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Estilo e seu reflexo sobre a qualidade da redação

28.May. 2018
por Claudia Atas

Você não está a salvo: o modo de escrever revela muito do autor, mesmo na elaboração de textos não literários. Intenções, sentimentos, humores e valores rondam a redação e podem interferir positiva ou negativamente no resultado.

Em outras palavras, é ilusão anderson-aires-estilospensar que basta se concentrar na redação para se proteger de interferências, internas e externas. Vigiar o estilo da linguagem e monitorar a construção do texto são recursos mais efetivos. Afinal, o jornalista não escreve para si, escreve para o leitor.

Selecionei cinco exemplos para analisar essa questão, aqui tratada como estilo associado à forma.

À falta de denominações gramaticais específicas, criei as minhas:

Estilo ou Redator 1- narcisista; 2- preguiçoso; 3- enviesado; 4- falso conselheiro e 5- contador de história (storytelling jornalístico).

Começo pela primeira e deixo as demais para as próximas publicações.

Narcisista, ou a competição entre fato e narrador.

O narrador protagonista coloca o redator/apresentador no primeiro plano, em detrimento do fato, do produto, do serviço, da causa que motivou a divulgação. Ele se projeta, mas não por suas experiências, realizações e valores pessoais, como nos “testemunhos”, ou seja, depoimentos com os quais se busca dar credibilidade ao que se divulga ou promove.

Ao contrário, o narcisista se torna figura principal porque usa excessivamente o pronome “eu”, a conjugação na 1ª pessoa do singular, os possessivos meu/minha/meus/minhas.

Nesse modo narrativo, há pouca empatia: o público geralmente toma o narrador como personagem vaidoso, arrogante, pretensioso.

Adorei a foto comigo no palco

Em uma rede social, um executivo que ocupa elevada posição em uma multinacional, noticiou a demonstração de um produto. Essa demonstração se deu em evento tido como o mais respeitado do setor (marketing e comunicação digital), no Brasil. Em cerca de oito linhas, dizia:

(…) eu fiz no palco um pequeno experimento ao vivo onde conversei com um pão de forma. (Uma revista publicou) um pequeno artigo sobre isso e o que falei resumidamente sobre Inteligência Artificia (…). Adorei a foto comigo no palco (crédito da foto) e o display gigante por trás, com a imagem do pão de forma no meu iphone.

Em novo post, cede o primeiro plano para público e produto (destaque em azul), para, logo depois, reassumir o protagonismo:

(O vídeo mostra) o momento que faço uma demonstração (…). Dei o exemplo de um supermercado. (…). Imagine vc entrando no mercado c/ um smartphone e apontando o aparelho p/ um produto na prateleira. Ele reconhece qual é o produto e você pode conversar c/ele em linguagem natural, como se estivesse numa conversa c/ uma pessoa. Fiz essa demo no palco, ao vivo, no meuiPhone, onde conversei c/ um pão de forma… perguntando sobre data de validade, se tem glutem (sic) sobre sua composição e até uma receita bacana p/ fazer com ele. (…) Adorei!

Mesmo que você seja excelente profissional, famoso e bem-sucedido, resista: coloque o fato no primeiro plano. Há outros meios de ser simpático e convincente.

Por oportuna, copio a advertência de um jovem jornalista aos futuros (e veteranos) profissionais:

“Muitas vezes ficamos apegamos aos nossos textos, achando que é a coisa mais maravilhosa do mundo. Só que não é. Aliás, o jornalista/repórter nunca pode ser mais importante do que a matéria que ele está escrevendo: o texto não é do repórter, é do leitor”, afirma.

Anderson Aires (trecho da matéria de Ana Carolina Barski, da Ink, agência experimental da Faculdade de Comunicação do Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter), publicada em 26 de maio de 2017

Molecagem do Estadão: Rosa Weber protagoniza deboche na capa do jornal

17.April. 2018
por Claudia Atas

O Estadão criou um bom exemplo de mau jornalismo. Publicou uma capa antiética, desmoralizadora e especialmente desrespeitosa para com a estrela dessa produção: a ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal.

Edição de 0h50 do dia 05 de abril de 2018

Edição de 0h50 do dia 05 de abril de 2018

Avessa a exposições públicas, Rosa foi o centro da atenção no julgamento e, também, na primeira página do jornal (último dia 5): no STF, pelo seu voto, considerado o fiel da balança; no jornal, por uma gargalhada fora de contexto.

Na foto de meia página, com o colega Dias Toffolli (desfocado), a gargalhada de Rosa choca, independentemente das posições ideológicas dos leitores. Choca pela situação artificial jocosa, marota.

Capturada por fotógrafa do Estadão, a gargalhada se associou à vigorosa manchete – “STF libera prisão de Lula” – e induziu o leitor a erros:

– Rosa não gargalhou nem durante nem ao final do julgamento do pedido de habeas corpus preventivo para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva;
– O perfil, a conduta e a reputação de Rosa não se coadunam com o desafio de “quem ri por último ri melhor”
– Rosa não celebrou o veredicto.
Quem riu por último e celebrou a derrota de Lula foi o Estadão.

Por que Rosa gargalhava?

Nunca saberemos, porque essa foi uma edição marota: apesar da postura sóbria durante a transmissão do julgamento pela TV – na leitura dos votos e ao final do julgamento que negou habeas corpus para Lula – Rosa gargalhou no Estadão.

Edição 25 minutos depois - 1h15 - do dia 5 de abril de 2018

Edição 25 minutos depois – 1h15 (5/4/ 2018)

Vinte e cinco minutos depois da primeira edição (0h50), o bom senso prevaleceu e a capa foi trocada (1h15) por outra, convencional.

Agora, a imagem da celebração pública do jornal permanece apenas entre alguns assinantes. Removida junto com a primeira edição, também não aparece na reprodução digital do jornal impresso.

Contudo, cá está ela, para nossa reflexão.

Ao mesclar contextos, o jornal não apenas criou uma notícia falsa como promoveu uma desmoralização geral – do próprio jornal, de uma reservada ministra do Supremo e do STF, além de, faltando com a verdade, haver desrespeitado seus leitores.

Se há algo de bom nesse episódio é servir de exemplo de má prática jornalística aos focas que frequentarem os cursos de jornalismo de O Estado de S.Paulo.

 

 

Listas do bem: cursos gratuitos online de instituições reputadas como excelentes

27.March. 2018
por Claudia Atas

Você encontra, logo abaixo, uma relação de cursos gratuitos oferecidos por onze instituições idôneas que gozam de boa reputação na área educacional.

Originalmente, eram duas “listas do bem” publicadas na rede Linkedin, da qual sou membro. Eu as fundi em um só bloco de informação e chequei os respectivos links. Aproveite!

1. USP: < https://lnkd.in/exbJ3E3>

Vinte e sete cursos online e gratuitos pela plataforma Veduca. As áreas de interesse são bastante diversificadas: Física Básica, Gestão de Projetos, Engenharia Econômica, Princípios de Sustentabilidade e Tecnologias Portadoras de Inovação, Gestão de Pessoas e do Conhecimento para Inovação, Medicina do Sono, Oceanografia, Probabilidade & Estatística, Escrita Científica, Tópicos de Epistemologia e Didática, Economia Monetária, Filosofia e Intuição Poética na Modernidade, Libras – veja a relação completa dos cursos, certificados com 40% de desconto.

2. Insper: https://lnkd.in/dMEYVCd

Quatro cursos online e gratuitos, em parceria com a plataforma Coursera: Introdução ao Marketing Analítico, Capitalismo Consciente, Gestão de Operações e Administração Financeira. Certificados devem a ser negociados diretamente com o Coursera.

3. Fundação Estudar: https://lnkd.in/deWd4wD

Um curso online: Entenda o que te faz feliz tendo mais conhecimento sobre si mesmo.

4. Prime: https://lnkd.in/dNmQPmd
Centenas de cursos grátis com certificados de conclusão.

5. Iped: https://lnkd.in/dSmv3Yd

Dezenas de cursos gratuitos para início imediato.

6. FGV: https://lnkd.in/dwKhzc6

Os cursos não proporcionam titulação, crédito, certificação nem acesso a instrutores. Quanto aos materiais, são gratuitos. Entre os vários títulos, você encontrará Finanças Pessoais, Sustentabilidade, Comunicação, Sociologia, Gestão de Serviços com Foco no Envelhecimento, Direito Imobiliário, O Juiz e a Ética, Patentes e Bases Legais, Fundamentos da Gestão de TI e muitos outros em diversas áreas do conhecimento e de atividades.

7. Centro Paula Souza: http://mooc.cps.sp.gov.br

Seis cursos, cinco deles certificados, cuja duração varia de 6 horas a 30 horas: Mercado de Trabalho, AutoCad, Gestão de Pessoas, Gestão de Tempo, Gestão de Conflitos, Canvas.

7. Senai: https://www.ead.ms.senai.br/cursos/iniciacao_profissional/
Quase todos os cursos são gratuitos e 100% online. Os temas variam bastante: Desenho Arquitetônico, Finanças Pessoais, Iniciação à Docência na Educação Profissional e Tecnológica, Power Point, Word, Excel, Lógica de Programação Educação Ambiental, Noções Básicas de Mecânica Automotiva, Tecnologia da Informação e Comunicação, entre outros.

8. Senac: https://lnkd.in/dzpmy7X

O Programa Senac Gratuidade se destina a pessoas com renda familiar mensal per capita não superior a dois salários mínimos federais. Compõe-se de 16 cursos gratuitos, entre livres, técnicos, graduação e extensão universitária. As inscrições dos cursos técnicos a distância irão até 24 de abril.

9. Fundação Bradesco: https://www.ev.org.br

A Escola Virtual Bradesco oferece 80 cursos em cinco áreas de interesse: administração; contabilidade e finanças; desenvolvimento pessoal e profissional; educação e pedagogia; e informática.

10. Nube: https://lnkd.in/dQp2Gc5

O Núcleo Brasileiro de Estágios disponibiliza os cursos Como administrar seu tempo, Tenha sucesso em processos seletivos, Como elaborar um currículo, Gestão de Carreira, Marketing Pessoal e Falar em Público. São gratuitos e online.

11. Senat: https://lnkd.in/eUgA8Kz

O Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (SENAT) oferece, pelo seu sistema de ensino a distância, dezenas de cursos online, voltados para a capacitação de profissionais no setor. Estão organizados segundo as categorias Educação, Gestão, Regulamentados, Saúde, Social e Transporte.

 

 

Portal divulga informações sobre milhares de cursos – dos técnicos aos doutorados

16.March. 2018
por Claudia Atas

Quem planeja começar a estudar, complementar os estudos, se especializar ou atualizar seus conhecimentos dispõe de um buscador virtual que facilita a escolha: o Educaedu .

Criado em 2008, o portal Educaedu publica as ofertas educacionais dos centros de formação localizados em 20 países, por meio de websites redigidos em nove idiomas: espanhol, português, alemão, francês, italiano, polonês, inglês, turco e russo.

Segundo Bárbara Borges, do website brasileiro, o Educaedu oferece mais de 46 mil opções de cursos, entre os quais mestrados, graduações, pós-graduações e doutorados, em várias áreas do conhecimento.

“Publicamos em nosso blog, recentemente, uma matéria com indicações sobre os programas de bolsa de estudo mais acessíveis do Brasil”, informa Bárbara.

Na matéria – Sete programas de bolsa de estudo para você começar sua faculdade em 2018  < https://www.educaedu-brasil.com/blog/bolsa-estudo-brasil/>, a gestora de conteúdos do portal, Liliana Diaz, comenta brevemente cada um dos programas apresentados.

Tempos de insegurança, intervenção e dúvida verbal

27.February. 2018
por Claudia Atas

assinatura-decreto-intervencao E não é que os tempos verbais estiveram envolvidos com a intervenção federal no estado do Rio de Janeiro ?

Uma amiga me perguntou se não haveria um erro nesta frase: “O decreto assinado prevê que as Forças Armadas assumirão o controle da segurança”.

Para ela, os tempos verbais estão em conflito. “Prever” é verbo da incerteza e “assumirão” o tempo verbal da certeza.

O correto seria “o decreto prevê que assumam” – incerteza seguida do tempo verbal usado para dúvidas, sentimentos, crenças e outras situações do tipo pode ser, pode não ser.

Observei que o contexto foi determinante na redação do decreto presidencial. Diferentemente das previsões meteorológicas, financeiras, econômicas e tantas mais, a “previsão” de agir por meio de uma intervenção militar no estado do Rio foi, sobretudo, uma “decisão” tomada rapidamente por um seleto e poderoso grupo institucional. “Prever”, neste caso, é certeza: o controle será das Forças Armadas.

Em geral, contextos levam ao entendimento da mensagem, mas não barram os equívocos. Se “prever” é ação típica da incerteza, datar a informação ou situá-la cronologicamente é bom recurso para eliminar dúvidas, promover a compreensão e celebrar a paz gramatical. Por exemplo:

“O decreto assinado prevê que, a partir de amanhã, as Forças Armadas assumirão o controle da segurança”.

“O decreto assinado prevê que, a partir de hoje, as Forças Armadas assumam o controle da segurança”.
“O decreto assinado prevê que as Forças Armadas assumam o controle da segurança.”

Dois conceitos

Tania Neves, graduada em Letras e especialista em Gestão de Comunicação e Marketing, entende que o verbo prever “diferencia-se de outros, como supor, ou desejar, que certamente pedem um complemento no subjuntivo. A diferença está, principalmente, na força do conceito contido no verbo prever (do latim: praevidere – ver em antecipação).”

Nesse sentido, prever pode ser entendido como suposição baseada em análise de fatos presentes ou passados; e, ainda, como suposição intuitiva, quando o sujeito intui que fatos consequentes ocorrerão (no futuro).

Por exemplo, a suposição contida nesta frase denota maior probabilidade de que o fato ocorra:

José prevê que os filhos assumirão o controle da empresa, pois eles sempre demonstraram interesse no negócio.

Nesta outra, o sentido de “supor” é mais intuitivo. Sem a força de previsão da frase anterior, o subjuntivo deve complementar o verbo:

José prevê que os filhos assumam o controle da empresa, pois ele deseja que continuem seu trabalho.

Quanto à frase tema deste post – O decreto assinado prevê que as Forças Armadas assumirão o controle da segurança – Tania a escreveria de outro modo:

No decreto assinado, o presidente determina que as Forças Armadas assumam o controle da segurança.

Idioma enriquecido

Gislaine Marins, doutora em Letras, afirma que a relação entre orações principais e subordinadas, assim como a relação entre verbos no indicativo e no subjuntivo, devem ser valorizadas.

O verbo “assumir” na frase em questão está inserido em uma oração subordinada. Em geral, as subordinadas preveem o uso do verbo no modo subjuntivo, relacionado ao verbo no indicativo, presente na oração principal.

Na minha opinião, a relação entre orações principais e subordinadas, assim como a relação entre verbos no indicativo e no subjuntivo, devem ser valorizadas. É uma simetria não apenas sintática, mas também conceitual. Aquilo que se prevê é ainda uma hipótese. O uso do futuro do indicativo é uma declaração sobre uma ação que irá ocorrer, independentemente da previsão ou não.

Entretanto, (…) muitos gramáticos, como o Professor Pasquale, admitem as duas formas como corretas. Trata-se de uma mudança de perspectiva.

O que acontece (na frase analisada) é exatamente isso: temos certeza de que a previsão irá se verificar. (…) Talvez as gramáticas tradicionais ainda não admitam o fenômeno, mas os gramáticos já assimilaram a mudança, que sempre começa pelos falantes, chega aos jornais e depois é descrita e transformada em regra gramatical.

(…) Com um pouco de flexibilidade, de criatividade e de olhar atento à história da língua, podemos perceber que a construção não é tão estranha como parece. Sim, as duas possibilidades são admissíveis. E isso é um bem para a língua, é um fator que enriquece o nosso idioma.

Gramática, confesso, tem um lado aborrecido – regras antigas, rígidas, que mal entendemos e mal praticamos. O outro lado, porém, é que embute uma construção histórica, cultural, como vimos na redação desta intervenção militar.

Tempos verbais, como se vê, não são meras questões gramaticais.

Cinco questões para melhorar a redação …já!

22.January. 2018
por Claudia Atas

Por hábito, anoto rapidamente o que me chama a atenção quando vejo, ouço e leio qualquer tipo de informação. Podem ser boas e más soluções que sirvam de exemplo para aumentar a qualidade da comunicação oral e escrita.

Com essa prática, amealhei muitos “casos”. Com cinco deles, devidamente analisados, Clareza & Coerência inaugura 2008.

1.   Contexto e surpresas contextuais

Repórter da Rádio CBN entrevista um dos moradores retirados de um conjunto habitacional financiado pelo governo. Embora relativamente novos, os prédios ameaçavam desabar:

– O senhor está aliviado?

– Não, estou indignado.

Esse curtíssimo diálogo ensina as respostas do seu interlocutor podem ser inesperadas, menos óbvias. Neste episódio, o entrevistador esperava a concordância do entrevistado e, com um pouco de sorte, acrescentaria um comentário sobre a sensação de alívio. Porém, a resposta foi mais densa.

Lembre-se: contexto é um conjunto de fatores e um deles pode prevalecer, dando margem a uma conversa menos óbvia.

Dica: ao formular perguntas, oralmente ou por escrito, antecipe a possibilidade de uma resposta inesperada. Esse condicionamento pode aumentar suas chances de receber informações mais amplas e precisas.

Folha de S.Paulo, 19/8/2017, A02

Folha de S.Paulo, 19/8/2017, A02

2.   Modismo em regência verbal

“Prezar por, prezar pelo, prezar pela” é um erro: a regência desse verbo exige objeto direto: prezar alguém, prezar o quê?

Excelentes redatores já embarcaram nesse modismo, como mostra a imagem ao lado (“que pouco preza pela qualidade do gasto”.

Meu palpite para a expansão dessa mania é a afinidade sonora e semântica entre os verbos prezar e primar. Mas, no caso deste último, o complemento precisa ser um objeto indireto: “prima pela qualidade” ou, reescrevendo o trecho da Folha, “não prima pela qualidade do gasto…”

3. Cacófato

Uma das várias vantagens de ler o que se escreve é impedir que um cacófato ridicularize um texto sério. Esse vício de linguagem é a desastrada união da última sílaba de uma palavra com a primeira da palavra seguinte. Como neste exemplo, a junção involuntária de ca + ga:

JBS expliCA GAfe em campanha: “imagem de arquivo http://www.meioemensagem.com.br/home/ultimas-noticias/2017/03/22/jbs-explica-gafe-em-campanha-imagem-de-arquivo.html

 

4- Entusiasmo excessivolead-entusiastico

O lead à direita é tocante (sem trocadilho) e atraente. Mas o excesso de entusiasmo limitou a criatividade do redator, que elaborou três versões da mesma ideia: o som invade os espaços, reverbera pela vizinhança, ecoa por entre as casas.

Aqui, não se trata de erro, pois o estilo literário cabe no tipo da notícia. Mas o exemplo serve de alerta:

1- Quando redigir textos menos informais, cuidado: a empolgação leva ao exagero e a possibilidade de cometer deslizes aumenta.

2- Revisar texto é sempre importante; mais ainda, se tiver sido escrito sob emoção.

E por falar em revisão,

 

5- Um desafio

que-para-que

Vamos remover repetições indesejáveis, como “para”, e um esquisito “que para que”?

Reconstrua o parágrafo ao lado com essa intenção.

Tente.

Se achar muito difícil, apoie-se nesta sugestão, que respeita o estilo e a intenção do texto:

Um documento obtido pela Reuters informa que os fundos seriam suficientes apenas para cobrir alguns contratos destinados a criar protótipos do muro. A construção de uma barreira, porém, exigirá que a Casa Branca convença o Congresso a destinar fundos específicos para essa finalidade (ou para essa estrutura).

 

Substituição dos verbos ter e fazer: de novo, o assunto mais procurado neste site.

26.December. 2017
por Claudia Atas

A proposta de trocar os verbos ter e fazer por construções mais eficientes, e ainda fiéis à ideia original, continua a liderar o ranking de Clareza & Coerência. Como substituir os verbos ter e fazer – respostas ao teste” ocupa, também neste ano, o primeiro lugar na lista de leituras deste site.

ranking-2017

São 6.687 visualizações, entre quase quinze mil, desde 2011. O número é maior se consideramos que esse título também está incluído na categoria “página inicial/ arquivos” e, desde 2012, é o mais lido dos rankings diário, semanal, mensal, trimestral, semestral e anual.

Balanços combinam com o espírito de fim de ano, especialmente para apoiar fatos, para gerar interpretações. No caso deste site, porém, o sucesso do post melhor colocado me intriga.

Nunca vi esse tema, nunca estudei essa troca. Possivelmente, a “fórmula” da troca decorre do mecanismo que aprendi em uma disciplina do curso de Jornalismo, da ECA/USP, ministrada por uma docente – Socorro – cujo sobrenome, lamentavelmente, esqueci. Foi ela, no entanto, que me ajudou a dar o primeiro salto de qualidade em redação. Foi ela que me levou a descobrir como o estilo envolve quase todas as questões normalmente trabalhadas de forma isolada.

Minha estranheza com a atração gerada pelo post mais lido aqui, nos últimos anos, vem do seguinte fato: Clareza & Coerência dedica-se indiretamente à gramática e usa uma linguagem mais própria do jornalismo do que a dos cursos de Português.

Embora intrigada, fico satisfeita com mais este ranking, principalmente porque sou informada que meus leitores são, majoritariamente, estudantes a partir do ensino Fundamental e até professores, que aqui buscam material para exercícios.

Espero que, no próximo ano, o site consiga aumentar a atração por questões mais “duras”, aquelas que procuram levar os visitantes a ganhar autonomia, a enfrentar “a ditadura da concisão, a censura ao uso de palavras difíceis e, ainda, a descobrir a verdadeira questão oculta sob o condenado “textos longos”.

Espero vocês em 2018.

P.S. Se quiserem sugerir temas e aspectos de redação que gostariam de ver analisados, fiquem à vontade  usem o espaço para comentários ou o e-mail <clapmark@terra.com.br>.

Aprender a conviver

26.November. 2017
por Claudia Atas

Uma jornalista ocupa cargo inédito no The New York Times: Editora de Gênero. Mulheres sauditas começarão a dirigir automóveis e poderão entrar em estádios esportivos, a partir de 2018. Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil foi tema de redação no Enem 2017, enquanto feminismo, transgênero e racismo estavam entre as questões do vestibular da Unicamp (1ª fase).

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Aziza Yousef  dirige em estrada de Riad, na Arábia Saudita, como parte de uma campanha para desafiar a proibição de mulheres conduzirem veículos no país (AP Photo/Hasan Jamali -2014)

Sem dúvida, o mundo reage às expressões de desigualdade e preconceito. Em várias frentes e velocidades, quase sempre, de forma pacífica.

Contudo, manifestações contra desigualdade e preconceito, já coibidas no âmbito legal, também exigem mudanças no indivíduo – intelectuais e comportamentais.

Aceitação e respeito ao tipo de orientação sexual, a deficiências físicas e mentais, a diferenças culturais e outras marcas da desigualdade são obtidas de forma mais ampla, efetiva e duradoura quando ensinadas, maturadas e assimiladas internamente.

Neste sentido, acredito que um método eficaz para alcançar esse resultado é a incorporação das chamadas competências socioemocionais na formação educacional das crianças e adolescentes.

Em São Paulo, acabam de chegar ao currículo do Ensino Fundamental (rede pública) habilidades socioemocionais como tolerância à frustração, solidariedade, convívio harmonioso com os diferentes, entre outras. Será o fim do bullying?

Nem tanto, mas esse tipo de abuso estará melhor controlado pela instituição, pelo grupo e… pelo próprio bully. Será, isto sim, uma guinada no ensino, com poder de influenciar pais e repercutir em outros meios sociais.

Habilidades mais importantes

Os participantes da Série de Diálogos, realizada pela Associação Inspirare, Instituto Porvir e Instituto Ayrton Senna, classificaram em dois grupos aquelas que consideram as mais importantes competências socioemocionais:

Competências prioritárias: autoconhecimento, amabilidade, autoconfiança, autocontrole, autonomia, comunicação interpessoal e intrapessoal, cooperação, engajamento, interesse por aprender, motivação.

Competências de valores: amor, gratidão, gentileza, humildade, senso de justiça, respeito, solidariedade.

Para quem não acompanha o assunto, habilidades ou competências socioemocionais podem parecer modismo educacional. Mas, desde o século XIX, elas se relacionam com formação para o convívio equilibrado e conciliador.

“Aspectos sociais e emocionais estiveram no centro da reflexão de pensadores clássicos da Educação, como Lev Vygotsky, Jean Piaget e David Ausubel (1918-2008)”. (Associação Nova Escola)

Neste século, o interesse pelo assunto extrapola o ensino básico e se coloca no mundo corporativo como diferencial de qualidade de funcionários e colaboradores. Valorizam-se, nessa esfera, a curiosidade, a autoconfiança, a responsabilidade e a criatividade.

“Na era das tecnologias, da internet e da globalização, engana-se quem pensa que o importante é ter conhecimento técnico e operacional. Na verdade, as empresas têm procurado cada vez mais profissionais que saibam se comportar diante de situações complexas que envolvem equilíbrio e saúde emocional.”  https://escoladainteligencia.com.br/habilidades-socioemocionais-x-mercado-de-trabalho/

No post anterior, falávamos de profissionais incapazes de dizer não – quando um não é necessário – e, até mesmo, responder ao interlocutor indicando que sua pretensão não será encaminhada ou aceita.

No contexto deste artigo, essa dificuldade constitui mais que uma falha de comunicação. Nitidamente, trata-se uma falha de comunicação do profissional desprovido de habilidades socioemocionais.

Contexto e A Hora da Vitrola

25.October. 2017
por Claudia Atas

Andava procurando um bom exemplo de “contexto”, capaz de evidenciar sua importância em praticamente todo tipo de comunicação. Então, num domingo, lá pelo meio dia, dirigindo o carro e ouvindo a rádio Eldorado, ele surgiu com André Góis, apresentador do programa A Hora da Vitrola.

Góis no estúdio da Eldorado (15/9/2017)

Góis no estúdio da Eldorado (15/9/2017)

Para os que ainda não ouviram o programa (também às quintas-feiras, às 23h), e gostam (ou ainda não sabem que gostam) das músicas dos anos 50 e 60, recomendo: a oportunidade é imperdível.

Góis, que descobri há alguns meses, me encanta com seu conhecimento, bom gosto e um belo trabalho de contextualização.

Especialista apaixonado, ele resgata preciosidades musicais e aumenta a dimensão da informação sonora ao colocá-la em seu contexto.

Em A Hora da Vitrola, a música é embalada por histórias de sucessos e fracassos. O ouvinte passa a compreender a importância de uma voz, de uma letra, de uma melodia, de um arranjo. Começa a admirar o que parecia sem sentido. Descobre por que a canção se tornou “clássica”.

O conjunto de fatos e fatores determina o significado da comunicação e, no entanto, é mal comunicado, com poucas exceções.

Conhecimento e sensibilidade

A mensagem copiada abaixo é outro exemplo que ajuda a entender, por comparação, como o cuidado com o contexto ajuda a escrever melhor – objetivo declarado deste site.

Trata-se de um e-mail por meio do qual uma associação informava o falecimento de um membro da diretoria. Omito os nomes da entidade e da falecida:

Assunto: Nota de falecimento  
Prezados, bom dia! 
É com profundo pesar que comunicamos o falecimento de nossa
associada e amiga (...), ocorrido nesta madrugada. 
(...)
Ainda não temos dados sobre o local do enterro, já que ela 
ainda se encontra no IML, até o final do dia, encaminharemos
o endereço. 
Que Deus acompanhe seus próximos passos.
Atenciosamente,
Diretoria (...)

Neste caso, o redator associou dois elementos que, a rigor, o contexto torna incompatíveis: Nota de Falecimento e profundo pesar não se coadunam com o alegre “bom dia!”

Mesmo que a pessoa falecida não pertença ao círculo de amizades do leitor, é fato que a palavra “morte” provoca algum impacto ao remeter o leitor à ideia de que também é mortal.

Um recurso, para evitar deslizes em situações como essa, é trocar a saudação bom dia por “prezados associados”, “prezados amigos”, “prezados colegas”.

Há um segundo problema:

(…) “já que ela ainda se encontra no IML, até o final do dia, encaminharemos o endereço.”

Também esta é uma forma ruim. Faltam conhecimento e sensibilidade: não é “ela” que se encontra no Instituto Médico Legal, mas seu corpo.

Pontuação incorreta sempre causa embaraço. Aqui, a tendência do leitor é emendar as orações e entender que “ela se encontra no IML até o final do dia”.

A frase ficaria melhor sem a menção ao IML e com mais cuidado na pontuação:

Até o final do dia, encaminharemos o endereço do local onde o corpo será sepultado.

Outros exemplos

Vale a pena, para quem quer saber mais sobre contexto, em linguagem não acadêmica, ler ou reler os artigos listados a seguir. Clique no link e, na página do artigo, procure por “contexto” ou “contextualizar”.

9.25.17A prática de ignorar o interlocutor e dissimular um não 

08.30.17Supremacista, eufemismo em discussão. [a palavra no contexto]

07.31.17Palavras “difíceis”: vamos enfrentar mais um tabu?

26.22.17Em defesa do texto longo… e conciso.

05.23.17“O Patriarca da Odebrecht”: certo ou errado?

410.31.16Pirâmide invertida: debate saudável para o bom jornalismo

07.30.16Escute a sua redação: uma prática que beneficia a linguagem-para-ser-lida

012.5.15Oportunidade x oportunismo: a reportagem de Ernesto Paglia

08.22.15Título preconceituoso contamina reportagem da Folha

21.27.15 Comunicação e jornalismo não verbal – riqueza inexplorada

 

 

 

A prática de ignorar o interlocutor e dissimular um não 

25.September. 2017
por Claudia Atas

dizer-nao

O brasileiro gosta de cultivar a ideia, comprada por estrangeiros, de que somos um povo afetivo, simpático, hospitaleiro e informal, comparados aos frios e racionais europeus e asiáticos. Extrovertidos e generosos, abrimos nossos corações e nossas portas aos estrangeiros, aos amigos, aos amigos dos amigos, etc.

As décadas passam e esse perfil sobrevive, sustentado fortemente por uma prática que estimula o “sim”, ou a dificuldade, às vezes a impossibilidade, de dizer “não”.

aspas-para-dizer-nao-5

O que me espanta, nesses autorretratos, é a falta de autocrítica. Podemos reconhecer nossos defeitos, mas não falamos deles. Seja na esfera pessoal, seja na esfera profissional, deixamos interlocutores sem respostas verdadeiras e, quando sobrevém o momento da verdade, inventamos desculpas, porque argumentos podem criar desarmonia.

Curiosamente, se todos já amargamos ausência de resposta e rejeição disfarçada de “talvez”, por que a experiência não levou a uma nova conduta, barrando a prática de ignorar o interlocutor?

No âmbito profissional, a cultura corporativa geralmente catequisa a verdade, mas tolera, na prática, atitudes que mascaram negativas com tom de concordância – o “sim”, para ser simpático; o “talvez”, para saltar fora; o silêncio, quando o assunto não interessa. Pensando bem, já tínhamos inventado a pós-verdade muito antes de ela ganhar visibilidade nos cadernos de cultura. Mas não nos demos conta…

Descortesia ou falta de estratégia?

Empresas jamais deveriam falar ou redigir na perspectiva do “já temos”, “já sabemos” e, principalmente, do “já sei o que ele vai falar”. Elas fecham as portas para talentos, para ideias originais ou originalmente aplicadas; para novas soluções e novas formas de solucionar.

Ignorar o interlocutor, sonegar as razões de um “não” é mais que descortesia – é falta de estratégia. Se a resposta precisa contrariar as expectativas do interlocutor, nada mais estratégico que expor os motivos.

No aspecto economia de tempo, o investimento para reunir e expressar as razões da negativa será compensado pela formação de um conjunto de respostas. Genéricas, a rigor, mas personalizadas, no final das contas – afinal, ao interlocutor importam as justificativas para o seu caso e, não, a originalidade da resposta.

Em outras palavras, reconheço que respostas padrão são necessárias diante de milhares de mensagens e da escassez de tempo. Mas podem ser relativamente personalizadas com informações pertinentes, ancoradas no contexto e na verdade.

Ignorar essa possibilidade é menosprezar a inteligência do interlocutor, omitir informações e faltar-lhe com o respeito.