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Entrevista, a arte de perguntar e ouvir

29.October. 2018
por Claudia Atas
William Bonner e Renata Vasconcellos entrevistam o presidenciável Ciro Gomes no estúdio do Jardim Botânico - 27/8/2018

William Bonner e Renata Vasconcellos entrevistam o presidenciável Ciro Gomes no estúdio do Jardim Botânico – 27/8/2018

O desastrado comportamento de William Bonner e Renata Vasconcellos nas  entrevistas do Jornal Nacional com cinco dos candidatos à Presidência da República converteu-se em ponto de inflexão.

Transmitida ao vivo (agosto-setembro passados) e ancorada em um esquema racionalmente articulado – temas que marcam cada uma das candidaturas; questionamento de pontos polêmicos; e viabilidade de pontos dos respectivos programas de governo – a série tinha tudo para ser uma inflexão positiva.

Não foi. A meu ver, a pauta “minutada” conteve a entrevista como uma camisa-de-força. Aflita, por vezes agressiva, a dupla abortou opiniões e argumentos dos convidados. Insistiu na correção do que considerou desvio do foco. Aferrou-se ao tempo reservado a cada resposta – embora não informado aos convidados, nem ao público.

No primeiro encontro, Ciro Gomes conseguiu falar menos de 16 minutos dos 27 concedidos a cada candidato*. Marina Silva, a quarta entrevistada, falou pouco mais de 17 minutos e sofreu 26 cortes.

Protagonismo exacerbado, obsessão pelos minutos para cada tema, o tom imperativo e o irritante intervencionismo travaram as cinco entrevistas. Nada foi mudado até o último programa. Os editores-apresentadores-entrevistadores insistiram no erro.

Tempo de ouvir x tempo de perguntar

Interrupções podem ser necessárias, interromper é questão de habilidade. Bonner e Vasconcellos pareciam aptos para usar um gesto firme, mas diplomático; enérgico, mas cortês. O que vimos esteve mais próximo de um cala-a-boca.

Nada mais paradoxal que armar um espetáculo cívico e subtrair dos candidatos tempo e liberdade para explicarem seus programas de governo e se defenderem de acusações de ilicitudes, contradições e outros eventuais pecados levados à arena do Jardim Botânico.

Razão e emoção formam um bom tempero. Desta vez, o resultado desandou diante da pobreza nos ganhos de informação e a perda de excelente oportunidade para avançar a qualidade desse tipo de entrevista.

A série do JN enriqueceu meu treinamento – Entrevista, a Arte de Perguntar e Ouvir – exatamente por contrariar princípios e técnicas que recomendo nesse conteúdo. Neste sentido, a dupla de entrevistadores poderia ilustrar o que não fazer. Por exemplo,

1) não basta ser jornalista bem formado e experimentado.

2) pauta é guia, não um torniquete para conter entrevistados e entrevistadores.

3) discussões são previsíveis; imprevisíveis são os rumos que podem tomar.

4) excessos devem ser coibidos quando ocorrem – nunca por antecipação, cingindo o entrevistado em camisa de força (que, por sinal, já existia: a natural pressão do tempo em televisão).

5) “programa de entrevista” dentro de jornal televisivo é inserção inadequada (no caso do JN, a pressão do tempo, normalmente forte, aumentou).

6) equilíbrio é fundamental – nem protagonismo nem sujeição entre entrevistador e entrevistado. Aqui, vale registrar que o protagonismo dos entrevistadores da série pode ter refletido a preocupação de não serem “abatidos” pelo peso político do entrevistado.

Oferecer ao público informações úteis e confiáveis é o ápice de um processo relativamente longo, que envolve várias partes e muitas obrigações: compromisso com a verdade, respeito ao interlocutor e ao público, capacidade de ouvir e compreender o entrevistado e, no caso de trabalho gravado, discernimento e lisura para selecionar o material a ser divulgado.

Essas considerações me levaram a qualificar de desastrosos o formato do programa e o comportamento de Bonner e Vasconcellos na série com os presidenciáveis.

* Ciro Gomes, Jair Bolsonaro, Geraldo Alckmin e Marina Silva
(até 25 de agosto, Luiz Inácio Lula da Silva, líder nas intenções de voto,   estava (como está) impedido de dar entrevistas).

Estrangeirismo e o tortuoso processo de aportuguesar palavras

20.September. 2018
por Claudia Atas
Adaptado do original in: http://blog.opovo.com.br

Adaptado do original in: http://blog.opovo.com.br

Aportuguesar, afrancesar, britanizar, japonizar… palavras. Países adotam palavras estrangeiras basicamente pelo gosto popular e por falta de tradução precisa, fácil, curta no idioma do país importador. Faz sentido. Mas a decisão de manter a grafia original ou adaptá-la – em nosso caso, aportuguesá-la – nem sempre é clara e coerente.

Inconsistência grave, a meu ver, ocorre com imbróglio. Tente falar como está escrito: vai soar imbrólio. Não seria natural, então, adotar imbrólio? Contudo, temos obrigação de escrever como os italianos (com exceção do acento agudo), e falar da maneira mais difícil: “imbroglio” – sorte dos italianos, que escrevem glio e falam lio!

Como explicar o aportuguesado filé mignon? Os franceses escrevem “filet mignon”, mas nós ficamos no meio a meio: criamos filé, como pronunciado aqui e na França, e mantivemos o original mignon – um gn que não se fala e não se escreve em português. Conclusão, a iguaria deve ser escrita metade em francês, metade em português. Por que não foi adotado o “filé minhom”? Teríamos assimilado num instante. Agora é tarde.

As grafias mousse (original) e musse (aportuguesada) convivem sem conflito nas publicações brasileiras, para designar um doce com a leveza da espuma (do mar, do espumante). Fica a dúvida: pode-se optar por uma ou outra grafia ou existe opção certa e opção errada, gramaticalmente falando?

O caso de “laser” e “container” é instigante: por que, sendo graficamente assemelhados, “laser” e “container” receberam tratamentos distintos? Embora laser seja a forma predominantemente usada no Brasil, a dupla grafia (laser e lêiser) está contemplada no Houaiss. No entanto, contêiner, aportuguesado, tornou-se forma única e, portanto, obrigatória.

Processo tortuoso

“O mundo não é tão azul”, consola Fernanda Pompeu, escritora e educadora online de redação e português (Acelera Texto). Sobre as incoerências do processo, dá algumas pistas:

“Quem decide pelo aportuguesamento das palavras estrangeiras são os dicionaristas”, diz Fernanda. O critério usado por Aurélio Buarque de Holanda e Antônio Houaiss era “a permanência do uso e a quantidade de registros em livros, jornais, etc.”, afirma.

Um exemplo: “A inglesa shampoo, foi aportuguesada, pelo Houaiss, para xampu. Mas “xampu” não pegou, as embalagens continuam com shampoo. Já hambúrguer (para o original hamburger) pegou total. Ou seja, quem acaba decidindo mesmo é a maioria dos usuários da língua”.

O aportuguesamento de palavras também se dá pela Academia Brasileira de Letras, com o VOLP – Vocabulário da Língua Portuguesa. “Toda vez que o VOLP é atualizado, mais ou menos de dez em dez anos, uma comissão analisa quais palavras estrangeiras serão aportuguesadas, isto é, adicionadas ao vernáculo”, conta Fernanda. “Critérios? Acho que estão na cabeça de cada um desses notáveis.”

Para ela, a questão sobre o que é gramaticalmente certo e errado também é relativa. “O que está no dicionário é considerado o certo. Porém o usuário pode optar pela palavra estrangeira (no seu original). Ou seja, ele não é obrigado a usar o aportuguesamento. O que ele não pode fazer é aportuguesar por conta própria”.

Duas recomendações

1- Sempre conferir, em registros mais formais, como redações em concursos e vestibulares, se a palavra entrou no vernáculo. “Se entrou, use-a. Se não entrou, mantenha o original. Como fazer? Recorra ao VOLP da ABL. Existe no online”.

2- Sempre observar o uso. “Com algumas expressões e palavras, a tradição manda mantê-las no original: à la carte, à doré, apartheid, impeachment, art nouveau, axé, bike, etc.

Também ficam no original todas as palavras e expressões latinas. Pois o latim não é estrangeirismo, é raiz da própria língua”.

Aproveite o melhor dos publicitários: atrair e motivar o público alvo

29.August. 2018
por Claudia Atas

estilo-4-publicidadeNão subestime o poder dos anúncios publicitários. Mensagens solidárias, compreensivas, lisonjeiras e graves como conselho de mãe têm um alvo bem estudado: o consumidor que existe em você.

A simplicidade dos bons anúncios é inversamente proporcional à complexidade da sua produção, que envolve diferentes especialidades e técnicas. O resultado que chega a você é aparentemente singelo, mas com potencial para provocar uma experiência, motivar a compra, manter a fidelidade de marcas, produtos e serviços.estilo-4-made-in-china

Clara, concisa, coloquial e persuasiva, a linguagem publicitária pode ajudar profissionais de qualquer área a escrever melhor. Mas deve ser usada com discernimento porque está a serviço da persuasão, manipulando corações e mentes.

Pressionados a vender, publicitários muitas vezes adulam, (mal) aconselham e usam informações parciais ou inverídicas – caso de anúncios e folhetos de cremes cosméticos que garantem o rejuvenescimento de rostos enrugados.

Com essa precaução, observe como o estilo publicitário pode mudar ou melhorar a sua redação:

Comunicação estratégica em três linhas

Hoje, o profissional de RH tem um papel fundamental na transformação digital das empresas. Conheça o Digital Talent Program aqui no vídeo e veja como transformar a sua empresa  no lugar que todo mundo vai querer trabalhar. (Rede LinkedIn, em 23/8/18)

Ajuda a entender como se constrói uma mensagem eficiente em pouco espaço. A redação é clara, , “dinâmica”. Note a objetividade: nenhuma palavra a mais nem a menos. E todas trabalham pelos objetivos da empresa.

Você não precisa “colar” o texto, mas aproveitar sua estrutura. Observe:

Na primeira linha, a empresa atrai seu público-alvo. Os clientes potenciais são motivados a continuar a leitura com mais informações a partir de um click. Na última linha, o redator conclui a mensagem com uma boa fase de efeito.

Autopromoção velada, mas honesta

Use este recurso para promover produtos e serviços da sua empresa e/ou suas habilidades e experiências. É uma troca velada, porém honesta: prospects ganham conhecimento, dicas, instruções úteis, atualização, etc.; e você e/ou sua empresa ganham visibilidade (nós estamos no mercado) e memória (lembre-se de mim, de nós, quando precisar de…).

Um bom artigo ou uma boa informação bastam para essa publicidade velada, porém honesta. Que o diga Rick Young, presidente e proprietário da Rizzo Young (Chicago-EUA). Recentemente, ele escreveu um artigo em seu blog, e publicou uma chamada na rede social LinkedIn, demonstrando a eficácia desse troca-troca.

Neste post, estou mostrando que entendo de Marketing Digital. Goste ou não do estilo do meu texto, em questão de minutos terei alcançado muito mais pessoas do que alcançaria se estivesse explicando isto face a face. (*)

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Ao lado, Café com Bolo, uma redação promocional Fusion Style publicada na Rede LinkedIn.

O jeitão de “post” esconde uma promoção disfarçada – note que a palavra fundamental é ideias.

Não há troca com o leitor, portanto, não se trata de um ganha-ganha. Mas o conjunto é bom e vale ser considerado no âmbito do que vimos analisando.

Títulos eficazes

Assim como slogans, títulos podem atrair a atenção, causar impacto ou… ser ignorados pela audiência. Sempre que possível, use título para indicar o valor do conteúdo.

Publicitários e jornalistas (nem todos, nem sempre) criam títulos excelentes. Normalmente, eles usam jogos semânticos, contradições, comparação por oposição, analogias, palavras da moda (“made in China”, fake news), entre outros.  Veja alguns exemplos e inspire-se neles para melhorar os seus.

“O que nos motiva é trazer o futuro para o agora” – Folhafronteiras, Folha de S.Paulo, 28/4/18, última página.

Nesse empoderamento do homem sobre a natureza do tempo, inverte-se o curso natural do tempo. Nessa metáfora para a inovação, em vários sentidos, o projeto Fronteiras propõe-se a antecipar o futuro.

Esse jogo com o tempo vem sendo bastante usado, desde o clássico “eu sou você amanhã”, mas ainda causa impacto.

Tradicional há cinquenta anos. Inovadora sempre. (agosto/2018)

Com este jogo de oposição, o título do anúncio que a Universidade Santo Amaro publicou na mídia impressa deu a dimensão desejada pela instituição: ser tradicional não significa ignorar conhecimento e tecnologia de ponta.

É hoje!

Anúncio na mídia impressa para comemorar o dia do corretor imobiliário (27/8/18 – pg. A15). Neste caso, o tempo também é personagem principal.

Três passos simples para evitar que boatos e notícias falsas se espalhem (Folha de S.Paulo 27/8/18 pg. A13)

Didatismo explícito. Não ganharia um Leão de Bronze, mas é eficiente: atrai pela informação objetiva do conteúdo, dirigido ao público em geral.

O Mundo Desenvolvido quer ser Made in China

(seguido pelo subtítulo) “A iniciativa para mudar o Brasil partiu de você. A visibilidade que você precisa (sic) pode partir de nós”. Folha de S.Paulo E Estado de S.Paulo (fim de semana, ago/18):

Exemplo de expressão da moda que condensa longa explicação conceitual. A oposição  ”você” e “nós” faz o jogo de iniciativas complementares.

Conteúdo

Cuidado com os excessos do estilo publicitário ao adotar o estilo publijornalístico. Diálogos fictícios com o leitor/ consumidor, em tom de (falsa) familiaridade, conselhos invasivos e informações pouco confiáveis são recursos tão comuns na publicidade que se tornaram “aceitáveis”. Fuja desses expedientes.

Duas regras de redação vão ajuda-lo sempre: o equilíbrio entre a formalidade sem rigor e o coloquial gramaticalmente correto; e a prática de checar informações, descartando as dúbias, não confirmadas, não isentas e preconceituosas.

Em tempo de fake news, o pior do estilo publicitário não deve sobreviver.

 

(*)  “I’m writing a blog post, showcasing that I understand digital marketing. Regardless of whether or not you like my writing style, in a matter of minutes, my voice will reach far more people than it would if I were explaining this face-to-face. https://rizzoyoungmarketing.com/blog/2018/8/19/5-more-key-tips-social-media-marketing

 

Cinco sugestões para redigir texto de opinão

28.July. 2018
por Claudia Atas
 Folha de S.Paulo, 19/5/2018

Folha de S.Paulo, 19/5/2018 – Cotidiano

Texto opinativo precisa de opinião. Redundância? Sim, mas ela cabe na frase ao lado. Por exemplo, você lê um texto sobre um tema e a opinião não aparece. Ela pode estar lá meio oculta, indireta, embutida num “estilo enviesado” – tema deste terceiro post da série Estilos.

Coluna recente de Tati Bernardi na Folha de S.Paulo é um bom exemplo dessa situação. A partir do título “Meghan Markle pode ser feminista e princesa ao mesmo tempo?” (19/5/2018), acreditamos que a autora analisará a questão proposta no título, dizendo-se a favor ou contra. Ela opina, mas não como esperamos.

O texto se desenvolve por rodeios, com mais perguntas, em tom confessional, provocativo, meio bem meio mal humorado. No final, a autora joga a bola para os leitores, sem assumir sua opinião – explicitamente, porque a opinião – ela está enviesada.

Se você não é escritor…

… tenha em mente que escritores, roteiristas, cronistas e colunistas em geral são livres para escolher temas, formas, estilos. Não os redatores da comunicação empresarial, assim como estudantes de olho nas provas do Enem, Sisu, Fuvest e assemelhadas.

Em outras palavras, o exemplo em questão é ruim para quem, nesses contextos, precisa analisar, opinar e convencer pessoas – público que frequenta este blog.

Portanto, neste artigo, sirvo-me do texto sobre o “duvidoso” feminismo de Meghan Markle para apontar cinco aspectos que estudantes e profissionais de ambientes  corporativos devem evitar.

A intenção neste, como nos posts anteriores da série (protagonismo  e  construções indesejáveis), é ajudar quem precisa redigir manifestando seus pontos de vista.

Polêmica

Começo com o contexto. Afinal, não se pode exigir que o leitorado esteja a par da polêmica instalada com opiniões favoráveis e contrárias à afirmação de que Meghan Markle pode ser classificada ou não de feminista.

A ex-atriz abandonou a carreira ao se casar com o príncipe Harry, da família real britânica. Anunciado o namoro, a mídia saiu à caça de informações oficiais e de bastidores, de relatos biográficos e inconfidências. E com elas produziu notícias que, a bem da verdade, sempre atraíram os plebeus.

Mesmo multiplicadas com o anúncio do noivado e do casamento real, as informações disponíveis eram insuficientes para qualificar Meghan de feminista, ou não. A dúvida gerou a polêmica global.

A propósito, vale lembrar o conceito: ser feminista não é prerrogativa de mulheres – há homens feministas – simpatizantes do movimento ou militantes da causa.

Cinco situações de risco

As recomendações a seguir podem evitar problemas graves da redação opinativa. Se observadas, aumentarão suas chances de redigir um texto opinativo claro, coerente e útil para os seus propósitos.

1– Conscientizar-se de que seu objetivo é opinar – não se deixe levar pelo comentário ou pela apresentação descritiva do assunto. Explicite seu ponto de vista em algum momento – começo, meio e/ou fim do texto. Alguns autores preferem o fecho do artigo, propondo, assim, que o leitor acompanhe seu raciocínio passo-a-passo.

Para quem se posiciona no início e/ou no meio do texto, repetir o posicionamento no fecho é oportunidade de reforçar o ponto de vista.

2- Argumentar a favor e contra a questão abordada lhe permitirá tanto defender seu ponto de vista quanto demonstrar as fraquezas do ponto de vista contrário. Além disso, ao não omitir o que pensam seus oponentes, você se livrará da imputação de omisso e parcial.

Argumentos precisam ser consistentes, capazes de sustentar o raciocínio e dar credibilidade à causa e ao autor. (veja item 4)

Nesses quesitos, Tati Bernardi passa ao largo, como veremos mais adiante.

3- Optar pelo estilo “pensar alto”, “pensar com o leitor” pode ser interessante, mas  depende da finalidade do texto e do tipo de público. As crônicas de Tati lhe permitem essa liberdade:

Fiquei me perguntando se uma mulher que larga a carreira (e uma infinidade de interesses e gostos particulares) para se casar pode ser considerada feminista. Ainda mais se o marido é um príncipe. Ainda mais se a bênção é da rainha Elizabeth 2º. Ainda mais se a casa é um castelo.

Observam-se aí, embora enviesados, os argumentos contrários à ideia de que Meghan é uma feminista. Redatores em geral não podem seguir o exemplo da autora – ela não desenvolve as sugestões contrárias ao feminismo. Antes, dá uma guinada inaceitável para textos não literários:

“Amigas mais entendidas logo me recriminaram: “feminista faz o que quer!”.

4- Coerência é indispensável em qualquer tipo de texto – opinativo, informativo, descritivo, persuasivo, etc.

A coerência sustenta a informação/argumentação e o estilo da linguagem. Na coluna “Meghan Markle…” a autora se apoia nas amigas. Mas o nonsense do argumento – feminista faz o que quer – no seu caso, destruiria o texto e a sua credibilidade.

Pois muito bem, eu quero ser 100% sustentada por um aristocrata gato que me peça para abandonar a profissão e me dê uma lista de coisas que eu não posso fazer, falar ou pensar.

A frases na linha do “eu quero” se sucedem até a nova guinada:

“A pergunta aqui é outra: Meghan Markle pode ser feminista e princesa ao mesmo tempo?”

Tudo indica que a autora entrará no tema e explicitará sua opinião. Ela entra, mas não argumenta, apenas joga frases esquemáticas: a duquesa “não lutou por melhores salários para mulheres”, não se manifestou “sobre os desmandos dos machos brancos opressores”.

5- Contexto e imparcialidade possível

Meghan não tem um histórico de luta feminista – ou esse histórico era desconhecido? Ou o foco da imprensa e fãs de Suits (Netflix) dirigiam-se a outras facetas da atriz?

Por princípio (e por zelo), jornalistas e comunicadores buscam complementar um perfil capenga, uma pseudo biografia. Portanto, não hesite em pesquisar informação em fontes seguras.

Nesse quesito, a coluna de Tati deixa os leitores sem “o outro lado” de Meghan. Veja a diferença do perfil quando se consultam sites confiáveis:

Segundo o Diário do Centro do Mundo, a duquesa de Sussex “declara-se feminista”.

Em um conceito simples e didático, o feminismo existe para que as mulheres façam o que tenham vontade de fazer (e não para que suas ações sejam julgadas e problematizadas por outras mulheres). (…)

Algumas mulheres escolhem seguir suas carreiras, outras escolhem o casamento e a maternidade, outras escolhem viajar o mundo, outras escolhem tudo isso junto, outras escolhem casar-se com príncipes e lutar por causas humanitárias, e outras escolhem simplesmente existir (de preferência em um mundo que não as violente).

O mínimo que se pode esperar de um discurso feminista é que se deixe uma mulher viver suas escolhas em paz. Se essa mulher puder e quiser representar a causa, ponto pra ela – e pra nós.

Meu conselho: nunca deixe de pesquisar informações para complementar e explicar posturas e afirmações sobre personagens e fatos.

Evidentemente, o assunto não se esgota nos cinco aspectos abordados, nem se limita ao texto opinativo. Considerar estes alertas e recomendações, contudo, é um meio seguro de atender aos objetivos da sua tarefa e aumentar a qualidade da redação.

Bloco de anotação, o estilo mal construído.

26.June. 2018
por Claudia Atas

O modo de escrever costuma revelar valores, sentimentos, humores, intenções do redator. Esses e outros sinais podem afetar o texto que se pretende impessoal e isento. Como controlar essas interferências? Vigiando o estilo da linguagem e a construção do texto, como expliquei no post anterior .

Estadão, 15/05/2018, pág. A14

Estadão, 15/05/2018, pág. A14

Salvo engano, não existe nomenclatura acadêmica para a questão, tratada no conjunto forma-conteúdo. Por essa razão, criei denominações para  quatro estilos que me chamam a atenção.

Neste post, o segundo da série, trato do “bloco de notas”, estilo em que as informações são agrupadas por categorias e os grupos são dispostos em blocos.

A característica principal desse estilo é a estruturação a partir de verbetes. Eles organizam a ocupação do espaço e distribuem as informações com aparente racionalidade. O leitor obtém a visão geral da matéria, capta seu teor e escolhe a ordem de leitura.

Tais benefícios mostram-se irrisórios diante daqueles trazidos pela boa reportagem. Prega a técnica jornalística que se acomodem as informações em uma estrutura clara, inteligível, e se desenvolva o relato de modo a envolver o leitor, oferecer-lhe uma “história” circunstanciada e, igualmente, fácil de ler.

Não é o que se vê na matéria do Estadão (foto acima), intitulada “Na lista dos 23 da seleção, aposta na versatilidade”.

Montada no estilo que apelidei de “preguiçoso”, a reportagem dispensa o redator da parte quase sempre mais árdua – e mais gratificante – do fazer jornalístico: a transição do que leu, viu e ouviu para o texto jornalístico.

O primeiro dos blocos começa assim:

Critérios

Essa versatilidade, essa ideia, o modelo de jogo, uma forma de atuar.

Para quem não participou da coletiva de imprensa e, portanto, deixou de ver e ouvir a profusão de sinais e gestos, entonações e modulações de voz, essas palavras soam como divagação e remetem à figura da anotação.

Curiosamente, o “lead do bloco” está claramente redigido no lead tradicional que abre a matéria:

Uma seleção brasileira que tenha como principal característica a versatilidade de seus jogadores. É assim que Tite quer a equipe que vai tentar o hexa na Rússia. Foi isso que ele levou em consideração ao elaborar a lista dos 23…

Nos demais blocos, clareza e obscuridade se alternam, em detrimento do leitor.

O conteúdo sob o verbete Geromel, mostra outros aspectos do estilo preguiçoso: transcrição ipsis litteris da comunicação oral para a escrita com perda sentido:

Regularidade de desempenho, alguns aspectos que são individuais de percepção. Coisas como dia a dia de trabalho, treinamento, relações, olhar no olho, momento da mobilização, do jogo. O Grêmio vem mantendo padrão de regularidade em alto nível há dois anos. Começou com Felipão, afirmação com Roger e colhendo frutos com Renato. E o Geromel mantendo consistência em alto nível.

Bloco híbrido

A montagem tem sua face positiva: informações reunidas em grupos relativamente simétricos, parágrafos interdependentes separados artificialmente, é verdade, mas por inofensivo símbolo gráfico; leitura linear, sequenciada, lógica. Em resumo, uma matéria “clean” e fácil de ler, boa para a mídia impressa e digital.

As colunas escritas e administradas pela jornalista Monica Bergamo obtêm ótimos resultados nesse modelo que alia o consagrado com a inovação. Mesmo as matérias à base de “pílulas” ou “drops” cumprem a proposta do formato: notas curtas e independentes. O leitor sabe o que vai encontrar.

Como ficamos?

A diferença entre blocos bons e maus não é determinada pelo formato, e, sim, pela sintaxe. Monica e, no caso, Bruna Narcizo, constroem a narração com frases contextualizadas, claras, objetivas. Já o “bloco de anotações” do Estadão (no exemplo apresentado) dispensa esses cuidados em boa parte do texto, criando anotações vagas, obscuras.

Portanto, o fator determinante da boa qualidade dos blocos, na comparação aqui estabelecida, é a sintaxe, o modo de construir as frases e facilitar a vida do leitor.

Em outras palavras, clareza e da objetividade nunca saem de moda.

 

Estilo e seu reflexo sobre a qualidade da redação

28.May. 2018
por Claudia Atas

Você não está a salvo: o modo de escrever revela muito do autor, mesmo na elaboração de textos não literários. Intenções, sentimentos, humores e valores rondam a redação e podem interferir positiva ou negativamente no resultado.

Em outras palavras, é ilusão anderson-aires-estilospensar que basta se concentrar na redação para se proteger de interferências, internas e externas. Vigiar o estilo da linguagem e monitorar a construção do texto são recursos mais efetivos. Afinal, o jornalista não escreve para si, escreve para o leitor.

Selecionei quatro exemplos para analisar essa questão, aqui tratada como estilo associado à forma.

À falta de denominações gramaticais específicas, criei as minhas:

Estilo ou Redator 1- narcisista; 2- preguiçoso; 3- enviesado; e 4- publijornalístico.

Começo pela primeira e deixo as demais para as próximas publicações.

Narcisista, ou a competição entre fato e narrador.

O narrador protagonista coloca o redator/apresentador no primeiro plano, em detrimento do fato, do produto, do serviço, da causa que motivou a divulgação. Ele se projeta, mas não por suas experiências, realizações e valores pessoais, como nos “testemunhos”, ou seja, depoimentos com os quais se busca dar credibilidade ao que se divulga ou promove.

Ao contrário, o narcisista se torna figura principal porque usa excessivamente o pronome “eu”, a conjugação na 1ª pessoa do singular, os possessivos meu/minha/meus/minhas.

Nesse modo narrativo, há pouca empatia: o público geralmente toma o narrador como personagem vaidoso, arrogante, pretensioso.

Adorei a foto comigo no palco

Em uma rede social, um executivo que ocupa elevada posição em uma multinacional, noticiou a demonstração de um produto. Essa demonstração se deu em evento tido como o mais respeitado do setor (marketing e comunicação digital), no Brasil. Em cerca de oito linhas, dizia:

(…) eu fiz no palco um pequeno experimento ao vivo onde conversei com um pão de forma. (Uma revista publicou) um pequeno artigo sobre isso e o que falei resumidamente sobre Inteligência Artificia (…). Adorei a foto comigo no palco (crédito da foto) e o display gigante por trás, com a imagem do pão de forma no meu iphone.

Em novo post, cede o primeiro plano para público e produto (destaque em azul), para, logo depois, reassumir o protagonismo:

(O vídeo mostra) o momento que faço uma demonstração (…). Dei o exemplo de um supermercado. (…). Imagine vc entrando no mercado c/ um smartphone e apontando o aparelho p/ um produto na prateleira. Ele reconhece qual é o produto e você pode conversar c/ele em linguagem natural, como se estivesse numa conversa c/ uma pessoa. Fiz essa demo no palco, ao vivo, no meuiPhone, onde conversei c/ um pão de forma… perguntando sobre data de validade, se tem glutem (sic) sobre sua composição e até uma receita bacana p/ fazer com ele. (…) Adorei!

Mesmo que você seja excelente profissional, famoso e bem-sucedido, resista: coloque o fato no primeiro plano. Há outros meios de ser simpático e convincente.

Por oportuna, copio a advertência de um jovem jornalista aos futuros (e veteranos) profissionais:

“Muitas vezes ficamos apegamos aos nossos textos, achando que é a coisa mais maravilhosa do mundo. Só que não é. Aliás, o jornalista/repórter nunca pode ser mais importante do que a matéria que ele está escrevendo: o texto não é do repórter, é do leitor”, afirma.

Anderson Aires (trecho da matéria de Ana Carolina Barski, da Ink, agência experimental da Faculdade de Comunicação do Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter), publicada em 26 de maio de 2017

Molecagem do Estadão: Rosa Weber protagoniza deboche na capa do jornal

17.April. 2018
por Claudia Atas

O Estadão criou um bom exemplo de mau jornalismo. Publicou uma capa antiética, desmoralizadora e especialmente desrespeitosa para com a estrela dessa produção: a ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal.

Edição de 0h50 do dia 05 de abril de 2018

Edição de 0h50 do dia 05 de abril de 2018

Avessa a exposições públicas, Rosa foi o centro da atenção no julgamento e, também, na primeira página do jornal (último dia 5): no STF, pelo seu voto, considerado o fiel da balança; no jornal, por uma gargalhada fora de contexto.

Na foto de meia página, com o colega Dias Toffolli (desfocado), a gargalhada de Rosa choca, independentemente das posições ideológicas dos leitores. Choca pela situação artificial jocosa, marota.

Capturada por fotógrafa do Estadão, a gargalhada se associou à vigorosa manchete – “STF libera prisão de Lula” – e induziu o leitor a erros:

– Rosa não gargalhou nem durante nem ao final do julgamento do pedido de habeas corpus preventivo para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva;
– O perfil, a conduta e a reputação de Rosa não se coadunam com o desafio de “quem ri por último ri melhor”
– Rosa não celebrou o veredicto.
Quem riu por último e celebrou a derrota de Lula foi o Estadão.

Por que Rosa gargalhava?

Nunca saberemos, porque essa foi uma edição marota: apesar da postura sóbria durante a transmissão do julgamento pela TV – na leitura dos votos e ao final do julgamento que negou habeas corpus para Lula – Rosa gargalhou no Estadão.

Edição 25 minutos depois - 1h15 - do dia 5 de abril de 2018

Edição 25 minutos depois – 1h15 (5/4/ 2018)

Vinte e cinco minutos depois da primeira edição (0h50), o bom senso prevaleceu e a capa foi trocada (1h15) por outra, convencional.

Agora, a imagem da celebração pública do jornal permanece apenas entre alguns assinantes. Removida junto com a primeira edição, também não aparece na reprodução digital do jornal impresso.

Contudo, cá está ela, para nossa reflexão.

Ao mesclar contextos, o jornal não apenas criou uma notícia falsa como promoveu uma desmoralização geral – do próprio jornal, de uma reservada ministra do Supremo e do STF, além de, faltando com a verdade, haver desrespeitado seus leitores.

Se há algo de bom nesse episódio é servir de exemplo de má prática jornalística aos focas que frequentarem os cursos de jornalismo de O Estado de S.Paulo.

 

 

Listas do bem: cursos gratuitos online de instituições reputadas como excelentes

27.March. 2018
por Claudia Atas

Você encontra, logo abaixo, uma relação de cursos gratuitos oferecidos por onze instituições idôneas que gozam de boa reputação na área educacional.

Originalmente, eram duas “listas do bem” publicadas na rede Linkedin, da qual sou membro. Eu as fundi em um só bloco de informação e chequei os respectivos links. Aproveite!

1. USP: < https://lnkd.in/exbJ3E3>

Vinte e sete cursos online e gratuitos pela plataforma Veduca. As áreas de interesse são bastante diversificadas: Física Básica, Gestão de Projetos, Engenharia Econômica, Princípios de Sustentabilidade e Tecnologias Portadoras de Inovação, Gestão de Pessoas e do Conhecimento para Inovação, Medicina do Sono, Oceanografia, Probabilidade & Estatística, Escrita Científica, Tópicos de Epistemologia e Didática, Economia Monetária, Filosofia e Intuição Poética na Modernidade, Libras – veja a relação completa dos cursos, certificados com 40% de desconto.

2. Insper: https://lnkd.in/dMEYVCd

Quatro cursos online e gratuitos, em parceria com a plataforma Coursera: Introdução ao Marketing Analítico, Capitalismo Consciente, Gestão de Operações e Administração Financeira. Certificados devem a ser negociados diretamente com o Coursera.

3. Fundação Estudar: https://lnkd.in/deWd4wD

Um curso online: Entenda o que te faz feliz tendo mais conhecimento sobre si mesmo.

4. Prime: https://lnkd.in/dNmQPmd
Centenas de cursos grátis com certificados de conclusão.

5. Iped: https://lnkd.in/dSmv3Yd

Dezenas de cursos gratuitos para início imediato.

6. FGV: https://lnkd.in/dwKhzc6

Os cursos não proporcionam titulação, crédito, certificação nem acesso a instrutores. Quanto aos materiais, são gratuitos. Entre os vários títulos, você encontrará Finanças Pessoais, Sustentabilidade, Comunicação, Sociologia, Gestão de Serviços com Foco no Envelhecimento, Direito Imobiliário, O Juiz e a Ética, Patentes e Bases Legais, Fundamentos da Gestão de TI e muitos outros em diversas áreas do conhecimento e de atividades.

7. Centro Paula Souza: http://mooc.cps.sp.gov.br

Seis cursos, cinco deles certificados, cuja duração varia de 6 horas a 30 horas: Mercado de Trabalho, AutoCad, Gestão de Pessoas, Gestão de Tempo, Gestão de Conflitos, Canvas.

7. Senai: https://www.ead.ms.senai.br/cursos/iniciacao_profissional/
Quase todos os cursos são gratuitos e 100% online. Os temas variam bastante: Desenho Arquitetônico, Finanças Pessoais, Iniciação à Docência na Educação Profissional e Tecnológica, Power Point, Word, Excel, Lógica de Programação Educação Ambiental, Noções Básicas de Mecânica Automotiva, Tecnologia da Informação e Comunicação, entre outros.

8. Senac: https://lnkd.in/dzpmy7X

O Programa Senac Gratuidade se destina a pessoas com renda familiar mensal per capita não superior a dois salários mínimos federais. Compõe-se de 16 cursos gratuitos, entre livres, técnicos, graduação e extensão universitária. As inscrições dos cursos técnicos a distância irão até 24 de abril.

9. Fundação Bradesco: https://www.ev.org.br

A Escola Virtual Bradesco oferece 80 cursos em cinco áreas de interesse: administração; contabilidade e finanças; desenvolvimento pessoal e profissional; educação e pedagogia; e informática.

10. Nube: https://lnkd.in/dQp2Gc5

O Núcleo Brasileiro de Estágios disponibiliza os cursos Como administrar seu tempo, Tenha sucesso em processos seletivos, Como elaborar um currículo, Gestão de Carreira, Marketing Pessoal e Falar em Público. São gratuitos e online.

11. Senat: https://lnkd.in/eUgA8Kz

O Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (SENAT) oferece, pelo seu sistema de ensino a distância, dezenas de cursos online, voltados para a capacitação de profissionais no setor. Estão organizados segundo as categorias Educação, Gestão, Regulamentados, Saúde, Social e Transporte.

 

 

Portal divulga informações sobre milhares de cursos – dos técnicos aos doutorados

16.March. 2018
por Claudia Atas

Quem planeja começar a estudar, complementar os estudos, se especializar ou atualizar seus conhecimentos dispõe de um buscador virtual que facilita a escolha: o Educaedu .

Criado em 2008, o portal Educaedu publica as ofertas educacionais dos centros de formação localizados em 20 países, por meio de websites redigidos em nove idiomas: espanhol, português, alemão, francês, italiano, polonês, inglês, turco e russo.

Segundo Bárbara Borges, do website brasileiro, o Educaedu oferece mais de 46 mil opções de cursos, entre os quais mestrados, graduações, pós-graduações e doutorados, em várias áreas do conhecimento.

“Publicamos em nosso blog, recentemente, uma matéria com indicações sobre os programas de bolsa de estudo mais acessíveis do Brasil”, informa Bárbara.

Na matéria – Sete programas de bolsa de estudo para você começar sua faculdade em 2018  < https://www.educaedu-brasil.com/blog/bolsa-estudo-brasil/>, a gestora de conteúdos do portal, Liliana Diaz, comenta brevemente cada um dos programas apresentados.

Tempos de insegurança, intervenção e dúvida verbal

27.February. 2018
por Claudia Atas

assinatura-decreto-intervencao E não é que os tempos verbais estiveram envolvidos com a intervenção federal no estado do Rio de Janeiro ?

Uma amiga me perguntou se não haveria um erro nesta frase: “O decreto assinado prevê que as Forças Armadas assumirão o controle da segurança”.

Para ela, os tempos verbais estão em conflito. “Prever” é verbo da incerteza e “assumirão” o tempo verbal da certeza.

O correto seria “o decreto prevê que assumam” – incerteza seguida do tempo verbal usado para dúvidas, sentimentos, crenças e outras situações do tipo pode ser, pode não ser.

Observei que o contexto foi determinante na redação do decreto presidencial. Diferentemente das previsões meteorológicas, financeiras, econômicas e tantas mais, a “previsão” de agir por meio de uma intervenção militar no estado do Rio foi, sobretudo, uma “decisão” tomada rapidamente por um seleto e poderoso grupo institucional. “Prever”, neste caso, é certeza: o controle será das Forças Armadas.

Em geral, contextos levam ao entendimento da mensagem, mas não barram os equívocos. Se “prever” é ação típica da incerteza, datar a informação ou situá-la cronologicamente é bom recurso para eliminar dúvidas, promover a compreensão e celebrar a paz gramatical. Por exemplo:

“O decreto assinado prevê que, a partir de amanhã, as Forças Armadas assumirão o controle da segurança”.

“O decreto assinado prevê que, a partir de hoje, as Forças Armadas assumam o controle da segurança”.
“O decreto assinado prevê que as Forças Armadas assumam o controle da segurança.”

Dois conceitos

Tania Neves, graduada em Letras e especialista em Gestão de Comunicação e Marketing, entende que o verbo prever “diferencia-se de outros, como supor, ou desejar, que certamente pedem um complemento no subjuntivo. A diferença está, principalmente, na força do conceito contido no verbo prever (do latim: praevidere – ver em antecipação).”

Nesse sentido, prever pode ser entendido como suposição baseada em análise de fatos presentes ou passados; e, ainda, como suposição intuitiva, quando o sujeito intui que fatos consequentes ocorrerão (no futuro).

Por exemplo, a suposição contida nesta frase denota maior probabilidade de que o fato ocorra:

José prevê que os filhos assumirão o controle da empresa, pois eles sempre demonstraram interesse no negócio.

Nesta outra, o sentido de “supor” é mais intuitivo. Sem a força de previsão da frase anterior, o subjuntivo deve complementar o verbo:

José prevê que os filhos assumam o controle da empresa, pois ele deseja que continuem seu trabalho.

Quanto à frase tema deste post – O decreto assinado prevê que as Forças Armadas assumirão o controle da segurança – Tania a escreveria de outro modo:

No decreto assinado, o presidente determina que as Forças Armadas assumam o controle da segurança.

Idioma enriquecido

Gislaine Marins, doutora em Letras, afirma que a relação entre orações principais e subordinadas, assim como a relação entre verbos no indicativo e no subjuntivo, devem ser valorizadas.

O verbo “assumir” na frase em questão está inserido em uma oração subordinada. Em geral, as subordinadas preveem o uso do verbo no modo subjuntivo, relacionado ao verbo no indicativo, presente na oração principal.

Na minha opinião, a relação entre orações principais e subordinadas, assim como a relação entre verbos no indicativo e no subjuntivo, devem ser valorizadas. É uma simetria não apenas sintática, mas também conceitual. Aquilo que se prevê é ainda uma hipótese. O uso do futuro do indicativo é uma declaração sobre uma ação que irá ocorrer, independentemente da previsão ou não.

Entretanto, (…) muitos gramáticos, como o Professor Pasquale, admitem as duas formas como corretas. Trata-se de uma mudança de perspectiva.

O que acontece (na frase analisada) é exatamente isso: temos certeza de que a previsão irá se verificar. (…) Talvez as gramáticas tradicionais ainda não admitam o fenômeno, mas os gramáticos já assimilaram a mudança, que sempre começa pelos falantes, chega aos jornais e depois é descrita e transformada em regra gramatical.

(…) Com um pouco de flexibilidade, de criatividade e de olhar atento à história da língua, podemos perceber que a construção não é tão estranha como parece. Sim, as duas possibilidades são admissíveis. E isso é um bem para a língua, é um fator que enriquece o nosso idioma.

Gramática, confesso, tem um lado aborrecido – regras antigas, rígidas, que mal entendemos e mal praticamos. O outro lado, porém, é que embute uma construção histórica, cultural, como vimos na redação desta intervenção militar.

Tempos verbais, como se vê, não são meras questões gramaticais.