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Cinco questões para melhorar a redação …já!

22.January. 2018
por Claudia Atas

Por hábito, anoto rapidamente o que me chama a atenção quando vejo, ouço e leio qualquer tipo de informação. Podem ser boas e más soluções que sirvam de exemplo para aumentar a qualidade da comunicação oral e escrita.

Com essa prática, amealhei muitos “casos”. Com cinco deles, devidamente analisados, Clareza & Coerência inaugura 2008.

1.   Contexto e surpresas contextuais

Repórter da Rádio CBN entrevista um dos moradores retirados de um conjunto habitacional financiado pelo governo. Embora relativamente novos, os prédios ameaçavam desabar:

– O senhor está aliviado?

– Não, estou indignado.

Esse curtíssimo diálogo ensina as respostas do seu interlocutor podem ser inesperadas, menos óbvias. Neste episódio, o entrevistador esperava a concordância do entrevistado e, com um pouco de sorte, acrescentaria um comentário sobre a sensação de alívio. Porém, a resposta foi mais densa.

Lembre-se: contexto é um conjunto de fatores e um deles pode prevalecer, dando margem a uma conversa menos óbvia.

Dica: ao formular perguntas, oralmente ou por escrito, antecipe a possibilidade de uma resposta inesperada. Esse condicionamento pode aumentar suas chances de receber informações mais amplas e precisas.

Folha de S.Paulo, 19/8/2017, A02

Folha de S.Paulo, 19/8/2017, A02

2.   Modismo em regência verbal

“Prezar por, prezar pelo, prezar pela” é um erro: a regência desse verbo exige objeto direto: prezar alguém, prezar o quê?

Excelentes redatores já embarcaram nesse modismo, como mostra a imagem ao lado (“que pouco preza pela qualidade do gasto”.

Meu palpite para a expansão dessa mania é a afinidade sonora e semântica entre os verbos prezar e primar. Mas, no caso deste último, o complemento precisa ser um objeto indireto: “prima pela qualidade” ou, reescrevendo o trecho da Folha, “não prima pela qualidade do gasto…”

3. Cacófato

Uma das várias vantagens de ler o que se escreve é impedir que um cacófato ridicularize um texto sério. Esse vício de linguagem é a desastrada união da última sílaba de uma palavra com a primeira da palavra seguinte. Como neste exemplo, a junção involuntária de ca + ga:

JBS expliCA GAfe em campanha: “imagem de arquivo http://www.meioemensagem.com.br/home/ultimas-noticias/2017/03/22/jbs-explica-gafe-em-campanha-imagem-de-arquivo.html

 

4- Entusiasmo excessivolead-entusiastico

O lead à direita é tocante (sem trocadilho) e atraente. Mas o excesso de entusiasmo limitou a criatividade do redator, que elaborou três versões da mesma ideia: o som invade os espaços, reverbera pela vizinhança, ecoa por entre as casas.

Aqui, não se trata de erro, pois o estilo literário cabe no tipo da notícia. Mas o exemplo serve de alerta:

1- Quando redigir textos menos informais, cuidado: a empolgação leva ao exagero e a possibilidade de cometer deslizes aumenta.

2- Revisar texto é sempre importante; mais ainda, se tiver sido escrito sob emoção.

E por falar em revisão,

 

5- Um desafio

que-para-que

Vamos remover repetições indesejáveis, como “para”, e um esquisito “que para que”?

Reconstrua o parágrafo ao lado com essa intenção.

Tente.

Se achar muito difícil, apoie-se nesta sugestão, que respeita o estilo e a intenção do texto:

Um documento obtido pela Reuters informa que os fundos seriam suficientes apenas para cobrir alguns contratos destinados a criar protótipos do muro. A construção de uma barreira, porém, exigirá que a Casa Branca convença o Congresso a destinar fundos específicos para essa finalidade (ou para essa estrutura).

 

Substituição dos verbos ter e fazer: de novo, o assunto mais procurado neste site.

26.December. 2017
por Claudia Atas

A proposta de trocar os verbos ter e fazer por construções mais eficientes, e ainda fiéis à ideia original, continua a liderar o ranking de Clareza & Coerência. Como substituir os verbos ter e fazer – respostas ao teste” ocupa, também neste ano, o primeiro lugar na lista de leituras deste site.

ranking-2017

São 6.687 visualizações, entre quase quinze mil, desde 2011. O número é maior se consideramos que esse título também está incluído na categoria “página inicial/ arquivos” e, desde 2012, é o mais lido dos rankings diário, semanal, mensal, trimestral, semestral e anual.

Balanços combinam com o espírito de fim de ano, especialmente para apoiar fatos, para gerar interpretações. No caso deste site, porém, o sucesso do post melhor colocado me intriga.

Nunca vi esse tema, nunca estudei essa troca. Possivelmente, a “fórmula” da troca decorre do mecanismo que aprendi em uma disciplina do curso de Jornalismo, da ECA/USP, ministrada por uma docente – Socorro – cujo sobrenome, lamentavelmente, esqueci. Foi ela, no entanto, que me ajudou a dar o primeiro salto de qualidade em redação. Foi ela que me levou a descobrir como o estilo envolve quase todas as questões normalmente trabalhadas de forma isolada.

Minha estranheza com a atração gerada pelo post mais lido aqui, nos últimos anos, vem do seguinte fato: Clareza & Coerência dedica-se indiretamente à gramática e usa uma linguagem mais própria do jornalismo do que a dos cursos de Português.

Embora intrigada, fico satisfeita com mais este ranking, principalmente porque sou informada que meus leitores são, majoritariamente, estudantes a partir do ensino Fundamental e até professores, que aqui buscam material para exercícios.

Espero que, no próximo ano, o site consiga aumentar a atração por questões mais “duras”, aquelas que procuram levar os visitantes a ganhar autonomia, a enfrentar “a ditadura da concisão, a censura ao uso de palavras difíceis e, ainda, a descobrir a verdadeira questão oculta sob o condenado “textos longos”.

Espero vocês em 2018.

P.S. Se quiserem sugerir temas e aspectos de redação que gostariam de ver analisados, fiquem à vontade  usem o espaço para comentários ou o e-mail <clapmark@terra.com.br>.

Aprender a conviver

26.November. 2017
por Claudia Atas

Uma jornalista ocupa cargo inédito no The New York Times: Editora de Gênero. Mulheres sauditas começarão a dirigir automóveis e poderão entrar em estádios esportivos, a partir de 2018. Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil foi tema de redação no Enem 2017, enquanto feminismo, transgênero e racismo estavam entre as questões do vestibular da Unicamp (1ª fase).

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Aziza Yousef  dirige em estrada de Riad, na Arábia Saudita, como parte de uma campanha para desafiar a proibição de mulheres conduzirem veículos no país (AP Photo/Hasan Jamali -2014)

Sem dúvida, o mundo reage às expressões de desigualdade e preconceito. Em várias frentes e velocidades, quase sempre, de forma pacífica.

Contudo, manifestações contra desigualdade e preconceito, já coibidas no âmbito legal, também exigem mudanças no indivíduo – intelectuais e comportamentais.

Aceitação e respeito ao tipo de orientação sexual, a deficiências físicas e mentais, a diferenças culturais e outras marcas da desigualdade são obtidas de forma mais ampla, efetiva e duradoura quando ensinadas, maturadas e assimiladas internamente.

Neste sentido, acredito que um método eficaz para alcançar esse resultado é a incorporação das chamadas competências socioemocionais na formação educacional das crianças e adolescentes.

Em São Paulo, acabam de chegar ao currículo do Ensino Fundamental (rede pública) habilidades socioemocionais como tolerância à frustração, solidariedade, convívio harmonioso com os diferentes, entre outras. Será o fim do bullying?

Nem tanto, mas esse tipo de abuso estará melhor controlado pela instituição, pelo grupo e… pelo próprio bully. Será, isto sim, uma guinada no ensino, com poder de influenciar pais e repercutir em outros meios sociais.

Habilidades mais importantes

Os participantes da Série de Diálogos, realizada pela Associação Inspirare, Instituto Porvir e Instituto Ayrton Senna, classificaram em dois grupos aquelas que consideram as mais importantes competências socioemocionais:

Competências prioritárias: autoconhecimento, amabilidade, autoconfiança, autocontrole, autonomia, comunicação interpessoal e intrapessoal, cooperação, engajamento, interesse por aprender, motivação.

Competências de valores: amor, gratidão, gentileza, humildade, senso de justiça, respeito, solidariedade.

Para quem não acompanha o assunto, habilidades ou competências socioemocionais podem parecer modismo educacional. Mas, desde o século XIX, elas se relacionam com formação para o convívio equilibrado e conciliador.

“Aspectos sociais e emocionais estiveram no centro da reflexão de pensadores clássicos da Educação, como Lev Vygotsky, Jean Piaget e David Ausubel (1918-2008)”. (Associação Nova Escola)

Neste século, o interesse pelo assunto extrapola o ensino básico e se coloca no mundo corporativo como diferencial de qualidade de funcionários e colaboradores. Valorizam-se, nessa esfera, a curiosidade, a autoconfiança, a responsabilidade e a criatividade.

“Na era das tecnologias, da internet e da globalização, engana-se quem pensa que o importante é ter conhecimento técnico e operacional. Na verdade, as empresas têm procurado cada vez mais profissionais que saibam se comportar diante de situações complexas que envolvem equilíbrio e saúde emocional.”  https://escoladainteligencia.com.br/habilidades-socioemocionais-x-mercado-de-trabalho/

No post anterior, falávamos de profissionais incapazes de dizer não – quando um não é necessário – e, até mesmo, responder ao interlocutor indicando que sua pretensão não será encaminhada ou aceita.

No contexto deste artigo, essa dificuldade constitui mais que uma falha de comunicação. Nitidamente, trata-se uma falha de comunicação do profissional desprovido de habilidades socioemocionais.

Contexto e A Hora da Vitrola

25.October. 2017
por Claudia Atas

Andava procurando um bom exemplo de “contexto”, capaz de evidenciar sua importância em praticamente todo tipo de comunicação. Então, num domingo, lá pelo meio dia, dirigindo o carro e ouvindo a rádio Eldorado, ele surgiu com André Góis, apresentador do programa A Hora da Vitrola.

Góis no estúdio da Eldorado (15/9/2017)

Góis no estúdio da Eldorado (15/9/2017)

Para os que ainda não ouviram o programa (também às quintas-feiras, às 23h), e gostam (ou ainda não sabem que gostam) das músicas dos anos 50 e 60, recomendo: a oportunidade é imperdível.

Góis, que descobri há alguns meses, me encanta com seu conhecimento, bom gosto e um belo trabalho de contextualização.

Especialista apaixonado, ele resgata preciosidades musicais e aumenta a dimensão da informação sonora ao colocá-la em seu contexto.

Em A Hora da Vitrola, a música é embalada por histórias de sucessos e fracassos. O ouvinte passa a compreender a importância de uma voz, de uma letra, de uma melodia, de um arranjo. Começa a admirar o que parecia sem sentido. Descobre por que a canção se tornou “clássica”.

O conjunto de fatos e fatores determina o significado da comunicação e, no entanto, é mal comunicado, com poucas exceções.

Conhecimento e sensibilidade

A mensagem copiada abaixo é outro exemplo que ajuda a entender, por comparação, como o cuidado com o contexto ajuda a escrever melhor – objetivo declarado deste site.

Trata-se de um e-mail por meio do qual uma associação informava o falecimento de um membro da diretoria. Omito os nomes da entidade e da falecida:

Assunto: Nota de falecimento  
Prezados, bom dia! 
É com profundo pesar que comunicamos o falecimento de nossa
associada e amiga (...), ocorrido nesta madrugada. 
(...)
Ainda não temos dados sobre o local do enterro, já que ela 
ainda se encontra no IML, até o final do dia, encaminharemos
o endereço. 
Que Deus acompanhe seus próximos passos.
Atenciosamente,
Diretoria (...)

Neste caso, o redator associou dois elementos que, a rigor, o contexto torna incompatíveis: Nota de Falecimento e profundo pesar não se coadunam com o alegre “bom dia!”

Mesmo que a pessoa falecida não pertença ao círculo de amizades do leitor, é fato que a palavra “morte” provoca algum impacto ao remeter o leitor à ideia de que também é mortal.

Um recurso, para evitar deslizes em situações como essa, é trocar a saudação bom dia por “prezados associados”, “prezados amigos”, “prezados colegas”.

Há um segundo problema:

(…) “já que ela ainda se encontra no IML, até o final do dia, encaminharemos o endereço.”

Também esta é uma forma ruim. Faltam conhecimento e sensibilidade: não é “ela” que se encontra no Instituto Médico Legal, mas seu corpo.

Pontuação incorreta sempre causa embaraço. Aqui, a tendência do leitor é emendar as orações e entender que “ela se encontra no IML até o final do dia”.

A frase ficaria melhor sem a menção ao IML e com mais cuidado na pontuação:

Até o final do dia, encaminharemos o endereço do local onde o corpo será sepultado.

Outros exemplos

Vale a pena, para quem quer saber mais sobre contexto, em linguagem não acadêmica, ler ou reler os artigos listados a seguir. Clique no link e, na página do artigo, procure por “contexto” ou “contextualizar”.

9.25.17A prática de ignorar o interlocutor e dissimular um não 

08.30.17Supremacista, eufemismo em discussão. [a palavra no contexto]

07.31.17Palavras “difíceis”: vamos enfrentar mais um tabu?

26.22.17Em defesa do texto longo… e conciso.

05.23.17“O Patriarca da Odebrecht”: certo ou errado?

410.31.16Pirâmide invertida: debate saudável para o bom jornalismo

07.30.16Escute a sua redação: uma prática que beneficia a linguagem-para-ser-lida

012.5.15Oportunidade x oportunismo: a reportagem de Ernesto Paglia

08.22.15Título preconceituoso contamina reportagem da Folha

21.27.15 Comunicação e jornalismo não verbal – riqueza inexplorada

 

 

 

A prática de ignorar o interlocutor e dissimular um não 

25.September. 2017
por Claudia Atas

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O brasileiro gosta de cultivar a ideia, comprada por estrangeiros, de que somos um povo afetivo, simpático, hospitaleiro e informal, comparados aos frios e racionais europeus e asiáticos. Extrovertidos e generosos, abrimos nossos corações e nossas portas aos estrangeiros, aos amigos, aos amigos dos amigos, etc.

As décadas passam e esse perfil sobrevive, sustentado fortemente por uma prática que estimula o “sim”, ou a dificuldade, às vezes a impossibilidade, de dizer “não”.

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O que me espanta, nesses autorretratos, é a falta de autocrítica. Podemos reconhecer nossos defeitos, mas não falamos deles. Seja na esfera pessoal, seja na esfera profissional, deixamos interlocutores sem respostas verdadeiras e, quando sobrevém o momento da verdade, inventamos desculpas, porque argumentos podem criar desarmonia.

Curiosamente, se todos já amargamos ausência de resposta e rejeição disfarçada de “talvez”, por que a experiência não levou a uma nova conduta, barrando a prática de ignorar o interlocutor?

No âmbito profissional, a cultura corporativa geralmente catequisa a verdade, mas tolera, na prática, atitudes que mascaram negativas com tom de concordância – o “sim”, para ser simpático; o “talvez”, para saltar fora; o silêncio, quando o assunto não interessa. Pensando bem, já tínhamos inventado a pós-verdade muito antes de ela ganhar visibilidade nos cadernos de cultura. Mas não nos demos conta…

Descortesia ou falta de estratégia?

Empresas jamais deveriam falar ou redigir na perspectiva do “já temos”, “já sabemos” e, principalmente, do “já sei o que ele vai falar”. Elas fecham as portas para talentos, para ideias originais ou originalmente aplicadas; para novas soluções e novas formas de solucionar.

Ignorar o interlocutor, sonegar as razões de um “não” é mais que descortesia – é falta de estratégia. Se a resposta precisa contrariar as expectativas do interlocutor, nada mais estratégico que expor os motivos.

No aspecto economia de tempo, o investimento para reunir e expressar as razões da negativa será compensado pela formação de um conjunto de respostas. Genéricas, a rigor, mas personalizadas, no final das contas – afinal, ao interlocutor importam as justificativas para o seu caso e, não, a originalidade da resposta.

Em outras palavras, reconheço que respostas padrão são necessárias diante de milhares de mensagens e da escassez de tempo. Mas podem ser relativamente personalizadas com informações pertinentes, ancoradas no contexto e na verdade.

Ignorar essa possibilidade é menosprezar a inteligência do interlocutor, omitir informações e faltar-lhe com o respeito.

Supremacista, eufemismo em discussão.

30.August. 2017
por Claudia Atas

Palavras são poderosos instrumentos de arte, informação, conceitos e… preconceitos. Muitas vezes ocultos por eufemismos, os preconceitos variam em escala, mas podem passar por inofensivas palavras. É o caso de supremacista.

 Chip Somodevilla/ Getty Images

Chip Somodevilla/ Getty Images

O vocábulo “saiu do nada” para as manchetes dos noticiários. Soa manso, macio, e, principalmente inofensivo – exatamente o oposto do que ocorre com seu sinônimo, racista.

Dos anos 1930 até a eleição de Donald Trump (2016), o termo estava confinado aos vocabulários político e acadêmico. Agora, com o acirramento dos conflitos raciais que o presidente dos Estados Unidos ajudou a promover, frequenta a mídia com regularidade.

Segundo a ombudsman da Folha de S.Paulo, Paula Cesarino Costa, a palavra supremacistas foi mais usada na Folha entre 2014 e 2015 – apareceu mais nesse período do que “nos 60 anos anteriores”. Chegou à capa desse jornal no ano seguinte – em 13 de novembro de 2016, cinco dias após a eleição de Trump.

Os dicionários refletem essa mudança gradual: enquanto o Michaelis online nada registra, a versão eletrônica do Houaiss exemplifica o significado com uma frase reveladora do conteúdo encoberto pelo eufemismo:

‹(brancos) supremacistas matam mais do que jihadistas, diz estudo›.

A adesão da mídia a supremacismo branco e supremacistas já provocou uma saudável reação. Em sua coluna (Folha de S.Paulo, 17/8/2017, pg. A6), Janio de Freitas rejeitou enfaticamente o uso de supremacista pela mídia brasileira:

Criada na universidade e injetada no jornalismo, a palavra “supremacistas” é filhote da atenuação de aparências. (…) O sentimento e a ação anti-negros nos Estados Unidos são mais do que supremacistas. Seu nome é racismo. (…) Supremacismo, além do mais, é palavra anti-jornalística – pela imprecisão, quando a precisão é possível; pela utilidade deformadora; e por sua hipocrisia.

Corretas e oportunas, tanto a argumentação de Janio quanto a decisão da Folha de “adotar prioritariamente os vocábulos derivados da palavra ‘racismo’”, segundo Cesarino. No entanto, a questão é mais complexa.

Na comunicação, o contexto é decisivo. Quando lemos e ouvimos “supremacismo branco” e “supremacista” somos imediatamente remetidos para Charlotteville; para o atropelamento intencional que matou uma pessoa e feriu 19; para os conflitos inter-raciais que o presidente administra mal; para a alt-right (alternative right, ou direita alternativa); etc. etc.

Acho difícil substituir supremacistas por racistas, nessas circunstâncias. Dizer que quem organizou o evento de Charlotteville foi o líder racista Richard Spencer é menos preciso, neste momento, neste cenário específico. Racismo e racista serão empregados em situações mais genéricas.

A combinação de situações específicas com genéricas aparece, por exemplo, no site Fox61, da rede de TV Fox News, que repercutiu a entrevista que o secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson, concedeu à emissora no último dia 27. Veja:

“Last week, a United Nations committee issued a warning to the United States about racism and hate crimes, saying US leaders had not sufficiently condemned white supremacy. Trump was widely criticized for his response to the racially motivated violence in Charlottesville, in which he said “both sides” — white supremacists and those protesting them — were responsible for the clashes that left one woman dead and dozens injured.

Outro aspecto da questão é considerar, como a Folha de S.Paulo, ser “mais apropriado, em especial para a compreensão do público brasileiro, adotar prioritariamente os vocábulos derivados da palavra ‘racismo’”. Acho essa justificativa um tanto paternalista: aposto que a média de leitores da Folha se não sabe ainda, logo saberá qual o significado dos “neologismos” tratados neste artigo. É a tendência de toda nova palavra, expressão, conceito, gíria.

Supremacia branca e supremacista começam a integrar o vocabulário do brasileiro que lê jornal, ou acompanha o noticiário do rádio e da TV. Dificilmente cairão em desuso enquanto persistirem os conflitos inter-raciais e o avanço dos chamados “grupos de ódio”.

Mas essas novas expressões podem e devem ser acompanhadas de racismo e racista nos veículos de comunicação preocupados em contextualizar fatos. Como faz o jornal El País e outras fontes de informação.

Palavras “difíceis”: vamos enfrentar mais um tabu?

31.July. 2017

Palavras difíceis – não use.palavras

Como assim?

Se você quer melhorar sua redação, não aceite regras ou conselhos impositivos sem uma boa explicação.

Reconheço o bom senso da regra que privilegia o que é mais útil para a maioria. Mas as exceções a essa regra merecem ser analisadas, o que não  ocorre nos cursos formais nem nos treinamentos de comunicação.

Repete-se à exaustão que bom é o texto composto de frases curtas e palavras simples, comuns, acessíveis ao público alvo. Nem sempre. Texto bom é texto claro, objetivo, preciso, independentemente do tamanho da construção utilizada (como dissemos no artigo de junho passado).

De qualquer modo, o princí­pio do “texto curto, vocabulário simples” prevaleceu, criando um tabu sobre as palavras incomuns. Poucos são os autores que incrementam seus textos com palavras diferentes. A maioria opta por termos familiares, mesmo que imprecisos para a ideia que desejam transmitir.

Para quem sofre o dilema da escolha, aconselho refletir sobre as seguintes considerações:

1- Precisão e pertinência

Não hesite em usar a palavra mais precisa para o que você deseja transmitir.

2- Mal-entendidos

Optar pelo vocabulário “mais simples” tanto pode gerar erros e mal-entendidos quanto indicar que o seu ní­vel de conhecimento é inferior ao que, de fato, você possui.

3- Pedantismo

Precisão e pertinência são duas qualidades fundamentais na comunicação escrita. Pedantismo é abuso de palavras excêntricas, diferentes.

4- Percepção do leitor

As pessoas percebem a diferença entre exibicionismo intelectual e vocabulário oportuno e adequado. E aceitam bem a inserção de palavras que desconhecem, principalmente quando consultam o dicionário e descobrem que o termo é perfeito para o contexto.

Veja a palavra “prebenda” na coluna de Hélio Schwartzman “Roteiro da empulhação” (Folha de S.Paulo, 29/07/2017, pg. A2). Das duas, uma: ou você entende o significado no contexto ou consulta um dicionário, durante ou depois da leitura. Seja como for, um belo reforço ao que estamos analisando aqui.

5- Valorização do leitor

Muitas vezes, leitores têm uma percepção que escapa aos especialistas da comunicação: sentem-se valorizados com algum grau de sofisticação. Palavras diferentes ou fora do seu padrão associam-se a esse conceito. Por exemplo, no relacionamento empresa-cliente é um recurso com potencial de dar ao consumidor a sensação de que a empresa confia na sua capacidade de compreender a mensagem.

6- Artificialismo

Em oposição, consumidores percebem quando a empresa usa uma linguagem artificialmente popular, ou familiar, em tom de amiga ou conselheira. Normalmente, é uma linguagem encaixada na linguagem típica das cartas comerciais.

E, por último, mas tão importante quanto as exceções anteriores,

7- Não subestime o leitor

Como redator, você encontrará resistência para usar vocábulos incomuns. Mesmo se necessária pela precisão ou pela ausência de um sinônimo adequado, você certamente ouvirá que a tal palavra difícil “não se aplica ao nosso público”.

Dou um exemplo: lisura.

A supervisora do SAC de uma grande empresa estava em dúvida com relação ao uso da palavra lisura na carta que endereçaria a determinados consumidores. Eles haviam reclamado de uma promoção de venda em andamento, por isso, era importante convencê-los da lisura da promoção.. mas sem a palavra lisura.

Apresentei os seguintes argumentos:

  1. Lisura, nesse caso, é a palavra mais adequada porque mais próxima de seriedade, honestidade, imparcialidade e comprometimento.
  2. Afirmar a lisura da empresa equivale a registrar os valores morais da empresa (seriedade, honestidade, imparcialidade e comprometimento) e, especificamente, das suas promoções de venda.
  3. Registrar esses valores também funciona como reforço positivo para a  imagem, a reputação e os negócios da empresa.
  4. Lisura é termo comumente usado na divulgação de concursos e promoções.
  5. Consumidores podem desconhecer o significado de lisura, mas, escrita em uma frase sobre os cuidados da empresa com a imparcialidade da promoção, ela faz sentido.
  6. Promoção realizada com lisura é expressão que remete à ideia de que a empresa, a marca e a promoção agem com honestidade, imparcialidade, isenção e de acordo com a lei.

Para minha satisfação, os argumentos foram aceitos e lisura ganhou seu espaço na carta do SAC.

Nem sempre convencemos. O importante, contudo, é questionar  regras de linguagem que não nos satisfazem inteiramente. E, quando necessário, argumentar.

A meu ver, essa é uma forma de quebrar tabus.

Em defesa do texto longo… e conciso.

22.June. 2017

Quem disse que texto curto é melhor que texto longo, porque conciso e objetivo? De certa forma, todos os especialistas e profissionais ligados à comunicação escrita. Discordo.

Texto curto e texto longo podem ser ótimos ou péssimos dependendo de alguns fatores, entre os quais as circunstâncias. O problema não é o tamanho do texto final. É o tamanho das construções.

Frases, períodos e parágrafos compridos justificam a demonização do “texto longo”. Esse tipo de construção induz à prolixidade, à ambiguidade, à incoerência, especialmente porque tende a criar digressões.

Em outras palavras, construções longas são as maiores responsáveis pela falta de concisão, objetividade e clareza das ideias, além de abusarem do tempo consumido na leitura.

Como as construções longas induzem à prolixidade, firmou-se o conceito de que texto longo é ruim, difícil de entender, além de ocupar mais tempo de leitura e espaço no layout. Consequentemente, o texto curto foi  ultra valorizado e consolidou-se como texto objetivo.

Cuidado, portanto, com os conceitos: texto curto não é sinônimo de objetividade e clareza, assim como o texto longo não significa prolixidade.

Míseros espaços

Quem associa concisão com poucas linhas coloca-se um dilema: ou omite ou inclui informações que considera necessárias. Falso dilema. Na maioria das vezes, o tamanho do texto depende de duas variáveis – seleção de informações pertinentes, relevantes, e estilo das construções.

A seleção de informações deve privilegiar o contexto, quer dizer, incluir os fatos e as condições que ajudarão o leitor a entender e analisar a questão em pauta. Exclui, portanto, o que for supérfluo e repetitivo.

Quanto às construções, há formas de estilo que modificam longos enunciados, transformando-os em frases concisas, diretas e objetivas (digite as tags estrutura, concisão e estilo no botão “procure”, à direita, para encontrar explicações e exemplos sobre o assunto).

Em defesa da frase “longa e concisa”, lembro que economizar palavras em detrimento da compreensão anula um dos principais objetivos da comunicação: ser entendido. Veja este exemplo:

Você nunca deveria cozinhar feijão ou cereais sem fazer mais do que precisa. (caderno Paladar/ Estadão)

Se o objetivo era ensinar, a frase deveria ser clara e coerente : Você deve cozinhar somente a quantidade de feijão ou cereais que pretende usar.

O conselho abaixo também poderia ser mais didático:

Congelá-los (cobertos com água, ou caldo do cozimento, deixando espaço para a dilatação), funciona muito bem e economiza tempo. (ibidem)

A frase é curta, mas não simples e direta como esta:

Para congelar, cubra o alimento com água, ou com o caldo do cozimento, deixando um espaço livre, pois o volume irá aumentar. Com esta prática, você economizará tempo e gás.

Conclusão: os redatores sacrificaram a clareza economizando míseros espaços: quatro, no primeiro exemplo, e 45, no segundo.

A ojeriza contra o texto longo também afeta as empresas. Quanto maior o relacionamento com clientes, fornecedores e outros públicos, mais críticas são a acuidade da informação e a clareza na leitura.

Serviços de atendimento ao consumidor, por exemplo, deveriam se encantar menos com relatos “breves e objetivos” e valorizar mais o contexto, as condições que levaram os clientes a se decepcionar ou a se atrapalhar com seu produtos e serviços.

Reversão do mito

Quem hesita em adotar, para si e para sua equipe, o texto “longo, mas conciso”, como defendido aqui, vale a pena ponderar sobre o que diz o palestrante e empreendedor Josh Steimle, membro do grupo Marketing Communication (Linkedin), em seu artigo This is How Top Bloggers Get 90% of Their Traffic (maio passado).

Para surpresa de muitos profissionais, ele adverte que leitores não odeiam conteúdos longos – odeiam maus conteúdos; odeiam ainda mais quando são longos…

Create long-form content for better searchability.

Marketers often talk about how today’s online readers have short attention spans, but I don’t buy this for a minute. Readers don’t hate long form content, they hate bad content. They hate bad content even more when it’s long. If the content is great content, then they want even more of it. (grifo meu)

Normas e recomendações precisam ser relativizadas, de acordo com as circunstâncias. Assim, antes de cortar texto, flexione concisão com dois adjetivos – a concisão inteligente e a concisão desinteligente.

“O Patriarca da Odebrecht”: certo ou errado?

23.May. 2017
por Claudia Atas
Estadão, 08/3/2017

Estadão, 08/3/2017

A antonomásia, quem diria, entrou para o noticiário da Lava Jato! Com “o patriarca da Odebrecht”, jornalistas encontraram uma alternativa de identificação para um dos principais personagens da operação: Emilio Odebrecht. Bom para quem escreve e para quem lê.

Repetir um nome no mesmo parágrafo e até na mesma sentença, por dias seguidos, é uma dor de cabeça estilística. Com essa figura de linguagem, os redatores amenizaram as repetições bem ao gosto do jornalismo – com um toque de ironia.

Minha atenção, contudo, não se prende ao estilo de linguagem. Ainda não assimilei a denominação “patriarca” ao filho do fundador. Norberto, pai de Emilio, fundou uma construtora em 1944, e com ela deu origem ao Grupo Odebrecht, que presidiu até 1991. Morreu em 2014. Para mim, ele é o patriarca.

É certo que o título comporta outros significados. Na Antiguidade, designava o chefe de família dos povos antigos (“Abraão, o patriarca do Velho Testamento”). Atualmente, é designa o chefe eclesiástico de algumas igrejas (“O patriarca de Atenas”), de algumas ordens religiosas e dioceses (“O patriarca do Rio de Janeiro”).

O dicionário Michaelis registra que, por extensão, o título é conferido a pessoa idosa, respeitada e com muitos descendentes. E ao chefe de família respeitado pelos seus membros por sua conduta irrepreensível ou por desfrutar de poder econômico-financeiro. Nesta terceira condição de chefe de família, seria correto chamar Emilio de patriarca – da família Odebrecht.

Pela imediata adesão da mídia, tendo a acreditar que houve aí uma boa sacada, uma construção que “pegou”, uma licença jornalística num quadro de informalidade, no clima da espetacular Lava Jato.

Uma especialista que admiro entende que

A palavra “patriarca”, como temos visto nos jornais, é usada de forma metafórica. O uso figurado comporta uma certa subjetividade, já que tecnicamente falando não é possível falar de patriarca no contexto de uma empresa. A partir disso, acho possível admitir um uso ainda mais distante do sentido original, não mais entendido como o primeiro de uma linhagem ou como seu fundador, mas como a pessoa mais marcante ou importante de um grupo.

Nesse sentido, o conhecimento atual sobre o caso Odebrecht nos leva a considerar o Sr. Emilio como patriarca da “dinastia” industrial, mas, para sabermos se essa designação corresponde à verdade, receio que tenhamos que aguardar ainda por um bom tempo, até que uma leitura profunda, no futuro, feita por historiadores nos arquivos, possa revelar quem foi o verdadeiro patriarca nessa história.

Gislaine Marins, tradutora e professora, com ampla experiência no desenvolvimento de programas para a aprendizagem da língua portuguesa em diferentes níveis e em campos específicos.

O melhor dessa dúvida é a reflexão e o debate que provoca. É constatar a  vivacidade e a dinâmica da língua. É descobrir sua capacidade de gerar e enterrar palavras, expressões e significados.

Atualização: a propósito dessas considerações, recomendo a leitura do  excelente artigo que Gislaine publicou em seu blog. Clique aqui.

Assédio sexual e o direito de seduzir e escolher

17.April. 2017
por Claudia Atas

A campanha do Estadão – desigualdade de gênero e violência contra a mulher – realizou sua “quarta ação” com mais uma ideia da FCB Brasil. Em plena passarela da SP Fashion Week (março passado), quatro modelos deram à luz, literalmente, mensagens assertivas e provocadoras contra o assédio sexual:

Fotos: JF DIORIO/ESTADÃO

 “Decote não é convite”

“Minha saia não é permissão”

“Me visto como eu quiser”

“Perna de fora não é provocação”.

Pintadas com tintas fosforescentes, as frases se revelaram quando a iluminação caiu sobre elas. No nível da linguagem, nada corresponderia melhor ao tema da “quarta ação”: sexismo invisível.

É inegável o sucesso midiático das frases reveladas, capazes de encher os olhos da sofisticada plateia da Fashion Week e, igualmente, empolgar leitores dos noticiários que repercutiram a novidade.

Evidentemente, ações vapt-vupt não têm fôlego para estimular debates consistentes e frustram os que lutam exatamente para conquistar essa atenção e desdobramentos positivos. As mensagens foram breves como a passagem das modelos. Efêmeras como os flashes que as acompanharam. Ineficientes para o desdobramento que se espera em assunto de tamanha relevância.

As mensagens pintadas seriam capazes de disparar um processo de informação e conscientização para o público difuso na sociedade, vulnerável ao jogo da sedução, que depende mais dos hormônios, da educação e das circunstâncias do que da moda, das roupas ou da nudez.

O evento publicitário iluminou afirmações do direito das mulheres de exibirem seu corpo. E nisso ficou. Obscurecida permaneceu, também, a ideia do seu direito de escolher com quem querem compartilhar intimidades de qualquer grau ou natureza.

Não há por que se espantar, então, com as reações machistas publicadas sob o artigo do jornal digital: http://emais.estadao.com.br/noticias/moda-e-beleza,estadao-faz-manifesto-contra-assedio-sexual-na-spfw,70001703217

Esse feminismo capenga não sabe que rumo seguir. Vejam que, ao mesmo tempo que algumas delas dizem que mulher mostrar o corpo em propagandas é virar objeto, outras dizem que se vestem como quiser, inclusive mostrando o corpo, e que isso não é provocação, como vemos nessa matéria. Por isso digo que esses movimentos feministas são apenas modismos, estão com os dias contados porque vão implodir no futuro com a colisão de ideias desordenadas.

Que desperdício de tinta, principalmente naquele “decote” sem conteúdo.

Falta do que fazer

Olhem essas mulheres. Estão quase peladas. Sabem que isso mexe com os homens. De bobinhas nenhuma tem nada! Estão sim provocando intencionalmente. São umas va…das. Sim, vcs são va…das e caras-de-pau! Merecem sim o nosso desrespeito. Não respeito gente má intencionada e hipócrita.

Para que o jogo da sedução seja uma relação de prazer sem abuso, cabe ao homem reconhecer e aceitar a rejeição, quando ela se apresenta. Reconhecer como direito de escolha da mulher e complemento necessário ao seu direito de escolher a quem permitirá ir além dos olhos arregalados diante das passarelas.

É frustrante ver as frases pintadas morrerem na sua própria “ação”.