – comparada às imagens dos colegas, aprofunda a diferença de tratamento.

Na perspectiva da linguagem não verbal, a página suscita ao menos três interpretações – ironia, má fé e mau gosto. Seja resultado de uma intenção ou mera negligência, o resultado constitui mais um sinal de que a comunicação sem palavras requer atenção redobrada e, a meu ver, o uso mais ativo da intuição.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comunicação e jornalismo não verbal – riqueza inexplorada

27.January. 2015
por Claudia Atas

Linguagem corporal é um recurso que o jornalismo pouco explora, no texto e na imagem. O ser humano gera milhares de sinais – 250 mil só em expressões fisionômicas (1) – mas a comunicação profissional não aprendeu a lidar com eles.

Estudiosos do assunto acreditam reconhecer, pela linguagem corporal, contradições entre o que uma pessoa fala e o que pensa. Jornalistas, felizmente, não se arriscam nesse exercício, embora possam chegar a resultados semelhantes com sensibilidade e técnica próprias do ofício – dando crédito à percepção e apurando melhor os fatos.

A relação entre jornalismo e linguagem corporal é mais intensa do que se imagina. Notícias publicadas recentemente mostram essa associação em diferentes e curiosas abordagens. Veja estes exemplos de linguagem corporal como objeto e como componente da informação:

Gesto como objeto de informação

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Da esquerda para a direita:

  • Arcebispo de Manila explica ao Papa o significado, nas  Filipinas, da mão erguida com três dedos (polegar,  indicador e mínimo) apontados para cima.
  • Gesto do humorista francês Dieudonné M’Bala M’Bala em cena de 2012 (segundo a Folha de S.Paulo). A imagem foi a única ilustração da reportagem que o jornal publicou, no último dia 17, a propósito da detenção do humorista, atualmente processado por apologia ao terrorismo.
  • O jogador grego Giogos Katidis comemora seu gol, em 2013, com uma saudação nazista que você pode comparar ao gesto executado pelo seu autor, Adolf Hitler.

A respeito de Dieudonné, é preciso observa que

1- A imagem não está diretamente associada à reportagem: não mostra o humorista sendo detido ou após a detenção. Serve para reafirmar sua reputação de polemista, simpatizante da direita radical e antissemita.

2- Mão no coração permite ler “Eu amo Coulibaly”, no contexto da repercussão do atentado ao semanário Charlie Hebdo, no início do mês e, também, “Eu me sinto Coulibaly”, no contexto da reportagem da Folha. A frase, postada pelo humorista em sua página no Facebook – provocação, trocadilho ou solidariedade? – referia-se a Amedy Coulibaly, o homem que matou, e foi morto, durante um ataque a um mercado judeu, dois dias depois do atentado dos irmãos Kouachi ao semanário Charlie Hebdo.

3- O gesto, diz a Folha, foi interpretado por alguns críticos como saudação nazista. A informação completa e esclarecedora pode ser lida em El País: “Sua provocação-estrela é (…) um gesto de sua invenção, que ele define como dar uma banana para o sistema, mas que seus detratores veem como uma homenagem à saudação nazista. Com ele, Dieudonné despertou na França demônios que nunca estiveram totalmente adormecidos.” <http://brasil.elpais.com/brasil/2014/01/03/internacional/1388781046_885860.html>

Quanto à foto de Katidis, escolhi por se tratar do único site em que vi essa “meia saudação” criada por um corte que mutila não só o braço como o ponto central da notícia e da imagem. <http://oglobo.globo.com/esportes/jogador-grego-banido-da-selecao-apos-gesto-nazista-7864495>

Gesto como elemento da informação 

Gestos Obama com título

O presidente norte-americano Barack Obama aponta o dedo para a plateia – gesto que especialistas não recomendam porque interpretam como expressão de autoridade e indicação de submissão (aos que são apontados). (²)

Note que esse gesto e essa relação também se encontram no mundo corporativo, entre apresentadores (palestrantes, conferencistas, etc.)  e sua audiência.

O aspecto importante desse exemplo, porém, é a falta de reciprocidade entre os elementos verbal e não verbal: título e imagem estão em desacordo. E, ainda: as frases de Obama,na matéria, não condizem com a sisudez, a tensão e a sugestão de advertência transmitidas pela foto. (http://blogs.estadao.com.br/link/obama-se-diz-contra-criptografia-em-smartphones/).

Como se vê, linguagem corporal não deve continuar a ser vista como elemento acessório da comunicação escrita, em função meramente decorativa, ilustrativa – dispensável, portanto. Nesta fase de comunicação extrema – imediata, multidestino e multiforma – internautas se apropriam dos meios (canais, palavras, imagens) e se fazem redatores, tornando-se objeto de debates acalorados sobre seu papel na criação e na disseminação da informação. Cabe refletir, portanto, sobre o papel e o uso da linguagem não verbal pelos comunicadores profissionais.

Dentro de alguns dias, publicarei uma segunda avaliação – agora, no foco deste artigo – da imagem que postei neste blog (2012) e que intitulei “A Mater Dolorosa dos Jogos Olímpicos”.

(1) Anthropologist Ray Birdwhistell pioneered the original study of non-verbal communication (…). He estimated (…) we can make and recognise around 250,000 facial expressions. <http://e-edu.nbu.bg/pluginfile.php/331752/mod_resource/ content/0/Allan_and_Barbara_Pease_-_Body_Language_The_Definitive_Book.pdf>

(²) Dedo em riste possui outros significados. Um dos que mais encontramos: norte-americanos que adentram um recinto para uma apresentação ou discurso, sorriem, efusivamente, apontando o indicador para várias pessoas, uma a uma. Telespectadores não veem, mas sabem que eles estão identificando, reconhecendo pessoas, destacando-as da multidão, como que dizendo “você veio!”, “obrigado pelo apoio”, etc. Um gesto que os brasileiros já começam a imitar.

Corruptores e corrompidos: cara ou coroa?

11.December. 2014
por Claudia Atas

Quem é o corruptor? Quem é o corrompido? Depende de quem iniciou o processo da corrupção – e aí está o problema. No emaranhado de interesses que unem agentes públicos e privados, atribuir a iniciativa é jogar cara ou coroa.

Exemplo marcante dessa dificuldade são concorrências e licitações, ambiente em que florescem e se enraízam as propinas. Empresários assediam representantes do poder público com dinheiro, presentes e vantagens; e os agentes públicos, tendo em vista essas recompensas, manipulam os termos do procedimento de modo a definir os vencedores antecipadamente. Essa relação histórica acabou por mesclar iniciativas e, portanto, confundir as figuras de subornadores e subornados.

Na imprensa, a questão apareceu no âmbito da respeitável Operação Lava Jato (a propósito, esse título sugere ou erro gramatical ou esconde uma razão que poderia justificar a assimetria entre higienizar aviões e investigar suspeitas de crimes de lavagem de dinheiro, propinas e tráfico de influência).

No último dia 20, divulgava-se uma definição informal para corrompido nos principais noticiários impressos e online. “Os depoimentos mostraram que eles (os empreiteiros) não têm como fugir disso”, declarava Mário de Oliveira Filho, defensor do lobista Fernando Antônio Falcão Soares, suspeito de integrar o esquema de propinas em contratos da Petrobrás.

E completou: “O empresário, se porventura faz alguma composição ilícita com político para pagar alguma coisa, se ele não fizer isso não tem obra. Pode pegar qualquer empreiteirinha e prefeitura do interior do país. Se não fizer acerto, não coloca um paralelepípedo no chão”.

De fato, estão aí, para nos fazer concordar com o argumento, fiscais que aterrorizam comerciantes, extorquindo-lhes dinheiro, sob pena de lavrarem as devidas multas; e o execrável Hussein Aref, que adquiriu 106 imóveis enquanto diretor do órgão responsável pela liberação de obras, na prefeitura de São Paulo.

Pouco antes dessa declaração, matéria do jornalista Mario Cesar Carvalho, explicava o conceito de corruptor já no lead: “Por corruptores entenda-se (sic) os presidentes e diretores de grandes empreiteiras, como Odebrecht, Camargo Corrêa e Mendes Junior”. (“Objetivo dos investigadores é prender os corruptores para estancar o suborno”, Folha de S.Paulo, 15/11/2014, pg. A4). Essa definição, mesmo que aplicada ao caso Petrobrás, incorre no mesmo equívoco da anterior: restrita, parcial, enviesada.

O tema e os episódios aqui tratados me levam a três observações:

1- A teia de favores, extorsões, lavagem de dinheiro, fraudes e outros crimes impede discernir o corruptor do corrompido. O entrosamento entre essas figuras é tal que eles acabaram por se mesclar.

2- A imprensa deveria ser mais cuidadosa com definições que claramente pecam pela falta de rigor e isenção.

3- Ética e transparência soam, no Brasil, como ficção, fantasia, valores inalcançáveis.

E como seria diferente diante da cultura da leniência? Mentirinhas, jeitinhos e práticas “inofensivas” para evitar ou reduzir multas, impostos, prejuízos, perda de tempo, etc., construíram a ética da complacência: “criancices”, “todo mundo faz”, “no Brasil é assim”, “o governo leva quase tudo”, “está na nossa formação, desde os portugueses com sua política predatória”…

Estas pequenas e grandes vantagens têm um preço – o famoso Custo Brasil e a consolidação de uma reputação que envergonha.

Pot-pourri para provocar, rir e chorar.  

10.November. 2014
por Claudia Atas

Leitura de jornal é uma dupla experiência de comunicação: consumo de notícias e seu subproduto– as incertezas. Diariamente, a negligência linguística gera dúvidas, ambiguidades, mal entendidos, impropriedades, contradições.

Esse subproduto jornalístico tanto pode afetar negativamente o leitor quanto provocar descontração e riso. Como estas construções mal sucedidas, mas potencialmente humorísticas:

Castigo bíblico: limpar vidro estilhaçado

 A Limpar vidro estilhaçadolegenda da foto (O Estado de S.Paulo (30/7/2014, A 12), afirma que o homem “limpa vidro estilhaçado”. Versão do mito de Sísifo, dada a impossibilidade de cumprir a tarefa? Observando melhor a foto, vê-se que não se trata de limpar o vidro, mas limpar a esquadria, varrendo os estilhaços de vidro para fora de onde se alojaram.        
     

Rir ou chorar?

Frase de uma notícia (FSP, 1º novembro, pg A13): Pizzolato deu entrada para tirar uma carteira de identidade em nome de seu irmão, Celso, morto desde abril de 1978. A norma culta – flexível, típica do jornalismo, razão pela qual não deve ser confundida com a norma padrão (rígida gramaticalmente) – não permite “engolir” palavras como nessa construção. Deu entrada no processo”; Solicitou ou requereu a emissão de uma carteira são  exemplos de solução. Nem difíceis de redigir, nem pernósticas. Quanto a estar “morto desde abril”, a meu ver é expressão engraçada e… imprópria.

 

Erra o “Erramos”, erra o leitor  e bons jornalistas, também.

Cursos nas privadas…

Há construções que precisam e devem ser mudadas, sem alteração do sentido. Neste caso, provavelmente o entrevistado agradeceria:

Cursos na Privada3

Em vez de “75% dos cursos estão nas privadas”, “75% dos cursos estão nas particulares”. Eliminam-se o duplo sentido e o mau gosto da primeira construção, sem que a segunda altere o significado do original. Portanto, mantendo-se fiel ao entrevistado.

 

As inaceitáveis aspas de Eliane Cantanhêde

7.October. 2014
por Claudia Atas

Merece puxão de orelha quem coloca na boca do interlocutor palavras que ele não disse. E mais outro, se “traduzir” ao leitor – entre aspas! – a frase original. No jornalismo, é falta grave.

Espantoso encontrá-la em artigo de Eliane Cantanhêde, colunista da Folha de S.Paulo. Diante da sentença proferida pela presidente Dilma Rousseff – “Não é função da imprensa fazer investigação” (19/9/2014), Eliane perdeu as estribeiras:

Folha de S.Paulo, 21/9/2014, A2

Folha de S.Paulo, 21/9/2014, A2

“No fundo, ela queria dizer” – e vieram as impublicáveis aspas para o que a jornalista julgou ser a tradução do verdadeiro pensamento da presidente:

“A função da imprensa é publicar as versões oficiais, as declarações que eu quero e tudo o que contribui com a minha campanha e o que atrapalha a dos meus adversários’.

“Não chegou a tanto, mas…”

Liberalidade inaceitável. Os parágrafos seguintes talvez expliquem por que a colunista não atentou para o uso indevido das aspas. Julgue você mesmo:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/elianecantanhede/2014/09/1519433-gatos-e-ratos.shtml

Em tempo: tenho economizado elogios, involuntariamente, deixando de registrar bons exemplos jornalísticos. Hoje, não será o caso. Para quem tem dificuldades como amarrar as informações em longos textos, recomendo a leitura da reportagem de Naiana Oscar, A prova de fogo para a energia solar no Brasil (O Estado de S.Paulo, 29/9/2014, B1 e B4).

Naiana constrói o texto sobre uma boa estrutura. O estilo é do tipo despretensioso, o que não significa falta de rigor, equilíbrio e precisão. Conjuga linguagem convencional (no bom sentido) com alguns achados interessantes, sem malabarismos ou modismos. A linguagem coloquial aparece vez por outra, com função: reforçar o entendimento do foco da reportagem ou “recapturar” a atenção do leitor –cuidado importante em reportagens amplas. Vale a pena ler: http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,a-prova-de-fogo-para-a-energia-solar-no-brasil-imp-,1567771

O verbo mais popular do jornalismo brasileiro

16.September. 2014
por Claudia Atas

Fazer é um dos verbos mais usados no jornalismo brasileiro. Como bom curinga, é a opção preferencial de nove entre dez redatores de quaisquer textos, de quaisquer setores. Ultimamente, seu emprego vem se expandindo para assumir funções além de sua alçada. A Folha de S.Paulo deu um bom exemplo no último dia 14 (A20):

Escócia PNG com fala

Não se faz uma decisão  – toma-se uma decisão.

Aconselho a se libertar dessa muleta adotando um mecanismo de alarme bastante eficiente: transforme fazer em palavra-tabu. Assim, toda vez que um fazer rondar seu texto, a hesitação deterá seus dedos e você se perguntará – posso eliminar esse fazer, tem sentido este fazer? Por exemplo, este título da Folha, de 25/6/2014:

Grupos prometem fazer protesto contra prisão de manifestantes em SP   http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/06/1476057-grupos-prometem-fazer-protesto-contra-prisao-de-manifestantes-em-sp.shtml

Evidentemente, protestar é mais conciso e forte que  fazer um protesto! 

Você não poderá eliminar o famoso curinga quando seu complemento for um qualificativo: fazer um protesto grosseiro… Mas é possível mudar a construção: protestaram grosseiramente, ou de modo grosseiro. Sempre será melhor.

A moda e os maus efeitos dos parágrafos artificiais

11.August. 2014
por Claudia Atas

Leitores só se lembram de parágrafos quando, em vez de ajudar, eles atrapalham. E assim deve ser: o ônus da clareza e compreensão é de quem escreve. Encadear logicamente as partes de um texto exige atenção mesmo quando a ideia está clara e pronta na cabeça. Daí a importância desse grande aliado: o parágrafo inteligente.

A drástica mudança na produção de jornais desenhou novos layouts. Agora, as páginas têm efeitos especiais todos os dias, em qualquer caderno, sobre qualquer assunto. Essa nova estética tem seu preço: transformou noticiários em desafios diários e multiplicou mal entendidos.

O parágrafo é uma das vítimas dessa mudança. Na cultura jornalística atual, texto “fácil de ler” exige, entre outras imposições, parágrafo de seis linhas, em média, com tolerâncias para cima e para baixo entre 12 linhas e duas, três, que correspondem a apenas uma, na lauda.

A contabilidade das linhas é ilusória. Na maior parte das vezes, pelo que observo, leva a separações artificiais que prejudicam a clareza e interrompem a fluidez. Falta e sobra de espaço também respondem pelo corte ou pelo acréscimo de parágrafos – solução boa para a produção, ruim para o leitor.

A quantidade de leads desmembrados, sequências incompatíveis e separações desnecessárias é observável a qualquer tempo, em qualquer publicação. Jornais importantes, como Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo em suas edições impressas, vêm sacrificando a lógica e atrapalhando a compreensão. Veja estes exemplos:

Folha de S.Paulo, 10 de agosto de 2014

Folha de S.Paulo, 10 de agosto de 2014

(esquerda):

A estudante Clara, 18, fez Intergraus e hoje cursa Arquitetura na USP.

Para ela, “o humor que oprime alguém para ser engraçado não merece a risada de quem assiste à aula”.

(centro):

Encurtar a distância entre a cúpula da empresa, que toma as decisões, e a operação, para ganhar agilidade.

Esse é o lema das empresas de diversos setores que têm tornado sua estrutura de cargos mais horizontal.

Em ambos os casos, as frases foram desagregadas pelo parágrafo. Ganharam destaques desnecessários, perdendo a força do conjunto. Em vez de um lead vigoroso, tópicos na linha publicitária.

Cabe lembrar que, do ponto de vista “contábil”, as aberturas do primeiro e do segundo exemplo teriam apenas sete e oito linhas, respectivamente, como leads integrados.

O exemplo 3 vem do Estadão  (08 de agosto de 2014), escrito por jornalista que maneja admiravelmente a sintaxe e domina rico vocabulário. Ainda vou perguntar a Dora Kramer o porquê deste desmembramento:

O Estado de S.Paulo, 09 de agosto de 2014

 Ainda no Estadão (09 de junho de 2014, Opinião), um artificialismo estrutural que confunde o leitor:

(…) As outras medidas tomadas para eliminar o déficit desses profissionais também não ajudam muito a resolver o problema.

Nem a possibilidade de fazer residência médica em outros locais além das grandes cidades. Nem a alteração do currículo (…)

O 5º exemplo  (à direita, na reprodução de textos da Folha, mais acima) é do tipo “frase solta”. Pela lógica, estaria justaposta à frase anterior, confirmando seu enunciado:

Assim como fez com as faixas exclusivas de ônibus, no primeiro ano de mandato, o prefeito Fernando Haddad (PT) agora investe na criação de uma nova marca com a rápida expansão das ciclovias.

Nesta semana, ele participou de três eventos públicos ligados a bicicletas.

Com a nova bandeira, Haddad tenta reverter (…)

É possível que, em todos os cinco casos, os redatores tivessem imaginado criar impacto com parágrafos artificiais. Talvez houvesse sobra de espaço e eles espicharam a matéria. Seja como for, a frequência dos parágrafos artificiais denuncia um novo modismo.

Recomendo enfaticamente ignorar esses recursos, reservando-os para uma situação que valha a pena – um lead bastante criativo ou uma informação que gere impacto por si, a ponto de constituírem exceções à regra.

Nenhum dos exemplos citados (reportagens rápidas, editorial, colunista) tinha essa condição.

Interferência ideológica sobre o fato jornalístico: Estadão volta ao prumo.

28.July. 2014
por Claudia Atas
O Estado de S.Paulo, 18 e 25 de junho de 2014

O Estado de S.Paulo, 18 e 25 de junho de 2014

A ascensão jornalística de Guilherme Boulos, o líder dos Sem-Teto de quem mal se conheciam nome e ideias, é evidente – menos pela constância do seu nome em publicações tradicionais, a meu ver, do que pela respeitabilidade adquirida enquanto personagem de matérias.

Critiquei, há alguns meses, o tratamento que lhe dera o Estadão (O leitor pergunta… 11/fevereiro/2014): com dois recursos típicos – ausência de fotos e aspas – o jornal minimizou o líder capaz de arrastar multidões e provocar estragos no marketing político do governo estadual. E o fez na reportagem em que era o foco!

Diante dessa interferência ideológica sobre o fato jornalístico, tão comum na imprensa em todo o mundo, não se pode ignorar a mudança de posicionamento do Estadão, cinco meses depois, como se vê nas reproduções de 18 e 25 de junho passado.

Sejam quais forem os motivos dessa correção, ganham o leitor, Boulos, o Estadão e o jornalismo.

 

A virtude da repetição

28.June. 2014
por Claudia Atas

Redatores sofrem com matérias; e há matérias que sofrem com o redator. Diante de um texto bom e praticamente concluído, o profissional empaca: precisa de um sinônimo, que não o acode. Como superar o problema quando esgotado o estoque de sinônimos ou os tais não comparecem na hora decisivaRepete-se o termo! Melhor repetir e manter a precisão que usar palavras  menos ou nada apropriadas ao contexto.

O Estado de S.Paulo, 25 de junho de 2014, pg. A16

O Estado de S.Paulo, 25 de junho de 2014, pg. A16

Aprendi esta lição com o diretor da revista Construção Hoje, que estimulou a equipe a reavaliar este e outros mitos. Livrei-me do dilema e passei a comprovar o acerto da repetição em textos de alta qualidade estilística. A questão me voltou à lembrança ao ler uma matéria do Estadão com palavras e expressões impróprias para o contexto, em dois sentidos: imprecisão e conotação pejorativa. Imprecisão: associo ao “problema” da repetição “mecanismo” como sinônimo de ciclovia e “montar” como sinônimo de construir (ESP 25/6/14 A16). É provável que o redator temeu repetir palavras.

 “O mecanismo integrará os 400 km de ciclovias que a atual gestão promete construir…” (melhor seria a quilometragem do futuro mecanismo, que, para o autor, significa futura ciclovia)
… o mecanismo seguirá da Estação Julio Prestes até o Terminal Amaral Gurgel…” (box)
“… da ciclovia que começou a ser montada…”

Confesso jamais ter lido “mecanismo” – palavra que explica muitos processos físicos e mentais – como sinônimo de via, rodovia e ciclovia. Quanto a “montagem de ciclovia”, é verdade que se planeja construir a obra em nível acima da pista dos automóveis; mas daí a montar uma rua, uma rodovia, uma estrada vai uma grande diferença.

A matéria também foi infeliz, a meu ver, pela negligência que levou à ideia de menosprezo, indiferença:

 “… uma das propostas (…) é alargar o canteiro central da avenida – hoje só ocupado por floreiras, e por bases das luminárias e dos relógios de rua (…)”

Só, no contexto da conscientização ecológica que se vive, é uma expressão que denota desprezo. A matéria reproduz, sem aspas, palavras de Jilmar Tatto, secretário municipal dos Transportes, ou seja, parece que houve um descuido na versão da resposta falada para a linguagem escrita.

“Teria de tirar aquele canteiro de flores, pelo menos um pedaço …” (Jilmar Tatto)

A reportagem não menciona nem questiona o sacrifício do verde, cuja solução pode estar contemplada em outra proposta sob análise. A concorrência do espaço entre pessoas, carros e bicicletas aparece em outra frase infeliz mal sucedida:

“Seria um conflito com os pedestres que sobram no meio da avenida…”

O consultor em transportes referia-se ao fato de que a proposta levará à perda de espaço para os pedestres, mas o efeito resultou pejorativo, algo a que nós, profissionais de comunicação, precisamos estar sempre muito atentos.

Sinônimos são conceitos que se aproximam, jamais serão idênticos. Em vez de arriscar a precisão, melhor optar por uma repetição. Por sinal, os pronomes ele, ela, seu, sua, etc. podem não ser elegantes, muitas vezes. Melhor sacrificar o estilo que a precisão, o entendimento. Quanto ao descuido que resulta em depreciação, creio que decorre de uma pretensão: converter uma conversa em texto considerando tratar-se de mera transposição. É preciso um pouco de arte, também.

Recomendo duas leituras para os mais interessados no tema  sinônimos:  “Seis não é meia dúzia“, publicado pela competentíssima Gislaine Marins no excelente Palavras Debulhadas <http://palavrasdebulhadas.blogspot.com.br/2012/01/seis-nao-e-meia-duzia.html>

Aqui, já comentei o assunto no post “Licença para repetir palavras” (6 de julho de 2011).

Títulos – arte e pecados

30.May. 2014
por Claudia Atas

Quando o que se diz não é o que o leitor ou a maioria entende, das três uma foi a responsável– negligência, pressa ou estreiteza das colunas do layout. Estas são as causas mais frequentes de más soluções, gramaticais ou comunicacionais. Mas, se criam problemas, títulos ambíguos também geram boas oportunidades de reflexão, como estas que compartilho a seguir.

Realidade e ficção: “Choque evita fuga de detentos no PR” 

Ambiguidade Estadão pg 15

O Estado de S.Paulo, 19/5/2014, A15

Blog pg 15 Título dá impressão de que os detentos levaram choques elétricos. O leitor corre para o lead, onde descobre que foi o Batalhão de Choque que deteve os presidiários e. portanto, choques elétricos foram obra da sua imaginação. Não é verdade, foram obra de quem criou a manchete. 

Contexto e intenção: Local de festa da Copa recebe críticas”     

O Estado de S.Paulo, 19/5/2014, A16
O Estado de S.Paulo, 19/5/2014, A16

Em plena fase de manifestações anti-Copa, o título sugere espaço ocupado por manifestantes contrários aos gastos assumidos pelo governo para a realização da Copa do Mundo (Fifa). Também remete à ideia de local como o objeto da crítica: o estádio e/ou entorno e/ou mobilidade. O lead e a foto, porém, informam o leitor que grafiteiros escreveram suas críticas no solo, ou seja, usaram o próprio estádio para criticar.

Suzana Singer, até recentemente a ombudsman da Folha de S.Paulo, já tratou das dificuldades que envolvem títulos (como sabemos, dificuldades para quem redige e para quem lê).

Em “A Arte de Fazer Títulos” (06/02/2011), ela inclui construções difíceis de entender. Seu exemplo é uma frase do gênero “informação cifrada”. Mesmo assim, incluo nessa classificação os títulos comentados acima.

Vale a pena ler o artigo de Suzana. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ombudsma/om0602201101.htm