Skip to content

A influência da língua web – ou o que replicar tem a ver com reproduzir?

28.June. 2016
por Claudia Atas

Dia desses, a Folha de S.Paulo publicou um lead que dá o que pensar.

Folha de S.Paulo, 12 de junho de 2016, pg. A5

Folha de S.Paulo, 12 de junho de 2016, pg. A5

(…) a presidente afastada Dilma Rousseff viajou ao NE para replicar o discurso de que o governo do presidente interino de Michel Temer é “ilegítimo” e “quer impor retrocessos à população (…)”.

No primeiro momento, deduzi que algum fato novo provocara a presidente afastada – um insulto, uma crítica, uma ação desfavorável à sua gestão. Mais rápido que os olhos, o pensamento construiu a sequência: uma tréplica se desdobraria da atual réplica.

Mas, na sequência, a informação desmontou minha tese. Dilma, simplesmente, repetiria o que vem dizendo desde que o Senado afastou-a do cargo por 180 dias: que o governo do interino é ilegal e irá impor retrocessos à população.

Embora se trate de um erro – a ideia de replicar, na notícia, não era responder nem contestar, mas repetir afirmações – estou mais interessada na origem do erro, para a qual tenho uma hipótese: a enorme influência do Inglês nas nossas vidas, especialmente no ambiente da internet.

Neste sentido, teria havido uma falsa associação, por sonoridade (1) e aproximação de ideias (2) entre os verbos

1- replicar e “reply” – sendo que reply (responder, reagir, contestar) não comporta a ideia de repetir, intenção provável da repórter;

2- replicar (responder e copiar) e “replay”, este sim, reproduzir, repetir (som, imagem, história, jogo, etc.), correspondendo à intenção da redatora.

Acredito que em ambas as possibilidades a jornalista tinha um verbo Inglês na cabeça.

Sem dúvida, a força da língua inglesa tem o poder de confundir redatores. Só não cai nessa cilada quem domina o Português.

Aumente a qualidade narrativa com o exercício da observação

30.May. 2016
por Claudia Atas

Tomate invertidoEntre os desafios impostos pelo jornalismo digital, “repórteres terão maior responsabilidade na busca de estratégias para que suas narrativas sejam lidas ou assistidas”. Quanto aos editores, “devem se preocupar com a qualidade jornalística e narrativa, empenhando-se em encontrar as melhores maneiras de contar histórias em múltiplos meios”. Com essas e outras providências, o jornal New York Times prepara-se para enfrentar a revolução digital.

A informação saiu publicada ontem, na coluna Ombudsman da Folha de S.Paulo e comprova, mais uma vez, o valor da qualidade narrativa no jornalismo, um valor clássico a que empresas jornalísticas recorrem para enfrentar a concorrência da leitura fácil e duvidosa e se distinguir em meio à avalanche noticiosa disponível na internet.

Uma das melhores lições que aprendi sobre criatividade ocorreu fora da faculdade de jornalismo e, quem diria, dentro de uma redação responsável por uma “revista técnica”.

Em meados dos anos 1980, o editor de Construção Hoje encantava a equipe com informações teóricas e práticas que nos ajudavam a produzir estruturas, leads, títulos e outros requisitos das matérias de alta qualidade. Sua comunicação era sempre objetiva, motivadora e inventiva.

Com o tempo, descobrimos como Alipio do Amaral desenvolvia e aplicava ideias originais, inovadoras, estimulantes: elaborando informações, sensações e valores a priori estranhos à linguagem profissional.

Foi um sucesso a palestra dele para o setor comercial da empresa, especialmente ao expor uma analogia entre tomates cultivados de cabeça para baixo (que vira em Denver, no Colorado – EUA) e práticas inovadoras, heterodoxas que a maioria das pessoas reluta em aceitar. Ele falava para um público que teria de usar uma nova metodologia de trabalho. Os tomates de Denver viraram uma referência na empresa.

Lembrei-me do episódio quando li o artigo Teori (Indiana Jones) Zavascki, de Elio Gaspari, há algumas semanas, na Folha (basta digitar o título no Google para escolher onde ler). Gaspari desenvolve uma excelente analogia entre “a figura publicamente sorumbática do ministro Teori Zavascki” e o personagem Indiana Jones. Ou melhor, compara bastidores do filme e do Supremo Tribunal Federal:

“Quem quiser usufruir 14 segundos de alegria poderá captar a essência do que aconteceu no Supremo Tribunal e na política brasileira (suspensão do mandato do deputado Eduardo Cunha, na manhã do último dia 5). Basta ir à rede para ver (ou rever) a cena do confronto de Indiana Jornes com o beduíno de roupas pretas”.

A analogia costura o texto, do princípio ao fim. O recurso é bem lembrado, bem aplicado, bem estruturado.

O mais importante, aqui, não é deliciar-se com a leitura. É acreditar que exposições de tomates, cinema e muitas outras atividades, reais ou fictícias, quase sempre oferecem motivos para reflexão e geram ideias. É lembrar, na hora oportuna, que podem enriquecer ou aclarar a mensagem.

Não acredite que a observação como fonte de narrações criativas seja uma dica “prêt-à-porter”, que produza um ganho imediato. Ao contrário, é um recurso que exige memória, imaginação e, ainda, disposição para pensar, experimentar e lapidar a ideia. Como Alipio, ao se deparar com tomates cultivados de cima para baixo, e Gaspari, ao dar trela às sensações de ver em Zavascki um herói cinematográfico.

Uma história muito mal contada

3.May. 2016
por Claudia Atas
Mariz Valdo Cruz 27 abril

Folha online, 27 de abril de 2016.

Precisão e imparcialidade são as expectativas de quem lê o New York Times. A afirmação é de Margaret Sullivan, ombudsman que sai do NYT para assumir a mesma função no Washington Post. Está na coluna de Paula Cesarino Costa, a nova responsável pela “defesa” dos leitores da Folha de S.Paulo (1º/4/2016, página A6).

Matérias jornalísticas requerem muitas qualidades, mas as duas apontadas por Margaret resumem perfeitamente a essência do bom jornalismo.

Falar mal da Folha é direito, é normal. Mas deve-se reconhecer nela uma virtude: ao instituir uma ouvidoria (1989) foi e continua sendo “o único dos grandes jornais nacionais a pagar um profissional para criticá-lo”. (Apenas O Povo, de Fortaleza, criou acompanhou a decisão da Folha).

Na simpática coluna de estreia, Paula sinaliza as diretrizes do seu trabalho no atual “ambiente político polarizado pelo qual o país passa”: “É momento de o jornalismo assentar-se sobre valores clássicos e consistentes: transparência, precisão, objetividade e pluralismo”. E imparcialidade, como diria a colega Margaret.

Sem dúvida, Paula terá muito trabalho pela frente. O caso do criminalista Antonio Claudio Mariz de Oliveira, que se tornou, de um dia para o outro, ex-futuro Ministro da Justiça de um eventual governo Michel Temer, é um bom exemplo.

Mariz deu muitas entrevistas assim que seu nome foi elevado à condição de futuro titular da Justiça. Começaram as versões e as confusões. Ele foi convidado ou era apenas um nome cotado para o cargo? Apresentou-se como dono do cargo ou desmentiu o convite? Foi descartado por criticar a operação Lava Jato, é um coringa ou serviu para o balão de ensaio da velha raposa?

Informações conflitantes, de jornal para jornal, inclusive no mesmo jornal, são um desserviço ao leitor. Um dos problemas é o jornalista depender de assessores envolvidos com manobras sigilosas ou maliciosas, o que produz, geralmente, narrativas cheia de nuances, como esta:

Antônio Cláudio Mariz concedeu entrevista à Folha criticando a Lava Jato. Temer soube na noite do mesmo dia. “Vamos ver se é isso mesmo amanhã. Se for, se tornará inviável.” Foi. E Temer se viu obrigado a descartar publicamente o amigo. A incapacidade dos aliados de guardarem reserva sobre as conversas que vêm sendo travadas nos bastidores irritou profundamente o peemedebista, que passou a desautorizar publicamente informações atribuídas a ele. (Folha de S.Paulo, 1° de maio)

Elio Gaspari, no mesmo dia e na mesma Folha de S.Paulo, esclarece o quadro:

Mariz é um veterano e bem-sucedido advogado. Entre os seus clientes esteve o Michel Temer que convidou-o para o ministério da Justiça. Os dois se conhecem há décadas e o vice-presidente lê jornais. Sabia há meses que Mariz é um adversário público dos métodos da Operação Lava Jato (…). Na semana passada Mariz deu três entrevistas (…). Começaram a circular noticias de que Temer “não gostou” das entrevistas, classificadas como ruins, erráticas e inoportunas. O nome de Mariz foi “descartado” porque alimentaria versões segundo as quais o vice-presidente gostaria de esvaziar a Operação Lava Jato. Tudo ficção. (…) Se os dois nunca conversaram sobre a Lava Jato, são os únicos brasileiros que discutem política sem mencioná-la.

Muitas contradições seriam evitadas se jornalistas da área política redigissem com distanciamento, levando em conta mais a sua experiência que as palavras matreiras de assessores, e mais os fatos que as suas versões. Por exemplo, a oposição do criminalista aos métodos da Lava Jato sempre foi clara e ficou patente quando assinou (15 de janeiro) um manifesto fartamente divulgado, que compara a Operação a “uma espécie de inquisição (neoinquisição) em já se sabe qual será o resultado”.

Precisão e imparcialidade são mais que dois lemas para salas de aula e salões de conferências. É um desafio permanente para o jornalismo.

 

A incompreensível vontade de contar o final do filme.

30.March. 2016
por Claudia Atas

Mundo Cão contar final do filmeSe você é como eu – detesta saber o final de um filme que planeja ver – então pode avaliar meu choque ao ler, no meio de uma reportagem, que os personagens-título de Os Oito Odiados morriam no final do filme. Todos, sem exceção.

A produção de Quentin Tarantino já saiu de cartaz e este blog não trata de cinema; portanto, não estou repetindo o erro daqueles que se atribuem a prerrogativa de publicar aquilo que o leitor pagaria para não ler.

O que leva alguns críticos e jornalistas a antecipar desfechos de obras cinematográficas, teatrais, literárias e tudo o mais que foi preparado para surpreender o público?

Dias atrás, a Revista da Folha publicou uma matéria sobre o lançamento do filme Mundo Cão, de Marcos Jorge. Em determinado trecho, a jornalista conta que o diretor pedira, aos jornalistas, que “evitassem spoilers em seus relatos”.

Spoilers, como você sabe ou já adivinhou, corresponde à figura do desmancha-prazeres, aquele que revela um segredo, antecipa uma informação, desfaz o mistério que as pessoas gostariam de descobrir por si próprias.

O diretor explica: “O filme não é que nem ‘O Sexto Sentido’, cujo fim muda todo o significado, mas certamente é mais prazeroso vê-lo sem saber de nada”.

E a jornalista acede: “Em respeito ao pedido e à surpresa do leitor, paramos por aqui.”

O que nos leva a deduzir que, se o diretor não pedisse, os jornalistas iriam revelar o desfecho, alguns por acharem que contar final de filme é irrelevante na análise de uma obra artística; outros, por pura maldade.

Até ontem, minha crítica se resumia aos jornalistas abelhudos. Agora incluo o simpático Alex Santos, criador do site Como Termina o Filme <http://comoterminafilme.blogspot.com.br/> e <https://www.facebook.com/comoterminafilme/>

Não sei o alcance do site, mas discordo do seu objetivo por três motivos:

1- Porque se ganha muito com as visões novas trazidas pelas críticas de bons profissionais – não porque sejam “verdades”, mas pela riqueza de elementos que oxigenam as nossas ideias e nos ensinam, ou relembram, conceitos importantes.

2- Porque as visões dos críticos também nos ajudam a encontrar o que perdemos na sessão do filme (ocupamos boa parte do tempo lendo legendas; concentramo-nos na trama, no drama e nos emocionamos demais, ou, simplesmente, não tínhamos as ferramentas intelectuais para perceber certas dimensões da obra)

3- e, finalmente, porque a narração, escrita, de um filme, é a sua morte. Basta observar o relato que o site publicou sobre Os Oito Odiados: uma monótona narrativa de ações que se emendam friamente, sem estilo, sem suspense. Quem chegar ao final da leitura, provavelmente desistirá de ver o filme. Se quiser conferir, aqui está o desfecho do filme publicado pelo site,

Site Como Termina o Filme

 

 

 

 

TV Globo mergulha no didatismo para reter audiência

17.February. 2016
por Claudia Atas
Buraqueira, símbolo do coloquialismo que a Globo almeja, mistura-se com vocabulário preciso, sofisticado e até um traço da rígida gramática que nos esforçamos para aprender.

Linguagem culta dosada com linguagem popular: na fala do repórter sobrevive um traço da rígida gramática que nos esforçamos para aprender.

Didatismo explícito é a nova tática que o jornalismo da Globo vem adotando para reter seu público. Fuga de audiência não é um fenômeno exclusivo da Globo, nem das emissoras brasileiras. Em todo o mundo, TVs pagas e gratuitas perdem audiência para os serviços de informação e entretenimento, em vídeo, transmitidos pela internet.

A migração para a tecnologia streaming deverá crescer — consumidores estão cada vez menos dispostos a ajustar seus horários e preferências à grade de programação das emissoras… e gostando cada vez mais da autonomia proporcionada pelo streaming, como comprova o sucesso mundial da Netflix. Além disso, novas empresas estão prontas para entrar nesse mercado, como Apple e Verizon.

A Globo vem tomando suas providências há um bom tempo. Tecnologicamente, diversificou o alcance de seus produtos; e, mais recentemente, resolveu apostar no didatismo em seus produtos jornalísticos, por meio de metáforas, coloquialismo e descontração.

Estabelecer esse novo padrão linguístico visual e verbal requer tempo e ajustes. Na atual fase, chama minha atenção o entusiasmo metafórico. O Jornal Nacional consegue bons efeitos, sem dúvida, mas, também, seus esforços didáticos pecam pelo artificialismo.

Obviamente, não se pode exigir criatividade diária das pessoas, nem ótimas condições de produção, todo dia, a qualquer instante. Neste sentido, percebem-se com frequência soluções artificiais, ingênuas, infantis e mesmo caricatas.

Seria preferível, quando ausentes a inspiração, as condições físicas e técnicas, adotar a linha jornalística tradicional. Clareza da informação e matéria bem realizada dispensam recursos como a metáfora, como o jeitão familiar que aproxima o repórter do ator e a reportagem, da encenação. No balanço geral, o caminho é válido e os resultados, positivos.

Creio que o novo estilo jornalístico da Globo tem o dedo da sua consultora linguística, Valéria Paz de Almeida. Há menos de um ano (maio/2015), ela afirmou para o site Língua Portuguesa: “Descobri (trabalhando para a TV) que a fala era só o canal pelo qual (os jornalistas) davam informações. Não havia uma realização falada, propriamente. Era uma produção da escrita, a diferença é que era lida”.

Seu diagnóstico foi o seguinte: “(…) a orientação que os jornalistas de TV mais precisam é a de como adotar uma fala mais coloquial. Há mais de trinta anos a tradição no meio segue padrões da escrita e os profissionais nem percebem que seu registro tem uma distância muito grande da fala”. Valéria tem toda a razão.

No vídeo, que você pode ver clicando neste link <http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2016/01/usp-testa-rodovias-com-aco-que-so-precisa-de-manutencao-em-60-anos.htmlo repórter dosa norma culta com norma popular. Não deixa de ser curiosa, principalmente depois da observação de Valéria sobre a diferença entre texto escrito para ser falado x escrito para ser lido, a pronúncia irretocável do jornalista para a frase “Antes de a gente explicar, …”. Naturalmente, antes de a gente explicar é uma forma correta desconhecida da maioria das pessoas. Na perspectiva deste artigo, o repórter trai o esforço da fase anterior da Globo – quando a correção gramatical era estreitamente vigiada.

A brincadeira coloquial da Veja

Um título provocativo, mas da boca para fora.

Um título provocativo, mas da boca para fora.

Coloquialismo não é necessariamente linguagem gramaticalmente incorreta. A meu ver, não podem ser classificadas de erro reduções como pra, cê, peraí (formas reduzidas ou contraídas); a gente, no lugar de nós; tipo assim, ai, então (palavras para articular ideias), segundo Mayra Gabriella de Rezende Pavan, que exemplifica linguagem coloquial, sem a distinção que faço entre gramaticalmente correto e incorreto.

Quanto a “Deixa ele”, é erro crasso, na língua escrita; na língua falada, uma quebra de regra amplamente aceita. Qual de nós diria para a criançada, colegas de trabalho, amigos e familiares o corretíssimo “Deixe-o”?

Nessa perspectiva, registro o approach atrevido da revista Veja. Na capa de 11/11/2015, um erro grosseiro é a manchete: “Deixem ele crescer!” Concordo que “Deixem-no crescer” é jornalisticamente impublicável, mas, aqui, o atrevimento é da boca para fora: internamente, a Veja zela pelo cumprimento das normas gramaticais. Ou seja, a manchete não passou de onda, de brincadeira.

Quem sabe aludisse à frase que parece ter rodado o mundo quando o cantor country Willie Nelson disse, sobre a prisão do enfant terrible Justin Bieber: “Deixe ele crescer e então nós falaremos sobre isso” – por si, alusão à canção Mama don’t let your babies grow up to be cowboys.

Veja o que faz um título-brincadeira da Veja.

 

Oportunidade x oportunismo: a reportagem de Ernesto Paglia

5.December. 2015
por Claudia Atas

Mariana - Foto LágrimaHoje faz trinta dias que aproximadamente 30 milhões de metros cúbicos de lama, vazados de uma represa da mineradora Samarco, sepultaram um vilarejo, asfixiaram o Rio Doce e deixaram nove cidades ficaram sem água.

A mídia prestou um bom serviço, embora prejudicado, na primeira semana, por informações desencontradas, típicas de coberturas iniciais de acidentes.

Entre tantas reportagens, uma me chamou a atenção por representar interessante dilema ético. Foi o caso da matéria de Ernesto Paglia, exibida no Jornal Nacional em 17 de novembro passado, doze dias após o rompimento da barragem (http://globoplay.globo.com/v/4615844/)

Na época, assombro e consternação eram gerais. Duvidava-se da viabilidade tanto de revitalização da Bacia do Rio Doce quanto da recuperação econômica do seu entorno.

Mariana foto Salgado LinkedinNesse clima de comoção nacional, foi ao ar a consoladora reportagem de Paglia e seu surpreendente messias – Sebastião Salgado, fotógrafo internacionalmente consagrado e, como o público então ficou sabendo, também um ativista ambiental.

O que os telespectadores continuaram ignorando foi a parceria entre Salgado e a vilã da história – a Vale. Acionista majoritária da Samarco, a antiga Vale do Rio Doce, hoje Vale, patrocina várias atividades de Salgado. Essa omissão poderia classificar a reportagem de Paglia como inadequada, oportunista, inidônea?

Na perspectiva do que se transmitiu ao público, a matéria foi claramente informativa e oportuna. A audiência tomou conhecimento de que (1) o fotógrafo consagrado também é um ativista ambiental; (2) criou o Instituto Terra (patrocinado pela Vale) e está recuperando uma grande área afetada pela degradação ambiental; (3) propõe uma solução factível; (4) a proposta foi testada, com bons resultados, na própria Bacia do Rio Doce.

Mariana foto peixeDesse ponto de vista, um trabalho jornalístico na linha edificante, com um final feliz: esperança e entusiasmo na conclusão da reportagem.

Para quem sabe que a Vale financia os trabalhos de Salgado, tanto os fotográficos quanto os do Instituto Terra, soa cínica a solução de Salgado para a destruição que seu próprio patrocinador provocou.

Para Kiko Nogueira, um de seus críticos, “seja qual for a quantia que a Vale paga para patrocinar Sebastião Salgado, é pouco diante do serviço de relações públicas que ele presta.”

Diretor-adjunto do Diário Centro do Mundo, Nogueira informa que a Vale patrocina Salgado “desde, pelo menos, 2008. Banca o Projeto Gênesis, um ambicioso registro de uma volta ao globo por 32 regiões extremas. ‘É sobre um planeta intocado’, diz ele (Salgado). Para a Vale, no site oficial, é ‘uma ilustração artística do compromisso com o desenvolvimento integrado nas comunidades em que atua (…). O projeto mostra que a coexistência harmônica entre o homem e a natureza é primordial para o equilíbrio’”.  (http://www. diariodocentrodomundo.com.br/sebastiao-salgado-a-vale-e-o-jornal-nacional-por-kiko-nogueira

Não menos ácido é o artigo “Quando deixei de admirar Sebastião Salgado!”, publicado nos sites do fotojornalista Rodrigo Baleia e do jornal GGN. Baleia acusa Salgado de “assumir a mitigação dos impactos socioambientais ocasionados pelo rompimento da barragem da mineradora Vale/Samarco.” E confessa:

“Eu, como muitos, também era um admirador do trabalho e do posicionamento de Sebastião, mas isso foi mudando (…). Toda e qualquer admiração que tinha por ele foi por água abaixo, ao vê-lo elevando o nome da mineradora em seus discursos em prol das causas socioambientais. (…) Em minhas andanças, tomei conhecimento de um lado obscuro da mineradora Vale que iam (sic) desde ações do Ministério Publico Federal contra o envolvimento da mineradora com trabalho escravo até destruição da Floresta Amazônica. (…) se hoje eu tivesse um livro de Sebastião Salgado, estaria levando o mesmo para livraria de onde comprei e pediria meu dinheiro de volta”.  http://jornalggn.com.br/noticia/quando-deixei-de-admirar-sebastiao-salgado-por-rodrigo-baleia

Obviamente, as críticas são sérias, oportunas, fundamentais. Considero injusto, porém, desqualificar a reportagem e o repórter, como fazem Nogueira e Baleia em seus sites.

No primeiro caso, porque conferiram inegável valor à reportagem o foco e as circunstâncias. Ou seja, a proposta capaz de salvar o Rio Doce e recuperar a economia da região foi divulgada no contexto de um imenso vazio de saídas para o desastre.

Além do mais, todos os noticiários que vi, ouvi e li estavam impregnados das marcas Vale e Samarco e de abundantes responsabilizações pelo desastre de Mariana. Pode-se lamentar a omissão da parceria entre Salgado e a Vale. Mas não se deve ignorar as qualidades da reportagem de Paglia.

No aspecto estilo, o repórter permitiu-se alguns apelos emotivos, é verdade. A meu ver, Paglia reproduziu as diretrizes do padrão globo – por sinal, adotado por várias  emissoras.

De qualquer forma, texto e imagem construíram uma eficiente narrativa cronológica. Em pouco mais de seis minutos, telespectadores transitaram da natureza intocada à degradação e desta à revitalização do rio e das matas nativas; de personagens indígenas (alusão ao cenário original e à profunda ligação dos primeiros habitantes à natureza) a produtores rurais (a “catequese” em prol da reconstituição das nascentes do rio, 80% delas ameaçadas de poluição ou extinção).

Reportagens são constituídas de informações sobre fatos e suas decorrências. Cabem críticas. Mas, a meu ver, as que li foram insuficientes para condenar Paglia e sua matéria.

Jornal online supera seu calcanhar de aquiles

31.October. 2015
por Claudia Atas

Durante uma semana de férias, saí fora da rotina em vários aspectos. Um deles, a leitura de dois jornais impressos, que troquei pelo noticiário online, um conjunto desuniforme na qualidade do texto e na credibilidade das fontes. Confesso, porém, que minha opinião sobre o jornalismo da internet agora é favorável e já não merece a pecha de inferior, superficial e inconfiável.

Edição do Jornal do Brasil de 28 de maio de 1995, em que o editor chefe, Dacio Malta, anunciava o lançamento do JB on line.

Edição do Jornal do Brasil de 28 de maio de 1995, em que o editor chefe, Dacio Malta, anunciava o lançamento do JB on line.

Confrontado por leitores do jornal tradicional – formado por múltiplos cadernos recheados de análises, frequentes reportagens de fôlego, profissionais exímios na arte de escrever, muitas fotos e gráficos em belas composições – o jornal de internet começou mal.

Há exatos vintes anos, Jornal do Brasil e Folha de S.Paulo (maio e julho de 1995) publicavam suas notícias na internet e, logo em seguida, em tempo real. Nestas duas décadas, o produto eletrônico foi se aperfeiçoando, a ponto de, hoje, haver superado o impresso, em termos de audiência.

Já não se pode atribuir a preferência do leitorado, fundamentalmente, à leitura rápida – e preguiçosa – dos que não gostam de ler jornal ou alegam não dispor de tempo para isso.

Tomando como referência empresas jornalísticas de alto nível, como O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e Correio Braziliense, por exemplo, creio que a sofisticação e o aprofundamento do noticiário da internet significaram tanto uma solução para as limitações de espaço do jornal físico quanto uma saída para manter o negócio (o que comento mais abaixo). Mas, também, é fato que o jornalismo eletrônico contempla (e estimula) o público desejoso de aprofundar o que viu, ouviu e leu em outras fontes.

Em resumo, vejo três grandes inovações no jornalismo online:

Primeiro: empresas jornalísticas foram muito além de oferecer uma versão online de suas publicações: elas são capazes de captar, produzir e publicar notícias em questão de horas, ou minutos, subvertendo um pilar da tradição jornalística: a frequência de 24 horas, para jornais, e de uma semana, quinze dias, um mês, para as revistas.

Segundo: são capazes de divulgar fatos imediatamente após sua ocorrência ou assim que tiverem conhecimento de sua ocorrência (breaking news);

Terceiro: também se beneficiam com mais duas possibilidades inviáveis no jornalismo impresso: (1) atualizar as próprias notícias ao longo do dia, seja complementando-as, seja corrigindo-as; 2) deletá-las, iniciativa impensável no jornalismo até pouco anos atrás.

Sucesso a baixo custo

O jornal eletrônico “roubou” os anunciantes do jornal impresso, que tentou frear a transferência reduzindo o valor dos seus anúncios. Não conseguiu e perdeu sua tradicional base de sustentação. Essa transferência ocorreu em todo o mundo.

Para dar um exemplo eloquente, cito o The New York Times. Há cinco meses, em entrevista à agência Reuters, o diretor executivo Mark Thompson afirmou que o prejuízo do NYT, no primeiro trimestre deste ano, foi de US$ 14 milhões. E apontou, entre os dois principais fatores desse mau resultado, a queda da publicidade impressa. Thompson também reconheceu que o jornal digital é a principal área de crescimento da empresa.

Hoje, em todo o mundo, jornais impressos lutam para sobreviver. Eles se socorrem com versões online de seus próprios produtos, ou se associam com outras empresas, ou, ainda, encerram suas atividades.

Dois fatores concorreram para esse fenômeno: um deles é o baixo custo de publicações online, comparativamente às produzidas em papel. O segundo fator para essa migração publicitária é a discrepância entre o crescimento continuo de leitores-internautas e a queda de circulação das publicações impressas.

É lógico que os internautas busquem a facilidade de acesso a noticiários gratuitos – ou quase. Ao mesmo tempo, é evidente que publicitários corram atrás de mídias com alto índice de leitura. E, na internet, não faltam, hoje, publicações de sucesso para os públicos-alvo dos seus clientes!

Uma dramática e inesperada inversão dos fatos para o negócio jornalismo.

 

Expediente, para que te quero?

24.September. 2015
por Claudia Atas

Expediente atual

Sexta-feira é dia do Divirta-se, guia de lazer e cultura do Estadão. Toda sexta, lamento a supressão do expediente. Valeu a pena eliminar uma peça inerente às publicações jornalísticas para ganhar míseros centímetros de espaço ou, quem sabe, para refinar o layout?

O expediente do Divirta-se desapareceu em abril de 2013. Na edição seguinte (26/4-02/5) responsáveis por seções estavam identificados em suas respectivas colunas. Permaneceram no anonimato os demais colaboradores – por exemplo, editor, autores da “reportagem de capa” e o diagramador (ou diagramadores).

Segundo a Federação Nacional de Jornalistas – Fenaj, o expediente deixou de ser obrigatório com a revogação da Lei de Imprensa (abril/2009), assim como a identificação do “jornalista responsável”, cujo registro profissional legalizava, por exemplo, jornais de empresas não jornalísticas.

Podemos dizer, então, que o expediente é, hoje, prerrogativa dos veículos de comunicação. Felizmente, para leitores e profissionais da comunicação, a maioria das publicações o mantém.

Autorias, devemos lembrar, são informações relevantes não só para o leitor. Num mercado de trabalho excessivamente controlado pela indicação pessoal, assinaturas ou créditos são “documentos” significativos e funcionam como vitrine de candidatos, elementos indispensáveis em currículos e referências muitas vezes decisivas para carreiras dos jornalistas.

No Divirta-se, suponho que sacrificar o expediente foi recurso para ganhar espaço. Em vista dos resultados, tenho lá as minhas dúvidas. Veja: fExpediente Final Divirta-se Destaqueranciscano, o expediente ocupava um lugar modesto, abaixo do índice (ao lado).

Na edição seguinte ao seu desaparecimento, o índice ficou encorpado (abaixo, esquerda). E chegou ao modelo esguio, meio sem graça da edição mais recente (alto), onde o expediente não comprometeria o “conceito”. A titulo de comparação, publico o expediente da Folha de S.Paulo para o seu Guia (direita).

A multiplicidade de cargos dá uma boa ideia do trabalhão que existe atrás de um “caderninho” aparentemente simples. Por sinal, acompanhei esse trabalho minucioso e complicado quando editava três Veja Regional: um errinho poderia comprometer o espetáculo e o lazer programado da família.

Em tempo: procurei o Divirta-se. Por telefone, a explicação foi genérica e não oficial. Pedi para falar com o editor. Deram-me o endereço eletrônico de Maria Eugênia de Menezes. A mensagem foi e voltou diversas vezes. Segundo o postmaster@grupoestado.com.br, a caixa postal de Menezes estava abarrotada.

 

Título preconceituoso contamina reportagem da Folha

22.August. 2015
por Claudia Atas

Professores podem não despertar saudades, mas deixam marcas. Antônio Flávio Pierucci, respeitado estudioso de sociologia da religião, marcou minha memória com sua irreverência – a refinada ironia com que apimentava seus textos acadêmicos e jornalísticos.

Folha de S.Paulo, 15 de agosto de 2015, pg. B8

Revista da Folha, Folha de S.Paulo, 15 de agosto de 2015, pg. B8

Lembrei-me de Pierucci na semana passada, catorze anos depois de frequentar suas aulas sobre Religiões Populares, na graduação de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo. A marca deixada pelo professor ressurgiu ao ler o seguinte título, na Folha de S.Paulo:

“Shopping” de religiões, espaço no RS reúne templos e pirâmides de energia

Com ou sem aspas, nesse contexto shopping refere-se a práticas comerciais, que, por sua vez, remetem a objetivos ilegítimos – muitas vezes escusos – em se tratando de relacionamentos baseados na fé. Surpreendentemente, a matéria não sustenta a oração do tituleiro.

Em meio a explicações e construções esdrúxulas para outsiders – castelo, pirâmide, templos aborígenes e a “catedral de umbanda” –, o repórter não apimenta o texto. Sem ironia ou deboche velado, relata a visão de uma mulher e a missão que se atribuiu: criar um “espaço universalista”. Quarenta e dois anos depois, o conjunto místico agrupa 27 templos relacionados a diferentes crenças religiosas. Tanto o ingresso quanto o atendimento espiritual são gratuitos, informa o jornalista. Possíveis ilações ficam fora da reportagem.

A isenção do repórter e a fina ironia do pesquisador de religiões são duas boas lições de comunicação escrita.

No caso do pesquisador de religiões populares, o estilo se fundamentava no conhecimento e no comprometimento. Em 2007, falou, ao mesmo jornal, que havia uma tendência à imitação entre as religiões; e explicou:

“É como ocorre no comércio alimentício. Tem o McDonald’s e o Bob’s (…) Isso ocorre porque é muito fácil mudar de religião hoje em dia, sob o marketing intenso na TV e, principalmente, na web”. (…) No fundo, todas (as religiões) alegam que Deus é um só. Mas, na verdade, o que existe é uma guerra entre deuses.”

No caso da Folha, a leviandade do título contaminou a leitura do texto. Além de induzir à leitura na perspectiva comercial, obscureceu a isenção e o respeito com que o repórter cumpriu sua pauta.

 

 

Prazer, ironia e provocação intelectual – a arte do fotojornalismo.

24.July. 2015
por Claudia Atas

Ciclo Difícil Dilma RousseffA bela foto de Pedro Ladeira (Folha de S.Paulo, 04/7/2015, página A4) incita interpretações diversas sobre o inferno astral vivido pela presidente Dilma Rousseff — e pelo povo brasileiro.

Na perspectiva de gênero, a expressão fisionômica da presidente evoca a mulher em sofrimento, abatida por efeito de abandono, frustração, humilhação.

No plano político-ideológico, o círculo de fogo diante de uma Dilma prostrada parece simbolizar o declínio político-econômico brasileiro — para descrentes e desiludidos, a explosão de um sonho; para revoltados e inimigos, a derrocada da mandatária e de seu mandato.

Da foto ao quadro, do quadro ao retrato, acabei por me lembrar do ritual de imortalização reservado aos nossos chefes de Estado. Como Livre Pensar é só Pensar, de acordo com o saudoso Millôr Fernandes, imaginei próxima tela a ser pendurada na galeria de ex-presidentes, no Palácio do Planalto: o quadro ao lado, que intitularia A Prostração de Dilma.

Arte da ironia

Na sequência, outra imagem instigante: o ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, é cumprimentado pelo relator da CPI da Petrobras, deputado Luiz Sergio, ao chegar à Câmara para depor na Comissão (O Estado de S.Paulo, 16/7/2015, Capa). A foto à direita foi tirada depois, durante a sessão com os deputados (mesma edição, página A6).

A introdução de Tiradentes, na cena, criou uma atmosfera sinistra. O gesto idêntico da mão mudou a conotação que a foto teria sem essa nuance — haja vista a foto do quadro, em segundo plano, durante a sessão. Conceitos e símbolos emergem aos borbotões: o julgamento de um e de outros, o herói enforcado e os suspeitos de ilegalidades, os sentidos de justiça, a realidade e o grau das punições, o enforcamento real e o enforcamento simbólico do ministro e do governo que representa. Poucos ou raros estímulos dessa natureza advêm da foto à direita, correta e comportada.

Fotojornalismo é arte jornalística. E ideológica.