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A virtude da repetição

28.June. 2014
por Claudia Atas

Redatores sofrem com matérias; e há matérias que sofrem com o redator. Diante de um texto bom e praticamente concluído, o profissional empaca: precisa de um sinônimo, que não o acode. Como superar o problema quando esgotado o estoque de sinônimos ou os tais não comparecem na hora decisivaRepete-se o termo! Melhor repetir e manter a precisão que usar palavras  menos ou nada apropriadas ao contexto.

O Estado de S.Paulo, 25 de junho de 2014, pg. A16

O Estado de S.Paulo, 25 de junho de 2014, pg. A16

Aprendi esta lição com o diretor da revista Construção Hoje, que estimulou a equipe a reavaliar este e outros mitos. Livrei-me do dilema e passei a comprovar o acerto da repetição em textos de alta qualidade estilística. A questão me voltou à lembrança ao ler uma matéria do Estadão com palavras e expressões impróprias para o contexto, em dois sentidos: imprecisão e conotação pejorativa. Imprecisão: associo ao “problema” da repetição “mecanismo” como sinônimo de ciclovia e “montar” como sinônimo de construir (ESP 25/6/14 A16). É provável que o redator temeu repetir palavras.

 “O mecanismo integrará os 400 km de ciclovias que a atual gestão promete construir…” (melhor seria a quilometragem do futuro mecanismo, que, para o autor, significa futura ciclovia)
… o mecanismo seguirá da Estação Julio Prestes até o Terminal Amaral Gurgel…” (box)
“… da ciclovia que começou a ser montada…”

Confesso jamais ter lido “mecanismo” – palavra que explica muitos processos físicos e mentais – como sinônimo de via, rodovia e ciclovia. Quanto a “montagem de ciclovia”, é verdade que se planeja construir a obra em nível acima da pista dos automóveis; mas daí a montar uma rua, uma rodovia, uma estrada vai uma grande diferença.

A matéria também foi infeliz, a meu ver, pela negligência que levou à ideia de menosprezo, indiferença:

 “… uma das propostas (…) é alargar o canteiro central da avenida – hoje só ocupado por floreiras, e por bases das luminárias e dos relógios de rua (…)”

Só, no contexto da conscientização ecológica que se vive, é uma expressão que denota desprezo. A matéria reproduz, sem aspas, palavras de Jilmar Tatto, secretário municipal dos Transportes, ou seja, parece que houve um descuido na versão da resposta falada para a linguagem escrita.

“Teria de tirar aquele canteiro de flores, pelo menos um pedaço …” (Jilmar Tatto)

A reportagem não menciona nem questiona o sacrifício do verde, cuja solução pode estar contemplada em outra proposta sob análise. A concorrência do espaço entre pessoas, carros e bicicletas aparece em outra frase infeliz mal sucedida:

“Seria um conflito com os pedestres que sobram no meio da avenida…”

O consultor em transportes referia-se ao fato de que a proposta levará à perda de espaço para os pedestres, mas o efeito resultou pejorativo, algo a que nós, profissionais de comunicação, precisamos estar sempre muito atentos.

Sinônimos são conceitos que se aproximam, jamais serão idênticos. Em vez de arriscar a precisão, melhor optar por uma repetição. Por sinal, os pronomes ele, ela, seu, sua, etc. podem não ser elegantes, muitas vezes. Melhor sacrificar o estilo que a precisão, o entendimento. Quanto ao descuido que resulta em depreciação, creio que decorre de uma pretensão: converter uma conversa em texto considerando tratar-se de mera transposição. É preciso um pouco de arte, também.

Recomendo duas leituras para os mais interessados no tema  sinônimos:  ”Seis não é meia dúzia“, publicado pela competentíssima Gislaine Marins no excelente Palavras Debulhadas <http://palavrasdebulhadas.blogspot.com.br/2012/01/seis-nao-e-meia-duzia.html>

Aqui, já comentei o assunto no post “Licença para repetir palavras” (6 de julho de 2011).

Títulos – arte e pecados

30.May. 2014
por Claudia Atas

Quando o que se diz não é o que o leitor ou a maioria entende, das três uma foi a responsável– negligência, pressa ou estreiteza das colunas do layout. Estas são as causas mais frequentes de más soluções, gramaticais ou comunicacionais. Mas, se criam problemas, títulos ambíguos também geram boas oportunidades de reflexão, como estas que compartilho a seguir.

Realidade e ficção: ”Choque evita fuga de detentos no PR” 

Ambiguidade Estadão pg 15

O Estado de S.Paulo, 19/5/2014, A15

Blog pg 15 Título dá impressão de que os detentos levaram choques elétricos. O leitor corre para o lead, onde descobre que foi o Batalhão de Choque que deteve os presidiários e. portanto, choques elétricos foram obra da sua imaginação. Não é verdade, foram obra de quem criou a manchete. 

Contexto e intenção: Local de festa da Copa recebe críticas”     

O Estado de S.Paulo, 19/5/2014, A16
O Estado de S.Paulo, 19/5/2014, A16

Em plena fase de manifestações anti-Copa, o título sugere espaço ocupado por manifestantes contrários aos gastos assumidos pelo governo para a realização da Copa do Mundo (Fifa). Também remete à ideia de local como o objeto da crítica: o estádio e/ou entorno e/ou mobilidade. O lead e a foto, porém, informam o leitor que grafiteiros escreveram suas críticas no solo, ou seja, usaram o próprio estádio para criticar.

Suzana Singer, até recentemente a ombudsman da Folha de S.Paulo, já tratou das dificuldades que envolvem títulos (como sabemos, dificuldades para quem redige e para quem lê).

Em “A Arte de Fazer Títulos” (06/02/2011), ela inclui construções difíceis de entender. Seu exemplo é uma frase do gênero “informação cifrada”. Mesmo assim, incluo nessa classificação os títulos comentados acima.

Vale a pena ler o artigo de Suzana. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ombudsma/om0602201101.htm

Como Redigir E-Mails Eficazes

9.May. 2014
por Claudia Atas
Em versão online, o curso estimula o usuário com cenas em vídeo e muitos exercícios interativos.

Em versão online, o curso estimula o usuário com cenas em vídeo e muitos exercícios interativos.

Boa parte dos problemas que travam a redação, prejudicam a empresa em nome da qual o funcionário escreve e muitas outras dificuldades de comunicação pode ser eliminada com o curso Como Redigir E-mails Eficazes. 

O produto foi desenvolvido por Claudia Atas Comunicação em parceria com duas empresas consagradas no mercado de e-learning: Instituto IDALE, há 20 anos no setor, e MicroPower, a maior em e-learning no Brasil. 

Destinado a pessoas com escolaridade a partir do nível médio, Como Redigir E-mails Eficazes inclui técnicas jornalísticas para demonstrar os princípios da boa comunicação e as soluções dos problemas apontados nos exercícios.

Aspectos diferenciais do curso:

1- Ênfase na importância do raciocínio, do contexto e da coerência nas mensagens eletrônicas, notadamente quando dirigidas a consumidores e clientes (SAC e Pós-Venda). 
 
2- Análise de alguns tabus da redação, como a ideia de que concisão garante a objetividade do texto, e seu inverso, o texto longo, é sinônimo de falta de objetividade.

Mais informações: clapmark@terra.com.br ou tel. 11 3819-7812.

 

Três construções “boas de errar”

20.April. 2014

Qual é a construção correta:

“A expectativa era que todos viessem” ou “a expectativa era de que…”?  
“Quase todos que prometeram, vieram” ou “quase todos os que prometeram…”?
“No Brasil, se consome, em alimentos, pelo menos 14 venenos proibidos no mundo”? Ou seria se consomem? 

Você já procurou resposta para uma dúvida gramatical e não conseguiu porque… não sabia o nome do problema? Caso das frases acima, aposto, ótimas para criar esse tipo de insegurança.  

Por sorte, uma professora doutora (Gislaine Marins) que ama o que faz, a ponto de compartilhar seu conhecimento,  (http://palavrasdebulhadas.blogspot.com.br/), nos socorre aqui:

1. Com preposição ou sem preposição? 

Certificou-se que as portas estavam fechadas / certificou-se de que…;
 O fisco suspeita que agiram de má fé / suspeita de que agiram…;
A expectativa era que o PIB crescesse 5% / A expectativa era de que o PIB…;
Foi informada que havia vagas / foi informada de que havia vagas; 
Insistiu que o e-mail fora enviado/ insistiu em que o e-mail…; 
A possibilidade que você seja sorteado é pequena / a possibilidade de que você seja sorteado…;
Cresce a convicção que se deve aprovar a pena de morte /cresce a convicção de que…

2. E neste caso?

Comunicamos a todos que desejam participar do debate que permaneçam /  Comunicamos a todos os que desejam participar…

3. Qual a concordância verbal adequada (veja o negrito):

Tem gente que atravessa a rua para escorregar na casca de banana que está na outra calçada. A doutora Dilma atravessou o Atlântico para escorregar em Lisboa pelo simples culto à blindagem de suas agendas. Transformou um simples jantar em reunião da VAS-Palmares. Acreditar que a ex-ministra-chefe de Comunicação Helena Chagas tivesse algo a ver com essa obsessão exige que se desconheça as duas… 
(Elio Gaspari, Folha de S.Paulo, 02/02/2014)

Que você, que eu desconheça? Ou que se desconheçam…

Respostas de Gislaine:

1: Em todas as alternativas acima, a resposta correta é sempre a segunda, ou seja, com preposição. Não há uma explicação gramatical “lógica” para a necessidade da preposição – a questão é histórica. A única consideração que podemos fazer é de tipo sociolinguístico: no uso da preposição constatamos uma sutil separação entre os poucos falantes que privilegiam a riqueza historicamente sedimentada na língua e a maioria dos falantes que, mesmo errando, aposta em uma construção mais simples e direta. Neste caso, a única certeza são as listas fornecidas pelas gramáticas e pelos dicionários de verbos.

Um uso inovador é sempre visto em princípio como erro gramatical, pois uma mudança na língua leva muito tempo para ser consolidada. Nesse sentido, basta lembrar a velha polêmica da contração da preposição “para” que nos anos setenta costumava ser escrita “pra” e que hoje recebe uma interpretação bem clara: “para” é a preposição usada na forma escrita; “pra” é uso informal e oral. Em relação à supressão das preposições, o princípio é análogo: prudência nunca é demais, se não quisermos que o nosso texto salte aos olhos por questões que distraem o leitor dos aspectos que consideramos essenciais.

2: Ambas as construções estão corretas. Podemos escrever “todos que”, “todos os que…” ou mesmo “todos aqueles que desejam…”.

Os brasileiros tendem a especificar expressões nominais. Deixar de lado as especificações ocorre ou por ser uso regional, como o português falado em certas zonas do Nordeste, que dispensa o artigo antes dos nomes próprios; ou para indicar um distanciamento que pode ser percebido como formalidade. O título de reportagem “Governador repassa verbas para a Secretaria da Cultura” revela menos proximidade do que esta hipotética manchete: “O Presidente fez um apelo durante a Assembleia da ONU”.

Pessoalmente, gosto da expressão “todos que” – ela não produz eco (todos os – repetição de “os”) e é mais sintética, sem perder em termos de conteúdo. Mas, se você deseja evidenciar que se trata de “todos” (todos mesmo!), então a ênfase que a expressão “Todos os que desejam” dá aos termos “todos” e “que” é de valor indispensável. Em resumo, o contexto e que determinará uma ou outra escolha.

3: O correto é dizer “ (…) Acreditar que a ex-ministra-chefe de Comunicação Helena Chagas tivesse algo a ver com essa obsessão exige que se desconheçam as duas…“.

Na linguagem falada tendemos a colocar os verbos no singular, mesmo quando se trata de uma passiva sintética – exemplo: “Vende-se casas”, quando o correto é “Vendem-se casas” (“casas são vendidas [por alguém]”), com o agente da passiva no plural; no caso analisado, “que se desconheçam as duas”, ou sejam, “que as duas sejam desconhecidas [por alguém, que pode ser o leitor]”). Como o Elio Gaspari é um grande jornalista, creio que o  erro de concordância verbal só pode ter sido um lapso.

Vale a pena observar que se trata de uma frase complexa. Além da passiva sintética (se), temos o uso do infinitivo pessoal (acreditar), que poderia ser especificado para benefício da clareza: “Acreditar [você, o brasileiro] que a ex-ministra-chefe de Comunicação Helena Chagas tivesse algo a ver com essa obsessão exige…”.

 

 

Eutanásia ou ortotanásia?

16.March. 2014
por Claudia Atas

O brasileiro é contra ou a favor da eutanásia? Sim, você está certo: antes de opinar, todos deveríamos entender o conceito e desfazer equívocos.

Le Soir (jornal belga): Rei Felipe assina lei sobre eutanásia para menores.

Comento o assunto a propósito da eutanásia sem restrição de idade, aprovada pela Bélgica há pouco mais de um mês. Agora – o rei Felipe sancionou a lei no último dia 3 – o direito à eutanásia, permitida desde 2002 a maiores de 18 anos, se estende a crianças e adolescentes.

A maior parte das pessoas entende eutanásia como o ato de desligar aparelhos de doente terminal ou recusa de tratamento longo e doloroso. Na verdade, estes casos seriam mais apropriadamente chamados de ortotanásia – morte natural, na hora certa. Aí está o ponto que nos interessa.

A Medicina tem recursos cada vez mais eficazes para prolongar a vida – conquista que já curou ou deu qualidade de vida a tantos doentes que não mais se questiona sua utilização.

No entanto, essa capacidade adquiriu, ao longo do tempo, um poder autoritário sobre pacientes e familiares, seja porque vai ao limite do que médicos e pacientes são capazes de dar e suportar, seja pelo tabu da morte “provocada” por se privar o doente de recursos disponíveis.

A polêmica, que vem e vai ao sabor das notícias, como a nova lei em vigor na Bélgica,  alimenta-se da interpretação que se dão aos conceitos de eutanásia e ortotanásia.

Para mim, foi esclarecedora a entrevista que realizei com o especialista em bioética, Leocir Pessini (Leo Pessini, em seus livros), para a revista Medicina Social *:

Padre camiliano e vice-reitor do Centro Universitário São Camilo (…), Pessini conta que há 25 anos luta para esclarecer esses conceitos. “Há quem pense que eutanásia seja desligar os aparelhos que mantêm a vida de uma pessoa com morte cerebral.” Na verdade, esse é um caso típico de ortotanásia, no qual se reconhece a impossibilidade terapêutica de recuperação, como quadros de Alzheimer, demência, Parkinson, ou Aids e câncer em sua fase final. Para o sacerdote e professor, não há dilema quando se esgotam as possibilidades terapêuticas: “Nada se pode fazer na linha de investimento terapêutico de intervenção visando cura, mas há tudo o que fazer na linha do cuidado e do conforto”. 

Em resumo,

 “Entre abreviar a vida, que é a eutanásia, e prolongá-la, a distanásia, situa-se a ideia da morte certa, no tempo certo, no lugar certo. Este é o conceito de ortotanásia, palavra de origem grega cujo prefixo, orto, significa correto”.

As ideias não conflitam; apenas, devem ser compreendidas na perspectiva de morte natural.

A matéria “Morte com dignidade” foi publicada na edição nº. 197 (abril-junho/2007) da revista Medicina Social, da Abramge – Associação Brasileira de Medicina de Grupo. Para consultas, estes são os dados de acesso: Tel.: (11) 3289-7511; Fax: (11) 3266-3975 / 3289-7175; e-mail: abramge@abramge.com.br

O leitor pergunta… E você, responde?

11.February. 2014
por Claudia Atas

A mídia não atrasa 24 horas a publicação de fatos relevantes, mesmo quando faltam informações ou elas se contradizem. Correto– obter e esclarecer informações pode demandar um tempo que certas matérias não podem esperar. Incorreto é deixar o leitor em dúvida, obrigando-o a reler o texto para conferir seu entendimento, e até a consultar outra fonte.

Normalmente, jornalistas deixam claro quando informação e fonte estão momentaneamente indisponíveis e/ou dependem de confirmações e pesquisas. Mas essa prática está sendo negligenciada, como se pode aferir nas quatro matérias analisadas a seguir.

1- Neymar e pai receberam 61,2 milhões de euros

Valor é mais do que 50% superior ao que o Barcelona havia anunciado inicialmente pela transferência (Folha de S.Paulo, 25 de janeiro de 2014, pg. D3)

A descoberta do custo real da transação leva o leitor a perguntar:

Por que os envolvidos combinaram anunciar um valor 50% inferior ao efetivamente pago? Para enganar o Fisco? Se os clubes, o jogador e sua empresa agiram corretamente, por que construíram essa versão?

2- Por que, como o trem descarrilou?

Reportagem do Estadão (23/01/13, pg. A19) informa que um trem descarrilou, derrubando o suporte da rede elétrica, que, por sua vez, provocou um colapso no transporte ferroviário na capital fluminense. O leitor pergunta: como, por que o trem caiu fora da linha? Caiu o trem, um vagão ou vários vagões? Se não houve vítimas, será que uma composição vazia teria colidido com outro trem, este ocupado por passageiros? O que precipitou o descarrilamento? Frustrou-se o leitor que procurou respostas em outros veículos, como O Globo, G1.globo.com e cbn.globoradio.globo.com.  Certamente, ele teria ficado menos insatisfeito lendo na Folha de S.Paulo (23/01/13, pg. C7) texto mais coerente.

“A colisão de um trem com um poste que sustentava a rede elétrica (…) paralisou a rede elétrica (…)” (lead)

Mais adiante, o redator explicitou que as informações precisavam ser complementadas:

“A concessionária (Supervia) ainda investigava as causas do acidente, mas negou que tenha havido falta de manutenção (…)”.

3- A versão oficial sobre o Mais Médicos?

Apesar da ruidosa polêmica sobre a contratação de profissionais estrangeiros que integrariam o programa Mais Médicos, todos – leitores, jornalistas, jornalistas-críticos e jornalistas-comentaristas – fomos surpreendidos com a descoberta da Sociedad Mercantil Cubana Comercializadora de Servicios Médicos, até então oculta. Ficamos sabendo, afinal, que o contrato entre Brasil e Cuba, com participação prevista de 6.000 médicos, não foi intermediado pela Organização Panamericana de Saúde (Opas), como garantia o governo brasileiro. Foi “terceirizado”. O leitor pergunta:

Por que a mídia, embora cética, deixou de investigar o caso? Por que só agora o Ministério Público do Trabalho divulga que o atendimento ambulatorial exercido pelos médicos do programa se caracteriza como “vínculo laboral”, nada se assemelhando a um curso de pós-graduação, ou especialização, como alegado pelo governo?

4- Matéria dá voz a autoridades; liderança do MSTS fica de fora.

O Estado de S.Paulo, 23 de janeiro de 2014, pg. A20

Boa reportagem, bom texto e um injusto desequilíbrio entre protagonistas. Apesar de seus oito mil manifestantes zanzando pela região do Morumbi, o dia todo, e de haver se reunido com o governador Geraldo Alckmin, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto está desfocado no fato que criou. Guilherme Boulos, “um dos coordenadores do MTST”, atua não no papel que lhe cabe no ato, mas como coadjuvante do repórter, estimando indiretamente – sem aspas – valor de moradias. A desproporção é objetiva quando se computam as falas diretas e indiretas dos protagonistas. Compare:

Alckmin promete, governador recebeu, o governo estadual prometeu, a prefeitura informou (duas vezes), segundo a Polícia Militar, o governo decidiu, Torres afirmou (duas vezes), Torres também garantiu, o Ministério das Cidades informou, o secretário disse.

A referência aos manifestantes sugere um “livrar-se do mal maior”:

Quando a marcha chegou ao Estádio do Morumbi, o governo decidiu atender o MSTS para evitar que a multidão avançasse até o Palácio dos Bandeirantes.

Neste parágrafo, a incrível exclusão do MSTS na reunião que conquistou:

“O encontro teve a participação do governador Geraldo Alckmin (PSDB), o secretário estadual da Habitação, Silvio Torres, e o secretário da Casa Civil, José Aparecido.” O lideres, ou os líderes do movimento ficam de fora.

Leitores simpatizantes e não simpatizantes do movimento se perguntam:

Por que nenhum líder falou sobre a estratégia e as expectativas do movimento? Como avaliar o MSTS, suas reivindicações, sua liderança quando falam só as autoridades? Até que ponto as rotinas da profissão e das manifestações anestesiam os jornalistas?

Colocar-se na pele do interlocutor e do leitor não é fácil para nenhum de nós. Mas temos de nos vigiar. Afinal, esse é um dos maiores desafios para os comunicadores, especialmente ao lidar com as diferenças.

Três “cases” de sucesso: III- publicidade em formato jornalístico

21.January. 2014
por Claudia Atas

Meu terceiro exemplo de boa comunicação impressa é um informe publicitário encartado no jornal O Estado de S.Paulo (9/12/ 2013).

Produto bom se prova por algumas qualidades, entre as quais, sem dúvida, a capacidade de atrair o leitor. Peguei, folheei e… li. 60 anos de Osesp (tabloide de oito páginas) merece a atenção de profissionais, particularmente os de comunicação corporativa.

Sobre um modelo tradicional, a produção optou por um design clean e um texto  objetivo, obtendo bons resultados. Entre eles, um informe atraente e fácil de ler. Leitura exige mais que “limpeza”, sem dúvida, mas é sua condição.

Informes publicitários tendem a atulhar o espaço com todas as informações que o cliente deseja ver publicadas. Não raro, acompanhadas de elementos gráficos e fotográficos desnecessários ou excessivos, além de cores que brigam com o texto. Essa ornamentação pode atender a preferência do cliente, mas, entre os publicitários, não são poucos os que adoram enfeites ou os adotam antecipando-se ao que presumem ser o gosto do freguês.

Clientes podem preferir a publicidade barroca. Mas é função do prestador de serviço oferecer, sempre, alternativas que privilegiem o fundamental da publicidade, com algumas exceções: a informação objetiva.

Osesp 123123

O informe da Osesp diz a que veio, sem rodeios, sem o tão abusado nariz de cera – separa as sessões objetivamente e usa tipografia elegante, leve e facilitadora.

Objetividade, a meu ver, é a maior virtude do trabalho – o que não o livra de algumas impropriedades, como certas fotos “insossas”, genéricas; a falta de título para amarrar a página dupla (acima); e os esquemáticos títulos de seções (retrancas). Mas o leitor, sem dúvida, saiu ganhando.

Três “cases” de sucesso: II – o anúncio de La Bohème pela prefeitura de São Paulo

6.January. 2014
por Claudia Atas
O Estado de S.Paulo, 09/12/2013, pg C5

O Estado de S.Paulo, 09/12/2013, pg C5

Está mais do que na hora de conceituar “case de sucesso” como usado nesta série. Aqui está: é o produto de comunicação impressa que me caiu às mãos, me atraiu e me entusiasmou. Ou seja, as escolhas não resultam de levantamento e o critério de qualidade é totalmente subjetivo.

Em outras palavras, os três cases desta série constituem, a meu ver, exemplos da boa comunicação – status que, num blog lido por estudantes, acadêmicos e profissionais de comunicação, adquire significado de elogio e aplauso.

Neste sentido, meu segundo exemplo (o primeiro foi publicado em 9 de dezembro de 2013) é o anúncio que a Prefeitura de São Paulo publicou nos jornais para divulgar a temporada de La Bohème.

A ideia e a execução (veja ao lado) resultam em uma peça criativa, charmosa, com apelo adequado à natureza estética do serviço. Enfim, uma guinada, em se tratando da conjugação ópera-Teatro Municipal, relativamente ao padrão de publicidade usual.

Três “cases” de sucesso: I – texto de embalagem

9.December. 2013
por Claudia Atas

Semana de boas surpresas no marketing, em termos de embalagem, anúncio e informe publicitário (tabloide).

Começo pela caixinha de sucos “Do Bem”, que extirpa, do estilo coloquial, os detestáveis tons de sapiência, falsa intimidade e conselheiro do consumidor.

Do Bem embalagem

Discorrendo com imaginação, humor, elegância e, acima de tudo, equilíbrio, o “narrador” dá o seu recado sem ser invasivo nem impositivo – o que costuma acontecer com frequência na ânsia de muitos profissionais em conquistar, identificar-se com o consumidor.

Quem são esses produtores?

Jovens cansados da mesmice. 

Recomendação antes de beber?

Agite (as laranjas agradecem)

 

Do Bem embalagem SAC

Ao descrever o método de produção, o redator adiciona invencionices agradáveis, no limite do bom senso, e, pasmem, sem os erros de português com que a publicidade procura imitar o discurso verbal.

“… as laranjas são beeeeeem lavadas, espremidas, gentilmente lavadas…”

Outras boas sacadas são o nome do SAC

Fale, fale, fale 

e a opção para o contato via Correios:  

se preferir à moda antiga, Rua Visconde de Pirajá…

Em suma, um estilo que, além da compatibilidade com seus prospects, demonstra maturidade e coerência.

Na próxima semana, comento duas outras peças que merecem elogios.

Na próxima semana, comento duas outras peças que merecem elogios.

 

 

 

 

Tentações irresistíveis

27.November. 2013
por Claudia Atas

Quem não se deixou seduzir por palavras, frases, legendas e títulos “ideais” ou “adequados” à matéria que, no entanto, foram banidos em uma leitura crítica?

É disso que trato, hoje. Os três exemplos publicados aqui contêm, a meu ver, falhas e impropriedades de redação ou edição. Veja o que você acha:

1- Legenda ou foto inadequada?
 
O Estado de S.Paulo, 19/9/2013, pg. A 34 Multidão. Tentativas de enganar fiscais foram descobertas.

 

Uma das lições que aprendi foi a coragem de jogar fora o que é bom, bonito, diferente, mas… inadequado ao contexto. No caso, a foto (Rock in Rio) remete a assunto desconectado do aspecto tratado na legenda. Alguns leitores acharam que os fiscais da legenda estavam checando a segurança da moça suspensa por cabos de aço. Nada disso: o assunto deles era outro assunto, como se lê no texto em destaque.

 

2- Sensibilidade também é critério de escolha

Palavras carregam significados e estes devem ser levadas em conta, especialmente se a conotação pejorativa estiver em jogo. Nem o IBGE nem a imensa maioria dos comunicadores ousa chamar pessoas com pouca, ou baixa ou nenhuma qualificação profissional de “desqualificados”. Foi o que fez a Folha (6/10/2013, Capa).

 

3- Estilo coloquial parece fácil, mas não é. 

 Comumente, a língua culta, nosso instrumento de trabalho, interfere na redação ou domina o discurso. O resultado geralmente é ruim, como se vê no fecho deste anúncio (site da Tea Connection), que força o coloquial, inclusive com uma pergunta artificialmente construída.

Estilo Coloquial - Esforço