Parte dos jogadores… foi dispensada ou foram dispensados? Parte dos alunos faltou… ou faltaram? Você acha que o correto é o verbo concordar com jogadores e alunos ou com “parte de”?
Segundo o portal Só Português (http://www.soportugues.com.br/secoes/sint/sint49.php), ”quando o sujeito é formado por uma expressão partitiva (parte de, uma porção de, o grosso de, metade de, a maioria de, a maior parte de, grande parte de…) seguida de um substantivo ou pronome no plural, o verbo pode ficar no singular ou no plural”.
Concordo com as pessoas que se queixam não das regras gramaticais, mas das suas exceções. Nos exemplos acima, moleza – não dá para errar. Mas, nem assim você está livre de tropeços. Veja como a Folha de S.Paulo privilegiou o bom senso na legenda desta foto:
A imagem comprova que só uma parte do navio foi encontrada: a legenda é perfeita.
Note que nas reportagens sem foto, a comunicação é crítica. Neste exemplo, uma distração levaria ao soterramento de todo o navio nas areias de Castelhanos. O fato e a reportagem seriam outros, como o título da matéria nos leva a crer.
A construção “diferentes países” está em toda parte, escrita ou falada. Provavelmente, para se evitar a “mesmice” de alguns países, vários países, muitos países. Às vezes, as pessoas sentem que falta alguma coisa – geralmente, é a falta de ritmo da frase.
Não existem países iguais. Não nestes contextos:
Editorial / Chuvas castigam diferentes cidades mineiras http://www.setelagoas.com.br/noticias/editorial/13985-chuvas-castigam-diferentes-cidades-mineiras-entre-elas-sete-lagoas
A Folha de S.Paulo mostra esse vício em duas situações comuns:
Se a economia decresce, cai a demanda por importações, com consequências para os emergentes. O impacto varia entre os diferentes países. Folha de S.Paulo, 27/02/2012 – Entrevista da 2ª (Caderno Mundo)
(…) jovens acampados nas praças para protestar contra o domínio do mundo por 1% de seus habitantes, alguns dos quais, de diferentes países, também vieram a Porto Alegre. Folha de S.Paulo, 03/02/2012 – Painel do Leitor
Veja este exemplo “três-em-um” da Globo / YouTube, em suas versões áudio e impressa (vídeo enviado por DigoLaz, em 15/2/2012): a apresentadora do Jornal da Globo introduz a matéria com um “muitos países”. O repórter também não comete esse tipo de erro – fala em “vários países do mundo” – embora cometa outro, já que os “vários países” só poderiam ser deste mundo. O título do YouTube, porém, vai com tudo:
Diferentes Países Pelo Mundo Comemoram O Dia Dos Namorados | Jornal Da Globo <http://www.youtube.com/watch?v=TsGkXrejD24>
Em alguns contextos, acho correta a expressão:
“Ideias de diferentes países que servem de inspiração” http://revistapegn.globo.com/Revista/Common/0,,DGU0-17140,00-BUSCA.html?cx=012582155851081905792%3Aaelzwpg0mwm&cof=FORID%3A11&q=ideias +de+diferentes+pa%C3%ADses&sa=
porque a interpreto como paises de economia, costumes, políticas diferentes.
Acredito que, para não errar, basta substituir “países diferentes” por vários / muitos/alguns países. Dá para perceber se você está tentado a escrever “diferentes” só para sair do comum.
Durante fuga, criminoso rouba van com 13 crianças
Depois de esfaquear um aposentado, tomar a bolsa de uma cabeleireira e o carro de um contador, um servente de pedreiro roubou uma van escolar onde estavam 13 crianças e dirigiu por quase dois quilômetros com elas dentro. (Folha de S. Paulo, Caderno Cotidiano, 13/03/2012).
Apresentar os personagens pela profissão é prática usual na Folha de S.Paulo. Para um diário que se orgulha de ser “o maior jornal do país”, falta apuro: a seqüência do texto mostra desconexão entre as ocupações e os fatos relatados. Ou seja, as profissões nada explicam ou acrescentam à matéria.
Deixando de lado, aqui, a usual negligência da FSP na apresentação genérica de populares anônimos – “o auxiliar”, “o repositor”, “o analista”, “o supervisor”, “o gerente”, “o encarregado” – devemos considerar que técnicas jornalísticas explicam o anonimato de personagens: não serem fontes da informação (entrevistados), respeito à privacidade, falta de acesso às pessoas envolvidas na ação, e outras.
De fato, no exemplo acima, os personagens são vítimas, mas o fato jornalístico é o assaltante agindo em uma seqüência arrojada, desesperada, infame.
A questão, portanto, é como tratar os personagens secundários. No exemplo acima, o resultado ruim é evidente: um aposentado, uma cabeleireira, um contador, um servente de pedreiro, um servente de pedreiro em três linhas e meia de matéria policial. O que não seria problema, ao contrário, em reportagens de outra natureza. Como esta, da própria FSP:
Busca pessoal impulsiona carreira
Um período sabático bem planejado e bem estruturado tem grandes chances de alavancar a carreira. (…)
“As empresas querem profissionais com iniciativa, que gostam de aventuras e que assumem riscos -características daqueles que conseguem se organizar para períodos sabáticos”, analisa o consultor de carreiras Carlos Faccina. Durante 25 anos, ele ocupou o cargo de diretor de recursos humanos da Nestlé. (Folha de S.Paulo, 22/4/2012)
Nomeações genéricas, como “esfaqueou o encarregado fulano de tal”, ou fora do contexto, como a seqüência de profissões na cena cinematográfica protagonizada pelo servente de pedreiro, acima, não são assunto fácil. Como tratar esses personagens?
Pode ser que “o idoso”, “o passageiro”, “o pedestre”, “a moradora que saía de casa, da loja, do açougue…” pudessem ser melhor nessa notícia da FSP. Contudo, ela seria mais elucitadivsa se explicasse onde estavam e o que faziam o aposentado e a cabeleireira. O servente de pedreiro, informa o título, era um criminoso condenado e, segundo o pé da matéria, fugitivo.
Em nossa sociedade de trabalho, o nome do emprego prevalece.
Apanhei um exemplo duplamente interessante para o “onde” que não significa lugar físico (post de 12 de abril).
Na legenda desta foto, “onde” é usado como momento da assembléia e momento da tomada de decisão: “assembleia onde foi decidido que a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas será desocupada”.
A meu ver, a construção mais adequada e elegante seria:
Mil alunos participaram, ontem, da assembléia em que decidiram desocupar a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.
Como a assembléia eram os alunos e vice-versa, prefiro esta outra forma:
Mil alunos participaram, ontem, da assembléia que decidiu desocupar a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.
(Ou, assembleia que decidiu a desocupação da faculdade)
Atividade onde o que importa… Ideia onde você nota que… Vida onde os problemas… Livro onde… Profissão onde… O cacoete da moda, como você percebeu, é ONDE.
Esse exagero cansa. No caso do título acima, emprestado de um original que encontrei na internet, «onde» provoca ambiguidade. Seria (a) em quais municípios o PT é bom ou (b) em quais setores, pastas da administração?
Fuja dessa moda. Use «onde» para se referir a lugar. Em geral, é o mais adequado e refina o estilo: ideia em que, vida na qual… livro em que, no qual…
Na Folha de S.Paulo de hoje, página A12, você lê:
«Quando saía do local, depois de assistir à parte do painel “1964 – A Verdade”, Cerqueira (o general Nilton Cerqueira) precisou de escolta.»
A crase não deveria estar aí. Para estar, “parte” teria de ser definida, qualificada. Então, teríamos “a” preposição (assistir ao painel, ao filme, ao debate) + “a” de “a parte”, qualificada, definida. Assim:
A que parte do painel o general assistiu? À primeira parte? À parte que antecedeu o coquetel, à parte dos discursos, à parte da retrospectiva histórica etc.
Certamente, na frase original, o redator quis dizer que o general assistiu a uma parte do painel, e não a todo ele. Portanto, é preciso tirar a crase:
Quando saía do local, depois de assistir a parte do painel, o general (…)
Quando saía do local, depois de assistir a uma determinada parte do painel, o general (…)
Observe, no texto de anteontem, as palavras em negrito:
“Por que Nações Fracassam”.
“Acemoglu e Robinson procuram mostrar porque alguns países vão para a frente e outros para trás.”
No primeiro caso, equivale a por que razão (por que motivo, por quais razões, por quais motivos) as nações fracassam. Trata-se de uma afirmação – se fosse uma pergunta, não haveria opção: teria de ser escrito “por que” e ponto final.
O porque de Gaspari seria correto em outra condição. Por exemplo:
Os autores procuram mostrar por que alguns países vão para a frente e outros, para trás, porque acreditam que os exemplos da obra ajudarão os responsáveis pelas políticas econômicas a evitar erros.
Ou seja, por quais razões alguns países vão para a frente; e porque (finalidade, explicação, justificativa) devemos considerar essas experiências.
Se foi difícil identificar o erro, corrigi-lo será mais fácil: quando se conhece o fundamento dessas construções, memoriza-se a forma correta de usá-las.
Na Folha de S.Paulo de hoje, um deslize de Elio Gaspari. Jornalista influente e admirado (também por mim), Gaspari cometeu um erro ortográfico neste trecho:
PARA O EGO DE LULA
Algum companheiro poderia traduzir para Lula trechos do livro “Why Nations Fail” (Por que Nações Fracassam – As Origens do Poder, da Prosperidade e da Pobreza”, dos economistas Daron Acemoglu (MIT) e James Robinson (Harvard).(…) Acemoglu e Robinson procuram mostrar porque alguns países vão para a frente e outros para trás.
Você percebeu onde está o problema?
Na semana passada, tentei convencê-lo de que a expressão “pouco mais de quatro horas” de jogo, na chamada de Primeira Página do Estadão, minimizava o esforço dos tenistas Djokovic e Nadal na partida final do US Open. Hoje, apresento esta evidência:
No título, optou-se por “incrível”.
No ”olho” ou “deck”, a duração da partida é de “mais de quatro horas” .
No lead (início da matéria), a evidência do esforço: “Em partida épica,…”
Acho que, agora, fica definitivamente clara a enorme diferença provocada por um mero “pouco mais”.
Quatro horas de jogo, no tênis, configuram uma longa e extenuante partida. Portanto, a expressão “pouco mais de quatro horas” atenua essa realidade e minimiza o esforço dos jogadores. Bastaria escrever “mais de quatro horas de jogo” para se obter o efeito inverso, condizente com o fato.
A questão envolve, no meu entender, a intenção que se quer ou se precisa dar – 61 minutos são “pouco mais de uma hora”. Temos aí um atraso? A rigor, sim. Na prática, pode ser um elogio à pontualidade – a hora marcada foi praticamente cumprida.
O “pouco mais” usado na curta frase ao lado também aparece, constantemente, em nossas leituras diárias, e com mais frequência em noticiários e relatórios econômicos.
O jornal Valor publicou em 06/02/2012 :
Fundos atraíram pouco mais de R$ 17 bilhões em janeiro
Apesar dos resgates apresentados pelas carteiras de ações em janeiro, o setor de fundos de investimento começou o ano com o pé direito, com captação líquida de R$ 17,079 bilhões, conforme números da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Essa é a segunda maior entrada de recursos para os meses de janeiro da história, perdendo apenas para janeiro de 2008, quando o setor atraiu R$ 17,1 bilhões.
http://www.valor.com.br/impresso/eu-investimentos/fundos-atrairam-pouco-mais-de-r-17-bilhoes-em-janeiro
E o ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, escreveu ontem na Folha de S.Paulo (Mercado):
“Em 2010, os investimentos estrangeiros nesse setor somaram pouco mais de US$ 16 bilhões, ante apenas US$ 10,29 bilhões em2011”.
Perceba que “pouco mais de US$ 16 bilhões” representam investimento 56% maior que os US$ 10,29 bilhões de 2011. Ainda bem que Rodrigues colocou um “apenas”: essa palavrinha nos assegura que não houve erro e ajuda a leitura. “Pouco mais” pareceria menos.
No próximo post, publicarei uma informação complementar sobre a chamada de página para o jogo Djokovic-Nadal. Você se convencerá, penso eu, de que vale a pena cuidar de “pouco mais”.



A diversidade marcou minha carreira jornalística. Fui repórter, redatora e editora e atuei em vários jornais e revistas, como O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Veja Regional, Construção Hoje, Dirigente Construtor, Vogue, Meio & Mensagem. Dirigi a assessoria de imprensa do Procon SP e trabalhei para diversas agências de comunicação. Minha experiência também inclui a comunicação corporativa, especialmente o relacionamento empresa-cliente.