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Cuidados e recursos que melhoram o texto

25.February. 2019
por Claudia Atas

post-fevereiro-2019Redações podem ser bem escritas ortográfica e gramaticalmente e, mesmo assim, resultar em uma leitura sem qualidades cobiçadas, como fluência (ritmo e boa sonoridade, inclusive na leitura mental, que todos fazemos naturalmente). Em outras palavras, leitura fácil de ler e de compreender.

O que atravanca a redação? Observe, nas frases abaixo (comparações entre originais de noticiários de jornais e as minhas versões), que existem recursos fáceis de aplicar, seja quando você redige seja quando você relê o que escreveu.

1-  Manchete de jornal: Bebianno reconhece que deve ser exonerado 

Este exemplo é um alerta para ambiguidades que confundem o leitor. Dever é um verbo muito usado, em seus dois sentidos: obrigação e probabilidade. No caso dessa manchete, os dois significados são admissíveis.

– o ex-secretário-geral da presidência, Gustavo Bebianno, admite a possibilidade de o presidente Jair Bolsonaro exonerá-lo (o que não vinha admitindo)

– Bebianno admite que o presidente tem o dever de exonerá-lo já que acredita que conversa por aplicativo não é igual a conversa por telefone, e, portanto, ambos não “conversaram” – ou seja, ele, Bebianno, mentiu.

Ao bater o olho na manchete, a impressão vem primeiro; depois é que o leitor interpretá-la. Assim, você pode discordar da segunda interpretação, acima, mas ela é verossímil. Poderia traduzir o seguinte raciocínio: políticos produzem arranjos em que uma das partes cede na queda de braço em troca de futuros favores.

2- Noticiário sobre o reajuste do IPTU EM 2019:

A frase pode ser mais clara e direta.

Original:

Há duas ocasiões em que existe previsão legal para cobrar mais de 10% de reajuste: quando reformas aumentam a área útil do imóvel ou quando há valorização de mercado e deixa de valer a faixa de desconto proporcional, aplicado a plantas com valor de R$ 180 mil a R$ 320 mil.

Minha sugestão:

A legislação prevê duas situações para reajuste maior que 10%: a valorização por meio de reformas que aumentam a área útil do imóvel e a valorização pelo mercado, devido a outros fatores. Assim, o valor do imóvel pode sair da faixa de desconto proporcional – plantas com valor entre R$ 180 mil e R$ 320 mil.

3 – Noticiário sobre aposentadorias com tempo especial

Este exemplo mostra excesso de preposição e como a leitura poderia ser mais clara, rápida e precisa.

Frase original:

O número de trabalhadores com direito à contagem de tempo especial por insalubridade recuou 6,03% desde o início da crise econômica, ao passar de 706,3 mil, em 2014, para 663,7 mil, em 2017, de acordo com dados da Secretaria de Previdência do Ministério da Economia.

As sete preposições “de” já indicam uma sequência de texto alongado e não trabalhado de modo a facilitar a leitura. Esta questão é importante para textos que usam termos específicos, datas e porcentagens.

Minha sugestão:

O número de trabalhadores com direito à contagem de tempo especial por insalubridade recuou 6,03%, desde o início da crise econômica : passou de 706,3 mil, em 2014, para 663,7 mil, em 2017, segundo a Secretaria de Previdência do Ministério da Economia.

4- Carta de visitante em site dedicado ao terceiro setor

O exemplo vale para mostrar o que parece impossível: esquecer a informação, ou o objetivo principal ou, ainda, ser genérico e invalidar o próprio texto!

Frase original:

Sou Assistente Social aqui do Rio, alguém sabe me dizer se tem alguma oportunidade para área de consultoria/assessoria ?

A generalização invalida a própria oportunidade solicitada, mesmo se feita em ambiente ultra favorável (o que não foi o caso).

5 – Noticiário sobre a polêmica em torno das sacolas biodegradáveis

Este exemplo adverte sobre o uso da ironia, estilo simpático, em geral, e inadequado, algumas vezes.

Frase original:

Apesar do sucesso no mercado, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e o Ministério do Meio Ambiente não têm grande simpatia pelas sacolinhas oxibiodegradáveis.

Não tem grande simpatia? Pelo contrário, lutavam contra. No corpo da notícia, o repórter revelava que, segundo o MMA, o plástico da sacola biodegradável se fragmenta em pedaços menores, ou seja, podem se depositar em rios e ser ingeridos por peixes e outros animais.

Minha recomendação:

Ironia é um jeito simpático de dizer o contrário do que se pensa. Veja:

– “nada mal ganhar um milhão de reais na loteria”, quando a intenção é expressar “como seria bom ganhar um milhão na loteria”.

– “ele não é nenhum Rui Barbosa”, quando se avalia a pessoa como medíocre ou pouco inteligente.

Mas, antes de inserir expressões irônicas, como essas, é bom lembrar que a ironia pode ser inadequada, mesmo quando se adota o estilo coloquial.

Relatórios (técnicos ou não) e textos persuasivos não combinam com a ironia. Esse modo intimista, engraçado e mordaz pode, no limite, reduzir a intensidade do foco em questão. Um contrassenso… Manter o leitor concentrado no foco é o que todo bom comunicador luta, linha por linha, para conquistar.

Mídia nossa de todo dia: a Brexit ou o Brexit?

21.January. 2019
por Claudia Atas

brexitEm tempos de ataque à mídia, previno o leitor de que vou “falar mal” do jornalismo. Não da instituição jornalística, mas de erros gramaticais que os Mjornalistas cometem.

Apontar incorreções e explicar a versão correta não é desmerecer os veículos citados, nem o papel da imprensa. Como poderia? Imprensa livre é conquista democrática, um bem para ser valorizado e protegido de ameaças autoritárias.

Criei a série Mídia nossa de todo dia porque vejo, nas incorreções a serem apontadas, “ganchos” para um trabalho didático: explicar por que se deu o erro e oferecer solução correta.

É uma proposta, um estímulo para se alcançar e manter uma redação correta, clara e coerente. Tanto jornalistas quanto leitores deste sita podem se beneficiar com este tipo de alerta.

Vamos começar pela consagração do erro: aquele que praticamente todos cometem e o certo parece errado. É o caso de “a Brexit” – português correto vencido pelo errado, “o Brexit”, situação que lembra um dos posts campeões de visualização, neste site: “São precisas: o certo que soa errado.” (2012).

Criado a partir de Britain (Bretanha) e Exit (saída), o acrônimo Brexit refere-se à separação que o Reino Unido* negocia com a União Europeia (UE), bloco econômico e político formado por 28 países europeus.

Na gramática inglesa, o artigo definido “the” é neutro, não precisa concordar em gênero e número com os substantivos que define (the woman/a mulher; the man/o homen; the homem/as mulheres e the men/os homens).

Em português, no entanto, os artigos precisam concordar em gênero e número. Portanto, falando ou escrevendo Brexit, deveríamos usar o artigo definido feminino singular “a” – “a” Brexit – porque a tradução de Exit (tanto do original, em latim, quanto do inglês) é saída, substantivo feminino.

Mas se “todos” falam “o Brexit”, você precisa da disposição e paciência para encarar o espanto da maioria. Que tal começar escrevendo o certo e gerar um debate nos seus grupos?

Você pode usar exemplos corretos para esquentar a  discussão  – fan page e login, que definimos, corretamente, como “a fan page” (porque o substantivo é a página); “o login”, que traduz “o acesso” ou “o registro” (para contas de e-mail, sites, etc.).

Pessoalmente, creio que o caso de Brexit não está definitivamente consagrado. Portanto, pode ser revertido.

No próximo post da série Midia nossa de cada dia trataremos de outros erros gramaticais que passam despercebidos.

Técnicas de memorização como ferramenta para enfrentar o vestibular

26.December. 2018
por Claudia Atas

memoriaProvas que exigem um “bom português” – como nos vestibulares e no mercado de trabalho – criam ansiedade e estresse aos candidatos. Como compreender o que está difícil entrar na sua cabeça? Como aproveitar ao máximo aquilo que você sabe, mas esquece, confunde?

Acredito que erros gramaticais (entre outros) podem ser reduzidos e resolvidos com a determinação de “tirar a limpo” aquilo que você não entendeu. Se você se irrita com determinados problemas e se recusa, psicologicamente, a enfrentá-los, será difícil superá-los. Sugiro que você se inspire em um dos seus heróis e desafie-se para decifrar o enigma. Não vejo outra saída.

Também não vou omitir que, mesmo superando o problema de entender, você precisará derrubar a barreira seguinte – memorizar o aprendizado. Mas esse não é um problema tão cabeludo. Existem técnicas.

Se erramos porque não nos lembramos do que aprendemos, precisamos atacar esse obstáculo. Geralmente, ao compreendermos um problema, achamos que ele pode cair na prova – até torcemos para ele estar lá. No entanto, somos apanhados numa armadilha dolorosa: o branco, o raciocínio que escapou, as palavras que fugiram.

Há um curso que faz muito sucesso na plataforma Coursera – Aprendendo a Aprender. Ao longo do curso, a criadora e apresentadora, Barbara Oakley, insiste na importância da recordação e como praticá-la.

Pincei estas instruções porque podem ajudá-lo:

  1. “tentar lembrar os principais pontos do texto que você leu, mas, desta vez, sem olhar na página”,
  2. (não olhar o texto) “é uma das melhores formas de construir a associação em blocos (de informação)”.
  3. “recordar o assunto em lugares diferentes daquele em que você originalmente aprendeu, para que ele fique mais profundamente enraizado e acessível, independentemente do lugar em que você está. Isso pode ser muito útil em testes.”

Achei especialmente importante o que ela denomina ilusões de competência no aprendizado:

  1. “Aprenda a reconhecer quando você está se enganando sobre quanto você está realmente aprendendo o assunto”
  2. “Teste-se com frequência. Use pequenos mini testes para ver se você, de fato, está aprendendo ou se está se enganando, achando que está aprendendo quando não está. Recordar é, na verdade, uma forma de mini teste”.
  3. “Tente evitar depender demais de marcações, que podem enganá-lo, fazendo-o pensar que o material está entrando em seu cérebro, quando não está.”
  4. “Erros são bons quando se está aprendendo. Eles lhe permitem identificar ilusões de competência.”

Se você quiser saber mais sobre o Coursera e Aprendendo a Aprender, este é o  link: https://pt.coursera.org/learn/aprender?action=enroll

Por que é tão difícil falar e escrever “um bom português”?

28.November. 2018
por Claudia Atas

Falar e escrever bem é tarefa difícil até para os melhores participantes de concursos como ENEM e Fuvest.

Gramática, em rigor, exige atualização e consultas permanentes dada a complexidade de algumas regras e, também, devido às contradições entre os próprios especialistas. É comum encontrar, para vários casos, gramáticos e dicionaristas que autorizam “o errado” e desautorizam “o certo”, tornando aceitável o inaceitável e vice-versa.

Cito dois exemplos: a expressão  em rigor, tida como correta, mas preterida por a rigor,  preferida por 9 entre 10 redatores brasileiros; e a polemizada conjugação do verbo adequar para as três primeiras pessoas do singular – “adéquo”, “adéquas”, “adéqua” – defendidas pelo linguista/dicionarista Antonio Houaiss e condenada pelos “tradicionalistas”.

Portanto, redatores em situação de formalidade plena, como ocorre em vestibulares e concursos públicos, atenção para essas discussões e, na dúvida, optem pela gramática tradicional.

A questão “bom português” envolve outros fatores, como as exigências de acordo com faixas etárias (criança/adulto) e o contexto cultural de quem escreve e sobre o que escreve (particularidades regionais, por exemplo).

Neste blog, o objetivo é ajudar os visitantes a melhorar sua comunicação escrita. Portanto, os textos precisam ser gramaticalmente impecáveis, porém, sem os “exageros” da norma culta.

De fato, com eventuais exceções, aqui você encontra textos gramaticalmente corretos e certo nível de sofisticação no vocabulário e na construção das frases.

Essas características, porém, não significam que a autora não erre de vez em quando. Como sei dessa probabilidade, raramente escrevo sem consultar dicionários e professores de português. Posso ter um bom nível, mas sofro quando não me ocorre o termo preciso para determinada circunstância, ou quando desconfio que as regras possam ter mudado.

Escrever bem é cansativo. Especialmente para quem não pretende ser educador. Preciosismos gramaticais, regras que caem, retornam e caem novamente; vocabulário e estilos ultrapassados; polêmicas em torno do certo e do errado; criações “por conta própria”, como campi, na gramática oficial, e câmpus, que o jornal O Estado de S.Paulo criou e usa para se referir ao conjunto de campos de uma universidade.

As dificuldades vão além do desconhecimento das regras gramaticais. Muitas delas exigem memória. Você já pesquisou a diferença entre em vez de e ao invés de – mas vive esquecendo. Aprendeu a crasear “devido à distância, costumo ir de avião”, mas lhe dizem que para tirar a crase quando se trata de ensino a distância.

Também já lhe ensinaram que o “núcleo do sujeito” determina a concordância verbal – como no caso de “foram usados 10 milhões de sacolas” ou “10 milhões de sacolas foram usados”; mas os jornais costumam desprezar o núcleo e usar o complemento do sujeito: “foram usadas 10 milhões de sacolas”, quando dez por cento dos alunos faltaram às aulas podem ser feitas a distância.

O assunto é complexo. Vai além das regras e parece ganhar relevância o que cai no gosto ou no desgosto da mídia e da população, como mostram esse e centenas de exemplos publicados diariamente nos jornais.

Não se pode resumir o problema a um ou dois culpados, como alguns simplificam – o aluno que não aprende, a língua que é complexa, o jornalista que subverte as regras e as regras que são obsoletas, ou inconstantes. O tema merece – voltarei a comentá-lo.

Entrevista, a arte de perguntar e ouvir

29.October. 2018
por Claudia Atas
William Bonner e Renata Vasconcellos entrevistam o presidenciável Ciro Gomes no estúdio do Jardim Botânico - 27/8/2018

William Bonner e Renata Vasconcellos entrevistam o presidenciável Ciro Gomes no estúdio do Jardim Botânico – 27/8/2018

O desastrado comportamento de William Bonner e Renata Vasconcellos nas  entrevistas do Jornal Nacional com cinco dos candidatos à Presidência da República converteu-se em ponto de inflexão.

Transmitida ao vivo (agosto-setembro passados) e ancorada em um esquema racionalmente articulado – temas que marcam cada uma das candidaturas; questionamento de pontos polêmicos; e viabilidade de pontos dos respectivos programas de governo – a série tinha tudo para ser uma inflexão positiva.

Não foi. A meu ver, a pauta “minutada” conteve a entrevista como uma camisa-de-força. Aflita, por vezes agressiva, a dupla abortou opiniões e argumentos dos convidados. Insistiu na correção do que considerou desvio do foco. Aferrou-se ao tempo reservado a cada resposta – embora não informado aos convidados, nem ao público.

No primeiro encontro, Ciro Gomes conseguiu falar menos de 16 minutos dos 27 concedidos a cada candidato*. Marina Silva, a quarta entrevistada, falou pouco mais de 17 minutos e sofreu 26 cortes.

Protagonismo exacerbado, obsessão pelos minutos para cada tema, o tom imperativo e o irritante intervencionismo travaram as cinco entrevistas. Nada foi mudado até o último programa. Os editores-apresentadores-entrevistadores insistiram no erro.

Tempo de ouvir x tempo de perguntar

Interrupções podem ser necessárias, interromper é questão de habilidade. Bonner e Vasconcellos pareciam aptos para usar um gesto firme, mas diplomático; enérgico, mas cortês. O que vimos esteve mais próximo de um cala-a-boca.

Nada mais paradoxal que armar um espetáculo cívico e subtrair dos candidatos tempo e liberdade para explicarem seus programas de governo e se defenderem de acusações de ilicitudes, contradições e outros eventuais pecados levados à arena do Jardim Botânico.

Razão e emoção formam um bom tempero. Desta vez, o resultado desandou diante da pobreza nos ganhos de informação e a perda de excelente oportunidade para avançar a qualidade desse tipo de entrevista.

A série do JN enriqueceu meu treinamento – Entrevista, a Arte de Perguntar e Ouvir – exatamente por contrariar princípios e técnicas que recomendo nesse conteúdo. Neste sentido, a dupla de entrevistadores poderia ilustrar o que não fazer. Por exemplo,

1) não basta ser jornalista bem formado e experimentado.

2) pauta é guia, não um torniquete para conter entrevistados e entrevistadores.

3) discussões são previsíveis; imprevisíveis são os rumos que podem tomar.

4) excessos devem ser coibidos quando ocorrem – nunca por antecipação, cingindo o entrevistado em camisa de força (que, por sinal, já existia: a natural pressão do tempo em televisão).

5) “programa de entrevista” dentro de jornal televisivo é inserção inadequada (no caso do JN, a pressão do tempo, normalmente forte, aumentou).

6) equilíbrio é fundamental – nem protagonismo nem sujeição entre entrevistador e entrevistado. Aqui, vale registrar que o protagonismo dos entrevistadores da série pode ter refletido a preocupação de não serem “abatidos” pelo peso político do entrevistado.

Oferecer ao público informações úteis e confiáveis é o ápice de um processo relativamente longo, que envolve várias partes e muitas obrigações: compromisso com a verdade, respeito ao interlocutor e ao público, capacidade de ouvir e compreender o entrevistado e, no caso de trabalho gravado, discernimento e lisura para selecionar o material a ser divulgado.

Essas considerações me levaram a qualificar de desastrosos o formato do programa e o comportamento de Bonner e Vasconcellos na série com os presidenciáveis.

* Ciro Gomes, Jair Bolsonaro, Geraldo Alckmin e Marina Silva
(até 25 de agosto, Luiz Inácio Lula da Silva, líder nas intenções de voto,   estava (como está) impedido de dar entrevistas).

Estrangeirismo e o tortuoso processo de aportuguesar palavras

20.September. 2018
por Claudia Atas
Adaptado do original in: http://blog.opovo.com.br

Adaptado do original in: http://blog.opovo.com.br

Aportuguesar, afrancesar, britanizar, japonizar… palavras. Países adotam palavras estrangeiras basicamente pelo gosto popular e por falta de tradução precisa, fácil, curta no idioma do país importador. Faz sentido. Mas a decisão de manter a grafia original ou adaptá-la – em nosso caso, aportuguesá-la – nem sempre é clara e coerente.

Inconsistência grave, a meu ver, ocorre com imbróglio. Tente falar como está escrito: vai soar imbrólio. Não seria natural, então, adotar imbrólio? Contudo, temos obrigação de escrever como os italianos (com exceção do acento agudo), e falar da maneira mais difícil: “imbroglio” – sorte dos italianos, que escrevem glio e falam lio!

Como explicar o aportuguesado filé mignon? Os franceses escrevem “filet mignon”, mas nós ficamos no meio a meio: criamos filé, como pronunciado aqui e na França, e mantivemos o original mignon – um gn que não se fala e não se escreve em português. Conclusão, a iguaria deve ser escrita metade em francês, metade em português. Por que não foi adotado o “filé minhom”? Teríamos assimilado num instante. Agora é tarde.

As grafias mousse (original) e musse (aportuguesada) convivem sem conflito nas publicações brasileiras, para designar um doce com a leveza da espuma (do mar, do espumante). Fica a dúvida: pode-se optar por uma ou outra grafia ou existe opção certa e opção errada, gramaticalmente falando?

O caso de “laser” e “container” é instigante: por que, sendo graficamente assemelhados, “laser” e “container” receberam tratamentos distintos? Embora laser seja a forma predominantemente usada no Brasil, a dupla grafia (laser e lêiser) está contemplada no Houaiss. No entanto, contêiner, aportuguesado, tornou-se forma única e, portanto, obrigatória.

Processo tortuoso

“O mundo não é tão azul”, consola Fernanda Pompeu, escritora e educadora online de redação e português (Acelera Texto). Sobre as incoerências do processo, dá algumas pistas:

“Quem decide pelo aportuguesamento das palavras estrangeiras são os dicionaristas”, diz Fernanda. O critério usado por Aurélio Buarque de Holanda e Antônio Houaiss era “a permanência do uso e a quantidade de registros em livros, jornais, etc.”, afirma.

Um exemplo: “A inglesa shampoo, foi aportuguesada, pelo Houaiss, para xampu. Mas “xampu” não pegou, as embalagens continuam com shampoo. Já hambúrguer (para o original hamburger) pegou total. Ou seja, quem acaba decidindo mesmo é a maioria dos usuários da língua”.

O aportuguesamento de palavras também se dá pela Academia Brasileira de Letras, com o VOLP – Vocabulário da Língua Portuguesa. “Toda vez que o VOLP é atualizado, mais ou menos de dez em dez anos, uma comissão analisa quais palavras estrangeiras serão aportuguesadas, isto é, adicionadas ao vernáculo”, conta Fernanda. “Critérios? Acho que estão na cabeça de cada um desses notáveis.”

Para ela, a questão sobre o que é gramaticalmente certo e errado também é relativa. “O que está no dicionário é considerado o certo. Porém o usuário pode optar pela palavra estrangeira (no seu original). Ou seja, ele não é obrigado a usar o aportuguesamento. O que ele não pode fazer é aportuguesar por conta própria”.

Duas recomendações

1- Sempre conferir, em registros mais formais, como redações em concursos e vestibulares, se a palavra entrou no vernáculo. “Se entrou, use-a. Se não entrou, mantenha o original. Como fazer? Recorra ao VOLP da ABL. Existe no online”.

2- Sempre observar o uso. “Com algumas expressões e palavras, a tradição manda mantê-las no original: à la carte, à doré, apartheid, impeachment, art nouveau, axé, bike, etc.

Também ficam no original todas as palavras e expressões latinas. Pois o latim não é estrangeirismo, é raiz da própria língua”.

Aproveite o melhor dos publicitários: atrair e motivar o público alvo

29.August. 2018
por Claudia Atas

estilo-4-publicidadeNão subestime o poder dos anúncios publicitários. Mensagens solidárias, compreensivas, lisonjeiras e graves como conselho de mãe têm um alvo bem estudado: o consumidor que existe em você.

A simplicidade dos bons anúncios é inversamente proporcional à complexidade da sua produção, que envolve diferentes especialidades e técnicas. O resultado que chega a você é aparentemente singelo, mas com potencial para provocar uma experiência, motivar a compra, manter a fidelidade de marcas, produtos e serviços.estilo-4-made-in-china

Clara, concisa, coloquial e persuasiva, a linguagem publicitária pode ajudar profissionais de qualquer área a escrever melhor. Mas deve ser usada com discernimento porque está a serviço da persuasão, manipulando corações e mentes.

Pressionados a vender, publicitários muitas vezes adulam, (mal) aconselham e usam informações parciais ou inverídicas – caso de anúncios e folhetos de cremes cosméticos que garantem o rejuvenescimento de rostos enrugados.

Com essa precaução, observe como o estilo publicitário pode mudar ou melhorar a sua redação:

Comunicação estratégica em três linhas

Hoje, o profissional de RH tem um papel fundamental na transformação digital das empresas. Conheça o Digital Talent Program aqui no vídeo e veja como transformar a sua empresa  no lugar que todo mundo vai querer trabalhar. (Rede LinkedIn, em 23/8/18)

Ajuda a entender como se constrói uma mensagem eficiente em pouco espaço. A redação é clara, , “dinâmica”. Note a objetividade: nenhuma palavra a mais nem a menos. E todas trabalham pelos objetivos da empresa.

Você não precisa “colar” o texto, mas aproveitar sua estrutura. Observe:

Na primeira linha, a empresa atrai seu público-alvo. Os clientes potenciais são motivados a continuar a leitura com mais informações a partir de um click. Na última linha, o redator conclui a mensagem com uma boa fase de efeito.

Autopromoção velada, mas honesta

Use este recurso para promover produtos e serviços da sua empresa e/ou suas habilidades e experiências. É uma troca velada, porém honesta: prospects ganham conhecimento, dicas, instruções úteis, atualização, etc.; e você e/ou sua empresa ganham visibilidade (nós estamos no mercado) e memória (lembre-se de mim, de nós, quando precisar de…).

Um bom artigo ou uma boa informação bastam para essa publicidade velada, porém honesta. Que o diga Rick Young, presidente e proprietário da Rizzo Young (Chicago-EUA). Recentemente, ele escreveu um artigo em seu blog, e publicou uma chamada na rede social LinkedIn, demonstrando a eficácia desse troca-troca.

Neste post, estou mostrando que entendo de Marketing Digital. Goste ou não do estilo do meu texto, em questão de minutos terei alcançado muito mais pessoas do que alcançaria se estivesse explicando isto face a face. (*)

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Ao lado, Café com Bolo, uma redação promocional Fusion Style publicada na Rede LinkedIn.

O jeitão de “post” esconde uma promoção disfarçada – note que a palavra fundamental é ideias.

Não há troca com o leitor, portanto, não se trata de um ganha-ganha. Mas o conjunto é bom e vale ser considerado no âmbito do que vimos analisando.

Títulos eficazes

Assim como slogans, títulos podem atrair a atenção, causar impacto ou… ser ignorados pela audiência. Sempre que possível, use título para indicar o valor do conteúdo.

Publicitários e jornalistas (nem todos, nem sempre) criam títulos excelentes. Normalmente, eles usam jogos semânticos, contradições, comparação por oposição, analogias, palavras da moda (“made in China”, fake news), entre outros.  Veja alguns exemplos e inspire-se neles para melhorar os seus.

“O que nos motiva é trazer o futuro para o agora” – Folhafronteiras, Folha de S.Paulo, 28/4/18, última página.

Nesse empoderamento do homem sobre a natureza do tempo, inverte-se o curso natural do tempo. Nessa metáfora para a inovação, em vários sentidos, o projeto Fronteiras propõe-se a antecipar o futuro.

Esse jogo com o tempo vem sendo bastante usado, desde o clássico “eu sou você amanhã”, mas ainda causa impacto.

Tradicional há cinquenta anos. Inovadora sempre. (agosto/2018)

Com este jogo de oposição, o título do anúncio que a Universidade Santo Amaro publicou na mídia impressa deu a dimensão desejada pela instituição: ser tradicional não significa ignorar conhecimento e tecnologia de ponta.

É hoje!

Anúncio na mídia impressa para comemorar o dia do corretor imobiliário (27/8/18 – pg. A15). Neste caso, o tempo também é personagem principal.

Três passos simples para evitar que boatos e notícias falsas se espalhem (Folha de S.Paulo 27/8/18 pg. A13)

Didatismo explícito. Não ganharia um Leão de Bronze, mas é eficiente: atrai pela informação objetiva do conteúdo, dirigido ao público em geral.

O Mundo Desenvolvido quer ser Made in China

(seguido pelo subtítulo) “A iniciativa para mudar o Brasil partiu de você. A visibilidade que você precisa (sic) pode partir de nós”. Folha de S.Paulo E Estado de S.Paulo (fim de semana, ago/18):

Exemplo de expressão da moda que condensa longa explicação conceitual. A oposição  ”você” e “nós” faz o jogo de iniciativas complementares.

Conteúdo

Cuidado com os excessos do estilo publicitário ao adotar o estilo publijornalístico. Diálogos fictícios com o leitor/ consumidor, em tom de (falsa) familiaridade, conselhos invasivos e informações pouco confiáveis são recursos tão comuns na publicidade que se tornaram “aceitáveis”. Fuja desses expedientes.

Duas regras de redação vão ajuda-lo sempre: o equilíbrio entre a formalidade sem rigor e o coloquial gramaticalmente correto; e a prática de checar informações, descartando as dúbias, não confirmadas, não isentas e preconceituosas.

Em tempo de fake news, o pior do estilo publicitário não deve sobreviver.

 

(*)  “I’m writing a blog post, showcasing that I understand digital marketing. Regardless of whether or not you like my writing style, in a matter of minutes, my voice will reach far more people than it would if I were explaining this face-to-face. https://rizzoyoungmarketing.com/blog/2018/8/19/5-more-key-tips-social-media-marketing

 

Cinco sugestões para redigir texto de opinão

28.July. 2018
por Claudia Atas
 Folha de S.Paulo, 19/5/2018

Folha de S.Paulo, 19/5/2018 – Cotidiano

Texto opinativo precisa de opinião. Redundância? Sim, mas ela cabe na frase ao lado. Por exemplo, você lê um texto sobre um tema e a opinião não aparece. Ela pode estar lá meio oculta, indireta, embutida num “estilo enviesado” – tema deste terceiro post da série Estilos.

Coluna recente de Tati Bernardi na Folha de S.Paulo é um bom exemplo dessa situação. A partir do título “Meghan Markle pode ser feminista e princesa ao mesmo tempo?” (19/5/2018), acreditamos que a autora analisará a questão proposta no título, dizendo-se a favor ou contra. Ela opina, mas não como esperamos.

O texto se desenvolve por rodeios, com mais perguntas, em tom confessional, provocativo, meio bem meio mal humorado. No final, a autora joga a bola para os leitores, sem assumir sua opinião – explicitamente, porque a opinião – ela está enviesada.

Se você não é escritor…

… tenha em mente que escritores, roteiristas, cronistas e colunistas em geral são livres para escolher temas, formas, estilos. Não os redatores da comunicação empresarial, assim como estudantes de olho nas provas do Enem, Sisu, Fuvest e assemelhadas.

Em outras palavras, o exemplo em questão é ruim para quem, nesses contextos, precisa analisar, opinar e convencer pessoas – público que frequenta este blog.

Portanto, neste artigo, sirvo-me do texto sobre o “duvidoso” feminismo de Meghan Markle para apontar cinco aspectos que estudantes e profissionais de ambientes  corporativos devem evitar.

A intenção neste, como nos posts anteriores da série (protagonismo  e  construções indesejáveis), é ajudar quem precisa redigir manifestando seus pontos de vista.

Polêmica

Começo com o contexto. Afinal, não se pode exigir que o leitorado esteja a par da polêmica instalada com opiniões favoráveis e contrárias à afirmação de que Meghan Markle pode ser classificada ou não de feminista.

A ex-atriz abandonou a carreira ao se casar com o príncipe Harry, da família real britânica. Anunciado o namoro, a mídia saiu à caça de informações oficiais e de bastidores, de relatos biográficos e inconfidências. E com elas produziu notícias que, a bem da verdade, sempre atraíram os plebeus.

Mesmo multiplicadas com o anúncio do noivado e do casamento real, as informações disponíveis eram insuficientes para qualificar Meghan de feminista, ou não. A dúvida gerou a polêmica global.

A propósito, vale lembrar o conceito: ser feminista não é prerrogativa de mulheres – há homens feministas – simpatizantes do movimento ou militantes da causa.

Cinco situações de risco

As recomendações a seguir podem evitar problemas graves da redação opinativa. Se observadas, aumentarão suas chances de redigir um texto opinativo claro, coerente e útil para os seus propósitos.

1– Conscientizar-se de que seu objetivo é opinar – não se deixe levar pelo comentário ou pela apresentação descritiva do assunto. Explicite seu ponto de vista em algum momento – começo, meio e/ou fim do texto. Alguns autores preferem o fecho do artigo, propondo, assim, que o leitor acompanhe seu raciocínio passo-a-passo.

Para quem se posiciona no início e/ou no meio do texto, repetir o posicionamento no fecho é oportunidade de reforçar o ponto de vista.

2- Argumentar a favor e contra a questão abordada lhe permitirá tanto defender seu ponto de vista quanto demonstrar as fraquezas do ponto de vista contrário. Além disso, ao não omitir o que pensam seus oponentes, você se livrará da imputação de omisso e parcial.

Argumentos precisam ser consistentes, capazes de sustentar o raciocínio e dar credibilidade à causa e ao autor. (veja item 4)

Nesses quesitos, Tati Bernardi passa ao largo, como veremos mais adiante.

3- Optar pelo estilo “pensar alto”, “pensar com o leitor” pode ser interessante, mas  depende da finalidade do texto e do tipo de público. As crônicas de Tati lhe permitem essa liberdade:

Fiquei me perguntando se uma mulher que larga a carreira (e uma infinidade de interesses e gostos particulares) para se casar pode ser considerada feminista. Ainda mais se o marido é um príncipe. Ainda mais se a bênção é da rainha Elizabeth 2º. Ainda mais se a casa é um castelo.

Observam-se aí, embora enviesados, os argumentos contrários à ideia de que Meghan é uma feminista. Redatores em geral não podem seguir o exemplo da autora – ela não desenvolve as sugestões contrárias ao feminismo. Antes, dá uma guinada inaceitável para textos não literários:

“Amigas mais entendidas logo me recriminaram: “feminista faz o que quer!”.

4- Coerência é indispensável em qualquer tipo de texto – opinativo, informativo, descritivo, persuasivo, etc.

A coerência sustenta a informação/argumentação e o estilo da linguagem. Na coluna “Meghan Markle…” a autora se apoia nas amigas. Mas o nonsense do argumento – feminista faz o que quer – no seu caso, destruiria o texto e a sua credibilidade.

Pois muito bem, eu quero ser 100% sustentada por um aristocrata gato que me peça para abandonar a profissão e me dê uma lista de coisas que eu não posso fazer, falar ou pensar.

A frases na linha do “eu quero” se sucedem até a nova guinada:

“A pergunta aqui é outra: Meghan Markle pode ser feminista e princesa ao mesmo tempo?”

Tudo indica que a autora entrará no tema e explicitará sua opinião. Ela entra, mas não argumenta, apenas joga frases esquemáticas: a duquesa “não lutou por melhores salários para mulheres”, não se manifestou “sobre os desmandos dos machos brancos opressores”.

5- Contexto e imparcialidade possível

Meghan não tem um histórico de luta feminista – ou esse histórico era desconhecido? Ou o foco da imprensa e fãs de Suits (Netflix) dirigiam-se a outras facetas da atriz?

Por princípio (e por zelo), jornalistas e comunicadores buscam complementar um perfil capenga, uma pseudo biografia. Portanto, não hesite em pesquisar informação em fontes seguras.

Nesse quesito, a coluna de Tati deixa os leitores sem “o outro lado” de Meghan. Veja a diferença do perfil quando se consultam sites confiáveis:

Segundo o Diário do Centro do Mundo, a duquesa de Sussex “declara-se feminista”.

Em um conceito simples e didático, o feminismo existe para que as mulheres façam o que tenham vontade de fazer (e não para que suas ações sejam julgadas e problematizadas por outras mulheres). (…)

Algumas mulheres escolhem seguir suas carreiras, outras escolhem o casamento e a maternidade, outras escolhem viajar o mundo, outras escolhem tudo isso junto, outras escolhem casar-se com príncipes e lutar por causas humanitárias, e outras escolhem simplesmente existir (de preferência em um mundo que não as violente).

O mínimo que se pode esperar de um discurso feminista é que se deixe uma mulher viver suas escolhas em paz. Se essa mulher puder e quiser representar a causa, ponto pra ela – e pra nós.

Meu conselho: nunca deixe de pesquisar informações para complementar e explicar posturas e afirmações sobre personagens e fatos.

Evidentemente, o assunto não se esgota nos cinco aspectos abordados, nem se limita ao texto opinativo. Considerar estes alertas e recomendações, contudo, é um meio seguro de atender aos objetivos da sua tarefa e aumentar a qualidade da redação.

Bloco de anotação, o estilo mal construído.

26.June. 2018
por Claudia Atas

O modo de escrever costuma revelar valores, sentimentos, humores, intenções do redator. Esses e outros sinais podem afetar o texto que se pretende impessoal e isento. Como controlar essas interferências? Vigiando o estilo da linguagem e a construção do texto, como expliquei no post anterior .

Estadão, 15/05/2018, pág. A14

Estadão, 15/05/2018, pág. A14

Salvo engano, não existe nomenclatura acadêmica para a questão, tratada no conjunto forma-conteúdo. Por essa razão, criei denominações para  quatro estilos que me chamam a atenção.

Neste post, o segundo da série, trato do “bloco de notas”, estilo em que as informações são agrupadas por categorias e os grupos são dispostos em blocos.

A característica principal desse estilo é a estruturação a partir de verbetes. Eles organizam a ocupação do espaço e distribuem as informações com aparente racionalidade. O leitor obtém a visão geral da matéria, capta seu teor e escolhe a ordem de leitura.

Tais benefícios mostram-se irrisórios diante daqueles trazidos pela boa reportagem. Prega a técnica jornalística que se acomodem as informações em uma estrutura clara, inteligível, e se desenvolva o relato de modo a envolver o leitor, oferecer-lhe uma “história” circunstanciada e, igualmente, fácil de ler.

Não é o que se vê na matéria do Estadão (foto acima), intitulada “Na lista dos 23 da seleção, aposta na versatilidade”.

Montada no estilo que apelidei de “preguiçoso”, a reportagem dispensa o redator da parte quase sempre mais árdua – e mais gratificante – do fazer jornalístico: a transição do que leu, viu e ouviu para o texto jornalístico.

O primeiro dos blocos começa assim:

Critérios

Essa versatilidade, essa ideia, o modelo de jogo, uma forma de atuar.

Para quem não participou da coletiva de imprensa e, portanto, deixou de ver e ouvir a profusão de sinais e gestos, entonações e modulações de voz, essas palavras soam como divagação e remetem à figura da anotação.

Curiosamente, o “lead do bloco” está claramente redigido no lead tradicional que abre a matéria:

Uma seleção brasileira que tenha como principal característica a versatilidade de seus jogadores. É assim que Tite quer a equipe que vai tentar o hexa na Rússia. Foi isso que ele levou em consideração ao elaborar a lista dos 23…

Nos demais blocos, clareza e obscuridade se alternam, em detrimento do leitor.

O conteúdo sob o verbete Geromel, mostra outros aspectos do estilo preguiçoso: transcrição ipsis litteris da comunicação oral para a escrita com perda sentido:

Regularidade de desempenho, alguns aspectos que são individuais de percepção. Coisas como dia a dia de trabalho, treinamento, relações, olhar no olho, momento da mobilização, do jogo. O Grêmio vem mantendo padrão de regularidade em alto nível há dois anos. Começou com Felipão, afirmação com Roger e colhendo frutos com Renato. E o Geromel mantendo consistência em alto nível.

Bloco híbrido

A montagem tem sua face positiva: informações reunidas em grupos relativamente simétricos, parágrafos interdependentes separados artificialmente, é verdade, mas por inofensivo símbolo gráfico; leitura linear, sequenciada, lógica. Em resumo, uma matéria “clean” e fácil de ler, boa para a mídia impressa e digital.

As colunas escritas e administradas pela jornalista Monica Bergamo obtêm ótimos resultados nesse modelo que alia o consagrado com a inovação. Mesmo as matérias à base de “pílulas” ou “drops” cumprem a proposta do formato: notas curtas e independentes. O leitor sabe o que vai encontrar.

Como ficamos?

A diferença entre blocos bons e maus não é determinada pelo formato, e, sim, pela sintaxe. Monica e, no caso, Bruna Narcizo, constroem a narração com frases contextualizadas, claras, objetivas. Já o “bloco de anotações” do Estadão (no exemplo apresentado) dispensa esses cuidados em boa parte do texto, criando anotações vagas, obscuras.

Portanto, o fator determinante da boa qualidade dos blocos, na comparação aqui estabelecida, é a sintaxe, o modo de construir as frases e facilitar a vida do leitor.

Em outras palavras, clareza e da objetividade nunca saem de moda.

 

Estilo e seu reflexo sobre a qualidade da redação

28.May. 2018
por Claudia Atas

Você não está a salvo: o modo de escrever revela muito do autor, mesmo na elaboração de textos não literários. Intenções, sentimentos, humores e valores rondam a redação e podem interferir positiva ou negativamente no resultado.

Em outras palavras, é ilusão anderson-aires-estilospensar que basta se concentrar na redação para se proteger de interferências, internas e externas. Vigiar o estilo da linguagem e monitorar a construção do texto são recursos mais efetivos. Afinal, o jornalista não escreve para si, escreve para o leitor.

Selecionei quatro exemplos para analisar essa questão, aqui tratada como estilo associado à forma.

À falta de denominações gramaticais específicas, criei as minhas:

Estilo ou Redator 1- narcisista; 2- preguiçoso; 3- enviesado; e 4- publijornalístico.

Começo pela primeira e deixo as demais para as próximas publicações.

Narcisista, ou a competição entre fato e narrador.

O narrador protagonista coloca o redator/apresentador no primeiro plano, em detrimento do fato, do produto, do serviço, da causa que motivou a divulgação. Ele se projeta, mas não por suas experiências, realizações e valores pessoais, como nos “testemunhos”, ou seja, depoimentos com os quais se busca dar credibilidade ao que se divulga ou promove.

Ao contrário, o narcisista se torna figura principal porque usa excessivamente o pronome “eu”, a conjugação na 1ª pessoa do singular, os possessivos meu/minha/meus/minhas.

Nesse modo narrativo, há pouca empatia: o público geralmente toma o narrador como personagem vaidoso, arrogante, pretensioso.

Adorei a foto comigo no palco

Em uma rede social, um executivo que ocupa elevada posição em uma multinacional, noticiou a demonstração de um produto. Essa demonstração se deu em evento tido como o mais respeitado do setor (marketing e comunicação digital), no Brasil. Em cerca de oito linhas, dizia:

(…) eu fiz no palco um pequeno experimento ao vivo onde conversei com um pão de forma. (Uma revista publicou) um pequeno artigo sobre isso e o que falei resumidamente sobre Inteligência Artificia (…). Adorei a foto comigo no palco (crédito da foto) e o display gigante por trás, com a imagem do pão de forma no meu iphone.

Em novo post, cede o primeiro plano para público e produto (destaque em azul), para, logo depois, reassumir o protagonismo:

(O vídeo mostra) o momento que faço uma demonstração (…). Dei o exemplo de um supermercado. (…). Imagine vc entrando no mercado c/ um smartphone e apontando o aparelho p/ um produto na prateleira. Ele reconhece qual é o produto e você pode conversar c/ele em linguagem natural, como se estivesse numa conversa c/ uma pessoa. Fiz essa demo no palco, ao vivo, no meuiPhone, onde conversei c/ um pão de forma… perguntando sobre data de validade, se tem glutem (sic) sobre sua composição e até uma receita bacana p/ fazer com ele. (…) Adorei!

Mesmo que você seja excelente profissional, famoso e bem-sucedido, resista: coloque o fato no primeiro plano. Há outros meios de ser simpático e convincente.

Por oportuna, copio a advertência de um jovem jornalista aos futuros (e veteranos) profissionais:

“Muitas vezes ficamos apegamos aos nossos textos, achando que é a coisa mais maravilhosa do mundo. Só que não é. Aliás, o jornalista/repórter nunca pode ser mais importante do que a matéria que ele está escrevendo: o texto não é do repórter, é do leitor”, afirma.

Anderson Aires (trecho da matéria de Ana Carolina Barski, da Ink, agência experimental da Faculdade de Comunicação do Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter), publicada em 26 de maio de 2017