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Palavras “difíceis”: vamos enfrentar mais um tabu?

31.July. 2017

Palavras difíceis – não use.palavras

Como assim?

Se você quer melhorar sua redação, não aceite regras ou conselhos impositivos sem uma boa explicação.

Reconheço o bom senso da regra que privilegia o que é mais útil para a maioria. Mas as exceções a essa regra merecem ser analisadas, o que não  ocorre nos cursos formais nem nos treinamentos de comunicação.

Repete-se à exaustão que bom é o texto composto de frases curtas e palavras simples, comuns, acessíveis ao público alvo. Nem sempre. Texto bom é texto claro, objetivo, preciso, independentemente do tamanho da construção utilizada (como dissemos no artigo de junho passado).

De qualquer modo, o princí­pio do “texto curto, vocabulário simples” prevaleceu, criando um tabu sobre as palavras incomuns. Poucos são os autores que incrementam seus textos com palavras diferentes. A maioria opta por termos familiares, mesmo que imprecisos para a ideia que desejam transmitir.

Para quem sofre o dilema da escolha, aconselho refletir sobre as seguintes considerações:

1- Precisão e pertinência

Não hesite em usar a palavra mais precisa para o que você deseja transmitir.

2- Mal-entendidos

Optar pelo vocabulário “mais simples” tanto pode gerar erros e mal-entendidos quanto indicar que o seu ní­vel de conhecimento é inferior ao que, de fato, você possui.

3- Pedantismo

Precisão e pertinência são duas qualidades fundamentais na comunicação escrita. Pedantismo é abuso de palavras excêntricas, diferentes.

4- Percepção do leitor

As pessoas percebem a diferença entre exibicionismo intelectual e vocabulário oportuno e adequado. E aceitam bem a inserção de palavras que desconhecem, principalmente quando consultam o dicionário e descobrem que o termo é perfeito para o contexto.

Veja a palavra “prebenda” na coluna de Hélio Schwartzman “Roteiro da empulhação” (Folha de S.Paulo, 29/07/2017, pg. A2). Das duas, uma: ou você entende o significado no contexto ou consulta um dicionário, durante ou depois da leitura. Seja como for, um belo reforço ao que estamos analisando aqui.

5- Valorização do leitor

Muitas vezes, leitores têm uma percepção que escapa aos especialistas da comunicação: sentem-se valorizados com algum grau de sofisticação. Palavras diferentes ou fora do seu padrão associam-se a esse conceito. Por exemplo, no relacionamento empresa-cliente é um recurso com potencial de dar ao consumidor a sensação de que a empresa confia na sua capacidade de compreender a mensagem.

6- Artificialismo

Em oposição, consumidores percebem quando a empresa usa uma linguagem artificialmente popular, ou familiar, em tom de amiga ou conselheira. Normalmente, é uma linguagem encaixada na linguagem típica das cartas comerciais.

E, por último, mas tão importante quanto as exceções anteriores,

7- Não subestime o leitor

Como redator, você encontrará resistência para usar vocábulos incomuns. Mesmo se necessária pela precisão ou pela ausência de um sinônimo adequado, você certamente ouvirá que a tal palavra difícil “não se aplica ao nosso público”.

Dou um exemplo: lisura.

A supervisora do SAC de uma grande empresa estava em dúvida com relação ao uso da palavra lisura na carta que endereçaria a determinados consumidores. Eles haviam reclamado de uma promoção de venda em andamento, por isso, era importante convencê-los da lisura da promoção.. mas sem a palavra lisura.

Apresentei os seguintes argumentos:

  1. Lisura, nesse caso, é a palavra mais adequada porque mais próxima de seriedade, honestidade, imparcialidade e comprometimento.
  2. Afirmar a lisura da empresa equivale a registrar os valores morais da empresa (seriedade, honestidade, imparcialidade e comprometimento) e, especificamente, das suas promoções de venda.
  3. Registrar esses valores também funciona como reforço positivo para a  imagem, a reputação e os negócios da empresa.
  4. Lisura é termo comumente usado na divulgação de concursos e promoções.
  5. Consumidores podem desconhecer o significado de lisura, mas, escrita em uma frase sobre os cuidados da empresa com a imparcialidade da promoção, ela faz sentido.
  6. Promoção realizada com lisura é expressão que remete à ideia de que a empresa, a marca e a promoção agem com honestidade, imparcialidade, isenção e de acordo com a lei.

Para minha satisfação, os argumentos foram aceitos e lisura ganhou seu espaço na carta do SAC.

Nem sempre convencemos. O importante, contudo, é questionar  regras de linguagem que não nos satisfazem inteiramente. E, quando necessário, argumentar.

A meu ver, essa é uma forma de quebrar tabus.

Em defesa do texto longo… e conciso.

22.June. 2017

Quem disse que texto curto é melhor que texto longo, porque conciso e objetivo? De certa forma, todos os especialistas e profissionais ligados à comunicação escrita. Discordo.

Texto curto e texto longo podem ser ótimos ou péssimos dependendo de alguns fatores, entre os quais as circunstâncias. O problema não é o tamanho do texto final. É o tamanho das construções.

Frases, períodos e parágrafos compridos justificam a demonização do “texto longo”. Esse tipo de construção induz à prolixidade, à ambiguidade, à incoerência, especialmente porque tende a criar digressões.

Em outras palavras, construções longas são as maiores responsáveis pela falta de concisão, objetividade e clareza das ideias, além de abusarem do tempo consumido na leitura.

Como as construções longas induzem à prolixidade, firmou-se o conceito de que texto longo é ruim, difícil de entender, além de ocupar mais tempo de leitura e espaço no layout. Consequentemente, o texto curto foi  ultra valorizado e consolidou-se como texto objetivo.

Cuidado, portanto, com os conceitos: texto curto não é sinônimo de objetividade e clareza, assim como o texto longo não significa prolixidade.

Míseros espaços

Quem associa concisão com poucas linhas coloca-se um dilema: ou omite ou inclui informações que considera necessárias. Falso dilema. Na maioria das vezes, o tamanho do texto depende de duas variáveis – seleção de informações pertinentes, relevantes, e estilo das construções.

A seleção de informações deve privilegiar o contexto, quer dizer, incluir os fatos e as condições que ajudarão o leitor a entender e analisar a questão em pauta. Exclui, portanto, o que for supérfluo e repetitivo.

Quanto às construções, há formas de estilo que modificam longos enunciados, transformando-os em frases concisas, diretas e objetivas (digite as tags estrutura, concisão e estilo no botão “procure”, à direita, para encontrar explicações e exemplos sobre o assunto).

Em defesa da frase “longa e concisa”, lembro que economizar palavras em detrimento da compreensão anula um dos principais objetivos da comunicação: ser entendido. Veja este exemplo:

Você nunca deveria cozinhar feijão ou cereais sem fazer mais do que precisa. (caderno Paladar/ Estadão)

Se o objetivo era ensinar, a frase deveria ser clara e coerente : Você deve cozinhar somente a quantidade de feijão ou cereais que pretende usar.

O conselho abaixo também poderia ser mais didático:

Congelá-los (cobertos com água, ou caldo do cozimento, deixando espaço para a dilatação), funciona muito bem e economiza tempo. (ibidem)

A frase é curta, mas não simples e direta como esta:

Para congelar, cubra o alimento com água, ou com o caldo do cozimento, deixando um espaço livre, pois o volume irá aumentar. Com esta prática, você economizará tempo e gás.

Conclusão: os redatores sacrificaram a clareza economizando míseros espaços: quatro, no primeiro exemplo, e 45, no segundo.

A ojeriza contra o texto longo também afeta as empresas. Quanto maior o relacionamento com clientes, fornecedores e outros públicos, mais críticas são a acuidade da informação e a clareza na leitura.

Serviços de atendimento ao consumidor, por exemplo, deveriam se encantar menos com relatos “breves e objetivos” e valorizar mais o contexto, as condições que levaram os clientes a se decepcionar ou a se atrapalhar com seu produtos e serviços.

Reversão do mito

Quem hesita em adotar, para si e para sua equipe, o texto “longo, mas conciso”, como defendido aqui, vale a pena ponderar sobre o que diz o palestrante e empreendedor Josh Steimle, membro do grupo Marketing Communication (Linkedin), em seu artigo This is How Top Bloggers Get 90% of Their Traffic (maio passado).

Para surpresa de muitos profissionais, ele adverte que leitores não odeiam conteúdos longos – odeiam maus conteúdos; odeiam ainda mais quando são longos…

Create long-form content for better searchability.

Marketers often talk about how today’s online readers have short attention spans, but I don’t buy this for a minute. Readers don’t hate long form content, they hate bad content. They hate bad content even more when it’s long. If the content is great content, then they want even more of it. (grifo meu)

Normas e recomendações precisam ser relativizadas, de acordo com as circunstâncias. Assim, antes de cortar texto, flexione concisão com dois adjetivos – a concisão inteligente e a concisão desinteligente.

“O Patriarca da Odebrecht”: certo ou errado?

23.May. 2017
por Claudia Atas
Estadão, 08/3/2017

Estadão, 08/3/2017

A antonomásia, quem diria, entrou para o noticiário da Lava Jato! Com “o patriarca da Odebrecht”, jornalistas encontraram uma alternativa de identificação para um dos principais personagens da operação: Emilio Odebrecht. Bom para quem escreve e para quem lê.

Repetir um nome no mesmo parágrafo e até na mesma sentença, por dias seguidos, é uma dor de cabeça estilística. Com essa figura de linguagem, os redatores amenizaram as repetições bem ao gosto do jornalismo – com um toque de ironia.

Minha atenção, contudo, não se prende ao estilo de linguagem. Ainda não assimilei a denominação “patriarca” ao filho do fundador. Norberto, pai de Emilio, fundou uma construtora em 1944, e com ela deu origem ao Grupo Odebrecht, que presidiu até 1991. Morreu em 2014. Para mim, ele é o patriarca.

É certo que o título comporta outros significados. Na Antiguidade, designava o chefe de família dos povos antigos (“Abraão, o patriarca do Velho Testamento”). Atualmente, é designa o chefe eclesiástico de algumas igrejas (“O patriarca de Atenas”), de algumas ordens religiosas e dioceses (“O patriarca do Rio de Janeiro”).

O dicionário Michaelis registra que, por extensão, o título é conferido a pessoa idosa, respeitada e com muitos descendentes. E ao chefe de família respeitado pelos seus membros por sua conduta irrepreensível ou por desfrutar de poder econômico-financeiro. Nesta terceira condição de chefe de família, seria correto chamar Emilio de patriarca – da família Odebrecht.

Pela imediata adesão da mídia, tendo a acreditar que houve aí uma boa sacada, uma construção que “pegou”, uma licença jornalística num quadro de informalidade, no clima da espetacular Lava Jato.

Uma especialista que admiro entende que

A palavra “patriarca”, como temos visto nos jornais, é usada de forma metafórica. O uso figurado comporta uma certa subjetividade, já que tecnicamente falando não é possível falar de patriarca no contexto de uma empresa. A partir disso, acho possível admitir um uso ainda mais distante do sentido original, não mais entendido como o primeiro de uma linhagem ou como seu fundador, mas como a pessoa mais marcante ou importante de um grupo.

Nesse sentido, o conhecimento atual sobre o caso Odebrecht nos leva a considerar o Sr. Emilio como patriarca da “dinastia” industrial, mas, para sabermos se essa designação corresponde à verdade, receio que tenhamos que aguardar ainda por um bom tempo, até que uma leitura profunda, no futuro, feita por historiadores nos arquivos, possa revelar quem foi o verdadeiro patriarca nessa história.

Gislaine Marins, tradutora e professora, com ampla experiência no desenvolvimento de programas para a aprendizagem da língua portuguesa em diferentes níveis e em campos específicos.

O melhor dessa dúvida é a reflexão e o debate que provoca. É constatar a  vivacidade e a dinâmica da língua. É descobrir sua capacidade de gerar e enterrar palavras, expressões e significados.

Atualização: a propósito dessas considerações, recomendo a leitura do  excelente artigo que Gislaine publicou em seu blog. Clique aqui.

Assédio sexual e o direito de seduzir e escolher

17.April. 2017
por Claudia Atas

A campanha do Estadão – desigualdade de gênero e violência contra a mulher – realizou sua “quarta ação” com mais uma ideia da FCB Brasil. Em plena passarela da SP Fashion Week (março passado), quatro modelos deram à luz, literalmente, mensagens assertivas e provocadoras contra o assédio sexual:

Fotos: JF DIORIO/ESTADÃO

 “Decote não é convite”

“Minha saia não é permissão”

“Me visto como eu quiser”

“Perna de fora não é provocação”.

Pintadas com tintas fosforescentes, as frases se revelaram quando a iluminação caiu sobre elas. No nível da linguagem, nada corresponderia melhor ao tema da “quarta ação”: sexismo invisível.

É inegável o sucesso midiático das frases reveladas, capazes de encher os olhos da sofisticada plateia da Fashion Week e, igualmente, empolgar leitores dos noticiários que repercutiram a novidade.

Evidentemente, ações vapt-vupt não têm fôlego para estimular debates consistentes e frustram os que lutam exatamente para conquistar essa atenção e desdobramentos positivos. As mensagens foram breves como a passagem das modelos. Efêmeras como os flashes que as acompanharam. Ineficientes para o desdobramento que se espera em assunto de tamanha relevância.

As mensagens pintadas seriam capazes de disparar um processo de informação e conscientização para o público difuso na sociedade, vulnerável ao jogo da sedução, que depende mais dos hormônios, da educação e das circunstâncias do que da moda, das roupas ou da nudez.

O evento publicitário iluminou afirmações do direito das mulheres de exibirem seu corpo. E nisso ficou. Obscurecida permaneceu, também, a ideia do seu direito de escolher com quem querem compartilhar intimidades de qualquer grau ou natureza.

Não há por que se espantar, então, com as reações machistas publicadas sob o artigo do jornal digital: http://emais.estadao.com.br/noticias/moda-e-beleza,estadao-faz-manifesto-contra-assedio-sexual-na-spfw,70001703217

Esse feminismo capenga não sabe que rumo seguir. Vejam que, ao mesmo tempo que algumas delas dizem que mulher mostrar o corpo em propagandas é virar objeto, outras dizem que se vestem como quiser, inclusive mostrando o corpo, e que isso não é provocação, como vemos nessa matéria. Por isso digo que esses movimentos feministas são apenas modismos, estão com os dias contados porque vão implodir no futuro com a colisão de ideias desordenadas.

Que desperdício de tinta, principalmente naquele “decote” sem conteúdo.

Falta do que fazer

Olhem essas mulheres. Estão quase peladas. Sabem que isso mexe com os homens. De bobinhas nenhuma tem nada! Estão sim provocando intencionalmente. São umas va…das. Sim, vcs são va…das e caras-de-pau! Merecem sim o nosso desrespeito. Não respeito gente má intencionada e hipócrita.

Para que o jogo da sedução seja uma relação de prazer sem abuso, cabe ao homem reconhecer e aceitar a rejeição, quando ela se apresenta. Reconhecer como direito de escolha da mulher e complemento necessário ao seu direito de escolher a quem permitirá ir além dos olhos arregalados diante das passarelas.

É frustrante ver as frases pintadas morrerem na sua própria “ação”.

 

 

 

Pedantismo gastronômico ignora regra de ouro do jornalismo

13.February. 2017
por Claudia Atas

pedantismoA mídia fez da gastronomia um espetáculo e um filão comercial. Até o mais desinteressado dos indivíduos será capturado pelo suculento e prazeroso mundo das receitas. Estamos todos cercados por shows competitivos, programas tematizados, cenários inusitados, comerciais, notícias quentes e pomposas reportagens.

Há quatro meses comida ocupava 30 das 60 páginas da revista sãopaulo, da Folha de S.Paulo (edição 311): 24 tratavam inteiramente de gastronomia, sendo uma delas publijornalismo (Academia da Carne, frigorífico Friboi). Um desequilíbrio espantoso.

O cerceamento, contudo, me incomoda menos que o pedantismo de parte da mídia especializada, indiferente à regra de ouro do jornalismo –escrever para ser entendido.

Muitos críticos e jornalistas do setor preferem substituir determinadas expressões em favor da compreensão da média do leitorado. Outros preferem mantê-las por julgá-las familiares ao “seu leitor”, ou, então, porque lhes conferem autoridade no assunto.

A reportagem “Espumante com gelo?” (Paladar, Estadão, 28 de dezembro 2016) denota esses dois comportamentos. Reconheço: é duro substituir “connaisseurs” e “chef de cave” – publicados no texto – por “conhecedores”, “chefe de adega” ou “mestre de adega”? No entanto, é viável e desejável explicar estrangeirices ao leitorado. Será que o leitor não preferiria encontrar, entre parênteses, logo após “terroir”, a definição “terreno propício à viticultura”, mesmo que pobre e incompleta?

Redator que privilegia o jargão em detrimento da compreensão do leitor comete dois pecados: omissão de informação e pedantismo. Este trecho da matéria sobre espumantes certamente incomodou a maioria dos leitores: “Quem provar este corte de Pinot Noir com Malvasia de Cândia e Moscato Canelli encontrará uma bebida (…) com (…) um perlage menos delicado (…)”. E, mais adiante, “um corte de Chardonnay e Trebianno feito pelo método Charmat”.

Jornalistas ou não, deveríamos verificar, a cada texto, se a comunicação ficou clara, objetiva, concisa e amigável. Estas quatro virtudes, acredite, guiaram a Agência Nacional de Vigilância Sanitária e a indústria farmacêutica rumo à nova redação para bulas de remédios.

Depois de introduzir nove perguntas – entre elas, “O que devo saber antes de utilizar este medicamento?” e “Para que este medicamento funciona?” – a bula agora se apoia em elementos didáticos, como explicações entre parênteses, menos especializadas ou até populares: “Hipersensibilidade (alergia); “Asma ou febre do feno (rinite alérgica sazonal)”; “Dor no peito (conhecida como angina)”; “Alguns medicamentos antifúngicos”, classificação seguida de quatro exemplos.

Folha de S.Paulo e Estadão também começam a temperar jargão com didatismo. Numa atitude fora do padrão, da Folha publicou (07/01/2017, A6) uma pequena matéria com fartas explicações para conceitos da internet:

“A intervenção ilegal ocorreu na conexão entre os aparelhos dos usuários (celulares, desktops etc.) e os servidores do UOL” (já apresentado como empresa do Grupo Folha).

Houve alteração do DNS (em português, Sistema de Nomes de Domínios), serviço responsável por “traduzir” o endereço do site (por exemplo, folha.com.br) para um endereço IP (Internet Protocol), código que os computadores identificam e usam para encontrar a página.

(…) Isso ocorreu porque os servidores guardam informações em cache (espécie de arquivo para tornar a navegação mais rápida) (…).

(…) apareceram nos “trending topics (assuntos em destaque) no Twitter no Brasil."Este sistema (mídia programática na cauda longa da internet), permite às marcas coletarem milhões de impressões, termo usado no setor que indica a quantidade de vezes que um anúncio é exibido e pode ser visto."

No Estadão, matéria sobre conflito moral na publicidade (02/01/2017, B8), incorpora o tom didático, sem quebra do estilo.

“Este sistema (mídia programática na cauda longa da internet), permite às marcas coletarem milhões de impressões, termo usado no setor que indica a quantidade de vezes que um anúncio é exibido e pode ser visto.”

Do jornalismo às bulas, está provado que o estilo não sai ferido quando se escreve na perspectiva de compreensão daquele que lê. Quanto ao consumo de espaço, a questão se resolve por meio de  concisão – basta cortar informações dispensáveis e/ou frases desnecessariamente longas. 

 

2016 na perspectiva do verbo fazer: os cinco piores abusos

27.December. 2016
por Claudia Atas

tesouraAs más construções e os erros gramaticais produzidos pela mídia e por internautas parecem não ter fim. Vamos ignorar o pessimismo e mostrar o lado bom dessa realidade: os maus exemplos  servem para mostrar onde está o erro ou a impropriedade se acompanhados de sugestões para versões corretas. É o que gosto de fazer, pois acredito que desta forma o erro deixa de ser uma dor de cabeça, um enigma, um tormento para estudantes e profissionais que dependem de uma boa redação.

Optei por cinco péssimas construções envolvendo o verbo FAZER – o verbo que domina a cabeça do brasileiro. Minha birra com O FAZER decorre do uso abusivo desse verbo, até por falta de orientação sobre alternativas melhores.

Neste artigo, você contará com soluções para cada um dos cinco exemplos do ranking que elaborei com o que considero os piores abusos cometidos com o verbo FAZER.

5º lugar : “Fazer protesto” (Estadão, 11/5/2016, capa)

Por que fazer protesto está entre os Top Five? Pela frequência do abuso. Este exemplo, um entre milhares, mostra que se deixa de lado a força do verbo principal, que deveria ser usado sem a bengala FAZER, pela força e pela concisão que confere à frase.

Em vez de

Taxistas fizeram protestos na frente da frente da Prefeitura e na Avenida 23 de Maio

Pense em usar

Taxistas protestaram na frente da Prefeitura e na Avenida 23 de Maio

Realizar paralisação (Estadão, 11/5/2016, A19), tanto quanto fazer paralisação, ignora o verbo PARALISAR, que dispensa verbo auxiliar e encurta a frase. Com ele, há mais duas vantagens: elimina-se a indesejável rima ão, ão e ganha-se clareza. Assim:

Funcionários da Universidade de São Paulo decidiram paralisar suas atividades amanhã.

4ºe 3º lugares

“fazer ação” e “fazer uma contraofensiva” (FSP 16/04/2016, pg.A9): título e lead se agarram ao verbo fazer, traduzindo mau estilo e alta dependência do verbo fazer.

O senador Aloisio Nunes viaja a Washington com a finalidade de fazer uma contraofensiva…

Fazer uma ação é, para mim, o uso mais detestável de fazer. Para os viciados nesse verbo, a maioria dos brasileiros, “fazer uma ação” parece insubstituível. Onde estaria o sinônimo? Na própria frase, na intenção com que se escreve. Descubra e memorize.

Neste caso, em vez de

Temer faz ação diplomática contra “golpe”,

Sugiro

Temer usa diplomacia contra golpe

porque também se ganham concisão e estilo.

E, no lugar de

O senador Aloisio Nunes (…) viaja a Washington para fazer uma contraofensiva de relações públicas com a finalidade de dizer a senadores e autoridades dos Estados Unidos que o impeachment contra Dilma Rousseff “não é golpe”.

Prefira

O senador Aloisio Nunes viaja a Washington para dizer a senadores e autoridades dos Estados Unidos que o impeachment contra Dilma Rousseff “não é golpe”. A contraofensiva do governo começou na quinta-feira (14), quando o vice-presidente Michel Temer ligou para Aloysio… e mostrou indignação…

As frases ficam mais claras que as do original.

2º lugar

Fazer uma fala (Folha de S.Paulo, 12/6/2016, pg. A5) quase foi para o primeiro lugar deste ranking – por sinal, aparece ao lado de replicar o discurso, o sinônimo inexistente de repetir discurso, como discuti, em junho passado (A influência da língua web…). Está na segunda colocação porque encontrei algo pior.

Em vez do tenebroso fazer uma fala, como se atreveu o redator,

A previsão é que Dilma faça uma fala na Assembleia Legislativa de João Pessoa…

opte por uma construção de melhor qualidade — simples e mais precisa:

A previsão é que Dilma fale na Assembleia Legislativa de João Pessoa…

A previsão é que Dilma discurse…

1º lugar

No mesmo mês de junho que publicava fazer uma fala, a Folha de S.Paulo desafiou a clareza da língua e o bom gosto da escrita, enfiando goela abaixo de seus leitores esta criação espantosa: fazer implicações (FSP 25/6, pg. A6).

Esse verdadeiro “neologismo de expressão” ganha o Top Five com louvor:

Em sua delação, Cerveró (…) faz implicações a integrantes do PMDB (…)

O simples uso do verbo implicar é uma boa opção para eliminar o fazer. Veja:

“Em sua delação, Cerveró (…) implica integrantes do PMDB (…)

Outras alternativas:

“Em sua delação, Cerveró (…) revela detalhes que implicam”,

(…) “menciona fatos que implicam”, etc. etc.

Melhor ainda seria modificar o início da frase. Veja como estas sugestões tornam a frase mais direta, precisa, concisa e apropriada:

As informações obtidas na delação de Cerveró, (…) implicam vários integrantes do PMDB…

A delação de Cerveró (…) comprometeu integrantes do PMDB…

Espero que os exemplos e considerações deste post ajudem os que precisam ou gostam de escrever bem a… escrever melhor em 2017! Certamente, ajudarão os que prestarão provas ao longo do próximo ano. Até lá!

Pirâmide invertida: debate saudável para o bom jornalismo

31.October. 2016
por Claudia Atas

A pirâmide invertida está ou não superada? É ou não incompatível para jornais impressos e, especialmente, para jornais virtuais? As duas perguntas resumem os termos da polêmica que descobri, na internet, quando redigia o post anterior (Escrever para a web é diferente de escrever para jornais?).

O esquema de redação simbolizado na inversão da pirâmide (explicação no final deste artigo) é assunto para muitas páginas. Mas os argumentos decisivos podem ser sintetizados nestes quatro:

1- A pirâmide seria uma fórmula arcaica de organização e hierarquização da matéria jornalística, tanto para a internet quanto para o noticiário impresso. Cynara Menezes, jornalista bem articulada, escreveu em seu site que “pirâmide invertida não é sinônimo de texto enxuto. É sinônimo de texto pobre“. Seus argumentos:

Acredito num texto que capture a atenção do leitor do primeiro ao último parágrafo, sem hierarquia. Tão bem escrito que seja impossível abandoná-lo uma vez que se comece a leitura, como acontece com os melhores livros. Pouco importando se a “notícia” vai estar no início, no meio ou no fim. Sem desperdício de informação “mais” ou “menos” importante, algo subjetivo sobre o qual quem deve decidir não somos nós, jornalistas, mas o leitor. (…) é hora de rever tudo. E matar o lide. (http://www.socialistamorena.com.br/questoes-jornalisticas-a-morte-do-lide/)

2- Leads orientados pela pirâmide seriam ruins porque não cumpririam seu verdadeiro papel: seduzir o leitor. O jornalista Christian Cruz pode ser enquadrado nessa corrente. Durante a 19ª Semana de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero (2011), ele afirmou:

“A função do lide não é necessariamente mostrar todas as informações primordiais logo de cara, mas seduzir o leitor”. A frase foi transcrita por outro jornalista, José Gabriel Navarro (http://brasil.estadao.com.br/blogs/em-foca/piramide-invertida-so-que-ao-contrario/). Na época, Navarro era trainee do Estadão e Cruz, repórter do Caderno Aliás, do mesmo jornal.

3- Os que discordam dessa visão encontram no professor Rosental Calmon Alves um representante bem qualificado. Ele participou do lançamento do primeiro jornal brasileiro na internet (Jornal do Brasil, 1995), foi correspondente do JB em Washington e assumiu, em 1997, o posto de professor titular da cadeira de Jornalismo Online na Faculdade de Jornalismo da Universidade do Texas, em Austin (http://observatoriodaimprensa.com.br/e-noticias/uma-linguagem-em-construcao/)

“Sou um defensor da pirâmide invertida, do texto que vai direto ao ponto, que diz logo do que se trata. Mas é lógico que esta não é a única maneira de se escrever no jornalismo online, ou em qualquer outra modalidade de jornalismo.”

Curiosamente, ele aponta os hábitos ou necessidades dos internautas para recomendar a pirâmide invertida:

“Ir direto ao ponto, numa redação de estilo conciso, só ajuda a comunicação num meio nervoso e interativo como a web, especialmente ao se tratar de hard news, das notícias de última hora que são o forte do jornalismo online na fase atual”.

4- O espanhol Ramón Salaverría se opõe a Calmon. Professor de jornalismo na Universidade de Navarra, onde dirige o Center for Internet Studies and Digital Life, ele não condena, mas restringe o uso da pirâmide invertida.

“É útil para notícias de atualidade sem desenvolvimento hipertextual”, mas não serviria para o jornalismo virtual. “O meio cibernético é, por definição, uma publicação hipertextual. Quer dizer, uma publicação que fragmenta o seu conteúdo em nós; frequentemente centenas e inclusive milhares de nós. Esta fragmentação pode ser realizada seguramente numa ordem decrescente de interesse (ou seja, como uma pirâmide invertida), mas também de forma episódica (cronológica), de forma sequencial.” http://observatoriodaimprensa.com.br/e-noticias/partido-da-redacao-ciberjornalistica/

Ele critica a associação entre pirâmide invertida e a necessidade de se contar num parágrafo tudo o que está acontecendo.

“Totalmente de acordo. Mas o que esta afirmação tem a ver com a pirâmide invertida? Esta afirmação tem a ver com as qualidades de concisão e densidade informativa, aspectos que se referem ao estilo jornalístico, mas não à estrutura da narrativa”. (http://observatoriodaimprensa.com.br/e-noticias/a-tecnologia-nao-e-inimiga/)

A meu ver, algumas premissas precisariam ser mais bem apuradas. Por exemplo, a pirâmide invertida vai além de uma técnica “para lead”. Ela influencia o todo: uma vez que a reportagem começa com um resumo do fato a ser narrado, o jornalista está livre para desenvolver o texto pelo ângulo que lhe pareça mais relevante, mais interessante, mais adequado.

piramide-jogador-com-leadPenso que Cynara Menezes foi radical quando proclamou a necessidade de se matar o lead. Jornais publicam diariamente vários gêneros de matéria, não só em artigos, colunas, crônicas e cadernos de cultura – também nas páginas de esportes.

Cinco dias atrás, o Estadão publicou uma reportagem que mereceu um lead meio literário. “Numa viela, os primeiros chutes de um ídolo” (pg. A20, 26/10/2016) foi uma de várias que cobriram quase três páginas sobre a morte do jogador Carlos Alberto Torres (foto acima).

Exemplo da Folha de S.Paulo, em matéria publicada no último dia 28, mostra que a pirâmide não é a responsável por falta de imaginação ou textos pobres. Veja o lead na foto abaixo:

piramide-aniversario-de-lulaNo mesmo exemplo, outro ponto relevante: nem todas as informações preconizadas pela pirâmide aparecem nesse lead. Mas… quem disse que o lead sempre acaba no primeiro parágrafo?

Para mim, essa falsa métrica caiu por terra quando a “webwriting” levou jornais, como a Folha, a criar ninhadas de parágrafos pelo desdobramento do primeiro, mesmo à custa da lógica.

Seja como for, a cobertura do aniversário de Lula ainda rende outra observação: o contexto é desenvolvido na matéria (e até poderia ser reduzido), na sequência de um lead criativo. E, melhor ainda, com ele, a repórter Catia Seabra seduziu o leitor.

Quanto aos dois professores, dão uma grande contribuição ao debate: Calmon, porque enxerga nas exigências da pirâmide as exigências dos leitores virtuais, que “não leem – escaneiam a página”, segundo a célebre pesquisa de Jacob Nielsen, de 1997; Salaverría, pela explícita defesa da pirâmide pelas virtudes que exige do jornalista e por entender que o esquema também é aplicável em jornais virtuais, já que a fragmentação das publicações hipertextuais pode ser construída tanto na ordem decrescente de interesse (pirâmide invertida) quanto cronologicamente, de forma sequencial.

Acredito que este post cumpre o que promete: uma oportunidade para se discutir jornalismo, o que é sempre saudável para novos e veteranos jornalistas. 

(*) A pirâmide invertida é uma técnica jornalística cujo intuito é garantir a consistência de um lead (ou lide ou abertura de notícia ou reportagem). Todos os elementos que compõem o fato a ser narrado devem estar no início da matéria, conferindo ao leitor a decisão de ir adiante ou desistir do texto. Para obter um resultado coeso, o redator deve responder às seguintes perguntas: o quê? quando? quem? onde e como?, que é a tradução do original inglês what, when, who, where e how. A inversão da pirâmide, com a base na posição superior e a ponta, na inferior, significa que a parte mais sólida da notícia ocupará posição privilegiada: a que se lê primeiro. O esquema leva o redator a deixar para o fecho informações dispensáveis, ou seja, informações menos relevantes ou detalhes que poderão ser cortados, por exemplo, se faltar espaço, sem prejudicar a compreensão da notícia.

Escrever para a web é diferente de escrever para jornais?

15.September. 2016

Jornais e WebO que é “bom conteúdo” na web? E fora da web? A meu ver, o meio não altera as exigências de qualidades do texto, apenas requer adaptações. Na web e fora da web, ele tem de ser interessante, relevante, confiável, claro, objetivo e gramaticalmente correto.

Interessada em saber o que especialistas definem como bom conteúdo para publicações virtuais, embarquei no curso Writing for the Web (EAD – Open2Study, Open Universities, Australia). O programa, transmitido em vídeo, foi desenvolvido pela jovem, experiente e competente Frankie Madden, uma user experience designer.

A resposta à minha curiosidade veio logo no começo do primeiro módulo, mas não antes de um alerta: “Antes de escrever para a web, precisamos saber como as pessoas leem na web”, disse Frankie. E demonstrou como as características da rede e o padrão de leitura dos usuários se impõem na definição da estrutura e do vocabulário do conteúdo.

A partir dessa contextualização, a especialista discorreu sobre as qualidades inerentes ao bom conteúdo:

1- estrutura em blocos, para não congestionar a página e facilitar o “escaneamento” da página pela maioria dos usuários;

2- Informações relevantes, úteis, apuradas e confiáveis;

3- Linguagem simples, com palavras, frases e parágrafos curtos; palavras de fácil compreensão;

4- Consistência de estilo relativamente às demais seções e páginas do site e a outros canais eventualmente criados pela empresa, para que “todos falem a mesma língua” (“tone of voice writing style”).

Aí estão as características do bom conteúdo… as mesmas do bom texto escrito ou falado fora da internet. Era o que eu queria comprovar. Mas Frankie ainda me reservava uma surpresa.

Ela recomendou a velha e boa pirâmide invertida (que comentarei em um próximo post em vista da atual polêmica sobre a sua serventia). E ensinou o seu propósito para uma audiência claramente composta de profissionais ou interessados em produzir conteúdo para sites. Seus exemplos foram convincentes.

Exibindo páginas de alguns sites corporativos, Frankie demonstrou que, colocadas no início do texto, as informações mais relevantes (a) entregam imediatamente o que o título promete; (b) garantem visibilidade para o que se deseja divulgar; e (c) poupam o tempo do visitante.

A pirâmide invertida, como se vê, permanece uma boa estratégia na produção de conteúdos virtuais, assim como foi e continua sendo para outros meios de publicação.

Eu não esperava tanto.

Escute a sua redação: uma prática que beneficia a linguagem-para-ser-lida

30.July. 2016

Escute a sua redaçãoMeu maior ganho no curso Introduction to Public Speaking (EAD/Coursera) foi lidar com a profunda influência da comunicação-para-ser-lida sobre a comunicação-para-ser-ouvida (escutada). E vice-versa. Com resultados opostos: no primeiro caso, a influência pesa, atrapalha; no segundo, ajuda a sentir o peso e, daí, a melhorar o texto.

Ministrado pelo doutor Matt McGarrity, da Universidade de Washington, o programa mergulha fundo no tema. Ainda assim, considero aquele ganho o mais proveitoso para quem se ocupa da comunicação, como eu.

Redigindo speeches para minhas videolições, descobri que a linguagem-para-ser-lida se intromedia na linguagem-para-ser-ouvida. O processo ocorria com tamanha naturalidade que só notei a intromissão ao escutar as palavras que escrevera.

O predomínio da escrita-para-ser-lida é compreensível, sendo, como é, a matriz linguística do nosso aprendizado, desde o primeiro ano da alfabetização. Surpreendente é descobrir que aquilo que se escreve para ser ouvido pode melhorar a qualidade do que se escreve para ser lido. Essa curiosa inversão ocorre, basicamente, em função da clareza e da objetividade alcançadas na versão pós- leitura.

A técnica de ler e escutar o que se escreve tende a elevar, em vários aspectos, o nível das redações escritas-para-serem-lidas. Aplica-se a quase todos os tipos de texto – relatórios, e-mails, projetos, roteiros de vídeo e muitos outros do tipo escritos-para-serem-lidos. Também é útil para autores de livros e reportagens, particularmente na criação de diálogos, em que calibra a coloquialidade evitando que resultem falsos.

Existem muitas orientações voltadas à qualidade da redação, entre modelos teóricos, práticos, dicas e recomendações. Quanto à técnica de escutar as palavras que você escreveu, funciona como meio: você sente que o conjunto das frases soa mal; percebe um certo peso, ou a perda do foco; observa uma tendência para cansar, confundir.

Então, usa o arsenal de recomendações que já aprendeu em sua vida: na abertura, deixa claro do que vai tratar, organiza as ideias por parágrafos, evita frases longas, encadeamentos sem fim; busca usar o vocabulário preciso para o contexto, para o estilo, etc. etc.

É neste sentido que aconselho a técnica de se escutar o que se escreveu. No parágrafo abaixo, a mensagem é gramaticalmente correta, relativamente concisa e clara. Experimente ler em voz alta:

Quando pergunto às pessoas o que é escrever bem, as respostas variam, mas todas denotam a crença de que escrever bem é um dom, uma habilidade natural. Aqui nasce a descrença em você, aqui nasce o auto preconceito – ou seja, um preconceito contra si mesmo, capaz de levá-lo a um bloqueio mental. Bloqueado, você se impede de aceitar a possibilidade de escrever bem e, portanto, de aprender a escrever bem.

Provavelmente, depois de ouvir esse texto, você concordará que os conceitos principais poderiam ser “desagrupados” com merecidas explicações. A meu ver, o texto seria melhor com estas modificações:

Quando pergunto às pessoas o que é escrever bem, ouço várias respostas. Mas todas revelam algo em comum: a crença de que escrever bem depende de um dom, de um talento natural. Dessa crença nasce a descrença em si próprio: “Não nasci com o dom de escrever bem, portanto, nunca serei um bom redator”.

A diferença entre ler e ouvir uma mensagem é que ouvintes não dispõem de elementos facilitadores que consagramos aos leitores, como voltar a determinadas páginas quantas vezes quiser; anotar; sublinhar trechos; e, no caso do autor, trabalhar com parágrafos, índices remissivos, negrito, asterisco, etc., visando reforçar, ressaltar, acrescentar informações.

Creio que essa perspectiva funciona como exercício valioso a quem deseja escrever cada vez melhor.

A influência da língua web – ou o que replicar tem a ver com reproduzir?

28.June. 2016
por Claudia Atas

Dia desses, a Folha de S.Paulo publicou um lead que dá o que pensar.

Folha de S.Paulo, 12 de junho de 2016, pg. A5

Folha de S.Paulo, 12 de junho de 2016, pg. A5

(…) a presidente afastada Dilma Rousseff viajou ao NE para replicar o discurso de que o governo do presidente interino de Michel Temer é “ilegítimo” e “quer impor retrocessos à população (…)”.

No primeiro momento, deduzi que algum fato novo provocara a presidente afastada – um insulto, uma crítica, uma ação desfavorável à sua gestão. Mais rápido que os olhos, o pensamento construiu a sequência: uma tréplica se desdobraria da atual réplica.

Mas, na sequência, a informação desmontou minha tese. Dilma, simplesmente, repetiria o que vem dizendo desde que o Senado afastou-a do cargo por 180 dias: que o governo do interino é ilegal e irá impor retrocessos à população.

Embora se trate de um erro – a ideia de replicar, na notícia, não era responder nem contestar, mas repetir afirmações – estou mais interessada na origem do erro, para a qual tenho uma hipótese: a enorme influência do Inglês nas nossas vidas, especialmente no ambiente da internet.

Neste sentido, teria havido uma falsa associação, por sonoridade (1) e aproximação de ideias (2) entre os verbos

1- replicar e “reply” – sendo que reply (responder, reagir, contestar) não comporta a ideia de repetir, intenção provável da repórter;

2- replicar (responder e copiar) e “replay”, este sim, reproduzir, repetir (som, imagem, história, jogo, etc.), correspondendo à intenção da redatora.

Acredito que em ambas as possibilidades a jornalista tinha um verbo Inglês na cabeça.

Sem dúvida, a força da língua inglesa tem o poder de confundir redatores. Só não cai nessa cilada quem domina o Português.