Skip to content

Antes de tentar redigir com eficiência, prepare-se para ser eficiente.

28.May. 2020
por Claudia Atas

panico-de-redigirUm redator insatisfeito com seu texto me pediu socorro dizendo: “quanto mais escrevo, mais me afasto do foco planejado para o livro que pretendo publicar”. Sentindo que entrou num labirinto e dele não consegue escapar, pediu-me ajuda para recuperar, na redação, sua ideia original.

Ampliar continuamente o foco de um projeto é como mergulhar em ideias e não conseguir voltar à tona. Assim como querer esgotar o tema é como submergir nas informações, afogando-se num mar de possibilidades. O problema é relativamente comum.

Insegurança, “preguiça mental”, desconcentração e despreparo diante da complexidade do tema abraçado costumam paralisar o redator ou comprometer a obra. Dentre esses elementos paralisantes, creio que insegurança e “preguiça mental” se associam mais claramente à falta de habilidade  redacional.

Ainda não estou satisfeito com o material pesquisado, preciso me atualizar com as novas obras sobre o assunto, surgiram alguns imprevistos… são justificativas comuns. Defensáveis, é claro, mas têm prazo de validade. Não se pode postergar (*) indefinidamente a coleta e seleção do material de apoio nem a redação do esboço final da estrutura do trabalho.

Redatores deveriam observar seu comportamento, principalmente em obras de fôlego. Insegurança, “preguiça mental” e desconcentração podem significar medo de assumir o conteúdo ou pânico de redigir. No caso do autor que me procurou, acredito que o fato de redigir em estado de processo sem fim, mascava tanto o seu receio quanto o pânico de redigir.

Compartilho com você as recomendações que ajudam a resolver boa parte desse problema. Estão divididas em duas partes. Hoje, publico a primeira delas:

1- “Hora de redigir”

Questione-se: você já dispõe de informações importantes, fundamentais para o seu trabalho? Se a resposta for sim, então é hora de encerrar coleta e análise do material. Comece a escrever a primeira versão do texto.

Tranquilize-se: esboços não amarram, ao contrário, libertam os autores de várias amarras: procrastinação, exigências superlativas, fadiga física e mental trazidas, quase sempre, pela armadilha do “trabalho perfeito”.

2- Desapego

Selecione o que será usado. E defina o que ficará de fora – sem receio: o material não será jogado na cesta do lixo, apenas, sairá da seleção e ficará arquivado para consulta, se for o caso.

Jornalistas costumam passar por essa situação. A maioria aprendeu que é preciso ter “coragem de jogar fora” do texto final frases inspiradas, fatos curiosos, informação nova comparações interessantes que estejam distantes do foco predeterminado e, pior, atraem digressões.

Nos próximos dias, publicarei a segunda parte desta artigo, comentando e descrevendo os cuidados e as atitudes que recomendo adotar no momento de olhar para a “tela branca” e escrever as primeiras frases.

____________________________________________________

(*) Postergar e adiar são sinônimos de procrastinar, comportamento que a psicologia trata como fenômeno motivacional. Sabemos, por experiência própria ou de terceiros, que quase todas as pessoas adiam tarefas e decisões, vez por outra, por vários motivos “positivos” ou “ativos”: recuperar a energia, refletir melhor, quebrar a rotina e outras intenções. Quando a procrastinação é excessiva, recorrente, pode ser caracterizada como “negativa” ou “passiva”, ou vício comportamental que encobre, entre outras causas, a intenção evitar assumir responsabilidades.

Utopias do mundo pós-pandêmico

27.April. 2020
por Claudia Atas
Papa Francisco em pronunciamento semanal na Praça de São Pedro – vazia no domingo, 15 de março. AFP Photo, Osservatore Romano. In: https://www.folhadelondrina.com.br/

Papa Francisco na Praça de São Pedro – vazia no domingo, 15 de março.
AFP Photo, Osservatore Romano.  www.folhadelondrina.com.br/

Qual a relação entre vestibulandos e a pandemia do novo Coronavírus (mais de 3 milhões de pessoas infectadas até o momento, em todo o mundo)? A prova de redação.

Além dos cuidados para escapar da contaminação, os candidatos fariam bem em preparar-se para escrever sobre a Covid-19, provavelmente um dos temas já cotados para essa prova.

Quem apostar nessa probabilidade, encontrará na mídia material abrangente, de boa qualidade e útil na seleção de ângulos positivos e negativos, necessários a um bom embasamento sobre o assunto.

De positivo, vemos novos experimentos sociais e politico-econômicos, tal como o auxílio emergencial, iniciativa que resgata, embora provisoriamente, a lei da renda mínima para os brasileiros, jamais colocada em prática. E, ainda,  discussões relevantes para a maturidade do país, o dilema entre investir recursos escassos na saúde ou na economia.

Tendem a permanecer na pós-pandemia relacionamentos ampliados exponencialmente por força do Coronavírus. Caso do trabalho presencial deslocado para as residências e da comunicação online entre cidadãos, empresas e instituições governamentais – como ocorreu na no processo de apresentação e recebimento do auxílio emergencial, embora sacrificando parcela da população incapaz de manipular aplicativos.

Vale lembrar, nesse rol de alterações provisórias passíveis de se tornar permanentes, a dinâmica da comunidade científica na busca de soluções urgentes. Descobrir medicamentos e vacinas eficazes no curtíssimo prazo tornou-se factível graças a inovações metodológicas, pesquisa e testagem adaptadas e abreviação de procedimentos burocráticos.

Entre os aspectos negativos do enfrentamento desta crise destaco duas, de muitas ocorrências: 1- corrupção e falta de ética, em nível nacional e internacional, durante a comercialização de insumos, instrumentos e máquinas de proteção e tratamento médico-hospitalar; 2- e, na perspectiva da desigualdade social, incluo o abandono e a fome dos milhares de cidadãos “invisíveis”, cujos dados não constam dos registros oficiais e, mesmo, dos programas de assistência social.

O novo Coronavírus escancarou a desigualdade entre cidadãos e, ao mesmo tempo, incentivou a solidariedade. Parte dos solidários se mobilizou. Nessa perspectiva, emergem algumas questões particularmente importantes, a meu ver: controlado o surto, como agirão pessoas e governos? A solidariedade sobreviverá à tragédia? Estabeleceremos um novo padrão de convivência? O mundo será mais cooperativo?

Prognósticos são bons exercícios de reflexão. Tomemos como exemplo as premissas acima, sintetizada na frase mais ouvida: “daqui para a frente seremos mais solidários”. Ou seja, a experiência da privação pessoal, da solidão, do medo da infecção e da morte levaria à compaixão, à sensibilidade para entender e ajudar o outro, particularmente o marginalizado, o vulnerável, o invisível.

Em outras palavras, a experiência da privação levaria à solidariedade praticada de forma consciente, isenta de preconceitos e interesses mesquinhos. Nos governantes, ela se projetaria em políticas públicas sólidas, coerentes, duradouras a ponto de sobreviverem a muitos mandatos.

É inegável que a Covid-19 já imprimiu marcas positivas e indeléveis nas pessoas, nas sociedades e suas instituições. De fato, o SARS-Cov-2 está levando à “contaminação” de sentimentos humanitários elogiáveis.

Na minha opinião, vencidas as fases de perplexidade, propagação do agente patogênico, mortes e quarentenas, a curva de generosidade e compaixão cairá. E, assim como veio, a solidariedade concreta, premente, envolvente irá se retrair e se fixar nos patamares pré-Covid-19. Com poucas exceções, seremos o que sempre fomos – talvez melhorados pelas lições que o vírus terá deixado.

Como você vê, por qualquer ângulo, o Novo Coronavírus é um tema aberto a boas reflexões. Acho que a equipe dos vestibulares deve estar pensando nisso…

Riscos da comunicação desalinhada no atendimento ao consumidor

5.March. 2020
por Claudia Atas

interface-da-empresaA excelência de um SAC baseia-se num tripé: equipe bem treinada, organização funcional e timing adequado ao ciclo atendimento-busca de informações-resposta ao consumidor.  Contudo, ainda falta um fator primordial: a excelência no nível de comunicação, capaz de encantar o cliente.

Em outras palavras, sem planejar e aferir regularmente a comunicação com seu público interno e externo, o SAC tenderá a perder coesão, falhar e comprometer a credibilidade da organização. Exemplifico com um caso real.

Duas semanas após comprar um fogão, uma consumidora procurou o SAC da marca, famosa no Brasil e internacionalmente. Seu problema: queria instruções para retirar e recolocar as prateleiras do forno. Estranho? Prosaico? Não. Modelos atuais de fogão transformaram em desafio o que era um tira-e-põe simples e rápido.

Antes de recorrer ao SAC, nossa protagonista tentara a operação de duas maneiras:

1) Pondo as mãos à obra. Fracasso acachapante – a prateleira superior resistiu e não saiu; a inferior deslizou bonito, assim como as suas hastes de sustentação, encaixadas nas paredes do fogão. Mas… a volta foi um pesadelo: por alguma razão que não deu para captar, as hastes caíam do encaixe. Sem hastes, final da operação prateleira.

2) Consultando o manual (físico e virtual). Procurou pelo item “limpeza de forno” – que não existia – e outros, afinados com a ideia de prateleira. Nenhuma linha. Foi quando decidiu escrever para o SAC da empresa.

Prometeram retorno assim que recebessem um parecer da Engenharia. E a resposta que a consumidora recebeu merece a análise que justifica o título deste artigo.

Obviedade, questão subjetiva.

A Engenharia disse esta pérola ao SAC:

As prateleiras saem por completo do produto. Se atentar ao retirar a prateleira retirar também as guias da prateleira.

…e o SAC direcionou essa “instrução” à consumidora, assumindo o papel de garoto de recado. Apenas duas frases (em bom português) foram acrescentadas pelo serviço de atendimento: a introdução e o fecho da mensagem.

Essa atitude expõe três erros graves do SAC: aceitar uma redação ininteligível como núcleo da resposta ao consumidor e repassá-la como solução, ou seja, endossando uma solução descabida: pede-se ao cliente que memorize posições e movimentos em um sentido para repeti-los em sentido inverso.

Qual é o verdadeiro significado dessa mensagem?

Se for difícil entender a instrução, volte a nos procurar ou pague uma visita técnica.

Se entender, tente acertar.

Se não acertar, chame a assistência autorizada.

É o que podemos fazer.

Experiências que desencantam e ensinam

O lado positivo desse caso é o alerta que se pode dar a administradores de SACs e redatores que interagem com o público. Aqui vão, portanto, algumas observações sobre falhas e soluções:

1 – FALSA OBVIEDADE

é como chamo a suposição “se é óbvio para mim, é óbvio para você”. Nenhum relacionamento social deveria partir desse pressuposto. Nos SACs, ignorar a perspectiva do cliente é arrogância. No caso das prateleiras, que vimos acima, a comunicação ficaria naturalmente clara se técnico e atendente tivessem se colocado no lugar do leigo.

2 – LEITURA ACRÍTICA

Aqui, a expressão significa que a leitura não focou as entrelinhas, foi rotineira, não houve interpretação do as palavras dizem de fato. “Como manusear prateleiras?” quer dizer “o que vocês podem fazer por mim?”. Atendentes solidários reagem, por exemplo, com um “posso fazer mais por você: vou lhe enviar um passo-a-passo”.

3 – SAC COADJUVANTE

Engenheiros não são especialistas em comunicação e relacionamento com o cliente. No episódio das prateleiras, o SAC privilegiou uma resposta pífia, perdendo a oportunidade de servir melhor o consumidor, e atuou como coadjuvante, em desacordo com o protagonismo que os SACs assumem como interface empresa .

4- MANUAL SUBVALORIZADO

Muitos problemas tratados pelo serviço de atendimento podem gerar modelos de respostas e verbetes para os manuais dos produtos. Novo ou recorrente, um caso geralmente representa centenas de outros que não chegaram ao SAC.

          Nota: não se deve subestimar o valor do manual pelo seu baixo índice de  consulta. Consumidores arredios lembram-se dele quando o acesso à empresa está difícil e a urgência é capital. Também há quem busque solução sem custo. Para o SAC, um manual atualizado oferece respostas prontas e efetivas para vários tipos de solicitação.

5- CANAIS DESCONECTADOS

A rede de assistência técnica autorizada constitui importante canal auxiliar do marketing da marca e, portanto, deveria ser treinada para antecipar problemas, como o das prateleiras. Como instaladora oficial dos eletrodomésticos da marca, a rede demonstraria ao consumidor manuseios – como o das prateleiras – integraria aos esforços da empresa para prevenir problemas. Todos ganhariam tempo – assistência técnica, SAC e clientes.

Vale refletir

Vários pontos desta análise podem beneficiar comunicadores em geral. Mais que os erros do episódio prateleiras, alguns princípios e estratégias podem ser relembrados e retomados. Caso do consagrado pressuposto ouvir e entender de fato o cliente e a sua demanda.

Aperfeiçoar a comunicação, em qualquer tipo de atividade, não é difícil. É questão de vontade de aprender e disposição para corrigir.

__________________________________________________________________________________________________________

Recrutadores de talentos, neologismos e anúncios de vagas

15.January. 2020
por Claudia Atas

neologismo-abreQuase sempre é um mistério identificar autores de neologismos e entender por que alguns vingam – como descolado, descolada – enquanto outros bombam e desaparecem.

Gosto dessas invencionices porque, além de sacudir e enriquecer o idioma, elas sintetizam admiravelmente fatos, sentimentos e intenções.

A maioria das gírias e expressões da moda, contudo, sucumbe seja por perderem o sentido quando desligadas do contexto que lhes deu significado; seja pelo uso abusivo que as leva ao lugar comum. É nessa fase que o redator deve se cuidar.

Primeiro, porque clichês empobrecem o texto. Segundo (e por consequência), pela ingenuidade de se pretender criativo empregando neologismos a caminho da banalização – caso de (se) “reinventar”; (se) “empoderar”; “inspirar” (a equipe); uma “pegada” (e mil adjetivos atrás); pensar, sair fora da caixa; uma casa, agência e até uma tostada “para chamar de sua”…

O marketing do trabalho

Recursos Humanos está entre as áreas sintonizadas com a nova linguagem dos negócios. Anúncios de vagas e descrições de competências agora são bastante informais – tanto as de tom “soft” quanto as de tom “hard”.

São textos tecnicamente bons, embora muitos recrutadores de talentos abusem da retórica, alguns beirem a hipocrisia e outros se aproximem do realismo fantástico.

Esta descrição das competências desejadas para um candidato ideal une vários estilos:

lugar-comum-exageros-motivacionais

Sensíveis ao novo padrão de currículos e perfis, profissionais em busca de emprego, ou zelosos de suas posições, respondem à altura: “Não sou movida a posição nem a poder. Eu sou movida a fazer. Eu gosto de fazer, de entregar (…).

Outros estilos fazem sucesso entre os recrutadores, embora já caminhem para o desgaste:

O desafiador:

Se você é focado em superar seus próprios limites, venha fazer parte do nosso time.

O realista-fantástico:

Se você é daqueles que adoram trabalhar com compromisso e dedicação e promovem alegria e diversão (venha integrar a nossa equipe)

O hiperbólico soft:

“Em apenas seis anos, (nos tornamos) o maior banco digital do ocidente. E o segredo? A obsessão pela experiência do cliente (…) e um atendimento excepcional.”

O hiperbólico hard:

Pensar como dono é ter uma responsabilidade maior pelas suas entregas, é ter um comprometimento acima da média, entendendo que, ao entregar excelência máxima, o crescimento é garantido”.

Neologismos são manifestações curiosas, inteligentes, criativas e humoradas. São qualidades suficientes para tentar a todos nós, redatores, especialmente. Afinal, essa é a graça, essa é a dinâmica da língua.

Mas, vale um conselho para qualquer tipo de redator: quando for importante expressar a sua competência na comunicação escrita, resista ao que já vem pronto; se esforce para criar um modo original, de dizer o que pensa (ou que seu cliente quer que se pense); busque palavras que se transmitam exatamente o que você (ou seu cliente) deseja comunicar.

Se você estiver num mau dia e sucumbir a um neologismo da moda, que, ao menos, seja uma expressão a meia distância da banalização.

Conduta parlamentar – como Weber ajuda a analisar os representantes do povo.

15.November. 2019
por Claudia Atas
"Desculpem as caneladas. Não nasci para ser presidente, nasci para ser militar". Presidente Jair Bolsonaro Fonte: www.aloalobahia.com

“Desculpem as caneladas. Não nasci para ser presidente, nasci para ser militar.”: declaração do chefe de Estado brasileiro Jair Bolsonaro, em abril passado. Foto: www.aloalobahia.com

(série Redação)

Neste 15 de novembro, ressurge a questão – o que é República?. Desta vez, levantada por ninguém menos que Jair Bolsonaro, que confessa, abertamente, não ter nascido para ser presidente da República, condição que mais de 50 milhões de eleitores lhe creditaram.

Os brasileiros não suspeitavam que imporiam tal sacrifício àquele que não pôde ser major e acabou presidente. Nem ao seu ministro da Educação – logo um ministro da Educação! – que definiu a Proclamação da República como um golpe republicano, uma infâmia contra o imperador  Dom Pedro II.

Estivesse Weintraub no campo de Santana, naquele 15 de novembro de 1889, certamente protestaria aos berros contra o nascimento da nossa República, um pouco torta, é verdade; economicamente indecente, com frequência; politicamente mal-amada pelos que mais lhe devem fortuna e Poder, mas, ainda assim, uma República, o sistema cujo protagonista central é o povo.

República e Democracia são irmãs siamesas no certo e no errado, diferenciadas por conceitos ambíguos. República confunde-se “às vezes com democracia, às vezes com liberalismo, às vezes tomado simplesmente no seu sentido etimológico de ‘bem comum’. Hoje (…) refere-se, regra geral, a um sistema de governo cujo poder emana do povo, ao invés de outra origem, como a hereditariedade ou o direito divino. Ou seja, é a designação do regime que se opõe à monarquia”, como registra o wikipedia.org, repetidor de visões políticas projetadas por Cícero, em Roma, e, depois dele, por muitos outros filósofos.

Neste artigo, porém, o foco é outro – aproveitar a efeméride para introduzir (provavelmente), ao leitorado deste site (estudantes do ensino médio), dois princípios que influenciaram a política do século XX no mundo ocidental: as éticas da Convicção e da Responsabilidade . Na atualidade, um meio desapaixonado de julgar a atuação dos nossos políticos.

Vocação política

Em uma conferência realizada na Universidade de Munique (janeiro de 1919), o sociólogo Max Weber apresentou conceitos que ainda hoje se mantêm como referência nas áreas da Sociologia, Ciências Políticas e Direito. No ano seguinte, o conteúdo dessa palestra foi publicado sob o título A Política como Vocação.

Os pontos de maior destaque da obra constituem a concepção de Estado, a formulação da Ética da Convicção e da Ética da Responsabilidade – a meu ver, um meio desapaixonado de analisar a atividade dos governantes – e a distinção entre o político profissional e o político por vocação.

O político profissional aparece no processo de formação do Estado Moderno, mostra  Weber, distinguindo-se do político por vocação: o profissional vive da política porque dela depende para sua sobrevivência, enquanto o vocacionado, sendo financeiramente independente, vive para a política.

A dependência financeira do político que vive da política tenderia a prejudicar sua capacidade do tratar racionalmente (com isenção, imparcialidade) as questões relativas ao seu trabalho no plano político. No caso do político que possui rendimentos próprios, a tendência seria buscar prestígio, honra, poder e, não, recompensas financeiras por meio da profissão política.

Evidentemente, tal explicação não deve ser tomada ao pé da letra. O próprio Weber antecipa que esses dois tipos de atuação não se excluem. São encontrados no mesmo político, predominando um ou outro, conforme o problema, o dilema, as circunstâncias.

Para o político vocacionado (tipo ideal), Weber atribuiu três qualidades:

– A paixão, entendida como dedicação a uma causa (ideais, utopias) de forma responsável;

– O senso de responsabilidade como guia de ação;

– E o senso de proporções, qual seja, a capacidade de deixar fluir as coisas, de se distanciar dos problemas para  analisá-los com gravidade e sobriedade.

Essa brevíssima visão de político vocacionado e seus atributos introduzem os princípios que Weber estabeleceu para a conduta do político: a Ética da Convicção, que reúne as normas e valores que devem orientar o comportamento do político na esfera privada, e a Ética da Responsabilidade, conjunto de normas e valores que devem orientar o comportamento do político na esfera pública.

Em outras palavras, na esfera privada o governante age independentemente dos resultados a serem alcançados; na esfera pública, o objetivo é o bem-estar geral – embora as ações do político possam parecer erradas na perspectiva da moral individual.

A república de Bolsonaro

Difícil não associar as considerações de Weber ao quadro político atual, quando se embaralham com frequência comportamentos pessoais e oficiais; a figura do homem e a do chefe de Estado; a esfera privada com a pública. Quem melhor que a família Bolsonaro – presidente da República e três filhos com mandatos políticos – para ilustrar essas transgressões?

frases-de-j-bolsonaroOnde achar exemplo mais espantoso que a frequência e a sem-cerimônia com que esses quatro políticos agem na esfera pública? Conduta mais imprópria que o tratamento doméstico e raso para questões que afetam 210 milhões de brasileiros?

A insensata alternância de Jair com o Presidente Bolsonaro, refletida na linguagem e na postura, especialmente sua adesão (como homem e chefe de Estado) ao crime de tortura é uma dolorosa oposição ao que Weber estabeleceu como conduta ética, digna e voltada do político em prol do bem-comum.

O paradoxo do encarceramento em massa

2.October. 2019
por Claudia Atas

Vinte e sete anos depois do massacre que deixou 111 mortos no Carandiru, o sistema prisional brasileiro continua a superlotar celas, a torturar, a trancafiar suspeitos não condenados e a não investir em outras formas de fazer justiça.

(série Redação)

 

Lugar de bandido é na prisão. Amontoar presos em condições desumanas é inconstitucional. Direitos humanos é coisa da esquerda. Cadeia transforma infrator em facínora. Maioridade penal tem de baixar para 16 anos: nessa idade, quem mata sabe o que faz. Um terço dos presos aguarda julgamento. Bando de vagabundos. O Estado não dá condições para o preso trabalhar e estudar.

Esse punhado de frases resume a polarização dos brasileiros sobre o encarceramento no Brasil. Ou elas refletem as duas correntes predominantes entre os atores do poder judiciário? Enquanto uma propugna o encarceramento em massa para reduzir a criminalidade, a outra defende o desencarceramento para atender os direitos constitucionais, reduzir a superlotação e evitar a formação de milícias dentro da cadeia.

Cela na Casa de Prisão Provisória de Paraíso do Tocantins . Fonte: Defensoria/Divulgação

Cela na Casa de Prisão Provisória de Paraíso do Tocantins . Fonte: Defensoria/Divulgação

O assunto é complexo. No Brasil, estão privadas da liberdade 812 mil pessoas – a terceira maior população carcerária do mundo democrático, que deve crescer 8,3% ao ano.

Nosso censo agrega outras informações vexatórias: 41,5% dos encarcerados aguardam julgamento – ou seja, não deveriam estar trancafiados, muito menos serem jogados em prisões insalubres dominadas por facções criminosas de altíssima periculosidade. Nosso sistema prisional “viola de forma generalizada os direitos dos presos em relação à dignidade e integridade psíquica e física”, admite o STF  – Supremo Tribunal Federal.

Outra das distorções do sistema é o perfil do encarcerado, que reflete um preconceito generalizado entre nós: a maioria é jovem, pobre e negra. “A Lei da República reza que somos todos iguais perante a lei. Mas um emaranhado de normas entalhadas no Código de Processo Penal e na Lei de Execução Penal distingue categorias de privilegiados com direito à ‘prisão especial’ durante o período de prisão cautelar”, lembra o sociólogo e jornalista Demétrio Magnoli (Folha de S.Paulo, 10/8/2019, pg. A10)

“Além disso, juízes cuidam de fixar distinções singulares, infralegais, que se destinam a segregar ‘pessoas importantes’ dos ‘demais presos. Os ‘homens bons’ reconhecem seus iguais: a eles, (…) a cela especial; aos Silva (os homens comuns), o inferno, ‘seu habitar natural’ (apud Jair Bolsonaro).“

Paradoxo 

Prender e punir é necessário. Mas o encarceramento desconectado de causas e circunstâncias é incapaz de frear o aumento da criminalidade. O sociólogo Tiago Brandão Peres critica a “equivocada orientação para o encarceramento” e a “política genocida e ineficaz de combate às drogas no Brasil”. Adverte que

“direcionar investimentos para ampliação de infraestrutura e tecnologia penitenciária, construção de novas unidades e fortalecimento do combate às facções, sem uma reorientação na política antidrogas e atuação no combate às desigualdades sociais, significa permitir a continuidade de um sistema perverso que compromete toda uma geração de jovens, negros e pobres no Brasil”.

O advogado criminalista Antônio Claudio Mariz de Oliveira chama a atenção para o paradoxo criado pelos “apologistas da prisão como única resposta ao crime”. Desconsiderar atenuantes como gravidade do delito, suas causas e condições pessoais do criminoso, é, para ele, conduta que aumenta os índices de criminalidade:

“Quando se prende, se retira das ruas o acusado, mas não o crime. Este permanece porque as suas causas não foram removidas.”

Outra face da superlotação, na qual também pesam os presos primários, é seu custo explosivo para as finanças do país. Segundo o TCU – Tribunal de Contas da União, o Brasil precisaria investir R$ 97 bilhões durante 18 anos para zerar o déficit de 358.663 vagas em nosso sistema prisional, construindo e reformando estabelecimentos penais para entregá-los em “pleno funcionamento”. Ou seja, instalações adequadas, inteligência tecnológica e gestão eficiente.

Segurança cidadã 

Dos catorze candidatos à Presidência da República, em 2018, apenas dois incluíram, em seus programas de governo, medidas afinadas com a “segurança com cidadania”:  Guilherme Boulos (PSOL) prometia executar a Agenda Nacional pelo Desencarceramento, e Fernando Haddad (PT) planejava adotar um sistema de penas alternativas e uma política de empregos para presos condenados por crimes não violentos, entre outras medidas.

O candidato Jair Bolsonaro propôs formar uma equipe de profissionais “incorruptíveis” para atuar em estabelecimentos penais; ampliar o sistema prisional para melhorar as condições de vida dos detentos; e criar mais oportunidades para que trabalhassem dentro dos presídios.

Presidente, Bolsonaro reafirma sua obsessiva defesa dos “homens de bem” contra “os bandidos” e promove o Projeto de Lei Anticrime (PL 882/19) do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro.

No pacote Anticrime, o ex-juiz da Lava Jato propõe alterar 14 leis com o intuito de “estabelecer medidas contra a corrupção, o crime organizado e os crimes praticados com grave violência à pessoa”. Entre as alterações, figurava o famoso o excludente de ilicitude do parágrafo introduzido por Moro no artigo 23 do Código Penal: O juiz poderá reduzir a pena até a metade ou deixar de aplicá-la se o excesso decorrer de escusável medo, surpresa ou violenta emoção.

A nova redação logo ganhou o apelido de “licença para matar”, já que se anunciava como garantia de impunidade aos excessos cometidos por policiais. Felizmente, foi rejeitada em setembro passado pelo grupo de trabalho que analisa a matéria na Câmara dos Deputados.

Moro também trabalha em outra vertente anticrime – o Programa Nacional de Apoio à Segurança Pública. Se aprovado, permitirá que doações ao Fundo Nacional de Segurança Pública possam ser deduzidas do imposto de renda de pessoas físicas e jurídicas.

O dinheiro arrecadado pelo programa já tem destino certo: compra de armas e equipamentos para as polícias Civil e Militar dos estados e apoio à criação da Guarda Nacional, que substituiria a Força Nacional de Segurança Pública.

Imperativo de produtividade

Enquanto as ações anticrime deslancham, os movimentos anti-encarceramento tentam ser ouvidos pela sociedade. A Agenda Nacional pelo Desencarceramento reuniu mais de quarenta organizações, entre as quais a Pastoral Carcerária (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Lutar contra investimentos em construção de unidades prisionais, limitar as prisões cautelares, reduzir as penas e descriminalizar condutas, como as do combate ao tráfico de drogas, são alguns dos seus objetivos.

A opinião pública, contudo, desconhece o alcance do desencarceramento, associando essa política ao despejo de bandidos nas ruas. Assim, o Estado continua caçando criminosos e deixando na rua a causa dos ilícitos, como adverte Mariz.

Sem reforma estrutural e políticas públicas planejadas, é certo, continuaremos a experimentar, como reconheceu o STF, um estado de coisas inconstitucional em relação ao sistema prisional brasileiro.(*) Ou, como explica o procurador e advogado público de Rondonópolis (MT), Fabio Marques,

“um quadro de violação generalizada e sistêmica de direitos fundamentais (…), de modo que apenas transformações estruturais da atuação do Poder Público e a atuação de uma pluralidade de autoridades podem modificar a situação inconstitucional”.

Impotentes, os atores do sistema prisional trabalham no contexto do estado de coisas inconstitucional.

Promotores, defensores públicos e juízes atuam de modo “protocolar” por sobrecarga de processos e insuficiência de quadros, situação que os induz a uma “particular forma de racionalidade que avalia o desempenho da justiça em termos meramente quantitativos” – o imperativo de produtividade da Justiça.

Paralelamente a essas dificuldades, ou decorrência delas, registra-se o lamentável distanciamento entre os agentes e a realidade da prisão. (**).

A crise “sem precedentes” na área prisional não será resolvida mediante “políticas simplistas que apostem exclusivamente no incremento do número de vagas e na intensificação das medidas repressivas no ambiente prisional disciplinar ou em políticas de desencarceramento em massa, calcadas em falsas premissas criadas e alimentadas por ideologias dos gestores e operadores do Direito, que ignoram critérios técnicos e individualizadores”. (***)

Felizmente, há muitas possibilidades entre os dois extremos criticados por Caruncho e Glitz, autores do diagnóstico acima. Rafael Godoi lembra que

milhares de presos podem ser libertados “sem alterar uma linha da legislação penal”: suspeitos de crimes não violentos, como o furto e o tráfico; condenados que já cumpriram os lapsos de progressão de pena para regime aberto ou para liberdade condicional; presas grávidas e mães de crianças pequenas; presos e presas com mais de sessenta anos; também presos diagnosticados com uma alguma enfermidade mental que deveriam ser encaminhados para outro tipo de tratamento, etc.”

Há outros modos de se fazer justiça. Desde que haja investimentos e vontade política de enfrentar preconceitos e que a sociedade se engaje nessa causa. Godoi aponta o caminho da justiça restaurativa, que “embora não seja a solução para todos os males, tem sido um campo de experimentação fundamental para desestabilizar nossos hábitos de pensamento que vinculam automaticamente punição e prisão.

Precisamos aceitar o diálogo e a tolerância; protestar contra a ausência de políticas públicas e as soluções demagógicas, seja para o encarceramento seja para o desencarceramento: a brutal realidade das prisões brasileiras precisa ser extinta. A sociedade brasileira precisa se conscientizar de que a questão afeta a todos e precisa, portanto, do engajamento de todos.

Neste 2 de outubro, o massacre do Carandiru se mantém como símbolo do Estado que mata, da brutalidade como solução fácil para problemas complexos.

Lamentavelmente, o editorial do site Brasil de Fato (2015) permanece atual:

“O Brasil aceitou, vinte e cinco anos depois, a institucionalização da violência e a popularização do conceito de que ‘bandido bom é bandido morto’ (…). Mais de duas décadas depois, as chacinas avançaram e os chefes do Executivo perderam o receio de defender publicamente a letalidade policial”.

________________________________________

(*) Tema tratado durante análise da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 347.
(**) Rafael Godoi: Desencarceramento é o caminho para resolver a crise nas prisões,
    defende sociólogo" - Huffpost Brasil (www.huffpostbrasil.com.br)
(***) Promotores Alexey Choi Caruncho e André Tiago Pasternak Glitz
Outras fontes:
Infopen - Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias.
Tiago Brandão Peres, ensaio, Nexo Jornal (nexojornal.com.br).
Antônio Cláudio Mariz de Oliveira - Desde que haja punição pode haver crime -O Estado de S.Paulo, 
22/02/2019.
Tribunal de Contas da União - Superlotadas, prisões no Brasil gastam R$ 15,8 bilhões ao ano, 
diz TCU- 17/7/2019,- in https://noticias.uol.com.br/

Artigos temáticos, uma nova perspectiva para leitores de Clareza & Coerência

17.September. 2019
por Claudia Atas

Para quem enfrenta provas de redação ou a necessidade profissional de escrever bem, leitura e prática são fundamentais. Não de vez em quando – regularmente.

Em nove anos de atividades (outubro de 2010 até hoje), Clareza & Coerência publicou muitas análises, testes e exercícios sobre gramática, estilística e ética. Agora, traz um novo tipo de contribuição: artigos sobre questões sociais. A ideia é provocar reflexão para os meus leitores, e, ainda, instrumentalizar o grupo que enfrenta provas de redação.

Expor fatos, debater problemas, assumir um ponto de vista são habilidades  requeridas, tipicamente, por exames como Enem, vestibulares para o ensino superior e, muitas vezes, processos para selecionar candidatos a empregos ou projetos. Portanto, para obter uma boa nota, é preciso conhecer e/ou atualizar opiniões, dados e informações sobre os temas sociais mais discutidos pela sociedade.

As estatísticas mostram que a metade dos candidatos apresenta baixo desempenho nessa prova: segundo o Inep – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, mais de um milhão dos 4 milhões de redações do Enem 2018 chegou a 400 pontos (o máximo são 1000 pontos). A média das notas caiu de 558 pontos (2017) para  523,4  pontos – apenas 55 candidatos alcançaram a nota mil.(*)

Devemos lembrar que esses 4 milhões de provas corrigidas não incluem as redações realizadas no Enem PPL, realizado para pessoas privadas de liberdade (presos encarcerados em sistemas prisionais e menores infratores apreendidos, principalmente, além de candidatos que não puderam realizar as provas).

Essa menção aos encarcerados e a leitura de coluna recente do sociólogo Demétrio Magnoli, na Folha de S.Paulo (A cela de Luiz Inácio —e a dos Silva, 10 de agosto passado) motivaram-me a optar pelo tema Sistema Prisional Brasileiro no primeiro artigo da série. Ele será publicado nos próximos dias.

__________________________________________________________

(*)  Seria injusto não avaliar essa queda em função do tema escolhido pelo Enem em 2018 – Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet. Sabemos que parcela significativa de estudantes brasileiros não tem acesso regular à internet. É provável, portanto, que o desempenho candidatos sem familiaridade com a web apresentado uma dissertação classificada entre regular e ruim, influenciando o crescimento das notas baixas.

 

Próclise, mesóclise, ênclise: o certo cada vez mais rejeitado. 

31.July. 2019
por Claudia Atas
https://www.acheconcursos.com.br/artigo/colocacao-pronominal-proclise-mesoclise-e-enclise

https://www.acheconcursos.com.br/artigo/colocacao-pronominal-proclise-mesoclise-e-enclise

Quem passou pelo ensino fundamental já sabe que usar corretamente os pronomes oblíquos átonos dá trabalho. Pior, cria um dilema: seguir ou ignorar a gramática?

O correto fica meio posudo, pernóstico: “Quem a chamou?” (próclise); “Chamei-a” (ênclise); “Chamá-la-ei” (mesóclise). O incorreto flui, é mais articulável, mais simples de falar e escrever: “Quem chamou ela?”, “Chamei ela”, “Chamarei ela”.

Neste artigo, passo ao largo da mesóclise: raras são as pessoas corajosas ou conservadoras o suficiente para enfrentar o espanto (e o riso) de quem ouve “chamá-lo-ei”. Restringirei a análise à próclise e à ênclise.

Voltando à questão do dilema, temos, de um lado, as formas coloquiais – “convidar eles”, “elogiar elas”: são mais simples, articuláveis, usadas e aceitas até pelos que dominam a gramática. Mas, constituem erro.

Em contrapartida, as expressões corretas são pomposas e remetem ao tempo de uma sociedade marcantemente dividida entre a elite rica e culta e a população pobre, iletrada porque sem acesso a escolas públicas.

Nesse ambiente, o discurso da elite se afirmava como superior, especialmente porque gramaticalmente correto. Hoje, dominar próclises, mesóclises e ênclises é habilidade relativa. “Quem os convidou?”, “eu as elogiei”, “fá-lo-ei mais tarde” soam mais como literatura de séculos atrás e matéria para vestibulares e concurso.

Como evitar a pompa e o erro crasso

Existe um meio termo, um jeito de evitar esse dilema: trocar a construção da frase. Por exemplo, li em algum lugar:

Ensinem seus filhos a amar as pessoas; não ensinem eles a machucar as pessoas…

Use uma saída para cada ocasião:

– Adotar a forma correta para a linguagem escrita:

Ensinem seus filhos a amar as pessoas; não os ensinem a machucá-las.

– Empregar a forma incorreta na informalidade, na linguagem oral:

Devemos ensinar nossos filhos a amar as pessoas e não a machucar elas (aqui, na forma escrita, o erro é gritante; mas falando, é aceitável).

– Ou buscar socorro na redundância (neste caso, um recurso, não um pecado):

Devemos ensinar nossos filhos a amar as pessoas e não a machucar as pessoas. Ou Devemos ensinar nossos filhos a amar e não a odiar as pessoas.

Bem razoável, não?

Erro disfarçado

Na Folha de S.Paulo, vi a opção que jamais me agradou como tentativa de solução:

Não é nada grave (…) O avaliamos há duas semanas e ele apresenta um quadro de crescente melhora.

Duvido que o entrevistado tenha dito “O avaliamos”. Mesmo que a entrevista tenha ocorrido por e-mail – portanto, em linguagem escrita – a probabilidade é que o médico tenha falado “Avaliamos ele há duas semanas…”

“O avaliamos” (próclise) é um jeito disfarçado de errar com elegância. A regra determina, neste caso, a necessidade de ênclise, porque se trata de início de frase. Então, o correto seria “Avaliamo-lo”. Mas…esse é o tipo de forma que não dá coragem de usar, nem escrevendo, nem falando. Então, melhor seria dizer mudar a construção:

Avaliamos Bolsonaro”, “Avaliamos o presidenteeleito”, “Avaliamos o paciente” e, até (quem diria?) Avaliamos ele

“Avaliamos ele”, como sabemos, é forma incorreta. Mas também sabemos que esse tipo de expressão é muito comum, a ponto de população, compositores (letristas) de canções, poetas e publicitários reforçarem seu uso, reciprocamente. Ou seja, o erro se torna cada vez menos errado, porém, cada vez mais aceito na linguagem oral informal.

Assim como a maioria, eu desobedeço a regra e uso “avaliar ela”, “chamar ele”. Mas só em situações realmente informais. Sei que as regras gramaticais são cobradas em lições de casa, provas para vários níveis de escola e de concursos, públicos e privados.

Portanto, fique esperto: siga as determinações da gramática sempre que você tiver de provar conhecimento.

O trabalho calado e invisível dos pais dos burros.

6.June. 2019
por Claudia Atas
Reproduzido da Folha de S.Paulo de 02 de junho de 2019

Reproduzido do site da Livraria Cultura.

Domingo passado (02 de junho), os dicionaristas foram lembrados por um brasileiro influente – o colunista Hélio Schwartzman, da Folha de S.Paulo. Em poucas linhas, ele  dimensionou o trabalho profícuo, árduo e discreto desses especialistas, que apelidou de “os pais dos burros” – perífrase derivada de outra, “o pai dos burros”, que significa “o dicionário”.

Sempre me incomodou a expressão pai dos burros. A analogia imediata – burro que reproduz novos burros – me parece uma incoerência inexplicável. Também como expressão de humor pelo contraste, não vejo graça.

Ao tentar compreender esse dito consagrado, acabei por criar uma hipótese: a de que pai, entre outros significados, denota a figura paterna que sabe, explica, protege. Mesmo assim, essa construção eu passo.

Schwartzman, nada preocupado com essa expressão, levou-a ao título do seu artigo – por sinal, motivado pela leitura do livro Word by Word: The Secret Life of Dictionaries, de Kory Stamper. E nos oferece bons momentos de informação e reflexão:

A maioria das pessoas recorre ao “pai dos burros” (tal apelido já diz muito) em busca de uma espécie de chancela legal (semântica, ortográfica, ética etc.) para o termo que pretende utilizar. A tarefa do lexicógrafo, porém, é a de registrar e definir os usos mais correntes de uma palavra, incluindo aqueles que ainda não estão inteiramente consolidados e são, portanto, vistos como “errados”, ou, ainda pior, aqueles que são considerados imorais.

Para o público leigo, o processo de produzir um dicionário – colecionar averbações, fixar pronúncia(s), elaborar definições, consultar e descrever a etimologia dos termos – parece monótono e burocrático.

Pode até ser, mas sua íntima ligação com as mudanças sociais gera uma dinâmica linguística de consequências às vezes inesperadas. Schwartzman anotou um exemplo:

Stamper, que é lexicógrafa profissional e durante vários anos atuou como editora-associada da Merriam-Webster, uma das principais casas de publicação de dicionários dos EUA, conta a história da corrente de protestos de religiosos que ela e seus colegas tiveram de enfrentar quando, numa das reedições, modificaram um dos sentidos da palavra “casamento” para comportar a união entre pessoas do mesmo sexo.

Word by Word, segundo o colunista, possui muitos motivos para ser lido:

Além de entreter, nos educa, contribuindo, ainda que apenas marginalmente, para que nos tornemos consulentes de dicionários um pouco mais conscientes.

Clareza, vigilância para sempre.

17.May. 2019
por Claudia Atas

clarezaRedigir com clareza é uma qualidade que se conquista – mas não para sempre. Cada texto a ser escrito deve ser vigiado – sempre.

Aprendemos na escola que a boa redação exige domínio da “pontuação, concordância, coerência, coesão”, e outros “requisitos necessários à objetividade retratada pela mensagem”, explica a professora Vânia Maria do Nascimento Duarte. Também, fomos orientados a reler o texto para apanhar erros e aperfeiçoar ideias.

Revisão é importante, sem dúvida, ainda mais quando se usam recursos que potencializam a percepção das falhas cometidas. Costumo usar dois:

1- colocar-se na posição de leitor, recurso que nos leva mais facilmente a um fundamento da boa comunicação: escrever na perspectiva do público-alvo;

2-ler o texto em voz alta  , neste caso, uma decorrência dos bons resultados que obtive ao gravar vídeos para um curso de oratória.

Com eles, podemos identificar pequenas e grandes falhas, como raciocínio confuso; desvio do foco proposto; informações incompletas ou desnecessárias; excesso de orações subjetivas.

Em resumo: a autovigilância trabalha pela clareza do texto.

Por dentro do placebo

Há duas semanas, a mídia anunciava a entrada em vigor do novo Código de Ética Médica. Os jornalistas selecionaram itens potencialmente interessantes para o público leigo, como a recomendação de nova conduta no uso de placebos. Esclarecê-los foi complicado.

A média dos leitores entende, genericamente, que placebos são substâncias inócuas e estão ligados a pesquisas de drogas. Seria preciso, agora, explicar brevemente a diferença entre placebo de mascaramento e placebo isolado – termos usados em determinada modificação introduzida pelo Código.

Veja estas cinco tentativas de esclarecimento:

1) Estadão, 24/abril, página A14:

A nova versão (do Código) permite que voluntários sejam submetidos a terapias conhecidas como “placebos de mascaramento”. Esse recurso é usado para testar novas drogas e para que pesquisadores não saibam qual grupo está sendo submetido ao uso do produto a ser testado e qual está usando medicamentos já conhecidos da ciência. O código atual (…) não permite o uso desses placebos. “Isso acaba se transformando em um empecilho para os estudos. O que continua proibido é o uso de placebos isolados, a combinação de substâncias que sabidamente não têm efeito terapêutico” (afirmação do entrevistado).

2) Agência Brasil (Empresa Brasileira de Comunicação), 30/4/2019:

… o novo código permite os chamados placebos [substância sem propriedades farmacológicas] de mascaramento, mantendo a vedação ao uso de placebo isolado – quando não é usada nenhuma medicação eficaz.

3) Folha de S.Paulo, 23 e 24 de abril de 2019

O documento também mantém o veto ao uso de placebos de forma isolada, mas abre espaço para uso combinado com outros medicamentos — como em teste de novas drogas em grupos de controle, em que um grupo recebe o novo medicamento e o outro placebo junto com medicamentos atuais.

4) Folha de S.Paulo, 06/5/2019, pag. A2 (editorial):

…manteve-se a proibição do uso de placebo isolado quando existem tratamentos efetivos disponíveis.

5) Revista Época, 28/4/2019:

No âmbito das pesquisas, os chamados placebos de mascaramento estão liberados, ao contrário dos placebos isolados, quando não se usa medicação eficaz.

A meu ver, faltou clareza. A começar pela dúvida: placebo “de mascaramento” é o mesmo que “placebo”? Sem essa distinção, possivelmente muitos leitores podem ter considerado o placebo de mascaramento como um tipo “novo”.

A mídia (pelo menos os veículos que consultei) pecou pela ausência do já rotineiro quadro explicativo. Nem informações complementares foram admitidas no corpo das matérias. E bastaria uma rápida pesquisa em fontes reconhecidamente confiáveis disponíveis na internet.

Numa busca rápida, encontrei no alto da primeira página aberta pelo Google esta definição do Instituto Nacional do Câncer:

Placebo é a formulação sem efeito farmacológico, administrada ao participante do ensaio clínico com a finalidade de mascaramento ou de ser comparador. (…) Uma substância que não contém ingredientes ativos, feito para ter gosto e aparência idêntica da droga real a ser estudada.

Complementarmente, seria útil este trecho do Brasil Escola:

Quando usamos os placebos em experiências, esperamos que o grupo que o utiliza não apresente nenhuma melhora clínica. Já o grupo que está utilizando o medicamento real deve apresentar uma melhora substancial, representando, assim, a eficácia terapêutica de um novo fármaco.

E, por fim, o que seria, exatamente, placebo isolado? Pelo que descobri com  papai Google, é o “placebo puro”.

Resta saber o que seria placebo puro.

E você, o que me diz?